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11 de maio de 2015

Entrevista para a Puc Campinas sobre o mercado musical independente

O Willian Souza é um aluno do curso de jornalismo da Puc Campinas que tem muito bom gosto e é leitor do Meio Desligado, rs. Ele está produzindo uma reportagem multimídia sobre consumo de música na atualidade e pediu que eu contribuísse respondendo algumas questões, que, como de costume, publico abaixo.

  • Como você avalia o atual cenário musical independente brasileiro?
Pergunta difícil. O cenário musical independente é muito amplo, vai dos produtores de música eletrônica ao instrumental experimental. Cada gênero musical apresenta uma realidade de mercado diferente. Muita gente do funk consegue ser bem remunerada com seus trabalhos autorais e tem a música como fonte de renda primária. O mesmo não pode ser dito da cena indie, na qual a música é, na maioria dos casos, uma fonte complementar de renda. Mas, no geral, considero um mercado que estava em expansão na década passada e se estagnou, economicamente falando, recentemente. Parte disso pode ser reflexo da situação econômica do país. Houve um boom na época da Abrafin, Fora do Eixo, TramaVirtual e depois o dinheiro foi diminuindo, ficou mais difícil dos festivais alternativos captarem recursos e com isso diminuiu a circulação dos artistas.


  • Por que acredita que os artistas começaram a disponibilizar suas músicas gratuitamente pela internet?
Porque a produção é enorme e em meio a uma oferta tão grande é preciso facilitar o acesso do público ao que o artista está produzindo.


  • Sente que isso está acontecendo cada vez mais? É uma tendência?
Sim. Muita gente, como eu, praticamente nem faz mais downloads. É tudo via streaming. Isso facilita a circulação da produção mas também aumenta a volatilidade na relação com a música. O lado positivo disso é que se tem acesso a uma variedade maior de produções, mas, por outro lado, a fugacidade às vezes impede que se aprofunde na relação com uma obra. Em uma entrevista de 2013, o produtor Dr. Luke fala sobre isso, como as músicas pop atualmente praticamente não têm introdução. É preciso captar a atenção do ouvinte logo, o vocal entra rápido e logo já vem o refrão, tudo comprimido pra soar grandioso no fone de ouvido, que é o principal instrumento pra audição atualmente.


  • Acredita que é esse o caminho?
Acho que sim, ao menos para o futuro próximo. Isso não inviabiliza a venda do produto físico, ele só precisa apresentar algum diferencial que justifique a compra. A música online gratuita é a porta de entrada para o trabalho de um artista. Mas quando se diz "música online gratuita" ela pode se referir a diferentes formatos: pode ser em um serviço de streaming, um videoclipe, a trilha sonora de um game ou em um aplicativo por exemplo. Ainda tem muita coisa a se explorar.


  • Como avalia a recepção de novos artistas pelas grandes gravadoras? Isso acontece?
No que diz respeito à absorção do que está sendo produzido na cena independente, só conheço as experiências da Deck e da Slap, e acho que ambas tem feito bons trabalhos dentro de suas respectivas propostas. O disco do Cícero é um dos melhores lançamentos do ano, a Pitty está aí quase com 40 anos já e segue com uma carreira coerente. A Deck também lançou recentemente trabalhos do Wado, Matanza, Gang do Eletro… é uma gravadora pequena mas conectada com a cena. A Slap não é uma gravadora, é um selo da Som Livre, mas é um indicativo de que até uma gravadora que possui todas as facilidades que a Som Livre tem sentiu necessidade de se aproximar da chamada cena independente. Daí a presença de Dom La Nena, Silva, Mombojó e Móveis Coloniais entre os artistas contratados por eles.


  • Sobre a divulgação, o que pensa da internet para esse propósito?
É essencial. Ponto.


  • Acredita que o Brasil se difere dos outros países no que tange ao cenário musical independente?
Acho que cada país tem seus singularidades que variam de acordo com sua cultura e situação econômica. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, os mercados são bem diferentes, mais evoluídos e maiores, mas digo isso como observador e leitor, não tenho uma experiência aprofundada nesses países. Posso dizer que em Portugal, por exemplo, a situação não é tão diferente da que temos aqui. Muitos portugueses acham que vivemos uma situação melhor do que a deles, inclusive, com um apoio muito maior do governo, inclusive. E no que diz respeito ao consumo de música independente, é a mesma coisa: os países seguem para um mesmo caminho, mas cada um com suas singularidades. Passei um tempo no Japão e fiquei surpreso ao descobrir que o Spotify não funciona por lá até hoje, acredita? Os japoneses ainda compram muitos CDs e por preços altíssimos, numa média de U$ 25. A Tower Records é uma loja de discos que possui um prédio de cinco andares em Tóquio, imagine isso. Não dá pra dizer que determinada mídia morreu assim tão facilmente, esses contextos locais precisam ser levados em consideração e essa diferença que cada mercado apresenta torna tudo mais interessante (e/ou difícil, dependendo do ponto de vista).


  • O que pensa do futuro da música independente?
Penso que esse termo "música independente" é horrível, rs. Passa a impressão de algo que funcionaria de forma isolada, auto-suficiente, o que é o oposto da realidade. O que eu acho de toda essa música feita fora de grandes gravadoras é que ela é, há muito tempo, a maior parte da música feita no mundo (e provavelmente sempre tenha sido). Só que apenas nas últimas décadas esses artistas têm alcançado mais repercussão, seja localmente (principalmente) ou em escala maior.

E, pra fechar, só queria dizer que isso tudo é só a minha opinião, baseada na minha experiência como jornalista, produtor e consumidor.

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