8 de abril de 2019

Sobre listas de melhores e o vício em novidades

Neofilia é a atração que sentimos pelo novo, pelo desconhecido. É relacionado ao instinto e, muito tempo atrás, uma questão de sobrevivência, pois era essencial na busca por novos alimentos na natureza e locais que apresentassem melhores condições de sobrevivência. É algo que permeia toda a nossa vida e, segundo alguns autores, ligado também à atração por parceiros sexuais diferentes. E, claro, algo muito utilizado no sistema capitalista para estimular o consumo. Imprensa musical e indústria fonográfica cresceram criando hypes constantes e lucrando a partir disso. É preciso criar novidades para vender cada vez mais. Construir ídolos que estimulem a curiosidade dos consumidores.

Décadas atrás, época em que a distribuição musical era mais difícil, era normal visualizar o consumidor em dois extremos: o de receptor de novidades via canais de marketing da indústria e mídias (rádio, tv, jornalismo musical, anúncios) ou de consumidor de obras já estabelecidas e que se enquadravam nos esquemas de distribuição da época. Ao acessar vários sites/blogs em busca de listas e pesquisar seus acervos, é triste perceber como a grande maioria está pautada somente nos lançamentos. A novidade como um valor em si, mais importante do que a análise de determinada obra. Solte três parágrafos clichês e um vídeo e parta pra próxima publicação. Queremos novidade. O artista que não tem seu trabalho publicado nesses sites nos meses seguintes ao lançamento vê sua obra se afundar num fosso digital. Em termos de visibilidade nos veículos online, depois da virada do ano as chances de destaque de um lançamento do ano que termina são mínimas. Parte-se para a criação de mais novidades. E assim caminha a indústria, com incontáveis obras interessantes se perdendo nesse processo. Nesse sistema, às vezes os próprios artistas sentem-se desestimulados em continuar a divulgação de um trabalho "ultrapassado", mesmo que lançado há alguns meses, e entram no processo de criação de novas obras que atendam ao mercado sedento por lançamentos de vida curta.


A ironia é que nunca antes na história deste país (e do mundo) foi tão fácil ter acesso à música, seja ela contemporânea ou de outras épocas. Em 2016, percebi a grande dificuldade que tive em fazer minha lista de melhores discos do ano (coisa que odeio) simplesmente porque não sabia em que ano os discos que mais ouvi em 2015 foram lançados. Só aí percebi que não me pautava pelo novo (ui, diferentão), mas de acordo com o tipo de som que queria ouvir ou pelas indicações apresentadas diariamente pelos sistemas de recomendação do Spotify ou do Deezer (uma das principais formas de descobrir novos artistas, pra mim, é olhar os "artistas relacionados" ou pesquisar playlists de países, cidades ou subgêneros específicos). 

Esse é um dos problemas das listas de melhores do ano. Elas fazem um recorte limitado da criação dentro de determinado período e é essencial ter isso em mente. Uma lista de melhores do ano, por si só, diz mais sobre quem a criou do que sobre os períodos, objetos e contextos retratados. É baseada nas experiências e limitações de seu(s) autor(es). Uma lista é influenciada pela situação econômica, gênero e raça de quem a cria. No fim, as listas que pautam o cenário musical brasileiro são basicamente criações de homens brancos de classe média/alta do sudeste. Em um mundo de enorme volume de informações e novidades constantes, a hipervalorização das listas cria a sensação de que toda a produção não selecionada para essas listas está jogada ao marasmo. 

Qual o tempo de vida de um disco? Depois dos primeiros meses seguintes ao lançamento, uma última chance de espaço na mídia é figurar em uma lista de melhores do ano. Passado o reveillon, é quase como se a vida útil daquela obra estivesse próxima do fim (em termos de espaço de divulgação). Não só entre jornalistas, mas também entre produtores de shows e festivais. "Seu disco tem mais de um ano? Precisa de algo novo pra tocar". Isso faria sentido no caso de um artista que já tocou em determinado festival ou cidade. Para aqueles ainda inéditos nesses cenários, não há o menor sentido nessa exigência senão a simples reprodução da lógica comercial do mercado mainstream.

Um experimento interessante é a Lista das listas, iniciativa do Pena Schmidt junto a parceiros como o Elson, da Sinewave (selo e grupo no Facebook), e o Rafael, do site Hits Perdidos. São analisadas dezenas de listas e contabilizadas as indicações para se identificar os artistas mais recorrentes. Ao menos, capta parte do que foi a visão da "crítica especializada" (e um pouco além) sobre a música brasileira em certo ano (a ideia de zeitgeist cabe aqui). Um (enorme) ponto negativo, no entanto, é a credibilidade dessas listas. Em 2018, por exemplo, a Lista das listas foi construída a partir de 183 listas de melhores do ano, mas não há uma publicação identificando quais são elas. Apesar da importância em se ter uma amostra ampla, há o risco de se basear em listas amadoras de pouca relevância, criadas por pessoas sobre as quais não sabemos nada (o que ouviram, o que assistiram ao vivo naquele ano? Como confiar na opinião de alguém que ouvir apenas 20 discos e colocou todos eles na sua lista de melhores?). Outro ponto questionável: em 2017 identificaram as 44 listas com mais de 10 "acertos" entre os 51 artistas mais citados. É complicado. Na busca por mais acessos, os sites foram crescendo cada vez mais suas listas de melhores. Se antes era normal termos 10 ou 20 melhores, agora não é raro listas de 100 nomes. Isso acontece porque os autores sabem que todos os artistas indicados divulgarão suas presenças nessas listas e, com isso, seus sites terão mais audiência. É bem pouco provável que todas essas pessoas tenham escutado com atenção mais de 100 álbuns brasileiros lançados ao longo do ano corrente em que a lista é feita. O que sinto acontecer, de fato, é que listas de veículos mais relevantes pautam as demais listas. Dessa forma, os 10 ou 20 primeiros colocados seriam as efetivas escolhas, os discos que mais tocaram o autor da lista, enquanto nas demais colocações estariam os artistas cuja principal função é completar a lista. Nomes "obrigatórios" que às vezes mal foram ouvidos, mas estão presentes em outras listas e são reproduzidos. Por isso considero importante conhecer quem faz cada lista, ler o que escreveu sobre cada um daqueles álbuns. De outra forma, é difícil ter credibilidade ou confiar que a pessoa sequer realmente ouviu  todos aqueles discos. Mas, deixo claro, digo a partir somente da minha experiência pessoal.

Resumindo, o que quero ressaltar é a importância da visão crítica em relação às listas, considerando os elementos que indiquei, e de se incluir outros critérios de influência ao definir programações de shows e festivais.

5 de abril de 2019

Meu radar de novidades do Spotify comentado superficialmente pra caber em tweets

LOS HERMANOS corre corre
Fiel ao estilo da banda mas com timbres de guitarra mais modernos, o famoso indie vintage. Poderia ser uma (boa) sobre de estúdio da fase do álbum 4.

MARCELO JENECI aí sim
Cada vez mais interessado na pesquisa de sons retrô (como seus shows sozinho no palco mostram), essa nova do Jeneci é um rocksteady lo-fi de sanfona safada e bateria eletrônica minimalista. Ótima novidade.

RAKTA ruína
"Ruína" é como um mantra caótico, a preparação para um transe que invoca tanto o tribal como o industrial. Das melhores bandas ao vivo em atividade no mundo.

ANITTA poquito
A única coisa boa nessa música é que parece que ela está chamando "porquito!", o que me faz imaginar um porquinho doméstico no colo da Anitta e essa é uma imagem bem fofa, convenhamos.

MC DAVI e JÚLIA NOGUEIRA começou a chover
Tirando a letra, o jeito que eles cantam, o violão brega na parte final e os 30 segundos de silêncio total antes de acabar, seria um bom trap.

EMA STONED, MAKOTO KAWABATA e YANTRA act iv
Foge da psicodelia de phaser e isso já é um ótimo sinal. Climática, são quase 9 minutos e é uma das menores do disco, que tem faixas de até 28 minutos.

ARTHUR NOGUEIRA como la cigarra
Em "Eu queria ter uma bomba" o Arthur atualizou bem a música do Cazuza, sem aqueles timbres horrorosos dos anos 80. Nessa, sua versão de Mercedes Sosa é só uma MPB padrão, sem muita identidade.

Apenas uma vinheta percussiva do disco novo do Deafkids. Tanta música boa no disco e o Spotify manda uma vinheta no radar de novidades (algoritmo sempre mostrando que precisa de melhorias).

NSC, REGULA e BISPO vício bandido 1
Única descoberta da lista. Rap alagoano na pegada dos melhores momentos dos Racionais. Não entendi a participação dos rappers portugueses Regula e Bispo, que não cantam na música (publicada no Youtube em 2015 e no Soundcloud em 2013, aparentemente na mesma versão).



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Para registro, entre os internacionais desta semana estavam Ty Segall, Sensible Soccers, The Coathangers, Mdou Moctar, Wednesday Campanella, Gost, Chon, The Budos Band, Big Brave, Windhand, Blitz the Ambassador e Idlewild (este, infelizmente com uma música bem ruim).

25 de março de 2019

Tendências globais de consumo em 2019

Fear of missing out, ou Fomo, é algo bastante presente nas nossas vidas atualmente e influencia nossas relações sociais e a forma como consumimos. Na Wikipedia, está definida como "uma apreensão generalizada de que os outros possam ter experiências gratificantes das quais se está ausente". É aquela ansiedade ao observar as redes sociais e ver que todos estão de divertindo, menos você. Na produção cultural, ambientes instagramáveis e o foco nas "experiências únicas" exploram esse sentimento para atrair público aos eventos. "Você não vai perder isso, não é mesmo?". Em contraponto, uma tendência em ascensão aponta para o caminho oposto. É a Joy of missing out, ou o prazer em estar de fora. Uma desconexão planejada que permite maior tempo de reflexão e liberdade de agir, com menor pressão em relação ao que os outros estão fazendo e mais focada no prazer pessoal. 



Essa é uma das tendências para 2019 apresentada no relatório "10 principais tendências globais de consumo 2019", desenvolvida pelas pesquisadoras Alison Angus e Gina Westbrook na Euromonitor International. Entre todas as tendências, destacam-se no espírito coletivo atual o desejo de autonomia sobre nossas vidas, maior conscientização do consumo, valorização da simplicidade e a vontade de contribuir para a transformação do ambiente ao seu redor, não apenas consumir o que lhe é oferecido. Um processo de tomada de controle e autoafirmação. "Precisamos nos sentir um pouco mais poderosos em meio ao caos", concluem. Em meio às rápidas transformações do mundo, cenários políticos instáveis, ascensão do fascismo e das teorias conspiratórias, ter controle sobre algo em nossas vidas é mais do que tentador e a adoção de estilos de vida mais minimalistas atenderiam a esse propósito. No livro "Todos os reis estão nus", o psicanalista Contardo Calligaris escreve que quanto menos controle temos de diferentes aspectos da nossa vida (social, profissional, amorosa e afins) mais nos preocupamos com fatores administráveis que dariam a sensação de controle. No exemplo de Caligaris, um fator controlável é nosso corpo (através de dietas, cosméticos e exercícios físicos). No contexto das tendências de consumo, a desconexão, a opção por itens básicos mas de status implícito (produtos artesanais que primem pela qualidade e que refletiriam a individualidade de seus consumidores, por exemplo).

As tendências do relatório, afinal, são:

- Agnósticos quanto a idade
Os mais velhos se comportam e querem ser tratados como os mais jovens. À medida que a expectativa de vida aumenta as pessoas continuam ativas por mais tempo e são o grupo historicamente de maior poder aquisitivo.

- De volta ao básico pelo status
As pessoas procuram produtos e experiências autênticas e diferenciadas que permitam que expressem sua individualidade. Produtos com ingredientes naturais, artesanais e que envolvam experiências personalizadas, longe da massificação, fazem parte desse cenário.

- Consumidor consciente
Transparência e ética no mercado. Decisões de compra que levam em conta o impacto negativo que produtos e serviços possam ter no mundo, seja em relação a exploração de trabalhadores e animais ou na poluição, por exemplo.

Eu quero agora!
Busca por serviços e aplicativos que liberem o tempo das pessoas para que se dediquem ao trabalho ou às relações sociais. Resultado do estilo de vida movido pela eficiência. Rappi e Uber Eats são exemplos de apps que se enquadram nesse contexto, além de superapps como o chinês Wechat, que reúne funções diversas como envio de mensagens, serviços bancários, entrega de produtos e jogos, entre outros, tudo dentro do mesmo aplicativo.

Vivendo em solitude
Mudança de paradigma sobre a vida sozinho, por opção. Pessoas mais novas estão adiando ou evitando o casamento para se concentrar em suas carreiras e desenvolvimento pessoal. Novos recursos digitais diminuem a negatividade vinculada a solitude.

- Juntos digitalmente
Ascensão da colaboração digital para outros setores além do lazer e produção de conteúdo. Maior acesso a internet banda larga na África e no Oriente Médio. Mundialmente, ampliação das experiências online em tempo real e troca de grandes arquivos, devido às melhores velocidades de conexão.

- Todos são especialistas
Em vez de serem conquistados pelo marketing, consumidores trocam informações entre si online para obter conselhos sobre produtos e serviços.

- Encontrando meu "jomo"
O medo de ficar de fora, de perder algo, deu lugar à apropriação do tempo. Para proteger seu bem-estar mental e definir limites entre vida pessoal e profissional, as pessoas buscam ser mais seletivas em suas ações e propositivas com seu tempo.

- Posso cuidar de mim mesmo
Corte de intermediários em busca da autosuficiência (mais uma tendência ligada ao controle e autonomia).

- Quero um mundo sem plástico
Maior preocupação ambiental, resultando na disposição de se pagar mais por produtos ou serviços que agridam menos o meio ambiente (algo em crescimento há anos).

11 de março de 2019

Os vídeos da Vox sobre música (e um pouco de K-Pop)

O canal da Vox no Youtube é um dos meus favoritos para passar o tempo. Suas séries Borders, Atlas, Shift Change, e Anatomy of a Trend trazem vídeos curtos sobre temas como a influência da tecnologia no futuro do trabalho ou o motivo da China estar criando ilhas artificiais no oceano entre as Filipinas e o Vietnã. Além de vários vídeos sobre questões culturais, o que destaco aqui é a playlist Earworm, sobre música, e a Explained, de mini-documentários produzidos para o Netflix.

A publicação mais popular da Earworm é a análise de 10 minutos de "Videotape", do Radiohead (que pode parecer um pouco óbvia para quem tiver mais conhecimento teórico sobre música mas não deixa de ser bem interessante). Outras publicações da série mostram como surgiu aquele famoso som de caixa de bateria dos anos 80, super datado; a influência do J Dilla no uso das baterias eletrônicas de uma forma menos mecânica; e como um sample de Stravinsky se tornou hit na música pop.



Já a primeira temporada da Explained tem vídeos de 18 minutos sobre temas como criptomoedas, monogamia e a diferença salarial entre homens e mulheres. Na música, são dois episódios. O primeiro deles, intitulado apenas "Música", aborda o modo como os humanos identificam a música, diferentemente das outras espécies. O outro episódio, "K-pop", analisa o fenômeno sul-coreano, classificado mais como um conceito musical do que propriamente um gênero. Um dos pontos mais interessantes é observar a influência do governo, que passou a investir 1% do PIB nacional na cultura e a vê-la como um produto de exportação importante para divulgar a faceta moderna do país, em contraponto a seu passado de pobreza (enquanto após a Segunda Guerra Mundial a renda dos brasileiros era o dobro da dos sul-coreanos, em 2017 o PIB per capita do Brasil era de U$ 9.821 e o da Coreia do Sul era de U$ 29.742, de acordo com dados do Banco Mundial). Em 2005, a Coreia do Sul era o 29º maior mercado de música no mundo (logo baixo de Portugal, enquanto o Brasil era o 12º maior mercado). Pouco mais de uma década depois, em 2017, a Coreia se tornou 0 6º maior mercado de música, enquanto o Brasil ficou na 9ª colocação (dados da IFPI, a Federação Internacional da Indústria Fonográfica).

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