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29 de dezembro de 2019

Apostas de BH para 2020

Belo Horizonte possui uma das cenas mais fortes do rap no Brasil atualmente e nada indica que em 2020 isso será diferente. Djonga, Sidoka, FBC e Hot e Oreia estão entre os principais representantes do estilo no Brasil e contribuem para que outros artistas da cidade recebam mais atenção da mídia especializada e do público. Simultaneamente (e interconectada), uma nova cena pop emerge em BH. Pop em um sentido amplo, que abrange artistas que se aproximam do pop mainstream internacional mas também dialogam com o funk, arrocha, tecnobrega, trap, da MPB tradicional e do pop rock (por mais que escrever este último seja próximo de registrar um escabroso palavrão). Tendo em vista esse cenário, eis alguns nomes que prometem se destacar em 2020.

CLARA TANNURE
"Isso prova que nenhum de nós, por mais que tenha o conhecimento do evangelho desde o berço, não está imune às investidas do inimigo". Não é todo dia que você lê vários comentários desse tipo sobre uma música pop, mas é algo comum nas redes da Clara Tannure. Filha da pastora-cantora Helena Tannure, ex-vocalista do gigante grupo gospel Diante do Trono, Clara estreou em 2019 com o semi-hit pop "Chora boy" e fechou o ano com "Sem juízo", parceria com Dedé Santaklaus (autor da sensacional "Elba Ramalho"). É hipster, é kitsch, é dançante e incomoda a comunidade evangélica. Escute.




VHOOR
Aos 19 anos, o dj e produtor Vhoor é um dos principais nomes a se prestar atenção atualmente. Hiperativo no Soundcloud, onde lança dezenas de faixas, produz músicas marcadas por uma mistura do trap com funk, às vezes chamada de "favela trap".




PAIGE
Quem já a viu ao vivo sabe que se trata de um acontecimento. Seja em um show de rap ou junto de uma orquestra de improvisação jazzística, Paige se destaca pela voz, presença e carisma. Em 2019,  lançou o single "Brasil" e o EP Babygirl. Ela também já fez parcerias com Djonga e Sidoka. Tem potencial para se destacar ao lado de artistas como Anitta e Iza.




A LAMPARINA E A PRIMAVERA
É a representação musical da esquerda festiva (de uma forma positiva, que fique claro). A nova fase da Lamparina e a Primavera, explícita nos singles lançados em 2019, mostra uma banda em ascensão que pode agradar a quem gosta de artistas como Duda Beat e  Francisco el Hombre, por exemplo.




RADIO EXODUS
Trio que começou a se apresentar em 2019 e já engatou participações em festivais como Meca, Sarará e Sonâncias. Misturam de tudo: dub, trip hop, música caribenha, maracatu...




JAY HORSTH
Vocalista do Young Lights (que também lançará disco em 2020), o trabalho solo do Jay Horsth tende para a MPB pop de compositores millenials como Rubel, Tim Bernardes e Phill Veras. Ele lançou seu primeiro single, "Canceriana", no fim de 2019, e em 2020 lançará um EP produzido em parceria por Helio Flanders (vocalista do Vanguart) e Leonardo Marques (do Transmissor, produtor de discos do Maglore e Iconili, entre outros), gravado em formato analógico ao longo de quatro dias durante uma imersão do Sonâncias Lab.




CHICO E O MAR
Super jovens, os integrantes da Chico e o Mar são o clássico exemplo da geração hiperconectada que se transforma rapidamente. Esse processo se reflete na rápida evolução da banda, que tem construído uma base de fãs (também jovens) com um pop rock ainda embrionário mas que indica um futuro promissor.




DELATORVI
Mais um nome do trap, tem no currículo um álbum lançado em 2016 e vários singles. Tem parcerias com Djonga, Sidoka, Raffa Moreira e vários outros rappers.




SAMORA N'ZINGA
Artista conceitual focado no afrotrap, mistura de ritmos africanos com rap. Lançou seu segundo disco, D.A.A.T, no fim de 2019, durante a final nacional do Duelo de MCs em BH.



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Para fechar, alguns artistas que já tiveram relativo destaque em anos anteriores: Clara Lima, integrante da DV Tribo junto do Djonga, FBC e Hot e Oreia, que lançou EP no fim de 2019; Sara Não Tem Nome, que em 2020 terá patrocínio do Natura Musical e vai gravar o sucessor do elogiado Ômega III, de 2015; e o Rosa Neon, fenômeno pop de BH surgido em 2018 e que em 2019 lançou seu primeiro álbum.

26 de dezembro de 2019

Melhores músicas brasileiras de 2019

Assim como a maioria das listas, esta é reflexo de quem a fez, baseado nas suas experiências e limitações. Dito isso, vale registrar que hoje a lista tem 40 músicas mas será atualizada à medida que novas descobertas forem feitas. Então, quem se interessar pode segui-la no Spotify. A ordem é uma mistura de gosto pessoal, relevância no contexto musical de 2019 e construção de sentido no formato de playlist (rupturas e momentos de continuidade são propositais).



Breves comentários sobre cada faixa


deafkids _ "Templo do caos"
Poderia ter colocado "Vírus da imagem do ser" ou "Mente bicameral", mas "Templo do caos" serve bem como introdução para quem não conhecer a banda. Tem reforçado seu nome como banda cultuada no underground internacional, como demonstram as turnês e os comentários da imprensa gringa.

FBC _ "Confio"
Padrim, o disco de 2019 do FBC, é dos melhores do ano. Mais trap do que o anterior, S.C.A (acrônimo de Sexo, Cocaína e Assassinato), tem em "Confio" um de seus momentos mais pesados, com participação da rapper Ebony. "Money manin" é outra música que vale destaque.

Baleia _ "Duelo fantasma (epílogo sórdido)"
Uma das melhores bandas da atualidade, não apenas do Brasil. Essa música resume bem as qualidades e ambições do Baleia, o cuidado com os detalhes e as dinâmicas. "Eu estou aqui" e "A mesma canção" são ainda melhores e fazem parte do mesmo EP, mas foram lançadas como single em 2018.

Yma _ "Colapso invisível"
A grande estreia do indie brasileiro em 2019. Os hits "Par de olhos" e "Vampiro" são mais conhecidas, todas igualmente boas.

O Terno _ "Pegando leve"
Nunca consegui ouvir um disco inteiro d'O Terno, apesar de os shows serem excelentes. Mesmo assim, não impede que essa faixa seja considerada uma das melhores e mais viciantes do ano. Desconheço outra banda que defina tão bem a vida do jovem millenial de classe média (pode parecer uma crítica mas aqui destaco como algo positivo ¯\_(ツ)_/¯).

Boogarins _"Sombra ou dúvida"
Pop moderno que ganha corpo ao vivo e vai além da psicodelia moderna que tornou a banda famosa.

Vhoor _ "Mais do que nunca"
Dj de menos de 20 anos, da periferia de BH. Trap com funk, parte do EP Acima, feito em parceria com o dj americano Sango.

Kinah Hamilton _ "Elianeh"
Outra descoberta de 2019. Projeto de Goiânia, do mesmo sujeito responsável pelo selo Propósito Recs. Experimental e hipnótico (todo o disco).

Kevin O Chris _ "Evoluiu"
Um dos maiores hits de 2019, nas baladas de boy e na periferia, enquanto a criminalização do funk continua.

Sidoka _ "Contas"
Dos principais nomes do trap brasileiro, Sidoka tem 20 e poucos anos e também é de BH. Não é por acaso que o disco se chama Doka language (ouça e entenda).

Petbrick _ "Guacamole handshake"
Banda nova do Iggor Cavalera. Industrial tribal, essa faixa é das menos agitadas do disco de estreia da banda.

Ebony _ "Bratz"
"Falar que não é trap porque eu sou mulher, vê se tu me respeita / Sinto informar mas eu rimo com a boca, não com a buceta".

Rakta _ "Miragem"
Das mais enérgicas e pós-punk do álbum Falha Comum (que merece mais do que um breve comentário preguiçoso, então talvez depois eu publique algo mais completo sobre).

Papisa _ "Terra"
Se Rakta é bruxaria darkzêra, destrutiva, Papisa é a energia oposta, carregada de clima místico porém positiva, de criação. É a trilha da reconstrução pós-apocalíptica.

Jair Naves _ "Veemente"
Disputa acirrada com "Deus não compactua", o outro single do disco Rente. Vence esta pela letra. "Minha terra é uma bomba a ponto de explodir / Minha gente é uma bomba a ponto de explodir".

Labaq _ "Glow"
Climática e sensível, "Glow" sintetiza o talento de Labaq. Com elementos minimalistas e ótimos arranjos, cria uma atmosfera intimista e evolvente, assim como faz (sozinha) ao vivo.

Mc Tha _ "Rito de passá"
Esse foi o ano da Mc Tha, presença constante nos festivais pelo país. "Rito de passá " é o melhor momento da sua mistura de funk e umbanda.

Mc Rebecca _ "Sento com talento"
Um dos maiores hits da Mc Rebecca, junto de "Cai de boca" e "Coça de xereca", do ano passado.

Heavy Baile e Mc Baby Perigosa _ "Grelinho de diamante"
Tocaria fácil em um festival de música experimental gringo.

Nego Gallo _ "Acima de nós só o justo"
Também publiquei uma crítica do disco. Baixo de dub e batida trap como trilha para se descrever a busca por ascensão pelo rap ou pelo crime ("Pivete driblou os cone / Os homi' vê só o vulto / Descendemos de reis e acima de nós, irmão, só o Justo"). O risco corrido pra se manter vivo e a crença de que se a sociedade é contra, é preciso crer que em algum lugar há um ser superior que zela por você e seus pares.

Djonga _ "Bené"
Todos os discos do Djonga são irregulares mas com grandes momentos, o que é compensado por sua prolificidade.

Larissa Luz _ "Aceita"
Sincretismo religioso e musical.

Young Lights _ "Down river"
Um encontro entre LCD Soundsystem e The Killers (na fase boa).

Marcelo Jeneci _ "Oxente"
Forrozinho que tinha sido gravado pela Elba Ramalho em seu último disco, mas que ganha peso corpo na versão do Jeneci, compositor da música.

Radio Exodus _ "Banana cigana"
Pantera Cor de Rosa de férias pelo Rio de Janeiro fumando um baseado.

Lamparina e a Primavera _ "Não me entrego pros caretas"
Longe da MPB do início da banda, a Lamparina e a Primavera ganhou vida e identidade ao explorar uma sonoridade mais pop e moderna, como demonstram os três singles lançados pela banda em 2019, nos quais misturam elementos de reggaeton, tecnobrega e funk.

Constantina _ "Atrópico"
A faixa-título do aguardado novo disco do Constantina é a que mais se aproxima dos trabalhos anteriores da banda. São 10 minutos de imersão junto de uma das melhores bandas instrumentais em atividade no mundo (e ainda subestimada).

Tantão e os Fita _ "Adoração de ídolos"
Adoraria ver um show ao ar livre, com o público cantando "Wiliiam Potter / William de Galles / Harry Potter / silk screen", enquanto o público transeunte pensaria "que porra é essa?".

Mc Doni _ "Passei de nave"
Da trilha de Sintonia, a (boa) série do Kondzilla. Funk família, de mensagem positiva, assim como a série, mas é representativo de 2019.

Taco de Golfe _ "Erro"
Um math rock frito pra equilibrar. Uma das descobertas do ano

Elza Soares e Baiana System _ "Libertação"
Elza e Baiana saturaram tanto que seus novos discos nem geraram tanto burburinho como seus anteriores. Daquelas músicas que te movimentam mesmo que a letra seja meio bosta e não diga muita coisa.

Luiza Lian e Bixiga 70 _ "Alumiô"
Choquei com o tanto que essa mistura inusitada funcionou.

Terno Rei _ "Medo"
Esse disco do Terno Rei representa um salto gigantesco para a banda, tanto em termos de qualidade de composição como de recepção do público. Indie pop melancólico, com bons timbres e ótimas melodias vocais.

máquinas _ "Corpo frágil"
Essa música é uma mistura de math rock, Metá Metá e um jazzinho safado. Claro que ficou bom.

Apeles _ "Pássaro nu"
Kavinsky fumando maconha e tocando com uma banda soaria assim.

Clara Lima _ "Talvez bem mais"
Selfie, disco que a Clara Lima lançou no fim de 2019, desliza nos momentos de rap acústico mas quando investe nas batidas mais pesadas se destaca, como na pesada "Esquinas" e na funkeira "Tudo muda", que também poderiam figurar por aqui.

Yung Buda _ "Califórnia (world tour)"
Velozes e Furiosos + R.E.M em português. Essa é a descrição.

Cadu Tenório _ "The samurai who smells of sunflowers"
Fogos de artifício em câmera lenta sobre a cidade em chamas.

Bernardo Bauer _ "Coragem"
"Eu tenho medo dos comentários na internet". Certa vez fui a uma performance de improviso de dança numa segunda-feira e vi um dos Mineiros da Lua dançar ao som dessa música, o que foi surpreendentemente bizarro e mágico.

Luíza Brina _ "Queremos saber"
Pra fechar com esperança (mesmo que temporária).


Ps: Não custa lembrar, o título desse post é um cata-corno Google.

26 de novembro de 2019

Psicopolítica - o neoliberalismo e as novas técnicas de poder

Hoje, cada clique que damos e cada termo que pesquisamos ficam salvos. Cada passo na rede é observado e registrado. Nossa vida é completamente reproduzida na rede digital. Os nossos hábitos digitais proporcionam uma representação muito mais exata de nosso caráter, e nossa alma, talvez até mais precisa ou mais completa do que a imagem que fazemos de nós mesmos (HAN, 2018, p.85).

Psicopolítica - o neoliberalismo e as novas técnicas de poder reúne 13 capítulos curtos sobre o sistema neoliberal e suas formas de controle exercidas sobre os indivíduos na atualidade. Seu autor, o filósofo e professor alemão de ascendência sul-coreana Byung-Chul Han, alcançou projeção mundial com livros como Sociedade do Cansaço e Sociedade da Transparência. Um dos principais fatores apresentados em Psicopolítica é a cobrança que exercemos sobre nós mesmos a partir de uma falsa liberdade explorada pelo sistema neoliberal. Han discorre sobre como, na sociedade da informação, o capitalismo industrial deu lugar ao neoliberalismo e ao capitalismo financeiro. Nesse contexto, a figura do empreendedor, capitalizada pelo sucesso das startups digitais dos anos 2000, faz com que cada um seja "um trabalhador que explora a si mesmo para a sua própria empresa. Cada um é senhor e servo em uma única pessoa. A luta de classes também se transforma em uma luta interior consigo mesmo" (HAN, 2018, p.14, grifo do autor). Nesse sistema de desempenho, aquele que "falha" e não se enquadra nos padrões passa a se envergonhar, a questionar a si mesmo e não ao sistema no qual está inserido. Em regimes anteriores, no qual há a figura do patrão, existe a distinção entre explorador e explorado que permite a organização por parte dos explorados em busca de melhores condições. Dentro do esquema individualista neoliberal, cada um é responsável por si e, dessa forma, a resistência coletiva ao sistema é minada.

Enquanto a biopolítica tratava do poder sobre o corpo, a psicopolítica refere-se à exploração da psique. Se o primeiro baseava-se no poder disciplinar, no medo, o segundo utiliza a positividade, nos estimula a continuar a produzir. O que Han chama de "capitalismo da emoção" é um regime que busca o lucro acima dos limites racionais e para isso explora a noção de liberdade. "Ser livre significa deixar as emoções correrem livres" (HAN, 2018, p65). Consequentemente, consumir sem pensar, apenas sentir. Quando se deve fazer algo, como uma obrigação, as regras e limites são mais claros. Ao se trocar o dever por poder, essas possibilidades são ilimitadas e resultam em uma situação paradoxal de coerção. Ser livre deveria justamente representar a ausência de coerções, mas não ao ser explorada dentro do sistema socioeconômico neoliberal:
Doenças psíquicas, como depressão ou burnout são expressões de uma profunda crise da liberdade: são sintomas patológicos de que hoje ela se transforma muitas vezes em coerção. O sujeito do desempenho, que se julga livre, é na realidade um servo: é um servo absoluto, na medida em que, sem um senhor, explora voluntariamente a si mesmo (HAN, 2018, p.10, grifo do autor).

As mídias sociais exercem papel importante para a manutenção do sistema criticado por Han. Alimentamos, por vontade própria, redes que monitoram nosso desempenho, resultando em vigilância invisível e onipresente. O constante monitoramento coletivo e a busca permanente por otimização pessoal são autoexplorações destrutivas que resultam em colapsos mentais, de acordo com o autor. A febre do coaching, cursos de desenvolvimento pessoal e treinamentos de inteligência emocional seriam característicos desse processo. O ser humano é transformado em um produto no qual seu "aprimoramento" não tem limites (e cuja eventual ineficácia é de responsabilidade do próprio indivíduo). Com a crescente ausência de jornadas de trabalho definidas, vida profissional e pessoal se misturam, tendo a busca por eficiência e otimização como objetivos. Essa é, conforme Han escreve, uma técnica de dominação e exploração:
A técnica de poder do regime neoliberal assume uma forma sutil. Não se apodera do indivíduo de forma direta. Em vez disso, garante que o indivíduo, por si só, aja sobre si mesmo de forma que reproduza o contexto de dominação dentro de si e o interprete como liberdade. Aqui coincidem a otimização de si e a submissão, a liberdade e a exploração (HAN, 2018, p.44).

A leitura de Han é válida para se tentar entender a sociedade contemporânea, na qual relações de trabalho como as dos nômades digitais e do trabalho remoto ainda são relativamente novidades. Aplicado ao contexto da comunicação e das indústrias criativas, é importante para se pensar sobre o papel dos profissionais atuantes nessa áreas: de que forma suas ações contribuem ou não para o consumo irracional, por exemplo. O que Han escreve diz muito sobre a geração millenial. Nos acreditamos livres, empresários donos dos nossos futuros cheios de possibilidades. Trabalhamos continuamente, mesmo que para nós mesmos e de qualquer lugar,  enquanto nos tornamos carrascos de nós mesmos, sem perceber, e divulgamos nas redes para que todos vejam (e curtam).

HAN, Byung-Chul. Psicopolítica - o neoliberalismo e as novas técnicas de poder / Byung-Chul Han ; [tradução Maurício Liesen] . --1. edi. -- Belo Horizonte : Editora Âyiné, 2018.

25 de novembro de 2019

Nego Gallo _ Veterano

"Venha em chamas" é a faixa de abertura de Veterano, disco do cearense Nego Gallo. Pode ser interpretada ao mesmo tempo como uma previsão ou uma descrição do momento. Fortaleza começou 2019 pegando fogo, literalmente. Logo no dia 2 de janeiro iniciou-se o que viria a ser chamado de "a maior onda de ataques da história do Ceará". Foram tiros, ônibus queimados e até uma tentativa de se explodir um viaduto. Em meio ao caos era lançado, no dia 10 de janeiro, Veterano.



Se o contexto é pesado, musicalmente se apresenta como um contraponto através da mistura ensolarada do rap moderno com o reggae e seus derivados. É como um trap jamaicano, pesado, cadenciado, quente. "No meu nome", a primeira música propriamente dita ("Venha em chamas" é apenas um interlúdio), é um trap com guitarras texturizadas que lembram os nova-iorquinos do Ratatat mas também faz uso de steelpan, instrumento percussivo típico da música da América Central. É um dos pontos altos do disco e tem a participação de Don L, antigo parceiro de Nego Gallo no Costa a Costa (coletivo que criaram em meados dos anos 2000 e que é autor do clássico do rap brasileiro Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência de Costa a Costa). Toda a parte cantada por Don L é uma síntese da temática do disco e se encerra com o trecho "pensei que aquela última rima que embalou o irmão / naquela última tarde / não era minha, era da minha cidade / onde os moleque corre o dobro pra viver a metade / e raro é se manter de pé com a integridade intacta / pânico de nada, é tudo estrada / Veterano, Gallo".


A sequência com "O bagui virou" segue na estética trap e trata da vida no rap. Um dos hits do álbum, foi o primeiro single do disco e já era tocada ao vivo há tempos (com direito a vários moshs). Daí em diante outras influências tomam conta e uma sonoridade mais pop entra em evidência. O reggae se destaca em "Onde há fogo há fumaça", "Downtown" e "Passado presente" e o funk em "DVD". "Downtown" é a música mais pop de Veterano, tanto musicalmente como em termos de quantidade de execuções. Seu refrão romântico ("Subi a favela, flor / Minha donzela tem trança nagô / Dançando é sensacional / Desci a favela, vou / É Deus quem zela a fé à vera / Eu vim das vielas de Downtown") contrasta com a crueza de trechos como "Conheço as esquinas, vi gente morrer / Hey, deixa eu viver" ou "Pago à vista essa vida / Então irmão, deixa eu viver".
Calor, pobreza, maconha e religiosidade permeiam o disco e ajudam a criar uma imagem da Fortaleza desse fim de década retratada por Nego Gallo. Apesar do peso inerente à realidade, é uma sonoridade tropical também marcada pela positividade. Assim como em outros álbuns de rap, a fé e citações religiosas são frequentes, reflexo da presença da igreja nas periferias, onde supre o papel do Estado ausente. Na música de Nego Gallo, a luta de classes caminha junto de Deus, como explicita na letra de "DVD": "Aqui ninguém herdou nada / A luta foi o legado / Rico exaltado humilhou / Humilde eu vim vencer / O inimigo tem a força / Mas só Jesus o poder / A caminhada me fez mais forte / A sorte sempre me acompanhou / Eu sou do corre / É Deus a favor". "Acima de nós só o justo", última música do disco, segue essa linha. Baixo de dub e batida trap como trilha para se descrever a busca por ascensão pelo rap ou pelo crime ("Pivete driblou os cone / Os homi' vê só o vulto / Descendemos de reis e acima de nós, irmão, só o Justo"). O risco corrido pra se manter vivo e a crença de que se a sociedade é contra, é preciso crer que em algum lugar há um ser superior que zela por você e seus pares.

Um dos melhores discos de 2019.

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