31 de agosto de 2017

FELA. Esta vida puta

Sem muito alarde, em 2017 completaram-se 20 anos da morte de Fela Kuti, um dos músicos africanos de maior reconhecimento mundial e criador do termo afrobeat (além de ser seu maior expoente). Após um show da Juçara Marçal com o Cadu Tenório em BH, na Sian - Semana Idea de Artes Negras, me deparei com este FELA. Esta vida puta (Fela, Fela: This bitch of a life) à venda. Lançado originalmente em 1982 e publicado no Brasil pela editora Nandyala em 2011, o livro é resultado de horas de entrevistas do escritor e cientista político cubano Carlos Moore (que vive no Brasil há quase 20 anos) com Fela e pessoas ligadas a ele.

O foco do livro é a vida pessoal de Fela e sua atuação política, com abordagem superficial de sua música - o que de forma alguma torna os relatos, narrados na primeira pessoa, menos interessantes. Incrível como Fela ainda não tenha sido objeto de uma cinebiografia de grande porte (apesar de o livro ter inspirado um musical da Broadway produzido por Jay Z, Will e Jada Pinkett Smith e um documentário). Ele misturou o highlife ganês ao jazz para criar um dos estilos de música mais disseminados no mundo; vivia em uma comuna com dezenas de pessoas que constituíam o que chamavam de República de Kalakuta (que foi invadida pelos militares várias vezes, com relatos terríveis de violência física e sexual por parte dos soldados); chegou a ocupar um prédio inteiro de sua gravadora, com os integrantes de sua organização, quando ela o devia dinheiro; quis ser presidente da Nigéria; foi preso diversas vezes (no geral, por porte de maconha), somando cerca de três anos na cadeia; tinha uma boate chamada Shrine (santuário), onde realizava não só shows mas também cultos; ganhou milhões de dólares e morreu pobre...

A imagem construída no livro é a de uma figura contraditória, às vezes execrável e, outras, exemplo de conduta social e política em busca de uma sociedade mais igualitária. Seus embates com os muitos governos militares que tomaram o poder na Nigéria entre as décadas de 1960 e 1990 (foram sete Golpes de Estado no período) e a luta pela valorização da cultura negra e o pan-africanismo são destacados, mas seus erros e falhas de caráter são parte essencial dos relatos. Casado com 27 mulheres (todas de famílias poligâmicas africanas, exceto uma), praticamente todas relataram casos em que Fela as bateu. Ele acreditava que as mulheres eram inferiores aos homens e dizia que a homosexualidade era "contra a natureza". Sua explicação para a homosexualidade chega a ser engraçada de tão absurda: "Acho que é causado pela comida que eles comem, a alimentação deles. Muita comida industrializada e pouca comida natural. Poluição, religião e alimentação. Essas, eu acredito, são as causas da homosexualidade".

Apesar de ter dois irmãos médicos, Fela era ignorante em relação a certas questões (hoje, básicas) a ponto de não acreditar na Aids e ser contra o uso de preservativos, chegando a fazer uma música sobre isso (ele dizia que preservativos eram mais uma invenção do homem branco ocidental para diminuir a população africana).

Antes de se tornar cada vez mais místico e se perder em teorias de conspirações envolvendo espíritos, Fela representou a anticelebridade politizada que realmente vivia de acordo com as causas que defendia. Como Moore apresenta na introdução, Fela Kuti era um artista político idealista que não se rendeu à indústria cultural:
"Na economia de mercado global dos dias de hoje, em que o excesso de bens materiais e o status social são hiper valorizados, seu inconformismo autêntico contrastava, radicalmente, com a imagem do artista pop contemporâneo. Na verdade, ele poderia facilmente ter feito fortuna, vivendo e criando no exterior e desfrutando da adulação de um crescente exército de fãs no mundo inteiro. No entanto, ele recusou o exílio. 'Ninguém me obrigará a sair deste país', ele avisou. 'Se ele não é digno de se viver, então é nosso dever torná-lo digno'".

Em abril de 1997, o governo do General Sani Abacha, que havia tomado o poder três anos antes em mais um Golpe de Estado, ordenou nova invasão da casa de Fela e sua prisão por porte de maconha, condenando-o a 10 anos de prisão (o real motivo da prisão teria sido as críticas feitas por Fela ao governo, que ele acusava de ser corrupto e injusto). Solto sob fiança em julho do mesmo ano, Fela morreria um mês depois de voltar pra casa. No ano seguinte, o general Abacha morreria após um ataque cardíaco e foi descoberto que mantinha mais de 4 bilhões de dólares no exterior.

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Trecho:
"Se eu quero deixar uma marca no mundo? Não. De jeito nenhum. Sabe o que eu quero? Eu quero que o mundo mude. Eu não quero ser lembrado. Eu só quero fazer minha parte e ir embora. Se lembrar faz parte do lance do mundo, isso é problema deles. Eu vou fazer minha parte. Eu tenho que fazer minha parte. E todo mundo tem que fazer a sua. Não pelo que você vai ser lembrado, mas pelo que você acredita como ser humano É pra isso que todo mundo devia vir ao mundo.  Se você quer fazer as coisas porque quer ser lembrado, você só tá fazendo por motivos pessoais. Faça as coisas simplesmente porque você acredita nelas. Um ser humano devia ser assim.

(Fiquei tentado a colocar um trecho sobre a época em que ele acreditava que espíritos estavam incorporando em suas esposas e que uma delas fosse espiã da CIA, mas, no fim, preferi dar espaço pra um momento mais otimista)