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26 de novembro de 2019

Psicopolítica - o neoliberalismo e as novas técnicas de poder

Hoje, cada clique que damos e cada termo que pesquisamos ficam salvos. Cada passo na rede é observado e registrado. Nossa vida é completamente reproduzida na rede digital. Os nossos hábitos digitais proporcionam uma representação muito mais exata de nosso caráter, e nossa alma, talvez até mais precisa ou mais completa do que a imagem que fazemos de nós mesmos (HAN, 2018, p.85).

Psicopolítica - o neoliberalismo e as novas técnicas de poder reúne 13 capítulos curtos sobre o sistema neoliberal e suas formas de controle exercidas sobre os indivíduos na atualidade. Seu autor, o filósofo e professor alemão de ascendência sul-coreana Byung-Chul Han, alcançou projeção mundial com livros como Sociedade do Cansaço e Sociedade da Transparência. Um dos principais fatores apresentados em Psicopolítica é a cobrança que exercemos sobre nós mesmos a partir de uma falsa liberdade explorada pelo sistema neoliberal. Han discorre sobre como, na sociedade da informação, o capitalismo industrial deu lugar ao neoliberalismo e ao capitalismo financeiro. Nesse contexto, a figura do empreendedor, capitalizada pelo sucesso das startups digitais dos anos 2000, faz com que cada um seja "um trabalhador que explora a si mesmo para a sua própria empresa. Cada um é senhor e servo em uma única pessoa. A luta de classes também se transforma em uma luta interior consigo mesmo" (HAN, 2018, p.14, grifo do autor). Nesse sistema de desempenho, aquele que "falha" e não se enquadra nos padrões passa a se envergonhar, a questionar a si mesmo e não ao sistema no qual está inserido. Em regimes anteriores, no qual há a figura do patrão, existe a distinção entre explorador e explorado que permite a organização por parte dos explorados em busca de melhores condições. Dentro do esquema individualista neoliberal, cada um é responsável por si e, dessa forma, a resistência coletiva ao sistema é minada.

Enquanto a biopolítica tratava do poder sobre o corpo, a psicopolítica refere-se à exploração da psique. Se o primeiro baseava-se no poder disciplinar, no medo, o segundo utiliza a positividade, nos estimula a continuar a produzir. O que Han chama de "capitalismo da emoção" é um regime que busca o lucro acima dos limites racionais e para isso explora a noção de liberdade. "Ser livre significa deixar as emoções correrem livres" (HAN, 2018, p65). Consequentemente, consumir sem pensar, apenas sentir. Quando se deve fazer algo, como uma obrigação, as regras e limites são mais claros. Ao se trocar o dever por poder, essas possibilidades são ilimitadas e resultam em uma situação paradoxal de coerção. Ser livre deveria justamente representar a ausência de coerções, mas não ao ser explorada dentro do sistema socioeconômico neoliberal:
Doenças psíquicas, como depressão ou burnout são expressões de uma profunda crise da liberdade: são sintomas patológicos de que hoje ela se transforma muitas vezes em coerção. O sujeito do desempenho, que se julga livre, é na realidade um servo: é um servo absoluto, na medida em que, sem um senhor, explora voluntariamente a si mesmo (HAN, 2018, p.10, grifo do autor).

As mídias sociais exercem papel importante para a manutenção do sistema criticado por Han. Alimentamos, por vontade própria, redes que monitoram nosso desempenho, resultando em vigilância invisível e onipresente. O constante monitoramento coletivo e a busca permanente por otimização pessoal são autoexplorações destrutivas que resultam em colapsos mentais, de acordo com o autor. A febre do coaching, cursos de desenvolvimento pessoal e treinamentos de inteligência emocional seriam característicos desse processo. O ser humano é transformado em um produto no qual seu "aprimoramento" não tem limites (e cuja eventual ineficácia é de responsabilidade do próprio indivíduo). Com a crescente ausência de jornadas de trabalho definidas, vida profissional e pessoal se misturam, tendo a busca por eficiência e otimização como objetivos. Essa é, conforme Han escreve, uma técnica de dominação e exploração:
A técnica de poder do regime neoliberal assume uma forma sutil. Não se apodera do indivíduo de forma direta. Em vez disso, garante que o indivíduo, por si só, aja sobre si mesmo de forma que reproduza o contexto de dominação dentro de si e o interprete como liberdade. Aqui coincidem a otimização de si e a submissão, a liberdade e a exploração (HAN, 2018, p.44).

A leitura de Han é válida para se tentar entender a sociedade contemporânea, na qual relações de trabalho como as dos nômades digitais e do trabalho remoto ainda são relativamente novidades. Aplicado ao contexto da comunicação e das indústrias criativas, é importante para se pensar sobre o papel dos profissionais atuantes nessa áreas: de que forma suas ações contribuem ou não para o consumo irracional, por exemplo. O que Han escreve diz muito sobre a geração millenial. Nos acreditamos livres, empresários donos dos nossos futuros cheios de possibilidades. Trabalhamos continuamente, mesmo que para nós mesmos e de qualquer lugar,  enquanto nos tornamos carrascos de nós mesmos, sem perceber, e divulgamos nas redes para que todos vejam (e curtam).

HAN, Byung-Chul. Psicopolítica - o neoliberalismo e as novas técnicas de poder / Byung-Chul Han ; [tradução Maurício Liesen] . --1. edi. -- Belo Horizonte : Editora Âyiné, 2018.

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