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13 de abril de 2014

Instagram + jornalismo musical: @indicamusica

A última vez em que comprei um CD em uma loja foi em maio de 2003. Desde então, tenho ouvido música no computador e no celular (mais recentemente, também no tablet), ligados nos fones de ouvido ou em caixas externas. Nos últimos anos, os momentos de deslocamento têm sido os que permitem maior atenção à música. A caminhada entre casa e escritório é sempre acompanhada de uma trilha sonora distinta. Com isso na cabeça, pensei: "por que não escrever sobre o que eu, literalmente, ando ouvindo?".

Para consolidar o projeto, a plataforma de publicação tinha que estar diretamente ligada à mobilidade, algo que fosse natural ser acessado pelo celular. Daí a ideia de usar o Instagram. Se ouvimos cada vez mais música no celular, por que também não escrever e ler sobre música no celular?

Resumidamente, o perfil @indicamusica no Instagram é uma fonte de sugestões musicais através de resenhas sobre os álbuns que eu e a Flora Pinheiro (que chamei para fazer o projeto comigo desde o início) estamos ouvindo. Mas é também um experimento de linguagem, uma apropriação de uma plataforma criada inicialmente com outros objetivos e um desvio em relação ao que se espera dela. O Instagram é uma rede de compartilhamento de fotos do dia-a-dia porque essa foi a forma através da qual fomos instruídos a usá-la. No entanto, dentro de suas limitações técnicas existe um campo de possibilidades pouco explorado.

Para todos os que usam o Instagram, fica a dica para começar a seguir o @indicamusica. Garanto que não tem punheta de crítico e que as indicações musicais serão bem diversas. Abaixo, alguns exemplos de resenhas que publiquei por lá (por enquanto, a Flora é quem tem escrito mais sobre os lançamentos nacionais, mas não foi algo pensado - eu simplesmente tenho ouvido mais bandas internacionais nos últimos meses).

Mundo Livre S/A e Nação Zumbi
Mundo Livre S.A vs Nação Zumbi
Anos após o fim da Orquestra Manguefônica, Nação Zumbi e Mundo Livre S/A se reencontraram em #2013 para gravar o álbum "Mundo Livre S.A. vs Nação Zumbi", no qual cada banda recria 7 canções da outra. Enquanto o #MundoLivre dá uma sonoridade lisérgica aos clássicos "Praieira" e "A cidade", a Nação imprime sua identidade nas composições de Fred 04, que ficaram mais pesadas e "acessíveis". O "lado b" do disco, com as versões criadas pela #naçãozumbi é irrepreensível, tanto pela escolha do repertório como pelos novos arranjos. As ótimas letras do Mundo Livre ganham vida com o instrumental mais encorpado da Nação. O clássico som do #manguebeat comanda "Pastilhas coloridas" e "Livre iniciativa", enquanto "Seu suor é o melhor de você" e "Girando em torno do sol" são baladas como há muito não se ouvia na banda. Da parte do #mundolivresa, destaque também para o inusitado novo arranjo para "Meu maracatu pesa uma tonelada" e o punk samba de "Rios, pontes e overdrives".


Apparat
Krieg und Frieden (music for theatre)
Criado a partir da trilha sonora que elaborou para uma adaptação teatral de "Guerra e Paz", de #Tolstoy (daí o nome "Krieg und Frieden", tradução do título para o alemão), Apparat fez um álbum que amplia sua versatilidade como artista e produtor. O álbum possui as ambiências e influências discretas de pós-rock que aparecem em CDs anteriores, como "Walls" (de 2007) e "The Devil´s Walk" (de 2011), mas, apesar de ter a música eletrônica como base (principalmente através de variações de subgêneros como glitch e IDM), são as texturas, as orquestrações e os elementos orgânicos das músicas de "Krieg und Frieden" que constituem a novidade no trabalho de #apparat. É um álbum calmo e sensível, basicamente instrumental (apenas duas faixas são cantadas), ideal para madrugadas insones. Quem gosta de #jamesblake, #radiohead, #boardsofcanada e #fourtet deveria ouvir.


John Grant
Pale Green Ghosts
John Grant é um americano de meia-idade, homosexual, HIV positivo, fracassado tradutor de alemão que durante anos manteve uma banda de indie rock de pouca relevância e que atualmente vive na Islândia. O que em outros casos poderia se limitar a simples informações de bastidores é crucial para se entender a fundo o trabalho do autor de "Pale Green Ghosts", eleito pelo selo/loja #RoughTrade o melhor lançamento de #2013 (e também presente em diversas outras listas). Mas isso não significa que as músicas de #johngrant sejam fáceis. "Pale Green Ghosts" é um disco de letras fortes, cheias de humor negro e sofrimento, às vezes praticamente faladas sobre batidas cruas e sintetizadores que dificilmente funcionariam em outro tipo de música. Metade do disco é composto por eletrônica minimalista, como em "Black Belt" (uma espécie de #RobinThicke underground) e "Sensitive New Age Guy" (um encontro de #neworder e #LCDsoundsystem). A outra metade mistura baladas depressivas ao piano e synths oitentistas, grande parte tendo a cantora irlandesa #SinéadOConnor como backing vocal - uma das exceções é "GMF" (abreviação de "greatest motherfucker", um dos destaques do álbum).

Charles Bradley
Victim of Love
Soul man no sentido clássico, Charles Bradley traz na voz e nas letras a experiência de uma vida conturbada, mas na qual a música sempre esteve presente, mesmo que em segundo plano (a carreira profissional começou quando estava na faixa dos 60 anos). "Victim of love" é seu segundo CD, no qual as influências de funk e soul dos anos 60 e 70 afloram e resultam em uma obra que mantém a emoção e a energia características do gênero. Boa parte disso, responsabilidade da ótima Menahan Street Band, super banda de apoio de Bradley e que conta com integrantes da The Budos Band, Antibalas e outros combos swingados.

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