1 de setembro de 2017

Fuji Rock 2017 e mais alguns rolês no Japão

O Fuji Rock é um festival de grandes distâncias em todos os sentidos. Do Brasil, são no mínimo 24 horas de viagem de São Paulo a Tóquio, embora a maioria dos voos leve entre 28 e 30 horas. Chegando em Tóquio, são necessárias mais duas horas de trem-bala para se chegar a Echigoyuzama, no noroeste do país. Lá, o festival oferece um ônibus por cerca de $5 para se chegar até a estação de ski, no meio da floresta, onde o festival é realizado (mais 50 minutos de transporte). O local é uma espécie de parque florestal gigante, no qual um campo de golfe é utilizado como área de camping e são montados mais de 10 palcos, sendo que os principais shows estão concentrados em quatro deles. Somente no principal, o Green Stage, a capacidade é de cerca de 50 mil pessoas, segundo a produção do festival. Da entrada do parque até o palco mais distante, Field of Heaven (também apelidado por alguns como "hippie stage"), são 30 minutos de caminhada. Tudo isso em pleno verão japonês, com picos de 35º.

Tanto esforço é justificado pelo line-up e pela experiência proporcionada pelo Fuji Rock. Este ano a programação teve Gorillaz, Björk, Aphex Twin, Queens of the Stone Age, LCD Soundsystem, Lorde, The XX, Major Lazer, Death Grips, Slowdive, Bonobo, Thundercat, Father John Misty, The Avalanches, Rhye, entre vários outros nomes. Sem contar os muitos artistas japoneses da programação, como o veterano Cornelius, o trio de jazz moderno Mouse on the Keys e o pop bizarro da Suiyoubino Campanella. Além disso, é um evento com uma lógica um pouco diferente da que estamos acostumados. Você pode entrar com comidas e bebidas à vontade e é comum os japoneses levarem carrinhos cheios de suprimentos. A grande presença de idosos e crianças também surpreende.


Todos os anos chove durante o festival e o figurino padrão é composto de galochas, capas de chuvas e chapéus de pescador. É proibido fumar na maior parte da área do evento (sim, um grande parque ao ar livre onde não se pode fumar), as lixeiras são espalhadas em pontos estratégicos e têm assistentes para indicar ao público como o separar corretamente para reciclagem e, como a maratona de shows é longa (as primeiras atrações começam às 9h da manhã e as últimas terminam às 6h do dia seguinte), os japoneses andam de um lado para o outro carregando cadeirinhas desmontáveis. As áreas mais distantes, em frente a cada palco, são sempre ocupadas por centenas (às vezes milhares) de pessoas com suas cadeirinhas montadas sobre a grama (ou lama).

A grande maioria do público é de orientais. No primeiro dia, Father John Misty brincou que os poucos gritos que ouvia eram com sotaque americano e pediu desculpas por seus conterrâneos não conseguirem assistir um show em silêncio. Show bonito e calmo, que começou com as quatro primeiras faixas de Pure Comedy na mesma sequência que no disco e que teve como ponto alto a sequência com "Hollywood Forever Cemetery Sings" e "I Love You, Honeybear".

Caminho para o palco Field of Heaven

Com a distância entre os palcos, foi preciso correr antes do fim do show pra pegar o The XX no início. Abriram com "Intro" e "Crystalised" e ali já ficava claro que aquele seria um dos shows mais legais do festival. Um pouco depois, em outro palco, começaria o Queens of the Stone Age, prestes a lançar disco novo. Com Josh Homme mancando, fizeram um show repleto dos hits da banda (como "I Sat by the Ocean", "No One Knows", "Little Sister", "Go With the Flow") e tocaram somente uma nova, "The Way You Used to Do". Durante outro hit, "Feel Good Hit of the Summer", Josh ainda tirou onda emendando um trecho de "Clint Eastwood", do Gorillaz, que começava seu show no palco principal. Era o primeiro show da banda de Damon Albarn no Japão desde 2001 e um dos mais aguardados do Fuji Rock. As participações especiais do disco novo foram substituídas por projeções sincronizadas dos vocalistas convidados nos telões (de resolução incrível, vale dizer). Deu pra pegar a sequência de "DARE", "We Got the Power", "Stylo", "Kids With Guns" e "Clint Eastwood". Som incrível e público feliz, apesar da chuva que caía de hora em hora. Madrugada adentro ainda rolariam muitos shows, entre eles DJs mais experimentais como Clark, Arca e o ótimo trio japonês Mouse on the Keys, de dois pianos e bateria.

Sábado foi o dia mais lotado do festival. Tanto que o acesso ao palco onde o LCD Soundsystem tocava foi impedido em certo momento, tamanha a quantidade de pessoas na área. Simultaneamente à banda de James Murphy, o Aphex Twin fez um show caótico e incrível no palco principal, durante a chuva mais forte do fim de semana. Um set de uma hora e meia que começou no tecno mais “acessível” e terminou na melhor barulheira glitch (meu show favorito do Fuji Rock). Outro show que impressionou foi o Death Grips. Pesado e denso, como era de se esperar, e muito cheio. Funcionaria melhor se fosse de noite dentro do galpão do palco Red Marquee e não durante a tarde, ao ar livre, mas mesmo sem a atmosfera ideal as pessoas não pareceram se importar. Ao longo do dia, decidi circular mais pelo festival e espiar os artistas japoneses e djs em pequenos palcos (como uma tenda com alguns DJs figuraças, mais velhos, na qual cabia menos de 100 pessoas). Conferi um pouco mais dos shows do Cornelius (cada música parece um show diferente) e Temples (pop psicodélico asséptico e genérico) e também teve Avalanches, Nina Kraviz, Mondo Grosso e Ramona Flowers (dos que estavam na minha lista "a conferir").



Do domingo, meus favoritos foram Björk, Suiyōubi no Campanella, Bonobo e Slowdive. Björk fez o show de encerramento do Fuji Rock acompanhada do Arca como DJ e uma orquestra. Com projeções enormes e mais climático (em grande parte pelos arranjos da orquestra), foi um show baseado no disco mais recente da cantora, Vulnicura (1/3 do set foi dele),  que empolgou efetivamente as massas cansadas de três dias seguidos de shows e caminhadas quando vieram hits como "Jóga", "Hyperballad" e "Bachelorette". Simultaneamente, Thundercat tocava no distante "hippie stage" e o Major Lazer fechava o White Stage (não vi nada desses shows). Logo após o show da Björk, principal atração do dia, grande parte do público começou a ir embora e, entre as muitas atrações que durariam madrugada adentro, a que parecia atrair mais gente era a Suiyōubi no Campanella (às vezes grafado como Wednesday Campanella). Apesar de ser um trio, a vocalista KOM_I se apresenta completamente sozinha no palco, sem DJs ou dançarinos. Defini-la como uma "Bjórk do J-pop" é reducionista, mas não chega a ser uma mentira, apesar de ficar longe de abranger sua sonoridade (que mistura muito rap, diversos subgêneros da eletrônica, música tradicional japonesa e pop eletrônico ocidental, às vezes tudo isso na mesma música).

Mais cedo, conferi brevemente enquanto Lorde lotava o palco principal durante uma versão minimalista do mega hit "Royals" (e bastante sonolenta, diga-se). Quase tão chato quando o show do indie superestimado Real Estate. Se deu muito melhor quem se programou pra ver os shows do Trombone Shorty & Orleans Avenue (dos mais animados do festival), a pedrada depressiva do Slowdive e a estreia do Bonobo acompanhado de banda no Japão. Enquanto o Jet tocava, mais divertido era assistir a versão japonesa do John Cusack discotecar jazz latino ou rodar pelo festival (em uma das tendas de roupas diferentonas, um casal já mais velho me explicou que tinham aprendido algumas coisas em português com um brasileiro professor de capoeira: "chapado de maconha" e "obrigado" era tudo que sabiam dizer).

Aproveitando o fato de que muitas pessoas que foram ao festival precisam passar por Tóquio em seus caminhos de volta (por causa das linhas de trem), é comum ver grandes shows na cidade logo na sequência. Este ano, foi o caso do Sigur Rós, que fez dois shows na cidade nos dias seguintes ao término do Fuji Rock. Dois dias depois, foi a vez dos japoneses do Toe e D.A.N esgotarem os ingressos pra festa de aniversário do Liquidroom. Espaço com capacidade pra mil pessoas, o Liquidroom recebe nomes mundiais em ascensão e bandas de médio porte em suas turnês japonesas. Bandas que são enormes hoje em dia tocaram lá quando começaram a despontar no cenário musical: Beck e Blur (1994), Radiohead (1995), Foo Fighters (1998, que nessa época já era uma banda relativamente grande mas antes de explodir mundialmente com o There is Nothing Left to Lose, de 1999), Coldplay (2002) e outros (puxando pro nosso lado, o Cansei de Ser Sexy tocou lá em 2008). Som e luz são incríveis, a área da plateia tem uma inclinação que permite que você veja facilmente o palco de qualquer ponto e no andar superior (sem acesso ao show) há um café e um grande lounge. Fomos convidados pelos caras do Toe pra assistir a esses shows e isso resultou em uma cena que demonstra a educação dos japoneses: a plateia fica em pé, mas a banda colocou duas cadeiras reservadas pra gente perto da mesa de som, no meio do público. Mesmo com a casa lotada, ingressos esgotados, ninguém se sentou ali e quando informamos que estavam reservados pra nós, ninguém questionou. Outro ponto bastante diferente é que fotos são proibidas nos shows (isso se repete na maioria dos locais maiores em que vi shows no Japão), por uma questão de educação: para evitar que os celulares levantados tampem a visão de quem está atrás querendo ver o palco.

O D.A.N tem apenas três anos de existência e tem crescido bastante no Japão. Originalmente um trio mas um quarteto ao vivo e em algumas gravações, é uma banda de rock alternativo dançante influenciada por math rock. Lembra Foals, mas com composições mais complexas. Show bastante fiel aos discos e que encaixou perfeitamente como abertura para o Toe. Banda de math/post-rck mais conhecida do Japão, fizeram um show irrepreensível. Muito mais enérgico e pesado ao vivo do que em disco, é um show de muita dinâmica e variações, com o acréscimo de um quinto integrante em algumas músicas. Repertório bem dividido, com três músicas de cada disco, exceto do Songs, Ideas, We Forgot, do qual não tocaram nada. O set teve "Goodbye", "After image" e "Esoteric" do For Long Tomorrow, "C" e "Past and language" do The Book About My Idle Plot On A Vague Anxiety, "Run for word" e The Future is now" do EP The Future is Now, "My little wish", "Song silly" e "Because I hear you" do Hear You e "1/21", do EP New Sentimentality. Facilmente, um dos melhores shows que já vi.



Na mesma semana o Guitar Wolf, outro ícone do rock underground japonês, tocou no festival Meteo Night, junto de mais de 10 bandas. A brasileira Carla Boregas, baixista do internacional Rakta, também se apresentou na cidade no período, em um evento de música eletrônica experimental. Na semana seguinte, outro festival reuniria "apenas" Mogwai, St Vincent, Cigarettes After Sex, Ride, Beak>> (dos melhores shows que vi ano passado) e Blanck Mass (projeto de um dos caras do Fuck Buttons). Apesar da grande oferta de atrações e da qualidade dos espaços de shows (até os lugares mais improvisados e pequenos têm equipamentos de som e luz sensacionais), o bolso também pesa. O ingresso pra cada dia de Fuji Rock custava o equivalente a R$ 600 e a média de ingresso pros shows alternativos variava (nesse período) entre  R$ 70 e R$ 100.

31 de agosto de 2017

FELA. Esta vida puta

Sem muito alarde, em 2017 completaram-se 20 anos da morte de Fela Kuti, um dos músicos africanos de maior reconhecimento mundial e criador do termo afrobeat (além de ser seu maior expoente). Após um show da Juçara Marçal com o Cadu Tenório em BH, na Sian - Semana Idea de Artes Negras, me deparei com este FELA. Esta vida puta (Fela, Fela: This bitch of a life) à venda. Lançado originalmente em 1982 e publicado no Brasil pela editora Nandyala em 2011, o livro é resultado de horas de entrevistas do escritor e cientista político cubano Carlos Moore (que vive no Brasil há quase 20 anos) com Fela e pessoas ligadas a ele.

O foco do livro é a vida pessoal de Fela e sua atuação política, com abordagem superficial de sua música - o que de forma alguma torna os relatos, narrados na primeira pessoa, menos interessantes. Incrível como Fela ainda não tenha sido objeto de uma cinebiografia de grande porte (apesar de o livro ter inspirado um musical da Broadway produzido por Jay Z, Will e Jada Pinkett Smith e um documentário). Ele misturou o highlife ganês ao jazz para criar um dos estilos de música mais disseminados no mundo; vivia em uma comuna com dezenas de pessoas que constituíam o que chamavam de República de Kalakuta (que foi invadida pelos militares várias vezes, com relatos terríveis de violência física e sexual por parte dos soldados); chegou a ocupar um prédio inteiro de sua gravadora, com os integrantes de sua organização, quando ela o devia dinheiro; quis ser presidente da Nigéria; foi preso diversas vezes (no geral, por porte de maconha), somando cerca de três anos na cadeia; tinha uma boate chamada Shrine (santuário), onde realizava não só shows mas também cultos; ganhou milhões de dólares e morreu pobre...

A imagem construída no livro é a de uma figura contraditória, às vezes execrável e, outras, exemplo de conduta social e política em busca de uma sociedade mais igualitária. Seus embates com os muitos governos militares que tomaram o poder na Nigéria entre as décadas de 1960 e 1990 (foram sete Golpes de Estado no período) e a luta pela valorização da cultura negra e o pan-africanismo são destacados, mas seus erros e falhas de caráter são parte essencial dos relatos. Casado com 27 mulheres (todas de famílias poligâmicas africanas, exceto uma), praticamente todas relataram casos em que Fela as bateu. Ele acreditava que as mulheres eram inferiores aos homens e dizia que a homosexualidade era "contra a natureza". Sua explicação para a homosexualidade chega a ser engraçada de tão absurda: "Acho que é causado pela comida que eles comem, a alimentação deles. Muita comida industrializada e pouca comida natural. Poluição, religião e alimentação. Essas, eu acredito, são as causas da homosexualidade".

Apesar de ter dois irmãos médicos, Fela era ignorante em relação a certas questões (hoje, básicas) a ponto de não acreditar na Aids e ser contra o uso de preservativos, chegando a fazer uma música sobre isso (ele dizia que preservativos eram mais uma invenção do homem branco ocidental para diminuir a população africana).

Antes de se tornar cada vez mais místico e se perder em teorias de conspirações envolvendo espíritos, Fela representou a anticelebridade politizada que realmente vivia de acordo com as causas que defendia. Como Moore apresenta na introdução, Fela Kuti era um artista político idealista que não se rendeu à indústria cultural:
"Na economia de mercado global dos dias de hoje, em que o excesso de bens materiais e o status social são hiper valorizados, seu inconformismo autêntico contrastava, radicalmente, com a imagem do artista pop contemporâneo. Na verdade, ele poderia facilmente ter feito fortuna, vivendo e criando no exterior e desfrutando da adulação de um crescente exército de fãs no mundo inteiro. No entanto, ele recusou o exílio. 'Ninguém me obrigará a sair deste país', ele avisou. 'Se ele não é digno de se viver, então é nosso dever torná-lo digno'".

Em abril de 1997, o governo do General Sani Abacha, que havia tomado o poder três anos antes em mais um Golpe de Estado, ordenou nova invasão da casa de Fela e sua prisão por porte de maconha, condenando-o a 10 anos de prisão (o real motivo da prisão teria sido as críticas feitas por Fela ao governo, que ele acusava de ser corrupto e injusto). Solto sob fiança em julho do mesmo ano, Fela morreria um mês depois de voltar pra casa. No ano seguinte, o general Abacha morreria após um ataque cardíaco e foi descoberto que mantinha mais de 4 bilhões de dólares no exterior.

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Trecho:
"Se eu quero deixar uma marca no mundo? Não. De jeito nenhum. Sabe o que eu quero? Eu quero que o mundo mude. Eu não quero ser lembrado. Eu só quero fazer minha parte e ir embora. Se lembrar faz parte do lance do mundo, isso é problema deles. Eu vou fazer minha parte. Eu tenho que fazer minha parte. E todo mundo tem que fazer a sua. Não pelo que você vai ser lembrado, mas pelo que você acredita como ser humano É pra isso que todo mundo devia vir ao mundo.  Se você quer fazer as coisas porque quer ser lembrado, você só tá fazendo por motivos pessoais. Faça as coisas simplesmente porque você acredita nelas. Um ser humano devia ser assim.

(Fiquei tentado a colocar um trecho sobre a época em que ele acreditava que espíritos estavam incorporando em suas esposas e que uma delas fosse espiã da CIA, mas, no fim, preferi dar espaço pra um momento mais otimista)

12 de junho de 2017

Kiko Dinucci lança primeiro disco solo em BH

Conhecido por integrar o Metá Metá e o Passo Torto, Kiko Dinucci lança seu primeiro trabalho solo, Cortes curtos, nesta quarta em Belo Horizonte. O disco promove o encontro do samba paulista com o pós-punk da década de 80. A noite também marca os 6 meses de existência do site O Beltrano e uma nova fase do Meio Desligado (sabe-se lá o que vem por aí).

Kiko faz parte da nova cena musical de São Paulo, no mesmo núcleo de artistas como Juçara Marçal, Thiago França, Romulo Froes, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral e Sérgio Machado. Ele também esteve envolvido nas composições e arranjos do disco "A Mulher do Fim do Mundo", de Elza Soares, e "Encarnado", de Juçara Marçal, além de colaborar em discos do Criolo, Tom Zé, Tulipa Ruiz, Rodrigo Campos e Siba.
As canções de “Cortes curtos” são curtas e diretas, pequenas crônicas urbanas do cotidiano caótico de São Paulo. O nome foi inspirado no filme “Short cuts”, de Robert Altman, e as 15 músicas do disco foram montadas como se fossem cenas. Durante os 39 minutos do disco ouvimos as faixas se mesclarem como planos-sequência de um filme.

"Cortes Curtos” contou com Marcelo Cabral (Criolo, Metá Metá, Passo Torto) no baixo e sintetizadores e Sérgio Machado (Criolo, Metá Metá) na bateria. O álbum tamém traz participações de Juçara Marçal, Tulipa Ruiz, Ná Ozzetti, Suzana Salles, Guilherme Held, Thiago França, Rodrigo Campos, Guilherme Valério e Rafa Barreto.


Kiko Dinucci em BH
14 de junho, quarta
A partir das 22h
A Autêntica - Rua Alagoas nº 1172, Savassi, BH
Ingressos: R$ 30 (antecipado) e R$ 40 (portaria)
Venda antecipada na portaria da Autêntica ou no sympla.com.br/quente
Informações no facebook.com/quentequente

8 de junho de 2017

Sobre ser dono de uma casa de shows autorais


Leo Moraes é arquiteto e músico, vocalista e guitarrista da Valsa Binária, criador do estúdio Pato Multimídia (onde alugamos o primeiro escritório da Quente, vale dizer) e um dos três sócios da A Autêntica, principal palco de médio porte para shows autorais em BH desde 2015.

Notório contador de causos e cronista, Leo expandiu esse talento ao Facebook e algumas de suas publicações mais populares são destinadas a desmistificar o cotidiano da manutenção de uma casa de show. Pedi sua autorização pra publicar aqui esses relatos, que reuni abaixo. São depoimentos diretos nos quais ele abre os custos da casa, divide dúvidas dos sócios, propões alternativas e se mostra aberto ao diálogo (qualidade que se estende aos demais sócios casa).


[permita o intervalo pra um breve jabá: nos próximos dias a Quente faz quatro eventos na Autêntica: Jaloo e Disputa Nervosa no dia 9 de junho; Kiko Dinucci lança o ótimo Cortes Curtos no dia 14, véspera de feriado; Gui Hargreaves (prestes a lançar disco) e o baiano Giovani Cidreira (lançamento de seu primeiro disco em BH) no dia 16 de junho; e dia 14 de julho faremos o lançamento do Boca, novo álbum do Curumin]



CUSTOS FIXOS
(29 de março de 2017)

Bom pessoal, vamos lá mais uma vez. A Autêntica tem um custo mensal fixo de aproximadamente 42 mil. Nesse valor estão incluídos aluguel, água, luz, telefone, internet, e folha salarial. Isso significa que abertos ou fechados, com ou sem evento, aconteça o que acontecer, a gente paga 1400 Reais por dia(42 mil dividido por 30 dias). Vamos chamar esse valor de F.

Além de F, temos um outro custo que pagamos pelo fato de fazermos eventos. Inclui aluguel de som, cachê de técnico, segurança, frilas, e ecad. Esse valor por evento (chamemos de E) é de aproximadamente 1500 Reais.

Então, somando F + E chegamos ao valor de 2900 Reais. É isso que custa um dia da Autêntica.

Quando a gente negocia um evento, a gente considera apenas o custo E, pois entendemos que o F tem que ser pago pela venda de bar. Então, na nossa visão, E tem que ser pago pela bilheteria, pois são custos que nós não teríamos se abríssemos só como bar, percebem?

Mas tem um agravante: Quando fazemos eventos com shows, o consumo do bar cai a menos da metade. Então a gente dobra nosso custo (de 1400 pra 2900) e reduz pela metade a nossa venda. Sério, qualquer consultor de negócios ia dizer pra gente parar com esse troço de show.

Agora, imaginem um evento com menos de 100 pessoas. A gente perde duas vezes, em E e em F. É melhor nem abrir.

O que eu gostaria que as pessoas entendessem, é que o escalonamento de bilheteria não é pra gente encher o rabo de dinheiro, nem pra explorar músico, mas pra gente minimizar um pouco o prejú em caso de fracasso do evento. Lembrem-se que a gente basicamente tem 8 dias no mês (as sextas e sábados) pra pagarmos essa conta. Um dia que não vira é um desastre, o buraco demora a ser coberto.

E aqui não estão gastos com produtos, impostos, etc. Não é mole não gente, um pouquinho de compreensão cai bem.


PAGAMENTO DOS ARTISTAS
(21 de novembro de 2016)

Pessoal, mais uma vez venho dividir com vocês umas angústias d' A Autêntica, sempre no esquema papo reto, sem vaselina, como a gente costuma fazer. Quem sabe alguém nos dá uma luz? O desafio agora é conseguir remunerar melhor as bandas quando o evento não vira. Eu já falei disso em posts anteriores, mas vou explicar de novo pra vocês entenderem o problema.

A gente vem trabalhando com um esquema de escalonamento de bilheteria, em que a porcentagem da casa vai diminuindo a medida que o público pagante aumenta. Chegamos nessa forma de trabalhar depois de quebrar muito a cabeça, sempre no intuito de pagar o máximo possível à banda, sem ficar no prejuízo em caso de fracasso do evento. Vou explicar com números.

Cada noite custa pra gente aproximadamente 2.500 Reais. Desse valor, 1.200 são custos diretamente ligados ao show (aluguel de som, técnico, ecad, etc). Ou seja, se a gente quiser abrir sem música, botecão mesmo, o custo cai pra 1.300. Então, pra gente, uma noite começa a ficar boa financeiramente quando a porcentagem da casa na bilheteria chega nesse número mágico de 1.200 Reais.

Então vamos lá, tendo em mente que a capacidade da casa é de 400 pagantes, considerando nossa entrada padrão de 20 Reais, imaginemos os seguintes cenários:

Com 300 pagantes, 6 mil de renda bruta, a casa fica com 40%, ou 2.400 Reais, e a(s) banda(s) levam 60%, ou 4.600 Reais. Gente, vamos combinar que está lindo pra todo mundo, né?

Já num evento com 200 pagantes, que segundo nosso escalonamento está na faixa do 50-50, o total da bilheteria é 4 mil Reais, dos quais 2 mil ficam com a gente. Isso significa meia lotação, e já fica legal pra ambas as partes. A gente paga nosso custo de 1.200, e ainda sobra um lucrinho, e certamente o bar vai vender o suficiente pra cobrir os custos e também dar um lucrinho. Se for uma banda só, leva 2 mil no bolso, ou mil cada uma se forem duas. Não é nada mal, na atual conjuntura.

O problema é quando fica muito abaixo disso. Vamos pegar o exemplo de um evento com 70 pagantes, ou 1.400 Reais de bilheteria bruta. A casa fica com 70%, ou 980 Reais, e a banda leva 420 Reais. 210 cada, se forem duas. A gente tem um prejuzinho, e a banda leva muito pouco. E dá um aperto no coração quando vamos fazer o acerto com uma banda que fez um show maravilhoso e depositamos 210 Reais. O que dá dó nesse cenário, é que um evento com 70 pagantes na Autêntica é lindo! A pista fica bacana, não é noite caída não! Mas não se paga como deveria.

A constatação que a gente chegou é que pra ser bom pra todo mundo tem que ter pelo menos 150 pagantes na casa. Estamos buscando formas de poder aumentar a porcentagem destinada às bandas em noites desse tipo, pra ver se a gente consegue fazer esse tipo de evento continuar sendo viável. Alguns dos melhores shows que vimos na casa tiveram menos que 100 pagantes.

Uma idéia é fazer os shows mais cedo um pouco, e transformar a casa numa balada depois de 00:30. Com DJ's legais, e tal. Pegar um público que não está interessado no show, que chegaria depois. Aí a banda teria uma porcentagem bem maior dos ingressos vendidos até meia-noite, e a partir desse horário a bilheteria seria toda da casa. Tipo dividindo a noite em duas mesmo. Lembro que o Claudao Pilha já fez algo parecido n'a A Obra Bar Dançante, como funcionou isso, Claudão? E Anderson Foca, Letícia Rezende, Ricardo Rodrigues, Mancha, Andre Araujo, como vocês lidam com isso? Olha eu aqui, pedindo ajuda aos universitários. kkkkkk

E um comentário no mesmo post:
A gente vem experimentando com esse formato da banda garantir um mínimo pra casa, e não o contrário. Tipo, os primeiros 1200,00 serem para a casa, e a partir daí a banda ficaria com 80% da bilheteria, por exemplo. A galera que confia mais no próprio taco gosta, pois eles têm a possibilidade de ganhar mais, pois sabem que o evento vai virar. Mas tem gente que fica ofendida com esse tipo de proposta. Pra você ter uma idéia, tem gente que questiona por que que abaixo de 40 pagantes a bilheteria fica toda pra casa. Tipo, se você está com medo de não ter 40 pessoas no evento, talvez esse evento não tenha que ser em uma casa pra 400 pessoas. Sério, não dar nem 10% da lotação é duro. E a gente vê que muita banda tem aquela percepção de achar que tem que ser contratada pra tocar, e não encarar aquilo como um empreendimento em parceria com a casa, saca?


MODELOS DE FUNCIONAMENTO
(18 de agosto de 2016)

No embalo do post anterior, e motivado pela provocação do amigo Thales, vou expôr mais um pouquinho do que a gente vem percebendo nessa aventura louca que é A Autêntica. Nesse ramo de casas shows, existem dois modelos básicos de negócios.

1-A balada;
2-O espaço de eventos;

As fontes de arrecadação são diferentes entre os dois modelos, mas principalmente a relação entre o estabelecimento e o artista é muito diferente.

Na "balada" as fontes de arrecadação são a bilheteria e o consumo. O objetivo aqui ter um grande número de pessoas que paguem pra entrar, e que consumam no bar. A casa é a produtora, e o músico é visto como um prestador de serviços, que vai contribuir para atrair essas pessoas ao estabelecimento. O sonho é que a casa conquiste um público que não dependa do artista, que frequente a casa independente da atração musical. Se eu sou o dono, e sei que todo sábado eu terei 400 pessoas pagando 30 reais, não importa quem esteja no palco, eu posso estabelecer um cachê fixo de, digamos 3000 reais, que ainda sobram 9000 reais de bilheteria limpos. E se as pessoas não estão indo pela atração musical, estão indo por outro motivo, que costuma ser paquerar, dançar, beber, comer, etc. Dificilmente o público vai ter a atenção desejada por artistas autorais, uma vez que a música ali é entretenimento puro. Mas o risco é inteiro da casa, caso o público não apareça. O Circuito do Rock opera nesse modelo.

No caso do "espaço de eventos", a fonte de arrecadação é o aluguel do espaço. O cara tem um imóvel, que pode ou não contar com estrutura de luz, som, bar, etc, e ele aluga o espaço para produtores que querem trazer artistas, artistas que querem lançar discos, etc. O artista é o contratante, e não o prestador de serviços. Uma vez alugada, o risco da casa é zero. Se lotar, ou se não for ninguém, não faz a menor diferença. É o do produtor/artista que está na reta, cabe a ele promover e divulgar o evento. Em caso de sucesso, a bilheteria é toda dele; em caso de fracasso, o preju também. Teatros costumam funcionar assim, bem como casas como o Music Hall e Chevrolet Hall.

A grande dificuldade de locais como A Autêntica, o Matriz, como era o saudoso Lapa Multshow, é que esses operam em uma área cinza, que é um híbrido entre esses dois modelos. E pra complicar, como sempre tentamos ser o mais flexíveis o possível nas negociações, essa relação entre a casa e o produtor/artista varia de evento pra evento. A maneira como nós enxergamos a maioria dos casos, é uma relação de sociedade entre a casa e o artista. Ambos os lados assumem os riscos e as responsabilidades pelo sucesso do evento.

Esquematizando:
Na balada, o artista tem público e cachê garantidos e risco zero, mas como não é ele quem traz o público, não pode exigir bilheteria.

No espaço de eventos, o artista paga o aluguel da estrutura e assume o risco total, mas se der certo leva a bolada toda.

No modelo híbrido, a casa entra com a estrutura, como se estivesse pagando o aluguel, e o artista com o show. O risco é dividido. Portanto é justo que o lucro seja dividido também. A bilheteria progressiva é uma boa forma de fazer essa divisão. Como o risco direto em dinheiro é maior por parte da casa(*), é natural que em caso de prejuízo uma parte maior da bilheteria vá pra amortizar isso; no caso de lucro, como a venda do bar não é dividida com o artista, é justo que uma porcentagem maior vá para ele. Basicamente, quando dá certo é bom pra todo mundo, o difícil é dividir o prejú.

Só esse mês tivemos a felicidade de fazer repasses de bilheteria superiores a 5 mil reais pra duas bandas locais que fizeram eventos aqui. Se somar nossa porcentagem da bilheteria com o lucro do bar, é mais ou menos o mesmo valor que entrou pra gente nos eventos. Justo. Todo mundo ficou feliz. O chato do discurso de "a bilheteria tem que ser toda do artista" é que na prática isso significa que, se der ruim a casa assume o rombo sozinha e, se der lucro o artista ganha tudo. É querer o bônus dos dois modelos, sem o ônus de nenhum.

Já tiveram vezes que a gente alugou a casa, o evento virou bonito, e ficamos pensando "nó, se tivéssemos feito porcentagem de bilheteria teríamos ganhado muito mais". Mas entendemos que é o preço de abrir mão do risco. O fixo do aluguel nos deu tranquilidade pra planejar o pagamento de compromissos. E o produtor que assumiu o risco alugando a casa se deu bem, merecidamente. Se tivesse dado errado estaríamos tranquilos e o abacaxi estaria com ele.

Aí, Thales, mais uma vez a perspectiva do empresário :-D. Mas repare que não estou culpando o artista por nada, apenas explicando o porquê da porcentagem de bilheteria.
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(*) Uma vez eu falei isso pra um produtor, e ele argumentou que a banda tinha investido muito dinheiro na gravação do disco, e que tinha custos com ensaios, manutenção de instrumentos, etc. Pessoalmente acho que isso não deve entrar na conta de um único evento. Seria o mesmo se falássemos do quanto investimos na obra, fazendo a reforma, comprando equipamentos, dando manutenção nos banheiros, etc.


PREÇO DA CERVEJA
(17 de agosto de 2016)

"Leo, a cerveja n' A Autêntica está muito cara."

Não, não está. Vamos lá, desenhando. A long neck lá está custando 8 Reais, mas se você comprar o combo de 5 por 35, cada uma sai a 7 Reais.

Lembram do meu outro post, em que eu explico a história do ticket médio? Recordando, o ticket médio é o quanto o bar vendeu, dividido pelo público presente. O nosso gira em torno de R$15,00. Então, a lógica é a seguinte, imagine a pessoa que chega lá com a intenção de beber múltiplos de 5 cervejas. Ela está disposta a gastar mais do dobro do nosso ticket médio, então podemos reduzir nossa margem. Dá pra ganhar na quantidade. Agora, se você é nosso cliente médio, e vai lá mais pra curtir o show, ficar umas quatro horas na casa, e tomar duas cervejas, a sua conta vai ser de 16 Reais. Você vai pagar 1 Real "a mais" em cada uma das suas duas cervas. Vamos combinar que 2 Reais a mais ou a menos numa noitada é quase nada, né? Mas pra gente é muito. Numa noite com 100 pessoas tomando duas cervejas, esse Realzinho a mais significa 200 Reais a mais no nosso caixa, o que paga a diária de dois frilas. Vocês não fazem idéia da diferença que isso faz.

"Mas o ambulante que fica lá na porta vende o latão por 6 Reais, véi."

A gente compra a long neck por 3,69 cada. Vendendo a 7,50 (média) temos um "lucro" de 3,81. O cara compra o latão por 3,19. Vendendo por 6 ele tem um lucro de 2,81. A diferença é que o dele é lucro, o nosso é "lucro", entre aspas. Ele pega esses 2,81, enfia no bolso e é isso. No máaaximo ele compra um saco de gelo, põe 20 conto de gasolina, e esse é o custo operacional dele. Dos nossos 3,81 a gente tem que pagar aluguel, salários, água, luz, impostos, taxas, encargos, etc. A gente basicamente abre a casa devendo 2 mil reais todo dia. Faz a conta aí pra ver quantas cervejas temos que vender pra chegar no zero a zero. Esse real que você "economiza" comprando do ambulante, e não da casa que está te proporcionando o show que você está assistindo, faz muita falta pra gente.

"É, mas eu sei que nos destilados e na comida a margem de lucro é muito mais alta."

Verdade. A gente até tentou estimular a venda desses produtos criando um cardápio incrível de drinks. É legal, mas sabe o que descobrimos? Nosso público é cervejeiro. Nós somos cervejeiros. Cerveja representa 70% das nossas vendas. O segundo lugar é água (!!!) com quase 15%. Então, mesmo a margem sendo boa, a quantidade de vendas não é suficiente pra que isso tenha um impacto significativo na receita.

Então é isso, galera. Comprar cerveja de ambulante na porta de show independente é paia demais, e 8 Reais numa long neck, se você vai tomar só uma ou duas, é honestão.


MERCADO MUSICAL
(19 de maio de 2016)

Textão chatão sobre mercado musical. Mas pra quem é da área vale a pena :-)

Outro dia eu fiz um post dizendo que o "você vai divulgar seu trabalho" está para o músico assim como o "você vai ganhar no bar" está pra casa de shows. Várias pessoas vieram conversar comigo me questionando sobre isso, e percebi que de fato existe uma visão equivocada sobre a realidade financeira do nosso negócio. Então resolvi escrever um relato mais detalhado sobre alguns pontos.

Existe uma percepção generalizada na classe musical de que o artista é sempre o elo mais fraco da cadeia, e que todo mundo ganha em cima do seu trabalho, explorando sua vontade de produzir. É uma frustração compreensível com o atual estado do cenário musical, decorrente da desvalorização do produto musical, que se seguiu à revolução digital. Napster, fim das gravadoras, blá blá blá. Aquele assunto que todo mundo já cansou de discutir. Sou artista, também estou desse lado, sei muito bem como é.

Hoje, com mais de um ano de experiência de Autêntica, eu posso dizer que tenho uma visão bem mais ampla do que significa investir e trabalhar com música, não apenas com a visão do artista. E com a autoridade dos médicos das piadas afirmo: "Tenho boas e más notícias."

Primeiro as más. Ninguém está te explorando e ganhando dinheiro em cima do seu talento e trabalho por um simples motivo: ninguém está ganhando dinheiro com música! Uma coisa que ouvimos com frequência é que a bilheteria tem que ser toda do artista, já que a casa vai ganhar no bar. Vou compartilhar com vocês alguns dados que detectamos aqui na Autêntica em 2015.

Tem um conceito usado na administração de bares e restaurantes que é o "ticket médio". O ticket médio de um evento nada mais é do que o total arrecadado pelo bar dividido pelo número de pessoas presentes. Ou seja, quanto cada pessoa gastou, em média, na noite. Não inclui a bilheteria.

Pra vocês terem uma idéia, o ticket médio da Autêntica em noites de shows foi de quase R$15,00. Isso é ridiculamente baixo. Quando foi a última vez que você sentou numa mesa de boteco e a conta veio menos de quinze reais? Agora outro dado interessante. Em noites de festas, sem show, com DJ's, o ticket médio foi de R$48,00. (!!!)

Existem alguns fatores que explicam essa diferença tão grande, mas acredito que o principal seja o fato de que a pessoa que vai a uma festa, vai com a intenção de curtir a balada, beber, paquerar, dançar, etc, enquanto a pessoa que vai a um show vai para assistir a um espetáculo. Não é incomum termos um número grande de cartelas em branco em noites de show. Gente que veio e não comprou nem uma coca-cola. Por um lado, isso demonstra um interesse do público desses eventos no que realmente importa, que é o show, mas para a casa o resultado de vendas do bar é desastroso. Mas uma coisa é certa:

O bar vende MUITO mais quando não tem música ao vivo.

Sem contar que para o show nós temos que pagar aluguel de som, de backline, e cachê do técnico de som, custos que não temos quando é festa. E na festa o ingresso é mais caro, ninguém pede meia, e quase não tem cortesias. Basicamente a opção por trabalhar com cultura faz com que a gente se ferre por todos os lados.

É por isso que precisamos do dinheiro da bilheteria. E a idéia da divisão progressiva (quanto maior o público, maior a porcentagem que vai para o artista) foi a forma mais justa que encontramos pra fazer a divisão. Nossos custos são muito altos, e a margem é tão apertada que basta um fim de semana fraco para jogar nosso mês no vermelho. Então, quando fizer um show e receber 30% da bilheteria, não pense "estou sendo explorado, a casa vai ficar com 70%". Pense "puxa, a noite foi meio fraca, consegui salvar uma graninha pra ajudar nos custos, e a casa minimizou o prejuízo e vai poder continuar existindo. E na próxima, quem sabe, a casa enche e eu é que ganho 70%."

A boa notícia é que a gente já vem observando uma sensível melhora, as noites fracas estão cada vez mais raras, e já estamos entendendo bem melhor a dinâmica do negócio. E vamos continuar firmes na proposta da música contemporânea, pois é pra isso que abrimos, é o que amamos, e é o que sabemos fazer. Só que às vezes dá uma certa aflição com a falta de empatia por parte de alguns, que parecem nos ver como "a indústria", como se estivéssemos rachando de ganhar de dinheiro e amarrando migalhas para os artistas. Mas acho que é falta de entendimento mesmo, ninguém é obrigado a conhecer os números de uma casa noturna, é normal tirar conclusões sem ter uma compreensão de todos os fatores. Acredito que com transparência e boa vontade a gente consegue ir aparando essas arestas.

Por favor entendam que não é mimimi, é uma tentativa de abrir um pouco pra vocês a nossa realidade, pra que fique claro que não existe lado de cá e lado de lá, é tudo um lado só. O que a gente quer é ampliar o público interessado em música nova, proporcionar experiências legais para os músicos, e contribuir para o fortalecimento desse mercado. Ou seja: tamo juntos!

1 de maio de 2017

Residência Imersão Latina

Projeto legal (e raro), a Residência Imersão Latina está recebendo inscrições de artistas latino-americanos interessados em passar um período de três semanas de criação artística colaborativa em Belo Horizonte. Serão selecionados quatro artistas da área musical, nascidos ou residentes na Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, México, Panamá, Paraguai, Peru ou Uruguai. Ao longo do processo serão realizadas apresentações em BH e ao final será lançado um disco e um documentário de registro do processo de trabalho coletivo.

Esta é a segunda edição do projeto e as inscrições vão até o dia 14 de maio, online. Os selecionados terão as passagens de avião para BH pagas, hospedagem e alimentação durante o período de realização da residência artística (9 a 29 de julho de 2017).

Fui convidado a criar a identidade visual do projeto este ano e a peça abaixo é a principal de divulgação dessa fase de inscrições.


24 de abril de 2017

Não é que as pessoas não entendem sua música. Talvez elas simplesmente não gostem dela (e isso é ok)

Conversando com um jovem produtor um tempo atrás ele me perguntou o que eu achava de determinado artista. Eu disse que tinha sido um dos piores shows que vi nos últimos anos, um som tão medíocre que tinha seu valor justamente por ser tão ruim - afinal, ao menos provocou alguma reação, considerando que uma das piores respostas à arte pode ser a apatia em relação a ela. "Pois é, não consigo ouvir muito. Acho que não entendi ainda. Mas é legal", ele disse, um pouco envergonhado. Achei a fala estranha na época mas não dei muita importância. No entanto, nos últimos meses tenho reparado o argumento do "você não entendeu" como constante resposta a críticas, principalmente entre o público mais jovem. Isso leva a algo maior.

Apesar de ser reproduzido principalmente pelos millennials, é algo que não se restringe unicamente aos jovens. As redes sociais têm fortalecido as manifestações narcisistas e egocêntricas e as bolhas cognitivas: as pessoas falam sobre si mesmas e para seus semelhantes, discordâncias e diferenças são exceções. Nesse contexto, opiniões dissonantes são alvo de um verdadeiro bullying digital. Ou linchamento virtual, pra ser mais assertivo. E não só referente a questões políticas e sociais, mas também na música.

O que percebo é uma estratégia (talvez até inconsciente, às vezes) por parte de artistas e fãs de calar qualquer opinião divergente através da opressão, da desqualificação do argumento crítico. "Você não entendeu" é a manifestação mais comum e intelectualmente carente. Reflexo de uma geração que não aceita críticas e as leva para o lado pessoal (mais um sinal narcisista).

Nossos gostos são subjetivos e resultado de nossas experiências pessoais. Cada detalhe de nossas vidas influencia nisso: onde nascemos e crescemos, classe econômica, esfera social, aparência, o que lemos, ouvimos e assistimos, o que nossos amigos fazem, o clima na cidade... enfim, a lista é infinita. É reconfortante encontrar pessoas que compartilhem os mesmos interesses e gostos, a mesma (ou semelhante) visão de mundo que temos. Mas é importante ir além e ultrapassar esses limites não só para buscar novos e diferentes conteúdos mas também pra entender melhor o outro. Aquele que é diferente de você.

Nossas experiências também são fundamentais na forma como interpretamos a música (e o mundo em geral) porque a arte é essencialmente incompleta até que alguém a interprete, já dizia Walter Benjamin uns 50 anos atrás. É a partir do que somos/estamos que interpretamos a música, que a sentimos. Por exemplo: é normal que uma pessoa muito jovem goste de artistas limitados musical e conceitualmente, com letras sobre conflitos existenciais da adolescência, por se identificar naquele contexto. Assim como é natural que pessoas com mais referências e experiências sintam-se imersas no loop cultural infinito e possam responder aos mesmos artistas com repulsa. Não há certo ou errado a não ser na abordagem maniqueísta (essa sim, um erro).

São várias as metáforas possíveis e uma delas (apesar de ruim, confesso) é a de que a música gravada seria como uma estrada cujas características são bem definidas e definitivas (afinal estamos falando de algo gravado) mas que se reconstrói em diferentes lugares de acordo com quem a escuta. O caminho é definido, está ali registrado, mas cabe a cada pessoa escolher pra onde olhar ao longo do percurso e aonde chegará depende de ambos, artista e ouvinte. Não é que as pessoas não entendam esse processo. Pode ser que hoje elas simplesmente não se sintam tocadas por determinada obra, aquilo não provoque o sentimento almejado pel@ artista. E, novamente, não há problema nisso. Dá pra dizer, por outro lado, que haveria uma relação com o famoso isentão. Na música, ele não afirma que não gosta. Apenas "não entendeu" ainda. Seria um resultado do patrulhamento da opinião online, 1984 nos blogs de música, olhem que merda. Talvez o único erro (questionável) em questão seja esconder-se atrás do argumento de "não entender" determinado som, de não manifestar uma opinião própria sem medo de ir contra o consenso do seu círculo relacional ou das mídias que te influenciam em busca de identificação social com seus pares em vez de expressar essa maravilha singular que todos temos que é o cu gosto pessoal.


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Pessoas com transtorno de personalidade narcisista são descritas no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders como aquelas que têm grande necessidade de admiração, senso inflado em relação a própria importância e que escolhem as amizades de acordo com seu prestígio e status. Dá pra montar um festival (ruim) só com pessoas com essa descrição, uh?

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Do texto na Carta Capital ("A bolha do Facebook e a astúcia do capitalismo") que linkei anteriormente: "Com os algoritmos, descobrimos que a mercadoria somos nós, nossos pares de olhos (a mais-valia da sociedade da hipervisibilidade), nossos desejos. Os desdobramentos disso já se fazem sentir: homogeneização das identidades, padronização de gostos (com a Netflix nos indicando filmes porque nosso amigo assistiu), empobrecimento da curiosidade cultural..."

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Uma matéria interessante do The Guardian sobre o narcisismo da juventude atual tem relação com o que aponto aqui. Nessa faixa etária (a matéria cita entre 17 e 21 anos) as pessoas seriam mais influenciadas pelas opiniões de seus pares pra criar uma impressão positiva e assim fazerem partes de grupos sociais que substituam a vida com os pais. Daí a ausência de opinião própria em troca de um consenso (no caso, sobre gostos musicais).

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Foda ter que explicar isso, mas deu pra sacar que o "maravilha singular" na última frase era uma piada, né?

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Pra encerrar: as pessoas estão realmente mais egocêntricas e narcisistas (minha opinião) ou temos essa impressão porque mais pessoas publicam conteúdo online agora? A quem interessar, mais uma matéria sobre o tema.

17 de março de 2017

Uma trilha pra viajar


Aproveitando que agora rola de usar o Spotify dentro do Waze (e vice-versa), uma playlist especial pra ≈viajar≈ ouvindo (ou ouvir ≈viajando≈). São 101 músicas, quase 10 horas de psicodelícia (tentando fugir de obviedades). Gringos e brasileiros misturados, daquele jeito.

11 de fevereiro de 2017

Pin Ups de volta e com show em BH


A paulistana Pin Ups foi criada em 1988 e se tornou um dos principais nomes do underground nacional nos anos 90. Elogiada por gente como Dave Grohl e Kurt Cobain, a banda tocou com ícones indie como Pixies e Superchunk. Após anos parada, a banda se reuniu para uma apresentação lotada no Sesc Pompeia no fim de 2015 e agora retoma as atividades na Obra, em BH, dando sequência aos shows que fizeram no festival Bananada e na Virada Cultural de São Paulo em 2016. A formação atual da banda é Alê Briganti (voz e baixo), Zé Antônio Algodoal (guitarra), Adriano Cintra (guitarra / ex-Cansei de Ser Sexy, Thee Butchers Orchestra, Madrid) e Flávio Cavichioli (bateria / Forgotten Boys, Corazones Muertos). O show de BH acontece dentro da programação do Tremor, festival criado para marcar os 20 anos da Obra, famoso inferninho da capital mineira. O projeto já recebeu bandas como Autoramas, Ludovic, Pequena Morte e Vivendo do Ócio e segue até junho, quando a Obra comemora seu aniversário.

 A abertura do Pin Ups será feita pela Miêta, banda indie que apesar do pouco tempo de formação (foi criada em 2015 a partir de um post no Facebook) já realizou algumas turnês pelo país. Representante do rock feminino de BH, a banda mistura dream pop, shoegaze e indie e prepara seu primeiro disco.

8 de fevereiro de 2017

Uma prévia do novo disco do Minimalista

Programado para ser lançado dia 13 de março, Banzo é o segundo disco do Minimalista, projeto solo do Thales Silva (também vocalista da A Fase Rosa e do bloco Juventude Bronzeada, um dos maiores de BH). É um disco mais complexo e denso que o anterior, lançado aqui no Meio Desligado há quase três anos. Dois singles já lançados dão uma ideia do que está por vir: "O peso", colaboração com Gui Amabis, e a manochaoana "Branquinha". Dos melhores lançamentos desse início de ano.

22 de janeiro de 2017

O que vi ao vivo em 2016

Essa é uma playlist bastante pessoal, parte de um registro particular que mantenho desde 2014 anotando todos os shows aos quais assisto. Em 2016 foram 196 shows (quase como um show dia sim, dia não), cujos artistas estão reunidos na ordem cronológica em que os vi na playlist abaixo. Para mim, marca parte de como foi o meu ano, por onde estive e o que fiz. Aqui, no blog, serve como um exemplo do que era possível acompanhar ao vivo em 2016 e um recorte das bandas ativas nesse período (principalmente na cena alternativa brasileira).

Abaixo destaco, a partir das minhas anotações na época dos shows, alguns dos meus favoritos:

- SUUNS (Sala Apolo e Parc Del Forum) _ "dos shows mais incríveis que já vi. segue a estética do health e battles só que mais industrial e dark"
- BEAK > (Barcelona e Porto) _ "minha maior surpresa no festival. hipnótico e dançante, krautrock contemporâneo com raízes no Portishead"
- RADIOHEAD (Barcelona)_ "pra mim, sem dúvida uma das melhores bandas da história. incrível como o som mudou em comparação com as bandas que tocaram anteriormente no mesmo palco. as músicas do 'a moon shaped pool' funcionaram bem ao vivo, ao contrário do que eu imaginava"
- TY SEGALL AND THE MUGGERS (especificamente o show da Sala Apolo, em Barcelona. O do Parc Del Forum vi só um pedaço e o de Porto foi mediano) _ "foda. alta velocidade o tempo todo. deathpunk ao estilo Turbonegro com um visual Village People e Frank Zappa. Ty é como um Iggy Pop da geração instagram"
- BATTLES (Porto, porque o de BCN foi ruim - a banda errou bastante lá) _ "deve ter sido a primeira vez que chorei durante um show instrumental. é a trilha de uma hipotética luta entre homens e máquinas em um futuro pós-apocalíptico. a gravação dos loops ao vivo é de uma fragilidade que usa pequenos 'erros' como elementos pra construir a singularidade de cada show da banda"
- PJ HARVEY (BCN e Porto) _ "poucos hits no repertório. atmosfera mais sombria. show mais bonito que já vi em termos de imagens ao vivo no telão"
- JOHN CARPENTER (BCN) _ "primeiro show dele. musicalmente, é um pré-industrial com hard rock, não lá muito original. as projeções de trechos de filmes do diretor funcionaram muito bem, público delirou"
- FLOATING POINTS (Porto) _ "daqueles shows que valeriam, por si só, todo o festival"
STEVE SHELLEY + GATA PIRÂMIDE (CCSP) _ "cerca de meia hora de show apenas, mas valeu por um festival. mistura as músicas mais agitadas do Sonic Youth com o início do Hurtmold e o Diagonal"
- TORTOISE (Porto) _ "começou estranho, como se algo estivesse fora do lugar, até que você se percebe imerso no som sem saber como chegou ali e não quer que aquilo acabe"
- KAMASI WASHINGTON (BCN) _ "tive receio por causa do hype mas ele se justifica. os hipsters não duraram o show inteiro, o rockdelux estava entupido no início e foi esvaziando"
- OCEANIA (Autêntica) _ "15 anos depois do show do Diesel no Rock in Rio, a energia do público ao ouvir as músicas da banda foi sensacional. expectativa boa pelo que o Oceania vai produzir"
- AVA ROCHA (no Coquetel Molotov BH, o do Popload Festival vi pela metade)
- DEERHOOF (Coquetel Molotov BH e Recife) _ "muito melhor ao vivo do que gravado. experimentalismo com punch"
- CIDADÃO INSTIGADO (Autêntica) - "até então meu show favorito do Música Quente (atualização: foi sim meu favorito). pesado, enérgico, boa escolha de repertório, mesmo sem tocar alguns hits"
- NELDA PIÑA E BOGOTÁ ORQUESTRA AFROBEAT (Latino Power)
- RAKTA (Coquetel Molotov) _ "justifica todo o burburinho. música experimental enérgica e sombria"
- METÁ METÁ (Autêntica) _ "duas noites seguidas, ambas lotadas. a primeira, com repertório mais animado e distorcido. só ao vivo reparei como os elementos percussivos cresceram progressivamente ao longo dos álbuns"
- LES DEUXLUXES (Centro Cultural Rio Verde e Breve) _ "dupla de duas guitarras e bateria. sujo, cru. entre o rock de garagem e rockabilly"
- SANDRA KOLSTAD (Centro Cultural Rio Verde) _ "metronomy + bjork. pena que as músicas novas ainda não foram lançadas"
- CAETANO VELOSO (Inhotim) _ "a produção do festival foi desastrosa, mas assistir a um show do Caetano voz e violão, de perto em Inhotim, é algo pra ficar marcado na memória"