8 de agosto de 2018

Sobre várias coisas ao mesmo tempo, bem millenial

Boates e casas de show vem e vão, como quase tudo na vida. No Brasil, agosto marca o fim do Gig, casa em São Carlos, interior de São Paulo, que recebeu centenas de shows alternativos ao longo dos últimos cinco anos. O tempo de vida desse tipo de clube tem diminuído não apenas no Brasil, mas em várias partes do mundo. Um relatório internacional mostra que mudanças nos hábitos dos jovens têm influenciado na queda das casas noturnas tradicionais, estimulado a exploração de novos e diferentes espaços e provoca mudanças no consumo de bebidas alcoólicas (objeto principal do estudo). Em Londres, o número de casas noturnas caiu de 3.144, em 2005, para 1.733 em 2016. Paralelamente, cresceu a ocupação de espaços cujo função principal não é a atividade cultural (como imóveis abandonados e estacionamentos). Algumas tendências se fortalecem nesse processo, como festas em residências e o fortalecimento de um modelo híbrido entre cafés e casas noturnas que contam com equipamentos de som de alta qualidade, semelhantes (ou superiores) aos encontrados em grandes estúdios.
Uma matéria no The Guardian aborda o assunto e mostra locais onde são realizadas verdadeiras audições coletivas de discos que rompem com o paradigma da boate tradicional. Apesar de os equipamentos de áudio caríssimos que são utilizados nesses espaços darem um ar elitista, um argumento em defesa é o de que na verdade se trata de uma ação de democratização. Poucas pessoas podem se dar ao luxo de gastar mais de U$ 20.000 em uma única caixa de som, mas esses locais permitem que se ouça os discos com alta fidelidade sem ter que fazer gastos ridiculamente exorbitantes. 
Puristas do áudio conseguem ser mais chatos do que especialistas em bebidas (por ser um grupo ainda mais exclusivista, devido aos grandes investimentos), mas não deixa de ser válido o relato de um outro jornalista do Guardian que ouviu um disco do My Bloody Valentine em um equipamento de áudio de mais de £100 mil e a partir de então todo o papo sobre fidelidade de áudio e investimentos gigantes em equipamentos passou a fazer sentido para ele. Vale transcrever a descrição dele sobre a experiência: "Soava espantosa, estranhamente tangível, como se a música estivesse acontecendo em um espaço bem à minha frente, como se estivesse em 3D. Você poderia andar em volta dela, você poderia alcançá-la e tocá-la". Convincente.


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O mesmo jornalista fez uma longa matéria na Esquire sobre audiófilos (em inglês, cerca de 15 minutos de leitura). Alguns pontos relevantes apresentados:
- Parte da euforia em torno da volta da venda de vinis seria resultado do interesse dos artistas em ganhar mais, uma vez que são produtos mais caros. Fortalecer a ideia de alta fidelidade dos vinis e o fetiche com o produto físico, portanto, é conveniente.
- Investir muito em equipamentos de áudio não seria um hobby tão popular (além das questões óbvias referentes aos altos custos) por ser uma atividade solitária, sem exposição pública. Ao contrário de quem gasta muito em roupas e carros, por exemplo, como parte de uma forma de aumentar sua exposição social.


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Porto Rico tem 3,5 milhões de habitantes e outros 5 milhões de cidadãos vivendo nos Estados Unidos, entre eles pop stars como Jennifer Lopez, Ricky Martin, Luis Fonsi e Daddy Yankee (os últimos, responsáveis por "Despacito", recorde de maior audiência no Youtube em menor tempo - 2,5 bilhões de visualizações em 180 dias, sendo que atualmente a música já tem mais de 5 bilhões de views). Essa matéria do The Guardian aborda pontos positivos e negativos no fato da ilha ser território estadunidense e alguns dos artistas que se manifestam à favor da independência do país.
- Uma dica: não clique no vídeo de "Gasolina" na matéria ou você corre o risco de ficar com essa música na cabeça por um bom tempo.


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Por falar em tempo, essa matéria da Esquire aborda as mudanças de hábitos provocadas pelo lançamento do Stories, do Instagram, há dois anos. As pessoas estavam se tornando mais criteriosas em relação às fotos que publicavam em seus perfis e com isso o tempo online no Instagram diminuía. Copiar o Snapchat, com fotos e vídeos efêmeros foi a forma de estimular as pessoas a usarem o aplicativo mais vezes. E deu certo. Pessoas ávidas por aceitação e problemas com auto-estima são um filão e tanto de usuários. Não ter o botão de curtir e não mostrar publicamente a quantidade de visualizações de cada publicação foi a grande sacada. "Nesse sentido o Stories oferece a derradeira experiência social para 2018: a possibilidade de se transmitir sem a desvantagem de ter que esperar o julgamento público. Você não sabe se alguém 'curtiu' sua publicação, mas também não sabe se não gostaram".

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Uma música nova do Boogarins, "LVCO 4".



Um filme nacional novo, Unicórnio, dirigido pelo Eduardo Nunes e inspirado em obra de Hilda Hist.



Um episódio do Irmão do Jorel, que só recentemente descobri que é criação do Vice Cônsul de Honduras.



Lembrando que em novembro faço o show do Built to Spill em BH na primeira edição do festival Música Quente, que também será a festa de aniversário da nossa produtora. Divulgaremos mais bandas nos próximos meses e os ingressos já estão à venda (metade já foi, fica a dica pra garantir logo o antecipado).