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24 de março de 2015

Atualizações do @indicamusica

falei do @indicamusica por aqui e aproveito para dar uma atualizada com alguns dos últimos discos enviados por lá. Siga a gente no Instagram!
 

Keep Razors Sharp (2014)
@KeepRazorsSharp é uma das melhores surpresas a surgir de #Portugal nos últimos tempos. O homônimo disco de estreia da banda foi lançado em #2014 e a coloca próxima de bandas como #TheeOhSees, revisitando o #shoegaze com influências de #rockpsicodélico e #grunge. Quem gosta de #SonicYouth e dos trabalhos solo do #ThurstonMoore pode ouvir sem medo.

(Por Flora Pinheiro)
Ava Rocha _ Ava Patrya Yndia Yracema (2015)
Em tempos de avanços tecnológicos e a facilidade de se disponibilizar o próprio disco na web é impossível conseguir ouvir tudo que é lançado. Assim, pode acontecer de alguns trabalhos interessantes se perderem na imensidão de links. Foi o que aconteceu com @avarocha. Eu já até tinha ouvido falar da moça há alguns anos, mas como todo dia sai álbum novo, nunca havia parado pra ouvi-la. Eis que nesta semana pulou na minha tela o link para o segundo disco da carioca, lançado agora em março. Já na primeira música fiquei encantada com o timbre grave da moça (de longe me lembrou a mineira @julianaperdigao mas as duas têm propostas diferentes). Em outras músicas chega a ser doce (como na canção “Transeunte Coração” que me lembrou @barbaraeu. Cada faixa é uma viagem sonora completa: mexe com suas emoções e te leva pra outro patamar. A minha preferida foi “Mar ao fundo”: no começo é leve e com poder de calmaria. Da metade em diante, aquele pacote com guitarras distorcidas . O disco homônimo “ Ava Patrya Yndia Yracema” (nome completo da cantora) desenhado, experimental, belo e transcendental. Em um ano que está no terceiro mês e que já tivemos vários novos trabalhos, o novo de Ava está em primeiro lugar no meu ranking pessoal. (E se o sobrenome “Rocha” te fez lembrar Glauber, sim ela é filha do homem).

E um gringo:



Goat _ Commune (2014)
A ausência deste #Commune na maioria das listas de melhores do ano de #2014 reforça a irrelevância das mesmas e a necessidade de se buscar novos artistas por outros meios. Segundo álbum de estúdio da banda sueca #Goat, Commune é #rock psicodélico com percussão africana e influências de música indiana, a trilha sonora pra rituais de #hippies modernos que amam #fuzz e tambor. É o #TheDoors tentando tocar#afrobeat junto do #APlacetoBuryStrangers#RaviShankar colando com o #TheGoTeam. Poucas vezes nos deparamos com um disco tão bom e diferente quanto esse. Todas as músicas são boas, mas "Goatslaves", "Hide from the sun", "Goatchild" e "The light within" sintetizam bem a sonoridade da banda. Quem se interessar também deve ouvir o primeiro disco deles, #WorldMusic, que tem o hit "Run to your mama".

19 de março de 2015

Alta ajuda

Alta Ajuda, de Francisco Bosco, é um livro de filósofo punheteiro. Em geral, Bosco parte de suas próprias experiências e fala de si mesmo supostamente para tentar entender o outro. Egocentrismo e certo pedantismo à parte, a coletânea de textos publicados por Bosco em jornais e revistas (reescritos para a publicação do livro) possui boas reflexões e análises. Quando deixa de falar de si mesmo e passa a observar as experiências ao seu redor com maior desapego, interpreta a vida cotidiana com sensibilidade e seu grande repertório teórico enriquece a escrita.

Música popular, arte moderna, futebol, ocupações em favelas e relacionamentos são alguns dos temas abordados. Usa o caso Belchior, por exemplo, para tratar da sociedade de controle - reforçada pela(s) mídia(s) - em que vivemos. "Estamos trancados na realidade, ao ar livre, gradeados por milhares de olhos que nunca fecham", escreve. Ou, ao analisar o ato da escrita (os motivos de quem escreve e de quem lê) e sua relação com a publicidade, crava: "A publicidade, assim, diz respeito ao que o sujeito é. A arte (como o pensamento), está interessada no que o sujeito pode ser."

"Não há sol a sós" (reproduzido abaixo), sintetiza o que é apresentado em Alta Ajuda e é um de seus melhores momentos. 

A alegria e a tristeza são os dois afetos fundamentais. A alegria é o que aumenta a nossa potência de agir, como se fosse a imagem invertida da alegria. Pertencente à família da alegria, a esperança, por exemplo, "é uma alegria inconstante, nascida da imagem de uma coisa futura, de cujo acontecimento nós duvidamos", mas que desejamos. Ao contrário, filiado à tristeza, "o medo é uma tristeza inconstante, nascida da imagem de uma coisa também duvidosa", mas que tememos. Essas ideias estão na terceira parte da Ética, de Espinoza, "o príncipe dos filósofos", segundo Deleuze. Nela, numa arquitetura rigorosa, os afetos são dispostos como diante de um espelho. Podemos acrescentar a esses pares invertidos a admiração e a inveja. Esses fatos designam dois modos de olhar: um deles produz alegria; o outro, tristeza. É um dever existencial de cada sujeito fazer com que o olhar admirativo prevaleça sobre o olhar invejoso.
A palavra ‘invejar’ vem do latim ‘invidere’. É composta pelo prefixo ‘in-‘, mais o verbo ‘videre’, de onde vem o nosso ‘ver’. O prefixo latino ‘in-‘ pode ser tanto uma função privativa (como em ‘incrível’), quanto designar um ‘movimento para dentro’, para o interior de algo. Creio ser este segundo caso seu significado em ‘inveja’ que, portanto, quer dizer um olhar que vai para dentro de alguma coisa. Invejar alguém é desejar ocupar o lugar do outro, é desejar ser o outro, é desejar anular o outro, deixar de vê-lo e ver a si mesmo em seu lugar. A expressão popular tem precisão cirúrgica: é o olho gordo, o olho com fome, o olho que engole o outro.
Já ‘admirar’ se refere ao modo contrário de olhar. ‘Admirari’, em latim, reúne o prefixo ‘ad-‘, mais o verbo ‘mirari’. O prefixo ‘ad-‘ significa ‘em direção a’, ‘aproximação’. Admirar, portanto, é o olhar que se aproxima de algo, que vai em sua direção. A diferença entre o movimento para dentro (inveja) e o movimento de aproximação (admiração) é decisiva. O olhar que admira não deseja tomar o lugar do outro. Sua condição primeira e sine qua non é reconhecer a existência do outro. Ele se aproxima do outro, do ser admirado, mantendo a distância para que este exista.
A inveja é um olhar que deseja eclipsar o ser invejado. Pressupõe a admiração, pelo menos em um estado latente: o invejoso deseja aniquilar aquele cujo brilho ele reconhece. Não se inveja qualquer pessoa, nem tampouco todas as pessoas invejarão as mesmas pessoas. A inveja obedece a critérios que a psicanálise chamaria de imaginários. Por imaginário não se deve entender alguma coisa da ordem da imaginação, no sentido do que não existe realmente. O imaginário é o registro do nosso psiquismo onde se situa a imagem de nós que nós gostaríamos de ser, ou que gostaríamos que os outros vissem. A minha autoimagem tem tais e tais características, que eu me esforço para realizar em mim. É o que nos leva à inveja.
Estaremos expostos à inveja quando estivermos diante de alguém que realiza em si, a nosso ver, as características da nossa autoimagem. Um ator dificilmente invejará um campeão mundial de natação – mas sim o ator que está no camarim ao lado, e que é protagonista da peça em que ele é coadjuvante. Há, assim, uma lógica da inveja. Mas o que importa é sua ética.
A inveja detém o estatuto do ridículo. Pois é uma cena psíquica solitária, de que na maioria das vezes o outro, invejado, nem sequer fica sabendo. É uma luta sem adversário, vã. Ou ainda, uma luta em que o adversário é o próprio eu, que necessariamente sairá perdendo. Nunca se conseguirá ser o outro invejado anulando-o, real ou imaginariamente.
Além de triste, a inveja é também burra. Vedando-se ao brilho do outro, ela se fecha à possibilidade de alimentar-se desse brilho. É aqui que entra a superioridade – moral, existencial e intelectual – da admiração. O olhar que admira se aproxima do outro a fim de reconhecer-lhe as qualidades, identificá-las e procurar emulá-las. Emular é uma bela palavra. Ela designa a ação por meio da qual procuramos estar à altura do que reconhecemos como bom. A admiração exige uma capacidade perceptiva desenvolvida para identificar as qualidades do outro e procurar realizá-las em si mesmo. Voltando a Espinoza, é por isso que a admiração é uma das filhas da alegria (enquanto a inveja o é da tristeza): porque ela aumenta nossa capacidade de agir.

Termino esse minimanifesto existencial citando um verso que contém todos os aspectos da admiração como dever: sua dimensão política (de reconhecimento do outro), intelectual (de capacidade perceptiva) e existencial (deixar-se banhar pela luz do outro e alimentar-se dela). É um verso do grande poeta Arnaldo Antunes: "Não há sol a sós". Não há sol. Há sóis.


E pra não parecer que a abertura deste texto foi implicância minha, aqui está a tirinha do Allan Sieber na qual ele tira um sarro do mesmo assunto.



18 de março de 2015

Music Alliance Pact de março

A coletânea Music Alliance Pact deste mês tem o Passo Torto como representante brasileiro. Você pode fazer o download da coletânea completa ou ouvir a faixa que desejar clicando no nome da música.

Music Alliance Pact é um projeto global que envolve cerca de 30 blogs especializados em música, de diferentes países, que mensalmente realiza uma coletânea com bandas independentes/alternativas desses países. Todo dia 15 (com algumas exceções, como agora em março) é publicada a coletânea com uma música escolhida pelo representante de seu respectivo país de origem. No Brasil, essa função é exercida pelo Meio Desligado.


ARGENTINA: Zonaindie
Panda Elliot - Guerrero (AlexPatri remix)
Panda Elliot is three in one: woman, band and producer. A fresh new face in the music scene, she recently launched her second album Forastera, which shows a more confident Panda Elliot, well established in her own style. After the eclectic single Ligerita, she released Guerrero, a rockin' feminine song that forces you to move your head. The track is potent and full of energy on its own, so this remix by AlexPatri extends into the realm of fun, uptempo electronic dance.

AUSTRALIA: Who The Bloody Hell Are They?
Kučka - Divinity
A continuation of Kučka's future R&B leanings hinted at in her previous work, Divinity is a lush, surreal affair. Undulating rhythms sync perfectly with the swirling, cough-syrupy synths and Laura Jane Lowther's vocals, which sound at once sultry and innocent. Think an antipodean Purity Ring.


BRASIL: Meio Desligado
Passo Torto - Isaurinha
Passo Torto is a quartet formed by renowned musicians from Sao Paulo's contemporary music scene. Isaurinha is taken from their second album, Passo Elétrico, in which they explore guitars and effects on acoustic bass and cavaquinho (sort of a small guitar often associated with samba), with the lack of percussion elements leaving space for harmonic and melodic experiments.

CANADA: Ride The Tempo
Munroe - Bloodlet
Fans of Lykke Li may enjoy newcomer Kathleen Munroe, who simply goes by Munroe. She makes chilling folk tunes like this one with a tinge of Americana (though I guess this would be Canadiana?). Production-wise, Bloodlet doesn't have too much but it's perfect just the way it is. Her lovely voice is all you need.

CHILE: Super 45
Patio Solar - Pintura
Guitars are back in Chilean pop and Patio Solar proves this. After a couple of self-produced releases (Patio Solar and Driminsún), these youngsters from a little corner of Santiago offer dreamy lo-fi melodies, sometimes close to shoegaze and psychedelia, on their 2015 debut album Temporada. The single Pintura is taken from the record, released through Piloto.

COLOMBIA: El Parlante Amarillo
Okraa - Healing
Juan Carlos Torres, the frontman of Bogotá's Globos de Aire, also goes by the pseudonym Okraa, and with this solo alias he makes deeper, more personal work within electronica. Okraa, who has done remixes for Scottish artist Turtle, shows the well-woven sounds that lead us to take a walk in our minds on Healing, from his debut Dreamachine EP.

DENMARK: All Scandinavian
Virgin Suicide - Virgin Suicide
The quintet Virgin Suicide will release their eponymous debut album on May 18, co-produced and mixed by Sune Rose Wagner (The Raveonettes). Here is first single Virgin Suicide as a MAP exclusive download.

DOMINICAN REPUBLIC: La Casetera
Behind The Tigers - Behind The Tigers
Behind The Tigers is a new, mysterious project from Santo Domingo. Their name is a literal translation of a colloquial Dominican way of referring to fun-loving guys as "tigres". Their first song, Behind The Tigers, is a breezy electro-pop tune, but as simple as it sounds, the duo claims there's more than meets the eye in their lyrics and wordplay.

ECUADOR: Plan Arteria
La Orden Del Baile Atrevido - Se Fue El Sistema
Se Fue El Sistema is the first single on the new EP by La Orden Del Baile Atrevido (L.O.B.A.), an electro-rock band with a euphoric style dubbed "rotten glamor". This song mocks the nightmare of Ecuador's paperwork, but it's also a criticism of the system in which we live. L.OB.A.'s debut album, Musica Del Cosmos, will be released this year.

GREECE: Mouxlaloulouda
Zebra Tracks - Waves
There's something totally irresistible about Zebra Tracks’ intoxicating third album, Waves. They make thoroughly exciting, perfectly executed music that brims with fresh ideas, shimmery guitars and thundering rhythms, sharp and moving melodies, bleak, brooding but hopeful arrangements. They have wisely retained the elements that worked previously, yet there is a depth of emotion here they have never accessed before. Zebra Tracks have made an impressive stride forward and you'd be mad not to follow them.

INDONESIA: Deathrockstar
Nic Fit - Mimpi Pergi
If you watched a lot of MTV and crowdsurfed at gigs during the 1990s, then you may have the era forever in your heart as one awesome memory where lots of weird-sounding bands emerged and you love them. Nic Fit will bring back those happy feelings.

IRELAND: Hendicott Writing
No Monster Club - I've Retired
No Monster Club is the solo guise of Bobby Aherne, an ever-present at the heart of some of Dublin indie's more eccentric and memorable moments. I've Retired sees colorfully upbeat verses and bouncing choruses adorned with contrary lyrics: it's themed around a departure from the scene that's clearly not about to happen. What's bound to happen eventually, though, is one of Aherne's acts make a major, major impact. A space worth watching.

ITALY: Polaroid
Go Dugong - Imagine Me And You
A Love Explosion is the new album by Go Dugong. Spring is approaching here in Italy, so a record full of love and sensuality seems appropriate. There are mellow beats and psychedelic melodies influenced by 60s and 70s Italian soundtracks plus samples from old school Northern Soul hits. The album is free to download via Bandcamp.

JAPAN: Make Believe Melodies
Caro Kissa - Saturday Morning
Indie-pop shall truly never fade out of style. As long as there are young people out there with access to some instruments and a computer to record with, the twee stuff will keep on coming. Caro Kissa have released one of the first great indie-pop EPs of the year in Japan with Perfect Dream, and Saturday Morning is an easy-going highlight, showcasing their skippy tempo and solid singing.

MEXICO: Red Bull Panamérika
Animación Suspendida II - Creepy Groovy Hell
Vapor and sine waves are certainly bubbling under the skin of Animación Suspendida II, a duo comprised of Beto Ben and Mou (formerly of Bam Bam, the space-rock band that delivered Red Bull Panamérika's 2011 album of the year). With an amazing recording process, the pair improvise on iPad music apps, record to tape and then edit the final track. So, no Ableton Live here, just pure Monterrey psy-fi-phuture juice. The video is a must-see.

PERU: SoTB
The Deep Sea Monster - Like A God
The Deep Sea Monster, who formed in 2012, have emerged from Lima's independent music circuit with a sound encompassing psychedelia and garage rock. Their new self-titled album is a perfect match of experimentation and euphoria. Their challenge is to not limit their music in any way and their full discography is available for free on Bandcamp.

PORTUGAL: Posso Ouvir Um Disco?
Tape Junk - Thumb Sucking Generation
The Tape Junk, who first appeared on the Music Alliance Pact in October 2013, release their eponymous second album in April. It was produced by another talented Portuguese musician, Luís Nunes (Walter Benjamin), and recorded in a makeshift studio in Alvito, Alentejo. The calmness of the place comes across on the recording and its sound.

SCOTLAND: The Pop Cop
Tongues. - Anymore
Tongues. is the electro project of Kill The Waves frontman Tim Kwant, who is wildly succeeding in his mission to create inspiring pop songs that combine raw energy with a delicate touch. Bold synths, deep subs and soaring vocoders have justifiably drawn comparisons to Alt-J, Hot Chip and fellow Glaswegians Chvrches. With around 50,000 plays so far, Colours In The Dark sparked an online stir after being "accidentally" left public on SoundCloud earlier this year. However, MAP exclusive download Anymore is an even more impressive offering, a perfect union of uplifting and emotive.

SOUTH KOREA: Indieful ROK
Flash Flood Darlings - In The City
Seoul-based Flash Flood Darlings, who was raised in Christchurch, New Zealand, describes his music as romantic synth-pop. Debut album Vorab And Tesoro was released in February and is filled with a dreamy blend of genres. In The City has been well chosen as one of the album's two lead tracks, offering a synth line that makes it the perfect soundtrack for a night drive through any city.

SPAIN: Musikorner
MIWA* - Space Invad*r
MIWA* is the moniker under which Barcelona-based DJ and producer Sergi Miwa releases tracks inspired by avant-garde Japanese pop. His music is an open invitation to a galactic getaway, or a one-way ticket to wherever your imagination takes you.

UNITED STATES: We Listen For You
Hip Hatchet - Coward's Luck
There are thousands upon thousands of singer-songwriters in the world - and not a single one of them is like Hip Hatchet. His music is highly personal yet also universal. Every lyric packs a punch and every play reminds you just how powerful sound can be.

17 de março de 2015

Dead Kennedys: Fresh Fruit for Rotting Vegetables [os primeiros anos]



Um dos mais famosos e influentes grupos punk da história, o Dead Kennedys também ficou marcado por sua postura politizada e musicalidade mais elaborada do que outras bandas do estilo. O cenário que deu origem ao clássico primeiro disco da banda (e seus bastidores) são descritos no livro Dead Kennedys: Fresh Fruit for Rotting Vegetables [os primeiros anos], de Alex Ogg, publicado em 2014 e lançado no Brasil no mesmo ano pela Edições Ideal (em duas versões, com capa dura - vermelha - e simples - com uma reprodução da capa do álbum). Uma publicação que levou quase 10 anos para ser finalizada devido às brigas entre os ex-integrantes, polarizadas entre o vocalista Jello Biafra e o guitarrista East Bay Ray, que disputam a autoria da maioria das músicas (Ogg acredita na versão de Biafra, mas abre espaço para todos os integrantes apresentarem suas versões da história).

Um dos pontos centrais no surgimento do DK é que o punk britânico era mainstream demais, com o Sex Pistols, The Clash e outros grupos fazendo parte do cast de grandes gravadoras, recebendo ampla cobertura da mídia e ditando tendências estéticas. Em São Francisco, onde o DK surgiu, a cena ainda era incipiente, porém mais crua. Um fator essencial para a sonoridade diferenciada do DK foi o fato de seus integrantes virem de diferentes backgrounds, com influências de jazz, soul music e garage rock, entre outros. As guitarras da banda são marcadas por delays e reverbs, mais próximas de surf music do que Sex Pistols; a bateria foge do ritmo direto do punk, assim como as linhas de baixo (vide as clássicas introduções de "Holiday in Cambodia" e "California Übber Alles").



O sarcasmo e a ironia, marcas registradas da banda, permanecem atuais até os dias de hoje e chegaram a gerar vários problemas devido a "problemas de interpretação" por parte do público. Para citar poucos casos, vale lembrar que algumas pessoas acreditavam que "California Übber Alles" fosse uma ode ao neo-nazismo e outras interpretavam literalmente as letras de músicas como "Kill the poor" e "I kill children", resultando em respostas diretas como a faixa "Nazi punks fuck off" - para deixar clara a postura da banda.

A política estava tão ligada à essência da banda que Biafra chegou a se candidatar à prefeitura de São Francisco em 1979, anos 21 anos. Ficou em 4º lugar entre os 10 candidatos, com propostas como obrigar os executivos a se vestirem de palhaços no centro da cidade e contratar ex-funcionários da prefeitura para pedir esmola para os cofres públicos. Acabou servindo como uma ótima estratégia de marketing e ajudou a chamar atenção para a banda, que já se destacava, entre outros motivos, pelos shows enérgicos e pela performance teatral do vocalista.

Além de compreender o caminho percorrido pela banda desde seu surgimento até as gravações dos primeiros singles e o lançamento de Fresh Fruit, o livro é interessante por apresentar um panorama da cena punk/hardcore que viria a se desenvolver na costa oeste americana. Conta-se, por exemplo, que Ian MacKaye - Minor Threat/Fugazi - foi a um show do DK em São Francisco e achou interessante o fato de que nos shows da banda pessoas de todas as idades podiam entrar, prática pouco recorrente na época. Os menores de idade eram identificados com um X pintado na mão com tinta permanente. Símbolo que, mais tarde, seria utilizado na cultura straight edge (a história é confirmada pelo próprio MacKaye).

A arte gráfica da publicação é outro ponto alto. São dezenas de páginas com cartazes e outras artes criadas por Winston Smith, criador da logo do Dead Kennedys e da maioria das capas da banda. Suas colagens influenciariam pra sempre a estética punk, assim como a música do Dead Kennedys.



So you been to school
For a year or two
And you know you've seen it all
In daddy's car
Thinkin' you'll go far
Back east your type don't crawl

Play ethnicky jazz
To parade your snazz
On your five grand stereo
Braggin' that you know
How the niggers feel cold
And the slums got so much soul

It's time to taste what you most fear
Right guard will not help you here
Brace yourself, my dear

It's a holiday in Cambodia
It's tough, kid, but its life
It's a holiday in Cambodia
Don't forget to pack a wife

You're a star-belly sneech
You suck like a leach
You want everyone to act like you
Kiss ass while you bitch
So you can get rich
But your boss gets richer off you

Well you'll work harder
With a gun in your back
For a bowl of rice a day
Slave for soldiers
'Till you starve
Then your head is skewered on a stake

Now you can go where people are one
Now you can go where they get things done
What you need, my son.

Is a holiday in Cambodia
Where people dress in black
A holiday in Cambodia
Where you'll kiss ass or crack

Pol pot, pol pot, pol pot, pol pot

And it's a holiday in Cambodia
Where you'll do what you're told
A holiday in Cambodia
Where the slums got so much soul

15 de março de 2015

"Liberdade"

"O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros - no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita."


Trecho de uma fala do David Foster Wallace.

9 de março de 2015

Dois sites para ajudar a divulgar seu trabalho online

Artwork.fm e Unlock.fm são duas criações de Lee Martin, desenvolvedor de projetos experimentais para o Soundcloud que já criou trabalhos para bandas como Queens of the Stone Age, Muse, Bloc Party, Moby, Slipknot e várias outras. Através do Unlock o artista pode liberar músicas de seu perfil no Soundcloud para download e, em troca, o usuário deve fornecer seu endereço de email ou um tweet (vide exemplo que acompanha este texto). Já no Artwork é possível criar, de forma extremamente fácil e intuitiva, um daqueles famosos vídeos do Youtube com uma imagem estática e o arquivo de áudio: basta selecionar, ao mesmo tempo, a música e a foto que se deseja ter no vídeo que o site cria o arquivo para você poder subir no Youtube ou outro site de vídeo.



Como se não bastasse, Martin já anunciou um novo projeto: o Snipe FM. Descrito como uma "rádio pirata virtual", o aplicativo permitirá transmitir áudio somente para pessoas geograficamente próximas das coordenadas que você definir. Ou seja, você poderá permitir o streaming de áudio de um arquivo somente para quem estiver próximo de um determinado local ou transmitir mensagens para quem estiver na fila do local onde sua banda for tocar, por exemplo. Infelizmente, ainda não há previsão de lançamento do Snipe FM.

7 de março de 2015

Festival La Femme Qui Roule

Nos dias 27 e 28 de fevereiro aconteceu em BH a primeira edição do festival La Femme Qui Roule, iniciativa do selo belga-mineiro de mesmo nome em parceria com a Quente, minha produtora. Foi também a primeira vez que o Galpão Cine Horto, espaço cultural do renomado grupo de teatro Galpão, recebeu um evento musical do tipo.

Em meio a um cenário de carência de público, foi gratificante ver as duas noites do festival com ingressos esgotados e filas de pessoas querendo entrar (aos poucos conseguimos que quase todo mundo que estava esperando entrasse). Uma vez que esta era a primeira edição do festival e contamos com um apoio financeiro da Una, a gratuidade também foi uma estratégia para tornar o evento mais atraente (afinal, um festival com seis bandas alternativas e realizado fora da região centro-sul da cidade precisa ter alguns diferenciais para provocar o deslocamento das pessoas) e assim também construir uma base de público para futuras edições (com patrocínio ou não).

A abertura, com a estreia do trio folk Invisível, e o público sentado e calado foi um dos momentos mais bonitos do festival. E a sensação de surpresa se repetia e se mostrava nas faces de quem estava ali ouvindo pela primeira vez o indie eletrônico do Teach Me Tiger ou a pedrada sonora do The Junkie Dogs - rock psicodélico pesado, soturno e esporrento. O segundo dia teve dois companheiros de banda se apresentando na sequência: Leonardo Marques e Jennifer Souza, membros do Transmissor. O primeiro, um dos criadores do selo La Femme Qui Roule, lançou seu segundo CD, Curvas, lados, linhas tortas, sujas e discretas. Já Jennifer apresentou mais uma vez as canções de sua elogiada estreia solo, Impossível Breve. E fechando o festival, a estreia da banda carioca Baleia em BH. "Pop barroco", dizem. Um dos diferenciais da banda é saber trabalhar muito bem melodias acessíveis e experimentalismo com punch - uma raridade no meio indie. Show excepcional de uma banda que tem se mostrado como uma das mais promissoras da atualidade.

Os shows foram filmados e daqui a algum tempo parte desse material será divulgado. Enquanto isso, veja abaixo algumas fotos feitas pelo Luciano Viana (da Quente).










5 de março de 2015

Japão Meio Desligado

Faith No More, Swans, Antemasque, St Vincent, Chet Faker, Tycho, James Murphy, Ok Go, alt-j, além das locais Toe e Guitar Wolf, foram algumas das bandas que tocaram em Tóquio em um intervalo de mais ou menos 30 dias, agora no início do ano (sem contar o show de Björk em Nagoya, não muito longe). Isso, na baixa temporada. O grande e constante fluxo de artistas de renome se apresentando no Japão reflete alguns aspectos da cultura local que me chamaram a atenção na minha primeira vez ao país: o Japão (e os japoneses) não para(m). É difícil saber em que dia da semana se está. As ruas estão sempre cheias, as escolas têm aulas as sábados, as lojas fecham aos domingos no mesmo horário que nos outros dias da semana, shows acontecem às segundas-feiras. As pessoas estão sempre ocupadas: no metrô, apesar de não conversarem ao telefone (é proibido), estão sempre com seus celulares à mão, enviando mensagens, assistindo a vídeos ou jogando; nos cafés, estão novamente com os celulares ou computadores à postos. Estão sempre em rede, mas, aparentemente, falta aquela outra rede, a de se deitar, descansar e relaxar.

Essa voracidade (aliada à educação da população), no entanto, é parte da construção da experiência única que é o país. O japonês parece dar sempre o melhor de si em qualquer que seja a função a ser executada, seja te ajudar a encontrar um lugar, dirigir um ônibus ou montar uma casa de shows (para manter o foco deste blog, né?).



Como o espaço é escasso e a população é grande, a verticalização é parte essencial na cultura japonesa. As casas de show que conheci lá estão entre as mais incríveis que já vi e estão no alto de prédios. Não bastasse a qualidade de som e de luz ser excelente, assistir a um show do 10º andar reforça a experiência. E o mais louco é que não há seguranças nas portas dos prédios: você entra, pega o elevador e desce em qualquer andar que quiser. Mesmo dentro das casas de show, não me lembro de ter visto um segurança sequer. E os shows começam cedo, às 19h ou antes.

Outro ponto interessante é que artistas de destaque, como St. Vincent e alt-j, tocam em espaços pequenos, para até 600 pessoas (para comparar, em Belo Horizonte St Vincent tocará em um ginásio com capacidade para 6 mil pessoas). Só que os ingressos são caros (em torno de U$ 70) e, mesmo em um país pequeno como o Japão, artistas desse tipo costumam fazer três ou mais shows por lá. Outro diferencial é que a venda de CDs continua um negócio atrativo. A Tower Records mantém, até hoje, um prédio de oito andares, cada um deles dedicado a um gênero musical (com exceção dos dois primeiros, onde também há uma livraria e um café). Vale destacar que o preço médio de um CD gira em torno de U$ 20, nada barato.



Ao contrário dos CDs, instrumentos musicais podem ser encontrados a ótimos preços no Japão. Além da facilidade de se ter uma fábrica local da Fender, existem muitas de lojas de instrumentos usados em Tóquio cheias de raridades. E no caso dos eletrônicos, grandes lojas como a Yodobashi possuem grande variedade de produtos a bons preços (além do tax free para estrangeiros, lojas como a Yodobashi também dão desconto de 5% para pagamentos usando cartões Visa).

Foram as primeiras férias de verdade que tirei e tenho a certeza de que dificilmente poderia ter escolhido um lugar melhor.

Ps: ter uma rede de fast food que só toca Beatles (a Mos Burger) já entrega que o país é sensacional, não?

Quem quiser ver algumas fotos que fiz durante as semanas que fiquei no Japão é só me seguir no instagram.com/meiodesligado.

Os vídeos que acompanham o texto são de duas bandas japonesas atuais: Lite e Sukippara Ni Sake (do impagável refrão "imagination geneLation" - muitos japoneses trocam o R pelo L na hora de falar inglês).