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31 de dezembro de 2014

Feliz ano novo

_ Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de 15 minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas. Estou exagerando, é claro. Os dicionários serviam apenas de referência. Mas, para muitos, o Hamlet, certamente você conhece o título, Montag; provavelmente a senhora ouviu apenas uma vaga menção ao título, senhora Montag, o Hamlet não passava de um resumo de uma página num livro que proclamava: Agora você pode ler finalmente todos os clássicos; faça como seus vizinhos. Está vendo? Do berço até a faculdade e de volta para o berço; este foi o padrão intelectual nos últimos cinco séculos ou mais.
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_ A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda a parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?
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_ Por sorte, esquisitos como ela são raros. Sabemos como podar a maioria deles quando ainda são brotos, no começo. Não se pode construir uma casa sem pregos e madeira. Se você não quiser que se construa uma casa, esconda os pregos e a madeira. Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso. Paz, Montag. Promova concursos em que vençam as pessoas que se lembrarem da letra das canções mais populares ou dos nomes das capitais dos estados ou de quanto foi a safra de milho do ano anterior. Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com "fatos" que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente "brilhantes" quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz do que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário. Eu sei porque já tentei. Para o inferno com isso! Portanto, que venham seus clubes e festas, seus acrobatas e mágicos, seus heróis, carros a jato, motogiroplanos, seu sexo e heroína, tudo o que tenha a ver com reflexo condicionado. Se a peça for ruim, se o filme não disser nada, estimulem-me com o teremim, com muito barulho. Pensarei que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de uma reação tátil à vibração. Mas não me importo. Tudo que peço é um passatempo sólido.

Os trechos acima fazem parte do romance Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Publicado originalmente em 1953, o livro entra no grupo de publicações que criaram futuros distópicos que acabaram por prever muito do que vivemos atualmente (assim como 1984 e A Scanner Darkly, entre outros).

Feliz ano novo. Cuidado com as selfies.

30 de dezembro de 2014

Melhores discos de 2014 (hoje)

Não gosto de listas de melhores do ano. Sempre repito, mas faço questão de lembrar. Definir uma "ordem de qualidade" é ainda pior. É estúpido e perverso, como se fosse uma competição na qual quem sai por último tem vantagem sobre os demais - repare que lançar discos a partir de outubro tem se tornado uma estratégia para ser lembrado mais facilmente no momento da criação das listas. Mas não se trata de uma competição. Música é para sentir. Então, compartilho abaixo alguns dos discos que me fizeram sentir bem ao longo dos últimos meses e que foram lançados em 2014. Longe de querer dizer que esses são realmente os melhores lançamentos de 2014 (trata-se apenas de uma isca para facilitar a chegada de leitores), espero que mais pessoas tenham bons momentos ao som desses artistas.

NACIONAIS

INTERNACIONAIS

E para fechar, uma playlist com tudo misturado: artistas brasileiros, internacionais, gente que entrou na lista com seus álbuns, EPs ou que até mesmo ficou de fora da lista, mas lançaram canções que merecem o destaque.

26 de dezembro de 2014

Instrumentos virtuais para se divertir

Dois experimentos interessantes de instrumentos virtuais são o Patatap e Theremin. O segundo, como o próprio nome diz, simula os sons produzidos por um teremin e é tocado através do mouse ou do touchpad do computador. Já o Patatap, disponível também abaixo, é tocado através das teclas do computador e possui um visual diferenciado (use a barra de espaço do teclado para mudar o banco de sons e o visual gerado por cada tecla).

Quem se interessar por essas experiências de criação de música online (ou de puro entretenimento) também deve conferir:
Pare tudo o que estiver fazendo e use isto por alguns minutos
Como produzir músicas direto na web
DM1, um dos melhores aplicativos para fazer música no iPhone e no iPad
Incredibox, mais uma experiência musical online
Jam no navegador
Discotecando direto do navegador


22 de dezembro de 2014

Dibigode lança "Plano", trilha composta para espetáculo de dança

Quando o Dibigode foi convidado para elaborar a trilha sonora do ballet da Cia. SESC de dança, não existia coreografia, figurino, cenário ou iluminação preparados para o espetáculo. Tudo seria desenvolvido a partir do som composto pela banda. A bailarina e coreógrafa Cassi Abranches (do grupo O Corpo e que em 2014 também criou a coreografia para o clipe de "O melhor da vida", de Marcelo Jeneci), idealizadora do projeto, deu total liberdade para os músicos inventarem o que quisessem. Uma tela em branco.


O nome Plano teve origem no cinema e nos movimentos de câmera, que, no espetáculo, dialogam com movimentos dinâmicos e diferentes pontos de vista. A partir do link com o cinema, a banda decidiu inspirar-se no longa metragem Holy Motors, do cult francês Leos Carax, criando trilhas para os personagens do filme. O engenheiro de áudio e produtor musical André Veloso, também membro da banda instrumental Constantina, trabalhou com o grupo e imergiu em uma residência artística de 30 dias na pequena vila de São Sebastião das Águas Claras, região metropolitana de BH.

Todo o processo aconteceu de maneira extremamente livre, sem metodologias pré-programadas e repleto de experimentações. No final, tudo se encaixou sob a direção da coreógrafa, que coordenou a integração com os outros elementos do espetáculo, cuja estreia ocorreu em setembro de 2014.

A trilha de Plano está disponível para download gratuito.

17 de dezembro de 2014

Filosofia do dub (e do filtro)

Deparei-me com esse texto do Hermano Vianna, publicado na Folha de S. Paulo em 2003, e achei o tema bastante atual. Uma constante da nossa época é o grande volume da produção cultural, ampliado pela democratização dos meios de produção (softwares e hardwares) e de difusão. Quanto maior a produção, mais se destaca a necessidade de filtros que a explorem e selecionem as produções que se sobressaem. O que Hermano destaca – entre outras coisas – é o que se perde nesse processo de “curadoria”. Basta uma breve visita aos principais blogs e sites culturais brasileiros para se perceber isso: estão, praticamente todos, repercutindo as seleções de veículos estrangeiros como Pitchfork, Stereogum, NME e outros. É como se não houvesse outra produção musical além daquela realizada na América do Norte, Europa e Brasil. Em 2015 (praticamente), continuamos reproduzindo processos de séculos atrás, guiados pelo que é determinado pelo “mundo desenvolvido”.

Com isso em mente, é ainda mais interessante perceber fenômenos locais e “fora do eixo”, como ele mesmo aponta, como o reggae (décadas atrás) ou o funk brasileiro (atual).

Longe da clareza e da amplitude de Hermano, me limito aqui a fomentar a reflexão. Boa leitura!

Lee Perry

Filosofia do Dub
Por Hermano Vianna
publicado no caderno Mais!, Folha de S. Paulo, 09/11/2003

A bibliografia dos mais militantes textos anti-imperialistas é uma aula de imperialismo. Os autores básicos são sempre os mesmos: Karl Marx; Theodor Adorno; Eric Hobsbawn; Stuart Hall e por aí afora, ou melhor, cada vez mais para dentro de um certo “cânone” ocidental, aquele que inventou a crítica do Ocidente. Quando aparece um nome “fora-do-eixo”, é fácil perceber as razões que motivaram sua escolha: ou leciona numa poderosa universidade européia/norte-americana, ou teve algum dos seus livros publicado por essas universidades. Mesmo a recente onda dos estudos “pós- coloniais”, com tantos nomes aparentemente indianos ou africanos fazendo sucesso, foi produzida no âmbito das editoras, revistas acadêmicas e seminários dessas universidades. O resto do mundo, como nos chama a revista Colors (da Benetton), segue com submissão efusiva (Sartre voltou à moda!) o hit-parade intelectual que povoa as páginas da New York Review of Books, do Times Literary Supplement ou dos Actes de la recherche.

Poucas vezes, a não ser em estudos muito especializados - e só lidos obviamente por especialistas -, temos notícias sobre a produção editorial (aqui incluo também a literatura) de países como a Indonésia, o Japão, a África do Sul ou a vizinha Colômbia. Geralmente esperamos que gente como Nestor Garcia Canclini, Kenzaburo Oë ou Mia Couto faça sucesso em Londres, em Paris, na reunião da Modern Language Association ou ganhe um Prêmio Nobel para que possamos publicá- los, lê-los ou mesmo ouvir seus nomes no Brasil. O “Primeiro Mundo” filtra as informações provenientes do “resto do mundo” que devem chegar até nós, mesmo ao ambiente anti-pop de nossa vida acadêmica. São raros os intelectuais brasileiros que mantêm canais de comunicação freqüentes com a produção universitária de países “periféricos”, sem a mediação de Harvard/Yale/Princeton ou de seus representantes.

Pena: não temos nem idéia do que estamos perdendo. (Imagine o que perderíamos se tudo o que pudéssemos ler sobre o Brasil fosse o que foi publicado em inglês ou francês.) Estamos deixando de estabelecer contato com muitas novas idéias que poderiam ser importantes, justamente por estarem baseadas em perspectivas saudavelmente distanciadas dos padrões TOEFL ou CNRS (gostei de juntar os dois níveis bem diferentes!), para dar novos rumos a debates que se tornaram insuportáveis com a reciclagem de duas ou três velhas teorias eurobeligerantes. Por outro lado, deixamos também de ser lidos por gente que pode nos fazer críticas não-viciadas pelas últimas obsessões do filósofo francês ou sociólogo alemão em voga.

Por exemplo: qual foi o último livro de um autor jamaicano publicado no Brasil? Houve um primeiro? Acho que não. E quem decidiu, por todos nós, leitores brasileiros, que tudo que é escrito na Jamaica, ou por jamaicanos, não nos interessa?

Tive o prazer de ver O Mistério do Samba publicado na Jamaica - e também em Barbados e Trinidad e Tobago - pela University of West Indies Press. A editora jamaicana me convidou (junto com a embaixada brasileira em Kingston) para promover o lançamento com palestras e noites de autógrafos. Aceitei o convite sem pestanejar. Afinal, totalmente ignorante com relação à produção universitária caribenha (descontando alguns livros cubanos comprados nos anos 70), foi com surpresa radical e enorme alegria que recebi a notícia do interesse jamaicano em publicar o meu livro.

Tenho uma razão muito pop para ter ficado tão alegre. Jamaica, para mim, sempre foi país amado e respeitado por, antes de ser a terra do reggae ou de Bob Marley, ser a terra do dub. Muita gente pode não ter noção do que estou falando. O dub foi a maneira que os produtores musicais e os engenheiros de som jamaicanos inventaram, desde meados dos anos 60, para fazer música e pensar a música. As canções deixaram de ser encaradas de maneira linear. Os sons passaram a ser montados não-linearmente, antecipando a maneira de editar textos/barulhos/imagens (o cortar-e- colar, ou cut-and-paste) que se tornou dominante a partir da personalização dos computadores.

As técnicas do dub, desenvolvidas por gênios - para mim tão geniais quanto Ludwig Wittegenstein ou Roman Jackobson, mas não quero impor meus critérios de julgamento para ninguém - como King Tubby ou Lee “Scratch” Perry, estão hoje na base da totalidade da produção musical de todo o mundo. Sem dub não haveria hip hop, techno, drum’n’bass, ou mesmo o mais recente sucesso da Britney Spears ou do Zeca Pagodinho.

No encarte do primeiro disco - lançado em 1999 - da gravadora de Bally Sagoo, um dos principais produtores/compositores do pop indiano (tendo iniciado a onda de remixes das trilhas sonoras de Bollywood), o dub está definido da seguinte maneira: “estilo de música com a combinação da contínua pancada da bateria com linhas pesadas de baixo, acompanhadas por uma colagem de efeitos sonoros de eco maluco onde os vocais estão esparsa mas inventivamente ecoando ao fundo...” Uma definição certamente engraçada, mas enganosa.

O dub não é um estilo musical: é mais um procedimento filosófico. O dub não é uma forma, mas sim um “modo de agenciamento de formas”. Roubo essas palavras de Jean Laude, um dos principais pensadores da relação entre o modernismo e a África. Segundo Laude, o que interessava a Picasso na “arte negra” não era o exotismo ou o primitivismo, mas sim a maneira mais-que- moderna que as máscaras e as estatuetas africanas propunham para se pensar o mundo visual, onde a combinação, as redes de sentido e a "montagem" têm mais importância que a organização via a linearidade da lei da perspectiva. O que os jamaicanos nos ensinaram com o dub era semelhante: uma outra maneira de se relacionar com os sons, como se fossem elementos arquitetônicos que podem ser combinados de muitas formas diferentes, não privilegiando nenhuma dessas formas como a original. E fizeram tudo isso através de uma revolução tecnológica tremenda, e praticamente sem recursos tecnológicos.

O primeiro grupo de rock a aprender e utilizar o conteúdo mais importante da lição jamaicana foi o Roxy Music. Brian Eno, tecladista desse grupo, já usava sintetizador e era fã de La Monte Young e John Cage - por isso conseguiu entender imediatamente a importância do dub. Os produtoresmusicais jamaicanos não tinham sintetizadores nem, acredito, informações sobre as pesquisas de ponta na música contemporânea. Mesmo assim podiam e podem ser descritos como filósofos. Na definição de Deleuze e Guattari, um filósofo é um “sintetizador de pensamentos”, um artesão de conceitos.

Os estúdios de gravação de Kingston eram precários (e continuam não tendo condições de competir com os estúdios do “Primeiro Mundo”). Lição: não precisamos ter os últimos upgrades, ou as máquinas mais poderosas, para ter as idéias - ou inventar os procedimentos - que vão determinar os futuros desenvolvimentos das máquinas que - por sermos pobres - não podemos ter ou construir.

Os jamaicanos ainda se maravilham com o sucesso mundial do reggae, como se até não fossem totalmente dignos de sua invenção. Como um país tão pequeno, tão pobre, tão periférico foi capaz de tal façanha? Ainda bem que tamanho e riqueza não são documentos. Tanto o dub quanto o reggae são produtos de uma corrente de energia alternativa que sempre resistiu a ser submissa intelectualmente, com a desculpa de ser pobre, com relação ao resto do mundo. A Jamaica poderia pensar/executar o que o resto do mundo nunca pensou/executou, o que o resto do mundo seria obrigado a copiar. E foi o que fez. Nenhum outro país do “Terceiro Mundo” tem presença tão marcante e influente no cenário da nova cultura popular globalizada.

Porém, repito, mais que uma revolução musical ou tecnológica, o dub significava uma revolução conceitual, tão importante para a música pop como foram o aparecimento da música concreta para o campo “erudito” ou o choque da edição “acossada” de Godard, ou - antes dele - de Vertov, para o campo cinematográfico. Uma invenção como o dub não surge totalmente do nada, sem conexão com outros focos vizinhos de “novo pensamento”. A “energia” (a “vibration”, como dizem os cantores de reggae) que alimentou a criação do dub deveria estar presente em outros ambientes da vida intelectual jamaicana. E estava. E está.

Onde está? Não sabia, apenas intuía. Não sabia nada sobre a Jamaica, além da música. O Brasil também não sabe. Apesar da importância cada vez maior que o reggae têm entre nós. Exemplos? Ligue o rádio. Ouça Skank, Natiruts, Paralamas, Cidade Negra, Gilberto Gil. Vá a São Luís do Maranhão dançar juntinho em qualquer festa de radiola. Pense na maneira como os bloco afros de Salvador transformaram o reggae em samba-reggae, base de toda a axé music. Que outro estilo musical internacional tem tanta penetração no nosso gosto popular? Mas nesse gosto popular, a Jamaica é imaginada apenas como um território mítico, uma ilha tropical, terra de Bob Marley, das tranças rastas e da maconha. Mito é bom. Mas cair na realidade, de vez em quando, pode ser melhor. Foi o que fiz, indo parar logo numa universidade jamaicana, que nenhum turista visita (aliás turista que vai para Jamaica só fica em resorts praianos totalmente separados da realidade do povo da ilha), mas é lugar extremamente revelador sobre o que acontece de realmente importante no país.

A primeira revelação - bastante óbvia e que não deveria causar nenhum estranhamento - que um brasileiro tem ao entrar numa universidade jamaicana é ver que ali só há negros, do reitor ao servente, passando por praticamente todos os alunos. Imediatamente ficamos tomados pela vergonha de ter tão poucos negros nos nossos cursos superiores. Passei horas sem ver um único outro "branco" nas imediações. Fiquei alegre por ser tão minoria.

Minha primeira atividade no campus não poderia ser mais adequada para uma imersão profunda - com jeito de tratamento de choque - na sociedade local. Era uma palestra do Tony Rebel, estrela politizada do ragga, o estilo mais popular do reggae atualmente. Sem muita preparação, cai dentro de um debate onde todos os ânimos estavam exaltados. Era para mim impossível acompanhar o que estava acontecendo, pois ninguém no recinto falava, literalmente, o mesmo dialeto. Havia um professor com sotaque de Oxford. Tony Rebel falava o inglês esperto das ruas de Kingston. Um estudante vociferava em crioulo, e outro na linguagem especial dos rastafari. Ninguém trocava de "estilo lingüístico" ao falar com os outros. Mas todo mundo se entendia perfeitamente. Todo mundo ali era barulhentamente poliglota, menos eu.

A palestra tinha sido organizada pela Reggae Studies Unit, um centro de estudos da cultura popular jamaicana, responsável entre outras coisas pela Bob Marley Lecture, importante palestra anual que já contou com a participação de Omar Davis, na época ministro da fazenda, dissertando sobre a contribuição de Peter Tosh para a identidade nacional.

Fundadora da Reggae Studies Unit, Carolyn Cooper atuou como uma espécie de cicerone no meu tour pela academia jamaicana. Não poderia haver guia melhor. Carolyn é autora de um livro brilhante, chamado Noises in The Blood (o subtítulo é "Oralidade, gênero e o corpo 'vulgar' na cultura popular jamaicana"), que deveria ser lançado no Brasil. Há vários capítulos que são de leitura obrigatória para quem debate o pop contemporâneo de qualquer lugar do mundo: um que faz a análise literárias das letras de Bob Marley; outro que leva o dancehall (outros intelectuais jamaicanos desprezam essa nova forma de reggae, do mesmo modo como o funk carioca é desprezado entre brasileiros) a sério, e ainda outro que disseca o filme Harder They Come.

Todos esses assuntos convivem dentro de uma trama conceitual caribenha, ou negro-atlântica, onde aparecem lado a lado pensamentos de Edouard Glissant, Derek Walcott, Zora Neale Hurston, George Lamming, Paul Gilroy, Mutabaruka, Shabba Ranks e da magnífica Louise Bennett, pioneira no uso do crioulo jamaicano como língua literária, autora - nos anos 50 - do poema Colonização em Reverso que profetizava ironicamente a importância que os imigrantes jamaicanos iriam ter na cultura da Inglaterra de hoje. Entre exemplos tipicamente locais, nos quais quase sempre nos reconhecemos, descobrimos também atalhos para novas maneiras de perceber nossas velhas obsessões nacionais como a questão da mistura de culturas e raças.

Voltei da Jamaica com uma idéia fixa: a da necessidade de haver no Brasil seminários pop- acadêmicos, pelo menos anuais, onde nos fossem apresentadas a cada vez as complexidades surpreendentes de pensamentos produzidos em partes diferentes do mundo, partes tão distantes do "centro do mundo" quanto o nosso país. Espaços de reflexão onde nós pudéssemos conviver com as idéias de gente como Carolyn Cooper, ou Epeli Hau'ofa (de Tonga), ou Renato Constantino (das Filipinas - isso só para ficar em ilhas), ou mais gente que infelizmente não conheço, gente que nos faça pensar coisas diferentes, diferentemente, bem longe do lugar comum nosso velho conhecido euro-norte-americano.

Fica aqui meu apelo: por canais diretos de comunicação intelectual com o mundo! Com o mundo inteiro!

16 de dezembro de 2014

Micsur, o encontro da economia criativa da América do Sul

Fechando o assunto "feiras e encontros do mercado musical" em 2014 preciso comentar sobre a Micsur - Mercado de Industrias Culturales del Sur, que teve sua primeira edição realizada entre 15 e 18 de maio em Mar del Plata, na Argentina. Com o intuito de aproximar agentes da economia criativa dos países sul-americanos e estimular a circulação da produção cultural da região por outros continentes, a Micsur teve uma estreia bem-sucedida.

Existe uma legítima vontade de integração entre artistas e produtores do continente e esse movimento de aproximação foi extremamente benéfico para a Micsur. Apesar de seu protagonismo econômico, o Brasil permanece distante da produção contemporânea de seus países vizinhos e ocasiões proporcionadas por eventos como a Micsur são cruciais para mudar esse cenário. Outro ponto positivo é que por se tratar de países com realidades econômicas próximas, os agentes envolvidos no mercado cultural da região entendem as peculiaridades de se trabalhar com recursos escassos, o que torna as negociações mais fáceis do que se comparado com as realizadas com empresas europeias ou norte-americanas, por exemplo.



Foram promovidas muitas rodadas de negócios e debates envolvendo não apenas profissionais da música, mas também de áreas como design, artesanato, audiovisual, teatro, games e literatura. Showcases apresentaram artistas dos países participantes do evento (a saber: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela) e festas temáticas permitiram maior aproximação com a cultura desses países (e entre os participantes da feira). Os representantes da música brasileira presentes na programação oficial estavam direcionados para a world music (Jaraguá Mulungu, Frutos do Pará e Dois por Quatro), com exceção do folk pop da cantora Tiê, o que se mostrou um erro. Diferentemente de feiras como a Womex, onde as manifestações regionais são o ponto principal, a Micsur se mostrou aberta à produção contemporânea, até mesmo pela pluralidade de seus participantes.

Além das negociações, feiras desse tipo também são ótimas oportunidades para se conhecer culturas e locais diferentes e com Mar del Plata não foi diferente. Famoso destino turístico durante o verão, por causa de suas praias, a cidade também se destaca pelos portos e cassinos. Durante a Micsur, as melhores festas aconteciam no Club de Pesca. Com um luxo decadente que deixa à mostra um passado requintado e localizado à beira-mar, o clube se parece com um grande barco ancorado ao fim de um píer, com uma vista incrível.




Prevista para ser bienal, as próximas edições da Micsur acontecerão na Colômbia em 2016 e no Brasil em 2018.

8 de dezembro de 2014

Alguns comentários sobre a SIM SP

Comparada com sua edição anterior, em 2013, a SIM São Paulo deste ano teve como ponto negativo não realizar shows no mesmo espaço em que aconteceram a maioria dos debates, a Praça das Artes. A programação extensa e fragmentada por vários locais resultou em shows e discussões com baixa presença de público, com algumas exceções, mesmo com convidados relevantes em suas mesas. O que leva à questão: esse formato de evento realmente funciona? Quem atua no mercado musical há mais anos se depara com questões repetidas e a maratona é cansativa.  Talvez um formato mais produtivo unisse maior quantidade de showcases (shows mais curtos, com a intenção de apresentar o trabalho de determinado artista para possíveis contratantes) e speed meetings (breves reuniões com esses mesmos contratantes), tudo em um único espaço, durante o dia, e a programação noturna contasse com um único evento por noite, trocando-se as casas de show ao longo da semana.

Dos debates em que estive presente, os mais movimentados e interessantes foram o que reuniu Thiago Pethit, Karina Buhr, China, Maurício Pereira, Tim Bernardes e Irina Bertolucci para discutir o atual mercado da música a partir da visão do artista e o debate sobre o papel das assessorias de imprensa atualmente. Ambas as discussões mais próximas do dia a dia dos próprios artistas e, talvez por isso, resultando em conversas mais calorosas, ainda que sem grandes novidades ("o mercado é difícil", "querem que eu toque de graça", "é preciso investir em merchandising" e afins). Para os jovens artistas e produtores, talvez um choque de realidade, imagino.

A francesa Zaza durante show no Centro Cultural Rio Verde

Sobre os shows, uma das coisas interessantes foi apresentar diferentes espaços culturais para quem não é de São Paulo. Centro Cultural Rio Verde, Galeria Olido, Espaço Verona, Jongo Reverendo (no espaço do antigo Studio SP da Vila Madalena), Puxadinho da Praça, Studio Emme e Beco 203 receberam uma leva diversificada de artistas que incluiu o elogiado e simpático rapper francês Féfé, o indie tropical do Holger, a nova MPB da Filarmônica de Pasárgada e alguns dos artistas da nova geração que mais se destacaram nos últimos anos: Tulipa Ruiz, Emicida, Marcelo Jeneci e Céu.

3 de dezembro de 2014

BH Music Station 2014 - como foi


A premissa do BH Music Station é ótima: um festival musical que acontece em estações de metrô e dentro dos próprios vagões, fora do seu horário de funcionamento. O ambiente diferenciado e a produção impecável proporcionam ótimas experiências, mas em 2014, na sétima edição do evento, faltou um elemento essencial: uma programação musical mais atraente.

Diferentemente dos últimos anos, quando a programação do festival geralmente se dividia por três ou mais dias com shows em três estações do metrô, em 2014 o festival concentrou seus palcos na chamada "Estação Oficina" (localizada após a estação final do metrô, onde é realizada a manutenção dos vagões), no dia 29 de novembro. Lá, se apresentaram Rodrigo Amarante, Orquestra Imperial, Mustache e Os Apaches e os DJs da festa Geleia Geral. Apesar da redução no número de dias em relação aos outros anos do festival, foi uma programação fraquíssima se comparada com os artistas que se apresentaram em 2008 (Arnaldo Antunes, Nação Zumbi, Tom Zé, Fino Coletivo, Móveis Coloniais de Acaju, entre outros), 2009 (Vanguart, Lenine, Cordel do Fogo Encantado, Zeca Baleiro, Mart'Nália e a própria Orquestra Imperial, entre outros) e 2011 (Paralamas do Sucesso, Marcelo Camelo, Céu, Nação Zumbi - de novo, Roberta Sá, Lobão e Tiê, entre outros).

Outros pontos pioraram a situação:
- Rodrigo Amarante e Orquestra Imperial atraem praticamente o mesmo público e, no dia da realização do Music Station, acontecia em BH a estreia da Banda do Mar na cidade, atingindo o mesmo público e com o peso de ser uma novidade, ao contrário de Amarante e da Orquestra (que realizaram bons shows, inclusive, apesar do trabalho do Amarante ser intimista demais para o formato do festival - por vezes a altura das conversas do público tornava difícil conseguir indentificar o que ele cantava);
- Quando foi lançar Cavalo, seu primeiro disco solo, em BH, Amarante teve duas noites agendadas na casa de shows Granfinos, onde a capacidade é de cerca de 600 pessoas. No entanto, a venda de ingressos foi tão ruim que uma das noites foi cancelada e a outra sequer teve os ingressos esgotados. Ou seja, o headliner do BH Music Station 2014 não encheu uma casa com capacidade para 600 pessoas e foi a principal atração de um festival que nos anos anteriores recebia milhares de pessoas. O resultado? A edição mais vazia do BH Music Station de que se tem notícia. Contribuiu também, é claro, o fato da entrada custar R$ 120 (inteira). Mesmo com os custos de se realizar um festival desse nível no metrô, envolvendo uma grande equipe, é um valor muito alto para o ingresso, ainda mais levando em consideração que o patrocínio do evento é de R$ 432.250,00 via Lei Estadual de Incentivo à Cultura e que os cachês dos artistas que se apresentam dentro dos vagões é baixo (me lembrei dessa piada sobre os cachês das bandas indie no Lollapalooza).

Mauro Lauro Paulo na entrada do BH Music Station. Foto de Renata Caldeira

E por falar nos shows que acontecem dentro dos vagões, vale destacar que, nesse sentido, a programação de 2014 foi a melhor de todos os tempos. Como a entrada no festival é centralizada na Estação Central, o público percorria um longo caminho até a estação na qual o palco principal havia sido montado. Por isso, shows alternativos, em sua maioria semi-acústicos, acontecem dentro dos vagões durante esse trajeto. E neste ano a programação contou com uma ótima e diversificada amostra da cena independente belorizontina, com Iconili, O Melda, Barulhista, Madame Rrose Sélavy e novidades promissoras como Minimalista, Pequeno Céu e Peluqueria (única banda esperta pra aproveitar o local inusitado e fazer um vídeo ao vivo), entre outros. Para melhorar, logo na entrada da Estação Central o público se deparou com as intervenções do palhaço-músico-onemanband Mauro Lauro Paulo e o barulho garageiro d'O Lendário Chucrobillyman. Se nos próximos anos o festival cuidar de sua programação principal com a mesma atenção que deu às atrações secundárias em 2014, tem tudo para se firmar como um dos eventos mais legais do país.

2 de dezembro de 2014

Semana Internacional de Música de São Paulo

A Semana Internacional de Música de São Paulo realiza sua segunda edição entre 4 e 7 de dezembro e ocupa nove espaços culturais da capital paulista com mais de 30 shows e dezenas de debates, workshops e rodadas de negócios. Apesar de ser um evento recente, já se estabelece como um dos principais do mercado musical brasileiro devido ao nível de sua programação, com importantes articuladores do mercado cultural internacional e artistas de destaque da cena nacional (além de também apresentar ao público brasileiro artistas internacionais ainda desconhecidos por aqui).



Na programação musical da SIM SP estão artistas como Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, China e Marcelo Jeneci (dia 6 no Studio Verona), Aláfia e Aldo, The Band (dia 7 no Cine Joia), Holger (dia 5 no Estúdio Emme) e Aline Calixto e Coutto Orchestra (dia 4 no Jongo Reverendo).

Os debates e workshops envolvem mais de 70 profissionais, com opções para quem atua em diversos ramos da cadeia produtiva da música. Audiovisual, comunicação, produção de festivais, agenciamento, gestão de carreiras, criação de conteúdo e participação do poder público na cultura são alguns dos diversos temas que serão abordados.


Estive na primeira edição da SIM SP, realizada em dezembro de 2013, e assisti a alguns bons shows (Karina Buhr, Céu, e, principalmente, a colombiana El Reino del Mar, entre outros), mas participei de poucas atividades das conferências.

Veja abaixo a (enorme) programação desta edição da Sim São Paulo.