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4 de outubro de 2019

Regularização de shows em pequenos espaços, economia criativa e outros temas em 4 links

Legislação especial para pequenos espaços de show em Barcelona
Bares, galerias, livrarias e outros espaços que recebem público agora podem realizar eventos para até 150 pessoas em Barcelona, sem precisarem de outra licença. Além do limite de capacidade, outro pré-requisito para se enquadrar na categoria de "espaço de cultura ao vivo" é que o local realize ao menos 40 shows por ano. Exemplo válido para se estudar e replicar no Brasil, já que os pequenos espaços de música ao vivo são essenciais para a cena musical como um todo. Como diz Ada Colau, prefeita de Barcelona, "grandes festivais que nos projetam (Barcelona) para o mundo inteiro não existiriam sem essa base, o que permite que muitos criadores comecem a crescer". Há também uma publicação mais detalhada sobre os espaços de música ao vivo em Barcelona (em catalão).

Economia criativa e a vida no centro de São Paulo
"A região vive agora um momento de ressignificação, com renovação no comércio, mais espaços de cultura e lazer e repovoamento. Essa mudança no perfil está alinhada ao novo espírito do tempo: redução do uso de carro ao mínimo, ocupação e uso de espaços públicos e preferência pelo acesso e busca de experiências, em vez do acúmulo de bens materiais". Trecho de matéria no blog A Vida no Centro, parte do site da Carta Capital. Outra publicação deles que vale a leitura é a sobre a utilização dos espaços públicos.

Massive Attack revisita e repensa o álbum Mezzanine
Entrevista com o Robert Del Naja (que muitos acreditam ser Banksy), um dos fundadores do grupo, sobre a turnê comemorativa do álbum, o trabalho da banda junto ao documentarista Adam Curtis (dos ótimos Hypernormalisation e The Century of Self) e o mercado musical atual.

Bons contatos foram a base para que artistas se tornassem famosos no início do século 20
Ao menos é o que indica pesquisa "Fame as an Illusion of Creativity: Evidence from the Pioneers of Abstract Art" (ou "Fama como uma ilusão de criativade: evidência dos pioneiroas da arte abstrata"), feita por Banerjee Mitali e Paul L. Ingram, da Columbia Business School. "Aqueles que tinham um diversificado círculo de amigos pessoais e de contatos profissionais em diferentes áreas (artistas com uma rede cosmopolita) tinham estatisticamente mais chances de ficarem famosos", diz o estudo.

1 de setembro de 2019

Festival Sonâncias apresenta novos nomes da música independente


Frente a um Brasil que caminha cada vez mais na contramão da autonomia criativa, a nova música brasileira segue tonificando a pluralidade de ideias e sonoridades. Essa diversidade de linguagens e narrativas artísticas fica clara na programação do festival Sonâncias, evento que será realizado em BH no dia 7 de setembro (sábado), a partir das 17h, com artistas de múltiplos gêneros musicais, estados e expressões culturais dos vários “Brasis” que existem. O festival é parte de uma plataforma que também envolve um processo de residência artística, gravações de discos e debates.

Com três palcos, o Sonâncias ocupa o CentoeQuatro (uma antiga fábrica de tecidos na região central da capital mineira), inclusive o cinema, que abriga uma das pistas. Por lá, passarão MC Tha - artista paulista que dialoga com o funk e MPB e teve um dos discos mais comentados do ano com seu trabalho de estreia, Rito de Passá (2019); o pop oitentista da carioca Mahmundi; e Vanguart, provavelmente o maior nome do folk rock no Brasil.



Além de dialogar com a nova cena da música a nível nacional, o festival impulsiona - e, de certa forma, apadrinha - artistas ainda em início de carreira. É o caso dos uberabenses do trio Azul Flamingo, da carioca Bel Baroni e da dupla goiana de dark techno Høstil - atrações que foram tuteladas, respectivamente, pelos times de produtores Pupillo (Gal Costa, Erasmo Carlos, Céu) e Leonardo Marques (Maglore, Transmissor), Maria Beraldo e Thiago Correa/Henrique Matheus (Lô Borges, Transmissor) e Paula Rebellato (Rakta) e Daniel Nunes (Constantina, Lise). Os encontros aconteceram durante o Sonâncias Lab, laboratório de experimentação musical e residências artística que antecedeu o evento e promoveu a gravação dos primeiros EPs dos grupos, compilações que serão lançadas durante os shows desses artistas no festival.

A pluralidade musical ainda é intensificada pelo Babadan Banda de Rua, grupo que começou como bloco e que flui pela estética das bandas de metais e congado, e a Radio Exodus, que traz o encontro entre ritmos jamaicanos e brasileiros. Os shows não são a única forma pela qual o festival busca refletir sobre música. No dia 6 de setembro (sexta-feira), o Sonâncias realiza um bate-papo com personalidades do mercado artístico: a produtora Monique Dardenne (do Women's Music Event), o rapper FBC, a dupla Belle de Melo e Vito (diretores de todos os clipes do grupo Rosa Neon) e a jornalista Laura Damasceno.


As atrações não se limitam ao palco. Durante o festival haverá uma edição da feira Canga - iniciativa que reúne marcas de roupas e acessórios, artistas plásticos e pequenos produtores de BH. Enquanto isso, a alimentação ficará por conta do coletivo de mulheres imigrantes Cio da Terra, responsáveis pela venda de comidas típicas de seus países (Peru, Haiti, Venezuela, entre outros), e as bebidas serão todas locais, com a cerveja Sátira e os drinks Xeque Mate e Gin Gibre.

Debate de abertura do Sonâncias 
6 de setembro, sexta, às 18h
Espaço Corda: Avenida Olegário Maciel, 742, 2⁰ andar, centro, BH
Entrada franca

Festival Sonâncias 
7 de setembro, sábado, a partir das 17h
Centoequatro: Praça Rui Barbosa, 104, centro, BH
Ingressos à venda por R$ 20 (meia) e R$ 40 (inteira) em sympla.com.br/quente

1 de junho de 2019

gin/cana: festival de gin e cachaça com shows da Yma e dj set do Benke Ferraz (Boogarins), entre outros

Gin/Cana é um festival focado no gin e na cachaça produzidos em BH e região metropolitana, com uma abordagem jovem e cultural, que inclui shows e djs da cena independente. Sua primeira edição será realizada durante as tardes dos dias 8 e 9 de junho em BH, no Do Ar (Santa Lúcia) e Godarc (Pampulha), com entrada franca (ingressos devem ser retirados previamente). Será um momento para conhecer produtores locais, como as marcas de gin Zuur e Velvo, e experimentar drinks desenvolvidos pelo bartender Filipe Brasil e sua equipe. A cachaça é uma das bebidas alcoólicas mais representativas do Brasil e tem em Minas Gerais um dos pólos mais significativos dessa produção, tanto em quantidade como em qualidade. O gin, embora também seja uma bebida tradicional, passa por um processo de popularização importante e marca presença em um crescente número de cardápios de drinks em diversos estabelecimentos do Brasil. Dentro deste contexto surge o Gin/Cana, numa tentativa de destacar ao público final o bom momento pelo qual passa nossa produção local.

No dia 8, sábado, a programação é no Do Ar (Rua Amoroso Costa, 32, Santa Lúcia), mistura de restaurante e espaço cultural localizado em uma luxuosa casa projetada pelo arquiteto Éolo Maia. As atrações musicais da tarde serão Benke Ferraz, guitarrista do Boogarins, que fará um dj set; o trio belga-brasileiro Teach Me Tiger; e a banda Mineiros da Lua, que fará um dj set e também uma audição em primeira mão de seu disco de estreia, em uma sala do segundo andar da casa.


No domingo, dia 9, o Gin/Cana será realizado no Godarc (Avenida Guarapari, 89, Santa Amélia), espaço que abrange uma galeria de arte e um estúdio de tatuagem formado somente por mulheres tatuadoras. Nesse dia os shows serão da paulista Yma, jovem artista que lançou seu disco de estreia no início de 2019 e é um dos destaque na nova cena indie, em seu primeiro show em BH; e a Ad Hoc Orquestra, projeto experimental de música improvisada conduzida por um maestro, que envolve músicos ligados a bandas como Graveola, Dibigode, Miêta e Sem Receita.

Entre os drinks que estarão à venda nos dois dias estão a Cachaça Tônica com xarope de banana verde, o Velho Fashion (Old fashioned de Golveia 44, angostura, simple syrup e zest de laranja bahia), o Tropical Rickey (Gin Rickey de pimenta e canela, decorado com pau de canela queimado) e o London Mule (gin com ginger ale e rodela de limão siciliano).

Produzido pela Quente, o Gin/Cana tem apoio da rádio Inconfidência e da Prefeitura de BH por meio da Belotur. Mais informações sobre a programação e sorteios de garrafas de bebidas estão disponíveis no Instagram da Quente, instagram.com/musicaquente.

8 de abril de 2019

Sobre listas de melhores e o vício em novidades

Neofilia é a atração que sentimos pelo novo, pelo desconhecido. É relacionado ao instinto e, muito tempo atrás, uma questão de sobrevivência, pois era essencial na busca por novos alimentos na natureza e locais que apresentassem melhores condições de sobrevivência. É algo que permeia toda a nossa vida e, segundo alguns autores, ligado também à atração por parceiros sexuais diferentes. E, claro, algo muito utilizado no sistema capitalista para estimular o consumo. Imprensa musical e indústria fonográfica cresceram criando hypes constantes e lucrando a partir disso. É preciso criar novidades para vender cada vez mais. Construir ídolos que estimulem a curiosidade dos consumidores.

Décadas atrás, época em que a distribuição musical era mais difícil, era normal visualizar o consumidor em dois extremos: o de receptor de novidades via canais de marketing da indústria e mídias (rádio, tv, jornalismo musical, anúncios) ou de consumidor de obras já estabelecidas e que se enquadravam nos esquemas de distribuição da época. Ao acessar vários sites/blogs em busca de listas e pesquisar seus acervos, é triste perceber como a grande maioria está pautada somente nos lançamentos. A novidade como um valor em si, mais importante do que a análise de determinada obra. Solte três parágrafos clichês e um vídeo e parta pra próxima publicação. Queremos novidade. O artista que não tem seu trabalho publicado nesses sites nos meses seguintes ao lançamento vê sua obra se afundar num fosso digital. Em termos de visibilidade nos veículos online, depois da virada do ano as chances de destaque de um lançamento do ano que termina são mínimas. Parte-se para a criação de mais novidades. E assim caminha a indústria, com incontáveis obras interessantes se perdendo nesse processo. Nesse sistema, às vezes os próprios artistas sentem-se desestimulados em continuar a divulgação de um trabalho "ultrapassado", mesmo que lançado há alguns meses, e entram no processo de criação de novas obras que atendam ao mercado sedento por lançamentos de vida curta.


A ironia é que nunca antes na história deste país (e do mundo) foi tão fácil ter acesso à música, seja ela contemporânea ou de outras épocas. Em 2016, percebi a grande dificuldade que tive em fazer minha lista de melhores discos do ano (coisa que odeio) simplesmente porque não sabia em que ano os discos que mais ouvi em 2015 foram lançados. Só aí percebi que não me pautava pelo novo (ui, diferentão), mas de acordo com o tipo de som que queria ouvir ou pelas indicações apresentadas diariamente pelos sistemas de recomendação do Spotify ou do Deezer (uma das principais formas de descobrir novos artistas, pra mim, é olhar os "artistas relacionados" ou pesquisar playlists de países, cidades ou subgêneros específicos). 

Esse é um dos problemas das listas de melhores do ano. Elas fazem um recorte limitado da criação dentro de determinado período e é essencial ter isso em mente. Uma lista de melhores do ano, por si só, diz mais sobre quem a criou do que sobre os períodos, objetos e contextos retratados. É baseada nas experiências e limitações de seu(s) autor(es). Uma lista é influenciada pela situação econômica, gênero e raça de quem a cria. No fim, as listas que pautam o cenário musical brasileiro são basicamente criações de homens brancos de classe média/alta do sudeste. Em um mundo de enorme volume de informações e novidades constantes, a hipervalorização das listas cria a sensação de que toda a produção não selecionada para essas listas está jogada ao marasmo. 

Qual o tempo de vida de um disco? Depois dos primeiros meses seguintes ao lançamento, uma última chance de espaço na mídia é figurar em uma lista de melhores do ano. Passado o reveillon, é quase como se a vida útil daquela obra estivesse próxima do fim (em termos de espaço de divulgação). Não só entre jornalistas, mas também entre produtores de shows e festivais. "Seu disco tem mais de um ano? Precisa de algo novo pra tocar". Isso faria sentido no caso de um artista que já tocou em determinado festival ou cidade. Para aqueles ainda inéditos nesses cenários, não há o menor sentido nessa exigência senão a simples reprodução da lógica comercial do mercado mainstream.

Um experimento interessante é a Lista das listas, iniciativa do Pena Schmidt junto a parceiros como o Elson, da Sinewave (selo e grupo no Facebook), e o Rafael, do site Hits Perdidos. São analisadas dezenas de listas e contabilizadas as indicações para se identificar os artistas mais recorrentes. Ao menos, capta parte do que foi a visão da "crítica especializada" (e um pouco além) sobre a música brasileira em certo ano (a ideia de zeitgeist cabe aqui). Um (enorme) ponto negativo, no entanto, é a credibilidade dessas listas. Em 2018, por exemplo, a Lista das listas foi construída a partir de 183 listas de melhores do ano, mas não há uma publicação identificando quais são elas. Apesar da importância em se ter uma amostra ampla, há o risco de se basear em listas amadoras de pouca relevância, criadas por pessoas sobre as quais não sabemos nada (o que ouviram, o que assistiram ao vivo naquele ano? Como confiar na opinião de alguém que ouvir apenas 20 discos e colocou todos eles na sua lista de melhores?). Outro ponto questionável: em 2017 identificaram as 44 listas com mais de 10 "acertos" entre os 51 artistas mais citados. É complicado. Na busca por mais acessos, os sites foram crescendo cada vez mais suas listas de melhores. Se antes era normal termos 10 ou 20 melhores, agora não é raro listas de 100 nomes. Isso acontece porque os autores sabem que todos os artistas indicados divulgarão suas presenças nessas listas e, com isso, seus sites terão mais audiência. É bem pouco provável que todas essas pessoas tenham escutado com atenção mais de 100 álbuns brasileiros lançados ao longo do ano corrente em que a lista é feita. O que sinto acontecer, de fato, é que listas de veículos mais relevantes pautam as demais listas. Dessa forma, os 10 ou 20 primeiros colocados seriam as efetivas escolhas, os discos que mais tocaram o autor da lista, enquanto nas demais colocações estariam os artistas cuja principal função é completar a lista. Nomes "obrigatórios" que às vezes mal foram ouvidos, mas estão presentes em outras listas e são reproduzidos. Por isso considero importante conhecer quem faz cada lista, ler o que escreveu sobre cada um daqueles álbuns. De outra forma, é difícil ter credibilidade ou confiar que a pessoa sequer realmente ouviu  todos aqueles discos. Mas, deixo claro, digo a partir somente da minha experiência pessoal.

Resumindo, o que quero ressaltar é a importância da visão crítica em relação às listas, considerando os elementos que indiquei, e de se incluir outros critérios de influência ao definir programações de shows e festivais.

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