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21 de março de 2014

Rough Trade, o livro

O selo inglês Rough Trade já teria seu lugar reservado na história da música mundial simplesmente pelo fato de ter sido o responsável por lançar os primeiros trabalhos de bandas como The Smiths, The Strokes, The Libertines e Arcade Fire. No entanto, sua história vai além e permeia o desenvolvimento da música alternativa e do indie rock, conforme é descrito no livro homônimo escrito pelo jornalista Rob Young e publicado em 2006, mas ainda sem tradução em português.

Criada em 1976, a Rough Trade inicialmente era somente uma loja, evolução dos hábitos de colecionador de discos de seu fundador, Geoff Travis. Em 78, a partir da demanda de bandas próximas, transformou-se também em um selo guiado através de uma gestão coletiva (e quase utópica). Com o instinto do it yourself do punk mas com os ouvidos abertos para a música alternativa e experimental, Travis define o início do selo como  sendo algumas pessoas interessadas em descobrir novas músicas e conversar sobre isso, cercados de caixas (com os discos e fitas a serem entregues). O passo seguinte seria funcionar como distribuidora, atuando como ponto central para a circulação dos trabalhos de bandas alternativas por toda o Reino Unido.

Após uma série de lançamentos ecléticos que reforçavam constantemente o caráter de garimpeiro underground do Rough Trade (através de artistas como Cabaret Voltaire, Stiff Little Fingers, Swell Maps e The Fall), o selo passou a dialogar diretamente com o mercado mainstream em 1983, ao descobrir o The Smiths e lançar os primeiros singles da banda. A relação com os Smiths foi conturbada e durou poucos anos, mas marcou um período extremamente fértil para o Rough Trade, que nos anos seguintes lançaria discos de Jonathan Richman & The Modern Lovers, Beat Happening, Galaxie 500, Mazzy Star e uma infinidade de bandas obscuras.

A ascensão nos anos 80 se transformaria em uma forte decadência no início dos anos 90, cuja explicação, resumida, remete aos clássicos erros de controle financeiro e (pasmem) na escolha de adotar um software de gerenciamento de estoque e fluxo de caixa que nenhum outro concorrente utilizava e que acabou por se tornar um enorme pesadelo na empresa. Depois de várias mudanças e uma atuação menos relevante ao longo dos anos 90, tudo mudaria em 2000, quando Travis e sua sócia, Jeannette Lee, receberam via correio uma fita com três músicas demo do The Strokes e, na semana seguinte, viajaram para Nova York ver a banda ao vivo - e contratá-los. O que viria a seguir seria a consagração do Rough Trade como um dos principais selos indie do mundo para uma nova geração, dessa vez tendo o indie/pós-punk do The Libertines no lugar do punk eletrônico dos franceses Métal Urbain, primeira banda lançada pelo selo.


Mais do que contar curiosidades de bastidores, o ponto principal do livro é contextualizar o momento histórico em que se deu a criação do Rough Trade e apresentar o funcionamento de parte relevante da indústria musical, uma vez que a Rough Trade, ao longo dos anos, se desdobrou em loja, distribuidora, selo, editora e empresa de agenciamento de artistas. Sua escolha em manter-se focada no conceito (e não, essencialmente, nas demandas mercadológicas) foi crucial para constituir a empresa como ícone mundial do indie rock e, no final das conta, gerar lucro após quase uma década inteira de quase falência e incorporações por outras empresas para manter-se viva (até mesmo a marca "Rough Trade chegou a ser vendida durante os períodos mais tenebrosos).

Durante as transformações da empresa a loja permaneceu ativa, apesar de algumas mudanças de endereço. Além da grande variedade de materiais, recebe pocket shows que permitem uma interação maior entre artista e público. Por lá passaram Talking Heads, Ramones, Queens of the Stone Age e muitas outras. Curiosamente, no dia em que fui a uma das lojas quem tocava era o projeto A Curva da Cintura, dos brasileiros Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra.

Para quem se interessar pela história de outros selos, a editora Black Dog, responsável pelo livro sobre a Rough Trade, possui uma série de publicações chamada Labels Unlimited.

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