31 de dezembro de 2014

Feliz ano novo

_ Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de 15 minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas. Estou exagerando, é claro. Os dicionários serviam apenas de referência. Mas, para muitos, o Hamlet, certamente você conhece o título, Montag; provavelmente a senhora ouviu apenas uma vaga menção ao título, senhora Montag, o Hamlet não passava de um resumo de uma página num livro que proclamava: Agora você pode ler finalmente todos os clássicos; faça como seus vizinhos. Está vendo? Do berço até a faculdade e de volta para o berço; este foi o padrão intelectual nos últimos cinco séculos ou mais.
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_ A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda a parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?
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_ Por sorte, esquisitos como ela são raros. Sabemos como podar a maioria deles quando ainda são brotos, no começo. Não se pode construir uma casa sem pregos e madeira. Se você não quiser que se construa uma casa, esconda os pregos e a madeira. Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso. Paz, Montag. Promova concursos em que vençam as pessoas que se lembrarem da letra das canções mais populares ou dos nomes das capitais dos estados ou de quanto foi a safra de milho do ano anterior. Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto com "fatos" que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente "brilhantes" quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz do que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário. Eu sei porque já tentei. Para o inferno com isso! Portanto, que venham seus clubes e festas, seus acrobatas e mágicos, seus heróis, carros a jato, motogiroplanos, seu sexo e heroína, tudo o que tenha a ver com reflexo condicionado. Se a peça for ruim, se o filme não disser nada, estimulem-me com o teremim, com muito barulho. Pensarei que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de uma reação tátil à vibração. Mas não me importo. Tudo que peço é um passatempo sólido.

Os trechos acima fazem parte do romance Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Publicado originalmente em 1953, o livro entra no grupo de publicações que criaram futuros distópicos que acabaram por prever muito do que vivemos atualmente (assim como 1984 e A Scanner Darkly, entre outros).

Feliz ano novo. Cuidado com as selfies.

30 de dezembro de 2014

Melhores discos de 2014 (hoje)

Não gosto de listas de melhores do ano. Sempre repito, mas faço questão de lembrar. Definir uma "ordem de qualidade" é ainda pior. É estúpido e perverso, como se fosse uma competição na qual quem sai por último tem vantagem sobre os demais - repare que lançar discos a partir de outubro tem se tornado uma estratégia para ser lembrado mais facilmente no momento da criação das listas. Mas não se trata de uma competição. Música é para sentir. Então, compartilho abaixo alguns dos discos que me fizeram sentir bem ao longo dos últimos meses e que foram lançados em 2014. Longe de querer dizer que esses são realmente os melhores lançamentos de 2014 (trata-se apenas de uma isca para facilitar a chegada de leitores), espero que mais pessoas tenham bons momentos ao som desses artistas.

NACIONAIS

INTERNACIONAIS

E para fechar, uma playlist com tudo misturado: artistas brasileiros, internacionais, gente que entrou na lista com seus álbuns, EPs ou que até mesmo ficou de fora da lista, mas lançaram canções que merecem o destaque.

26 de dezembro de 2014

Instrumentos virtuais para se divertir

Dois experimentos interessantes de instrumentos virtuais são o Patatap e Theremin. O segundo, como o próprio nome diz, simula os sons produzidos por um teremin e é tocado através do mouse ou do touchpad do computador. Já o Patatap, disponível também abaixo, é tocado através das teclas do computador e possui um visual diferenciado (use a barra de espaço do teclado para mudar o banco de sons e o visual gerado por cada tecla).

Quem se interessar por essas experiências de criação de música online (ou de puro entretenimento) também deve conferir:
Pare tudo o que estiver fazendo e use isto por alguns minutos
Como produzir músicas direto na web
DM1, um dos melhores aplicativos para fazer música no iPhone e no iPad
Incredibox, mais uma experiência musical online
Jam no navegador
Discotecando direto do navegador


22 de dezembro de 2014

Dibigode lança "Plano", trilha composta para espetáculo de dança

Quando o Dibigode foi convidado para elaborar a trilha sonora do ballet da Cia. SESC de dança, não existia coreografia, figurino, cenário ou iluminação preparados para o espetáculo. Tudo seria desenvolvido a partir do som composto pela banda. A bailarina e coreógrafa Cassi Abranches (do grupo O Corpo e que em 2014 também criou a coreografia para o clipe de "O melhor da vida", de Marcelo Jeneci), idealizadora do projeto, deu total liberdade para os músicos inventarem o que quisessem. Uma tela em branco.


O nome Plano teve origem no cinema e nos movimentos de câmera, que, no espetáculo, dialogam com movimentos dinâmicos e diferentes pontos de vista. A partir do link com o cinema, a banda decidiu inspirar-se no longa metragem Holy Motors, do cult francês Leos Carax, criando trilhas para os personagens do filme. O engenheiro de áudio e produtor musical André Veloso, também membro da banda instrumental Constantina, trabalhou com o grupo e imergiu em uma residência artística de 30 dias na pequena vila de São Sebastião das Águas Claras, região metropolitana de BH.

Todo o processo aconteceu de maneira extremamente livre, sem metodologias pré-programadas e repleto de experimentações. No final, tudo se encaixou sob a direção da coreógrafa, que coordenou a integração com os outros elementos do espetáculo, cuja estreia ocorreu em setembro de 2014.

A trilha de Plano está disponível para download gratuito.

17 de dezembro de 2014

Filosofia do dub (e do filtro)

Deparei-me com esse texto do Hermano Vianna, publicado na Folha de S. Paulo em 2003, e achei o tema bastante atual. Uma constante da nossa época é o grande volume da produção cultural, ampliado pela democratização dos meios de produção (softwares e hardwares) e de difusão. Quanto maior a produção, mais se destaca a necessidade de filtros que a explorem e selecionem as produções que se sobressaem. O que Hermano destaca – entre outras coisas – é o que se perde nesse processo de “curadoria”. Basta uma breve visita aos principais blogs e sites culturais brasileiros para se perceber isso: estão, praticamente todos, repercutindo as seleções de veículos estrangeiros como Pitchfork, Stereogum, NME e outros. É como se não houvesse outra produção musical além daquela realizada na América do Norte, Europa e Brasil. Em 2015 (praticamente), continuamos reproduzindo processos de séculos atrás, guiados pelo que é determinado pelo “mundo desenvolvido”.

Com isso em mente, é ainda mais interessante perceber fenômenos locais e “fora do eixo”, como ele mesmo aponta, como o reggae (décadas atrás) ou o funk brasileiro (atual).

Longe da clareza e da amplitude de Hermano, me limito aqui a fomentar a reflexão. Boa leitura!

Lee Perry

Filosofia do Dub
Por Hermano Vianna
publicado no caderno Mais!, Folha de S. Paulo, 09/11/2003

A bibliografia dos mais militantes textos anti-imperialistas é uma aula de imperialismo. Os autores básicos são sempre os mesmos: Karl Marx; Theodor Adorno; Eric Hobsbawn; Stuart Hall e por aí afora, ou melhor, cada vez mais para dentro de um certo “cânone” ocidental, aquele que inventou a crítica do Ocidente. Quando aparece um nome “fora-do-eixo”, é fácil perceber as razões que motivaram sua escolha: ou leciona numa poderosa universidade européia/norte-americana, ou teve algum dos seus livros publicado por essas universidades. Mesmo a recente onda dos estudos “pós- coloniais”, com tantos nomes aparentemente indianos ou africanos fazendo sucesso, foi produzida no âmbito das editoras, revistas acadêmicas e seminários dessas universidades. O resto do mundo, como nos chama a revista Colors (da Benetton), segue com submissão efusiva (Sartre voltou à moda!) o hit-parade intelectual que povoa as páginas da New York Review of Books, do Times Literary Supplement ou dos Actes de la recherche.

Poucas vezes, a não ser em estudos muito especializados - e só lidos obviamente por especialistas -, temos notícias sobre a produção editorial (aqui incluo também a literatura) de países como a Indonésia, o Japão, a África do Sul ou a vizinha Colômbia. Geralmente esperamos que gente como Nestor Garcia Canclini, Kenzaburo Oë ou Mia Couto faça sucesso em Londres, em Paris, na reunião da Modern Language Association ou ganhe um Prêmio Nobel para que possamos publicá- los, lê-los ou mesmo ouvir seus nomes no Brasil. O “Primeiro Mundo” filtra as informações provenientes do “resto do mundo” que devem chegar até nós, mesmo ao ambiente anti-pop de nossa vida acadêmica. São raros os intelectuais brasileiros que mantêm canais de comunicação freqüentes com a produção universitária de países “periféricos”, sem a mediação de Harvard/Yale/Princeton ou de seus representantes.

Pena: não temos nem idéia do que estamos perdendo. (Imagine o que perderíamos se tudo o que pudéssemos ler sobre o Brasil fosse o que foi publicado em inglês ou francês.) Estamos deixando de estabelecer contato com muitas novas idéias que poderiam ser importantes, justamente por estarem baseadas em perspectivas saudavelmente distanciadas dos padrões TOEFL ou CNRS (gostei de juntar os dois níveis bem diferentes!), para dar novos rumos a debates que se tornaram insuportáveis com a reciclagem de duas ou três velhas teorias eurobeligerantes. Por outro lado, deixamos também de ser lidos por gente que pode nos fazer críticas não-viciadas pelas últimas obsessões do filósofo francês ou sociólogo alemão em voga.

Por exemplo: qual foi o último livro de um autor jamaicano publicado no Brasil? Houve um primeiro? Acho que não. E quem decidiu, por todos nós, leitores brasileiros, que tudo que é escrito na Jamaica, ou por jamaicanos, não nos interessa?

Tive o prazer de ver O Mistério do Samba publicado na Jamaica - e também em Barbados e Trinidad e Tobago - pela University of West Indies Press. A editora jamaicana me convidou (junto com a embaixada brasileira em Kingston) para promover o lançamento com palestras e noites de autógrafos. Aceitei o convite sem pestanejar. Afinal, totalmente ignorante com relação à produção universitária caribenha (descontando alguns livros cubanos comprados nos anos 70), foi com surpresa radical e enorme alegria que recebi a notícia do interesse jamaicano em publicar o meu livro.

Tenho uma razão muito pop para ter ficado tão alegre. Jamaica, para mim, sempre foi país amado e respeitado por, antes de ser a terra do reggae ou de Bob Marley, ser a terra do dub. Muita gente pode não ter noção do que estou falando. O dub foi a maneira que os produtores musicais e os engenheiros de som jamaicanos inventaram, desde meados dos anos 60, para fazer música e pensar a música. As canções deixaram de ser encaradas de maneira linear. Os sons passaram a ser montados não-linearmente, antecipando a maneira de editar textos/barulhos/imagens (o cortar-e- colar, ou cut-and-paste) que se tornou dominante a partir da personalização dos computadores.

As técnicas do dub, desenvolvidas por gênios - para mim tão geniais quanto Ludwig Wittegenstein ou Roman Jackobson, mas não quero impor meus critérios de julgamento para ninguém - como King Tubby ou Lee “Scratch” Perry, estão hoje na base da totalidade da produção musical de todo o mundo. Sem dub não haveria hip hop, techno, drum’n’bass, ou mesmo o mais recente sucesso da Britney Spears ou do Zeca Pagodinho.

No encarte do primeiro disco - lançado em 1999 - da gravadora de Bally Sagoo, um dos principais produtores/compositores do pop indiano (tendo iniciado a onda de remixes das trilhas sonoras de Bollywood), o dub está definido da seguinte maneira: “estilo de música com a combinação da contínua pancada da bateria com linhas pesadas de baixo, acompanhadas por uma colagem de efeitos sonoros de eco maluco onde os vocais estão esparsa mas inventivamente ecoando ao fundo...” Uma definição certamente engraçada, mas enganosa.

O dub não é um estilo musical: é mais um procedimento filosófico. O dub não é uma forma, mas sim um “modo de agenciamento de formas”. Roubo essas palavras de Jean Laude, um dos principais pensadores da relação entre o modernismo e a África. Segundo Laude, o que interessava a Picasso na “arte negra” não era o exotismo ou o primitivismo, mas sim a maneira mais-que- moderna que as máscaras e as estatuetas africanas propunham para se pensar o mundo visual, onde a combinação, as redes de sentido e a "montagem" têm mais importância que a organização via a linearidade da lei da perspectiva. O que os jamaicanos nos ensinaram com o dub era semelhante: uma outra maneira de se relacionar com os sons, como se fossem elementos arquitetônicos que podem ser combinados de muitas formas diferentes, não privilegiando nenhuma dessas formas como a original. E fizeram tudo isso através de uma revolução tecnológica tremenda, e praticamente sem recursos tecnológicos.

O primeiro grupo de rock a aprender e utilizar o conteúdo mais importante da lição jamaicana foi o Roxy Music. Brian Eno, tecladista desse grupo, já usava sintetizador e era fã de La Monte Young e John Cage - por isso conseguiu entender imediatamente a importância do dub. Os produtoresmusicais jamaicanos não tinham sintetizadores nem, acredito, informações sobre as pesquisas de ponta na música contemporânea. Mesmo assim podiam e podem ser descritos como filósofos. Na definição de Deleuze e Guattari, um filósofo é um “sintetizador de pensamentos”, um artesão de conceitos.

Os estúdios de gravação de Kingston eram precários (e continuam não tendo condições de competir com os estúdios do “Primeiro Mundo”). Lição: não precisamos ter os últimos upgrades, ou as máquinas mais poderosas, para ter as idéias - ou inventar os procedimentos - que vão determinar os futuros desenvolvimentos das máquinas que - por sermos pobres - não podemos ter ou construir.

Os jamaicanos ainda se maravilham com o sucesso mundial do reggae, como se até não fossem totalmente dignos de sua invenção. Como um país tão pequeno, tão pobre, tão periférico foi capaz de tal façanha? Ainda bem que tamanho e riqueza não são documentos. Tanto o dub quanto o reggae são produtos de uma corrente de energia alternativa que sempre resistiu a ser submissa intelectualmente, com a desculpa de ser pobre, com relação ao resto do mundo. A Jamaica poderia pensar/executar o que o resto do mundo nunca pensou/executou, o que o resto do mundo seria obrigado a copiar. E foi o que fez. Nenhum outro país do “Terceiro Mundo” tem presença tão marcante e influente no cenário da nova cultura popular globalizada.

Porém, repito, mais que uma revolução musical ou tecnológica, o dub significava uma revolução conceitual, tão importante para a música pop como foram o aparecimento da música concreta para o campo “erudito” ou o choque da edição “acossada” de Godard, ou - antes dele - de Vertov, para o campo cinematográfico. Uma invenção como o dub não surge totalmente do nada, sem conexão com outros focos vizinhos de “novo pensamento”. A “energia” (a “vibration”, como dizem os cantores de reggae) que alimentou a criação do dub deveria estar presente em outros ambientes da vida intelectual jamaicana. E estava. E está.

Onde está? Não sabia, apenas intuía. Não sabia nada sobre a Jamaica, além da música. O Brasil também não sabe. Apesar da importância cada vez maior que o reggae têm entre nós. Exemplos? Ligue o rádio. Ouça Skank, Natiruts, Paralamas, Cidade Negra, Gilberto Gil. Vá a São Luís do Maranhão dançar juntinho em qualquer festa de radiola. Pense na maneira como os bloco afros de Salvador transformaram o reggae em samba-reggae, base de toda a axé music. Que outro estilo musical internacional tem tanta penetração no nosso gosto popular? Mas nesse gosto popular, a Jamaica é imaginada apenas como um território mítico, uma ilha tropical, terra de Bob Marley, das tranças rastas e da maconha. Mito é bom. Mas cair na realidade, de vez em quando, pode ser melhor. Foi o que fiz, indo parar logo numa universidade jamaicana, que nenhum turista visita (aliás turista que vai para Jamaica só fica em resorts praianos totalmente separados da realidade do povo da ilha), mas é lugar extremamente revelador sobre o que acontece de realmente importante no país.

A primeira revelação - bastante óbvia e que não deveria causar nenhum estranhamento - que um brasileiro tem ao entrar numa universidade jamaicana é ver que ali só há negros, do reitor ao servente, passando por praticamente todos os alunos. Imediatamente ficamos tomados pela vergonha de ter tão poucos negros nos nossos cursos superiores. Passei horas sem ver um único outro "branco" nas imediações. Fiquei alegre por ser tão minoria.

Minha primeira atividade no campus não poderia ser mais adequada para uma imersão profunda - com jeito de tratamento de choque - na sociedade local. Era uma palestra do Tony Rebel, estrela politizada do ragga, o estilo mais popular do reggae atualmente. Sem muita preparação, cai dentro de um debate onde todos os ânimos estavam exaltados. Era para mim impossível acompanhar o que estava acontecendo, pois ninguém no recinto falava, literalmente, o mesmo dialeto. Havia um professor com sotaque de Oxford. Tony Rebel falava o inglês esperto das ruas de Kingston. Um estudante vociferava em crioulo, e outro na linguagem especial dos rastafari. Ninguém trocava de "estilo lingüístico" ao falar com os outros. Mas todo mundo se entendia perfeitamente. Todo mundo ali era barulhentamente poliglota, menos eu.

A palestra tinha sido organizada pela Reggae Studies Unit, um centro de estudos da cultura popular jamaicana, responsável entre outras coisas pela Bob Marley Lecture, importante palestra anual que já contou com a participação de Omar Davis, na época ministro da fazenda, dissertando sobre a contribuição de Peter Tosh para a identidade nacional.

Fundadora da Reggae Studies Unit, Carolyn Cooper atuou como uma espécie de cicerone no meu tour pela academia jamaicana. Não poderia haver guia melhor. Carolyn é autora de um livro brilhante, chamado Noises in The Blood (o subtítulo é "Oralidade, gênero e o corpo 'vulgar' na cultura popular jamaicana"), que deveria ser lançado no Brasil. Há vários capítulos que são de leitura obrigatória para quem debate o pop contemporâneo de qualquer lugar do mundo: um que faz a análise literárias das letras de Bob Marley; outro que leva o dancehall (outros intelectuais jamaicanos desprezam essa nova forma de reggae, do mesmo modo como o funk carioca é desprezado entre brasileiros) a sério, e ainda outro que disseca o filme Harder They Come.

Todos esses assuntos convivem dentro de uma trama conceitual caribenha, ou negro-atlântica, onde aparecem lado a lado pensamentos de Edouard Glissant, Derek Walcott, Zora Neale Hurston, George Lamming, Paul Gilroy, Mutabaruka, Shabba Ranks e da magnífica Louise Bennett, pioneira no uso do crioulo jamaicano como língua literária, autora - nos anos 50 - do poema Colonização em Reverso que profetizava ironicamente a importância que os imigrantes jamaicanos iriam ter na cultura da Inglaterra de hoje. Entre exemplos tipicamente locais, nos quais quase sempre nos reconhecemos, descobrimos também atalhos para novas maneiras de perceber nossas velhas obsessões nacionais como a questão da mistura de culturas e raças.

Voltei da Jamaica com uma idéia fixa: a da necessidade de haver no Brasil seminários pop- acadêmicos, pelo menos anuais, onde nos fossem apresentadas a cada vez as complexidades surpreendentes de pensamentos produzidos em partes diferentes do mundo, partes tão distantes do "centro do mundo" quanto o nosso país. Espaços de reflexão onde nós pudéssemos conviver com as idéias de gente como Carolyn Cooper, ou Epeli Hau'ofa (de Tonga), ou Renato Constantino (das Filipinas - isso só para ficar em ilhas), ou mais gente que infelizmente não conheço, gente que nos faça pensar coisas diferentes, diferentemente, bem longe do lugar comum nosso velho conhecido euro-norte-americano.

Fica aqui meu apelo: por canais diretos de comunicação intelectual com o mundo! Com o mundo inteiro!

16 de dezembro de 2014

Micsur, o encontro da economia criativa da América do Sul

Fechando o assunto "feiras e encontros do mercado musical" em 2014 preciso comentar sobre a Micsur - Mercado de Industrias Culturales del Sur, que teve sua primeira edição realizada entre 15 e 18 de maio em Mar del Plata, na Argentina. Com o intuito de aproximar agentes da economia criativa dos países sul-americanos e estimular a circulação da produção cultural da região por outros continentes, a Micsur teve uma estreia bem-sucedida.

Existe uma legítima vontade de integração entre artistas e produtores do continente e esse movimento de aproximação foi extremamente benéfico para a Micsur. Apesar de seu protagonismo econômico, o Brasil permanece distante da produção contemporânea de seus países vizinhos e ocasiões proporcionadas por eventos como a Micsur são cruciais para mudar esse cenário. Outro ponto positivo é que por se tratar de países com realidades econômicas próximas, os agentes envolvidos no mercado cultural da região entendem as peculiaridades de se trabalhar com recursos escassos, o que torna as negociações mais fáceis do que se comparado com as realizadas com empresas europeias ou norte-americanas, por exemplo.



Foram promovidas muitas rodadas de negócios e debates envolvendo não apenas profissionais da música, mas também de áreas como design, artesanato, audiovisual, teatro, games e literatura. Showcases apresentaram artistas dos países participantes do evento (a saber: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela) e festas temáticas permitiram maior aproximação com a cultura desses países (e entre os participantes da feira). Os representantes da música brasileira presentes na programação oficial estavam direcionados para a world music (Jaraguá Mulungu, Frutos do Pará e Dois por Quatro), com exceção do folk pop da cantora Tiê, o que se mostrou um erro. Diferentemente de feiras como a Womex, onde as manifestações regionais são o ponto principal, a Micsur se mostrou aberta à produção contemporânea, até mesmo pela pluralidade de seus participantes.

Além das negociações, feiras desse tipo também são ótimas oportunidades para se conhecer culturas e locais diferentes e com Mar del Plata não foi diferente. Famoso destino turístico durante o verão, por causa de suas praias, a cidade também se destaca pelos portos e cassinos. Durante a Micsur, as melhores festas aconteciam no Club de Pesca. Com um luxo decadente que deixa à mostra um passado requintado e localizado à beira-mar, o clube se parece com um grande barco ancorado ao fim de um píer, com uma vista incrível.




Prevista para ser bienal, as próximas edições da Micsur acontecerão na Colômbia em 2016 e no Brasil em 2018.

8 de dezembro de 2014

Alguns comentários sobre a SIM SP

Comparada com sua edição anterior, em 2013, a SIM São Paulo deste ano teve como ponto negativo não realizar shows no mesmo espaço em que aconteceram a maioria dos debates, a Praça das Artes. A programação extensa e fragmentada por vários locais resultou em shows e discussões com baixa presença de público, com algumas exceções, mesmo com convidados relevantes em suas mesas. O que leva à questão: esse formato de evento realmente funciona? Quem atua no mercado musical há mais anos se depara com questões repetidas e a maratona é cansativa.  Talvez um formato mais produtivo unisse maior quantidade de showcases (shows mais curtos, com a intenção de apresentar o trabalho de determinado artista para possíveis contratantes) e speed meetings (breves reuniões com esses mesmos contratantes), tudo em um único espaço, durante o dia, e a programação noturna contasse com um único evento por noite, trocando-se as casas de show ao longo da semana.

Dos debates em que estive presente, os mais movimentados e interessantes foram o que reuniu Thiago Pethit, Karina Buhr, China, Maurício Pereira, Tim Bernardes e Irina Bertolucci para discutir o atual mercado da música a partir da visão do artista e o debate sobre o papel das assessorias de imprensa atualmente. Ambas as discussões mais próximas do dia a dia dos próprios artistas e, talvez por isso, resultando em conversas mais calorosas, ainda que sem grandes novidades ("o mercado é difícil", "querem que eu toque de graça", "é preciso investir em merchandising" e afins). Para os jovens artistas e produtores, talvez um choque de realidade, imagino.

A francesa Zaza durante show no Centro Cultural Rio Verde

Sobre os shows, uma das coisas interessantes foi apresentar diferentes espaços culturais para quem não é de São Paulo. Centro Cultural Rio Verde, Galeria Olido, Espaço Verona, Jongo Reverendo (no espaço do antigo Studio SP da Vila Madalena), Puxadinho da Praça, Studio Emme e Beco 203 receberam uma leva diversificada de artistas que incluiu o elogiado e simpático rapper francês Féfé, o indie tropical do Holger, a nova MPB da Filarmônica de Pasárgada e alguns dos artistas da nova geração que mais se destacaram nos últimos anos: Tulipa Ruiz, Emicida, Marcelo Jeneci e Céu.

3 de dezembro de 2014

BH Music Station 2014 - como foi


A premissa do BH Music Station é ótima: um festival musical que acontece em estações de metrô e dentro dos próprios vagões, fora do seu horário de funcionamento. O ambiente diferenciado e a produção impecável proporcionam ótimas experiências, mas em 2014, na sétima edição do evento, faltou um elemento essencial: uma programação musical mais atraente.

Diferentemente dos últimos anos, quando a programação do festival geralmente se dividia por três ou mais dias com shows em três estações do metrô, em 2014 o festival concentrou seus palcos na chamada "Estação Oficina" (localizada após a estação final do metrô, onde é realizada a manutenção dos vagões), no dia 29 de novembro. Lá, se apresentaram Rodrigo Amarante, Orquestra Imperial, Mustache e Os Apaches e os DJs da festa Geleia Geral. Apesar da redução no número de dias em relação aos outros anos do festival, foi uma programação fraquíssima se comparada com os artistas que se apresentaram em 2008 (Arnaldo Antunes, Nação Zumbi, Tom Zé, Fino Coletivo, Móveis Coloniais de Acaju, entre outros), 2009 (Vanguart, Lenine, Cordel do Fogo Encantado, Zeca Baleiro, Mart'Nália e a própria Orquestra Imperial, entre outros) e 2011 (Paralamas do Sucesso, Marcelo Camelo, Céu, Nação Zumbi - de novo, Roberta Sá, Lobão e Tiê, entre outros).

Outros pontos pioraram a situação:
- Rodrigo Amarante e Orquestra Imperial atraem praticamente o mesmo público e, no dia da realização do Music Station, acontecia em BH a estreia da Banda do Mar na cidade, atingindo o mesmo público e com o peso de ser uma novidade, ao contrário de Amarante e da Orquestra (que realizaram bons shows, inclusive, apesar do trabalho do Amarante ser intimista demais para o formato do festival - por vezes a altura das conversas do público tornava difícil conseguir indentificar o que ele cantava);
- Quando foi lançar Cavalo, seu primeiro disco solo, em BH, Amarante teve duas noites agendadas na casa de shows Granfinos, onde a capacidade é de cerca de 600 pessoas. No entanto, a venda de ingressos foi tão ruim que uma das noites foi cancelada e a outra sequer teve os ingressos esgotados. Ou seja, o headliner do BH Music Station 2014 não encheu uma casa com capacidade para 600 pessoas e foi a principal atração de um festival que nos anos anteriores recebia milhares de pessoas. O resultado? A edição mais vazia do BH Music Station de que se tem notícia. Contribuiu também, é claro, o fato da entrada custar R$ 120 (inteira). Mesmo com os custos de se realizar um festival desse nível no metrô, envolvendo uma grande equipe, é um valor muito alto para o ingresso, ainda mais levando em consideração que o patrocínio do evento é de R$ 432.250,00 via Lei Estadual de Incentivo à Cultura e que os cachês dos artistas que se apresentam dentro dos vagões é baixo (me lembrei dessa piada sobre os cachês das bandas indie no Lollapalooza).

Mauro Lauro Paulo na entrada do BH Music Station. Foto de Renata Caldeira

E por falar nos shows que acontecem dentro dos vagões, vale destacar que, nesse sentido, a programação de 2014 foi a melhor de todos os tempos. Como a entrada no festival é centralizada na Estação Central, o público percorria um longo caminho até a estação na qual o palco principal havia sido montado. Por isso, shows alternativos, em sua maioria semi-acústicos, acontecem dentro dos vagões durante esse trajeto. E neste ano a programação contou com uma ótima e diversificada amostra da cena independente belorizontina, com Iconili, O Melda, Barulhista, Madame Rrose Sélavy e novidades promissoras como Minimalista, Pequeno Céu e Peluqueria (única banda esperta pra aproveitar o local inusitado e fazer um vídeo ao vivo), entre outros. Para melhorar, logo na entrada da Estação Central o público se deparou com as intervenções do palhaço-músico-onemanband Mauro Lauro Paulo e o barulho garageiro d'O Lendário Chucrobillyman. Se nos próximos anos o festival cuidar de sua programação principal com a mesma atenção que deu às atrações secundárias em 2014, tem tudo para se firmar como um dos eventos mais legais do país.

2 de dezembro de 2014

Semana Internacional de Música de São Paulo

A Semana Internacional de Música de São Paulo realiza sua segunda edição entre 4 e 7 de dezembro e ocupa nove espaços culturais da capital paulista com mais de 30 shows e dezenas de debates, workshops e rodadas de negócios. Apesar de ser um evento recente, já se estabelece como um dos principais do mercado musical brasileiro devido ao nível de sua programação, com importantes articuladores do mercado cultural internacional e artistas de destaque da cena nacional (além de também apresentar ao público brasileiro artistas internacionais ainda desconhecidos por aqui).



Na programação musical da SIM SP estão artistas como Tulipa Ruiz, Anelis Assumpção, China e Marcelo Jeneci (dia 6 no Studio Verona), Aláfia e Aldo, The Band (dia 7 no Cine Joia), Holger (dia 5 no Estúdio Emme) e Aline Calixto e Coutto Orchestra (dia 4 no Jongo Reverendo).

Os debates e workshops envolvem mais de 70 profissionais, com opções para quem atua em diversos ramos da cadeia produtiva da música. Audiovisual, comunicação, produção de festivais, agenciamento, gestão de carreiras, criação de conteúdo e participação do poder público na cultura são alguns dos diversos temas que serão abordados.


Estive na primeira edição da SIM SP, realizada em dezembro de 2013, e assisti a alguns bons shows (Karina Buhr, Céu, e, principalmente, a colombiana El Reino del Mar, entre outros), mas participei de poucas atividades das conferências.

Veja abaixo a (enorme) programação desta edição da Sim São Paulo.

21 de novembro de 2014

Novos Baianos Futebol Clube, o documentário

Gravado para uma TV alemã em 1973, ano do lançamento do terceiro e homônimo disco dos Novos Baianos, Novos Baianos FC é um documentário excepcional em sua simplicidade e no valor histórico do registro. São pouquíssimos os depoimentos ao longo dos seus 44 minutos de duração, gravados ao longo de 10 dias no sítio Cantinho do Vovô, onde a banda vivia no auge de seu hippismo em plena ditadura militar, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

Em tempos de registros ao vivo assépticos e mega produções, a crueza do registro ao vivo da banda neste documentário salta aos olhos e aos ouvidos em um rock'n'roll brasileiro, psicodélico e desleixado. É uma produção mais próxima de um registro antropológico do que uma obra musical.

"Não é uma família. Talvez um time de futebol", diz o narrador. E assim, entre jogos de futebol e o cotidiano do sítio, clássicos como "Mistério do Planeta", "A Menina Dança" e "Samba da Minha Terra" surgem despretensiosamente, entre menções ao futebol como metáfora para a liberdade criativa e a coletividade do grupo.

18 de novembro de 2014

Sobre música independente, festivais, Transborda e sentir-se falando como um tio ("naquela época...")

Primeiramente, uma foto estilosa. Porque texto longo sem foto estilosa assusta a garotada.

Foto estilosa pq texto sem foto estilosa assusta a garotada

Pronto. Agora começamos.


Em 2000, naquele que provavelmente foi o primeiro show alternativo ao qual fui, havia exatamente uma pessoa parada no meio do local assistindo à banda com atenção. O local em questão era um campo de futebol em Sabará e quem estava no palco era a Moan, banda belorizontina de indie rock depressivo (ou emotional hardcore, como diziam anos atrás). Quase dez anos depois, na mesma Sabará, à poucos quarteirões daquele campo de futebol, cerca de 10 mil pessoas compareceram aos shows, também alternativos, do festival Escambo (catorze anos depois daquele primeiro show eu encontraria o mesmo espectador solitário, agora já um velho amigo, em Nantes, onde veríamos juntos um show histórico do Black Rebel Motorcycle Club - banda conhecida durante o período descrito nos próximos parágrafos).

Os indies não se reproduziram como gremlins nesse período, mas a ampliação do público envolvido com a cena musical alternativa na última década me veio à mente durante o festival Transborda, cuja terceira edição aconteceu entre o fim de outubro e o início de novembro de 2014. Assim como o Escambo, o Transborda está diretamente ligado à experiência de quem viveu o início da popularização da internet e da troca de arquivos. Aqueles anos de internet discada, Napster e Soulseek, que resultaram em uma aproximação até então inédita com um enorme volume de novos artistas, culminando, alguns anos depois, na criação da TramaVirtual - a meca do indie brasileiro (ao menos por algum período).

Pela primeira vez se podia ouvir com facilidade (e de graça) gravações de bandas independentes nacionais. O passo seguinte era vê-las ao vivo. Afinal, eram artistas brasileiros, alguns deles residentes em cidades próximas. Então, durante algum show do Garage Fuzz, Mukeka di Rato ou algo do tipo, você poderia pensar "caralho, como é bom ouvir ao vivo o que escuto em casa". E assim por diante, semana após semana.

Desde então, a cena cresceu e foi perdendo a inocência. Foi se profissionalizando e, dependendo do ponto de vista, encaretando, ficando formatada demais. Em meio a isso tudo, um debate do Transborda com os produtores culturais Fabrício Nobre e Anderson Foca chamou atenção para um ponto: por mais que existam problemas, o mercado musical independente está dando certo. Nobre fez a provocação. Em uma sala com cerca de 20 pessoas, pediu que todos aqueles que tivessem a cultura como principal ou exclusiva fonte de renda levantassem a mão. Quase toda a plateia estava de braços erguidos. Segundo ele, 10 anos atrás essa situação seria impossível. Concordo.

E onde entra o Transborda nessa história? Ele é exemplo da transformação e do desenvolvimento da cena como um todo. Suas edições refletem os momentos do mercado, suas dificuldades e mudanças. Se na década passada a grande maioria dos festivais de música independente buscava headliners que atraíssem um maior número de pessoas para os shows (e para isso precisavam de patrocínios cada vez maiores), atualmente a formação de público é mais orgânica e em menor escala. As duas primeiras edições do Transborda levaram milhares de pessoas às ruas e ocuparam diversos espaços de BH. Mesmo assim, houve um hiato de três anos em sua realização e foram necessários alguns passos atrás para que o festival retornasse mais conciso e próximo do seu público alvo. O resultado? Casa lotada, artistas e público satisfeitos e sustentabilidade (podem esperar mais shows produzidos pela mesma galera em 2015).



Patrocínios e mecanismos públicos de incentivo à cultura continuem extremamente importantes, mas, além disso, transformações como a do Transborda 2014 apontam um caminho promissor. Principalmente quando se tem uma programação com algumas das bandas de rock mais interessantes da nova cena brasileira (Apanhador Só e Boogarins), um representante digno do "indie clássico" como há muito tempo não se ouvia (Câmera) e novidades promissoras (Hotel Catete, Red Boots, Mahmundi - os últimos, nem tão novidade assim, mas nem por isso menos promissores).

15 de novembro de 2014

Alessandra Leão na Music Alliance Pact de novembro

O Meio Desligado é o representante exclusivo do Brasil no Music Alliance Pact, projeto global que envolve cerca de 30 blogs especializados em música, de diferentes países, que mensalmente realiza uma coletânea com bandas independentes/alternativas. Todo dia 15 é publicada a coletânea com uma música escolhida pelo representante de seu respectivo país de origem.

Faça o download da coletânea deste mês ou escute cada uma das faixas clicando nos nomes das músicas abaixo.

ARGENTINA: Zonaindie
Tomás Ferrero - Cuando Te Hablo
In March 2013, a mixed group of musicians gathered together in Cordoba and Buenos Aires to play some songs and sound pieces composed with lyrics taken from the work of a federal collective of artists called Esta Vida No Otra. Some of them recorded the results several months later, and those tracks were then released as a compilation titled 15 Artistas Cantan Esta Vida No Otra. The song we have selected from this album, also available for free at Bandcamp, is Cuando Te Hablo by Tomás Ferrero from the band Rayos Láser.

AUSTRALIA: Who The Bloody Hell Are They?
Open Swimmer - Sugar Bowl
Open Swimmer's version of pop is jarring, even discordant at first, but it's this blatantly simple approach that has us hooked. (Dirty Projectors fans, pay attention now.) Sugar Bowl is a brilliant introduction to the band; playful yodelling is cut and pasted along a steady 4/4 drum beat, while witty banter takes the fore. Songwriter Ben TD was based in Glasgow for seven years, touring extensively and landing multiple sessions on BBC Radio One and a stint at T in the Park before settling in Melbourne. The band comprises some of Melbourne's most admired independent music alumni (The Harpoons, Seagull). Expect to hear a lot more from this group.


BRASIL: Meio Desligado
Alessandra Leão - Mofo
Alessandra Leão shows off her experimental side with "Mofo", taken from her new EP, Pedra De Sal. Avoiding the world music sound from other works, this song has dark music and some weird programming that fits the angst of the lyrics.

CANADA: Ride The Tempo
Beach Season - Midnights
There's not actually much out there on Beach Season besides the fact the project is from Calgary. The smooth vocals of Midnights complements the hip-hop influenced rhythms. This is a duo that won't be much of a mystery for long.

CHILE: Super 45
The Dagger Complex - Velvet Moon
The Dagger Complex were formed in 2013 by Hernán Díaz (vocals/guitar), Michaela Boman (vocals), Abraham Vicencio (guitar), Gonzalo Chandía (bass) and Ignacio Álvarez (drums). Their debut EP, Vibrant, released by Beast Discos, is a collection of songs inspired by early 90s shoegaze and dream-pop, one foot set in the cadence of bands such as Slowdive or Mojave 3, the other one in the fuzzy mass of noise of The Jesus And Mary Chain and My Bloody Valentine.

DENMARK: All Scandinavian
IAmFire - Burn Your Halo
IAmFire have their debut EP ready and apparently it sounds like a "massive drug experience" to frontman Peter Dolving. Come December, he and the rest of the gang will be releasing this groovy stoner metal dragon and here's Burn Your Halo as a MAP exclusive download.

DOMINICAN REPUBLIC: La Casetera
Gnómico & Victor Victor - Mesita De Noche
Hip-hop producer Gnómico has always been interested in preserving Dominican musical culture for the present and future generations. Now he's embarking on a new project called Sinergia that will add an urban twist to many songs from past decades. The first one is Mesita De Noche, a famous 90s bachata by Victor Victor, now remade with a funky fresh attitude, Gnómico's own rap verses and Mr Victor himself singing its signature chorus.

ECUADOR: Plan Arteria
Da Culkin Clan - Sometimes You Make Love
From the city of Cuenca, Da Culkin Clan represents the most weird and experimental contemporary hip hop of the country. Their lyrics and music are a bunch of random, powerful and creative ideas - a mixture of carnival and fiction figures. From debut album Special Dark, we present its first single, Sometimes You Make Love.

GREECE: Mouxlaloulouda
Babis Papadopoulos - Spring
Babis Papadopoulos blends the organic nature of Greek traditional folk music, rhythms rich with contemporary elements and avant-garde jazz and succeeds in creating a sequence of lush, varied and nostalgic tracks. Spring, the splendid first preview from his forthcoming album, Joy In Pain, Pain In Joy, is dominated by a delicate, recurring melody in bouzouki, mournful violins, a broody viola and the warm restlessness of his guitar.

INDONESIA: Deathrockstar
Barokka - Barapantura
Dangdut Koplo is one of the most famous electro genres in the shady underground clubs of Indonesia. This trashy dance anthem was created by the guy behind Dubyouth as an introduction.

IRELAND: Hendicott Writing
SPIES - Moosehead
Hyped up by authorities as hefty as The Guardian and NME, Dublin's SPIES are widely seen as the city's next big thing. Moosehead is the latest of their slow to emerge singles, released on the band's own Trout Records label. Leaning on the same glorious desolation that fronted Factory Records' world-renowned soundscapes, it's a jittery, dingy piece of indie-rock that brings atmospheric depression up to date. Think social awkwardness meets Interpol, and put a hefty bookmark on this space.

ITALY: Polaroid
Klam - Mess With The Best, Die In A Nuclear Test
On the cover of Bleak, the debut album by Klam, there is a foggy road, a city in the shadow, a storm seems to be approaching. It's a perfect introduction to the sound of the band: dark shoegaze with post-punk sharp edges. They can create hazy clouds of feedback, but they can also write vibrant and trembling songs like this one.

JAPAN: Make Believe Melodies
Toyohirakumin - Cliff
If the term 'vaporwave' gives you chills, either turn back now or try to think beyond whatever concepts of the internet microgenre you have. Toyohirakumin makes music that is often filed as - and in some cases sounds like - vaporwave, but Cliff is far more than an exercise in aesthetics. It is a slow burner, and a minimal one at that, but a compelling throbber from a promising Japanese producer.

MALTA: Stagedive Malta
Fastidju - Kukkuzejt
Fastidju was born when Nigel Baldacchino (essentially a non-musician) started conceiving vague sung melodies and aural structures for existing pieces of writing compiled for the exhibition, Sajda, in 2012. Nigel started seeking collaborations with electronic producers he admired, such as Istishhad Hheva and Cygna, to provide flesh to his musical skeletons. An album was devised and a band took on the task of developing some of the structures - and even creating new songs. Cygna ultimately ended up being the main crucial guiding light in the final studio phase.

MEXICO: Red Bull Panamérika
Pumcayó - Don Jacinto
Hailing from Guadalajara, Pumcayó is a band that weaves their region's folkloric heritage, with patterns found on Grizzly Bear or Fleet Foxes' music. Following a Kino-Pravda aesthetic - as in Dziga Vertov's Soviet documentary from the 20s - the video for the song Don Jacinto follows the semi-industrial art of making colourful papercrafts, a simple decor in Mexican celebrations with a beautifully complex craft.

PERU: SoTB
Mind Black - Cocaine
Mirella Bellido is the songwriter and lead singer of Mind Black. These Days is her debut five-track EP that moves through different emotions such as anxiety, perversion, obsession and regret. Mind Black, as defined by its creator, is a balance between the emotional and rational.

PORTUGAL: Posso Ouvir Um Disco?
A Jigsaw - No True Magic
Coimbra band A Jigsaw are back with a new album, No True Magic. Jorri and João Rui, the two members of the folksy alternative band, invited Carla Torgerson (The Walkabouts) to join them on vocals for one of the tracks, Black Jewelled Moon. They also produced the record, which will find new fans in those who appreciate artists such as Tindersticks, Leonard Cohen or Tom Waits.

PUERTO RICO: Puerto Rico Indie
Los Vigilantes - Ahí Ya No Estoy
After an exhaustive and intense European tour, garage-rockers Los Vigilantes returned to Puerto Rico with a new record under their belt. Aptly titled Al Fin (At Last), it perfectly showcases the band's brand of melodic surf punk: both infectious and melancholy, it makes your bones rattle, a bit from pain and a bit from joy. Los Vigilantes recently shared a video for the record's second single, Ahí Ya No Estoy, in which a scorned lover wills himself into feeling hopeful for the future with a little help from his friends, cheering us all up in the process. Dance those blues away with Los Vigilantes.

SCOTLAND: The Pop Cop
Billy Jeffrey Jnr - Eternal Blue
Billy Jeffrey Jnr's debut album, Eternal Blue, received modest attention when it was released in early 2014 but - thanks to the power of word-of-mouth and mesmeric live performances - it continues to gain the Glasgow songwriter a host of new fans and followers with each passing week. Possessing the same otherworldly quality as Bon Iver, it is a record full of elegant moments, with title track Eternal Blue being a personal favourite. 

SOUTH KOREA: Indieful ROK
We Hate JH - 20
Emo/power-pop band We Hate JH made the finals of this year's edition of the foremost South Korean rookie competition, Hello Rookie. A brand new single will be out very soon, but 20 is the charming and extremely likeable opening track off the official debut EP Officially, We Hate JH released earlier this year.

SPAIN: Musikorner
Role - Shrine II
Role are a four-piece from Madrid whose sound is influenced by dream-pop, trip-hop and even art-rock. They have played live at Valle Eléctrico, one of the most important experimental electronic club nights in Spain, and their first album is due to be released in the first quarter of 2015.

UNITED STATES: We Listen For You
Jenna Dean - Blown
Funk-based hip hop is alive and well in the form of this brilliant track from Jenna Dean. Smooth guitars open into a locked groove that swarms around a controlled lyrical outpouring. It's a song that builds and builds, never letting the listener down.

12 de novembro de 2014

Os melhores discos portugueses de... 2013

Antes que comecem a proliferar as listas de melhores lançamentos de 2014, resgatamos uma publicação dos nossos parceiros portugueses do blog Bandcom. No início deste ano eles listaram aqueles que foram, na opinião dos membros da equipe do blog, os melhores discos portugueses de 2013.

TOP 25 LP's PORTUGUESES DE 2013

25. Caress Transgress, por Joaquim Barato, El Vals del Conejo



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Para este escriba, "Caress Transgress" está no pódio de melhores discos nacionais do ano que acaba de findar; a explicação para isso é simples: o disco de Joaquim Barato é ousado nas abordagens que faz quer à dream-pop mais clássica de nomes como Galaxie 500, quer ao shoegaze de perfil mais psicadélico digno de uns Spacemen 3 quer ao pós-roque instrumental que tem dominado o movimento pós-00’s. É irreversível não pensar em "Caress Transgress" como um disco disperso, que trata de assuntos diversificados em uma dezena de temas, mas a proeza em o esculpir numa única peça, incólume, só tem de merecer os nossos louvores. Venham mais discos destes, Joaquim.
Emanuel Graça

24. Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo, por Manuel Fúria e os Náufragos, Amor Fúria



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"Manuel Fúria Contempla Os Lírios Do Campo", um trabalho desenhado à figura do próprio, que apesar de não surpreender, também nunca desilude sobre a sua imagem de trovador contemporâneo, sendo isso que o coloca no topo. Com o selo da Amor Fúria e numa sonoridade que se aproxima da vertente trabalhada pela Flor Caveira (não fossem as duas editoras tantas vezes trabalhar em parceria), destaca-se a importância do cuidado existente em seleccionar cada palavra para um encaixe no limiar da perfeição, naquilo que pode ser entendido quase como a doutrina da estética poética. Érico Veríssimo ficaria satisfeito com a referência homónima.
João Gil

23. Inorganic Heartbeats & Bad Decisions, por Gobi Bear, Murmürio Records



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Gobi Bear, nome artístico de Diogo Alves Pinto, já nos tinha dado o aviso no ano passado que tinha potencial para ser um caso sério da música portuguesa. A promessa nasceu com a edição do seu primeiro EP, consolidou-se em "Mais Grande" e, finalmente, cumpriu-se em "Inorganic Heartbeats & Bad Decisions". Com mais aprumo de estúdio, mais trabalhado na sua componente electrónica e sempre com a sua belíssima voz, vê-se em Gobi Bear aquilo que hoje cimenta, por exemplo, Noiserv como uma das mais valias para a música nacional: o presente já cumpre, mas o futuro pode vir fazer com que a promessa de Gobi Bear se cumpra ainda mais.
Emanuel Graça

22. Sorriso Parvo, por J-K, Monster Jinx



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"Sorriso Parvo" é o terceiro trabalho do artista J-K, uma viagem sagaz de 13 faixas, onde são narradas reflexões do seu dia-a-dia, histórias de romances desfeitos e os dramas das patologias sociais. Munindo-se da sua crueza poética, resultando em textos genuinamente portugueses acompanhados por um instrumental leve e coeso, "Sorriso Parvo" está intenso, denso e consegue conjugar os ingredientes certos para criar um universo que certamente irá deliciar alguns ouvidos.
João Ribeiro

21. Se Amanhã Não Chovesse, por Cochaise, Ed. Autor



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Não sei se "Se Amanhã Não Chovesse" é melhor que "Mini Homónimo"; é certamente tão bom como conceito, e sobretudo diferente. Cochaise é sem dúvida um diamante (não diria em bruto, mas com algumas arestas por lapidar) que facilmente pode cair em esquecimento, pela sua distância em relação onda de estilos emergentes com mais sucesso comercial. Isso é algo que me assusta, porque quero ouvir mais desta excelente banda.
Hugo H.

20. The Wolf, por When The Angels Breathe, Raging Planet



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Artista multifacetado, David Francisco dá também a cara ao projeto individual When The Angels Breathe no qual consegue expressar, sem ajuda externa, o seu lado selvagem, os seus medos, o seu ser. Como ele, as guitarras seguem a sua liberdade, as suas incoerências e as rajadas mais violentas. Há magia nas guitarras, e em quem as alimenta.
Mickaël C. de Oliveira

19. Mogul de Jade, por Norberto Lobo e João Lobo, Mbari



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Não é novidade nenhuma que Norberto Lobo é o mestre na guitarra. Desde "Pata Lenta" (2009) que tem demonstrado a sua qualidade não só como compositor, mas também como trovador que não precisa de uma voz para captar o público e brilhar. Desta vez fez-se acompanhar de tendências mais elétricas e do irmão João Lobo na percussão e o resultado é "Mogul de Jade", com todo o experimentalismo no seu som habitual a resultar. Algumas tendências psicadélicas surgem de surpresa nas faixas, não dando hipótese ao ouvinte de prever o que acontecerá no segundo seguinte. É uma das pérolas de 2013, pela surpresa e diferença que Norberto Lobo e João Lobo nos trazem. E o melhor de tudo é que Norberto, mesmo continuando a atuar sozinho e ter de adaptar as novas músicas a essa condicionante, continua a fazer tudo a soar incrivelmente bem.
João Gil

18. Gisela João, por Gisela João, Valentim de Carvalho



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Mal se ouve o disco de estreia desespera-se por um sucessor. As interpretações de temas perdidos do fado que destrói representam o lado menos bom do regresso ao passado que Gisela João faz parecer um exercício de futurismo e inovação ao ser tamanhamente camaleónica. De resto, rezemos para que Gisela não nos emocione, nos tire da montanha-russa do seu timbre e não tenha tanto de surpreendente e genuíno para nos dizer ou para nos levar a descobrir. Por mais que se tente, isso nunca, nunca acontece.
André Gomes de Abreu

17. The Misadventures of Anthony Knivet, por First Breath After Coma, Omnichord Records



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A banda natural das terras do Lis figura nas revelações do ano. A sua base de composição musical parte do post-rock e daí diverge para os campos do pop. Os homónimos do tema dos Explosions in the Sky evoluíram de uma simples banda de covers para um grupo que cada vez mais, vai reunindo uma legião de fãs que agora prestam culto a um disco sublime. Disco esse onde são musicalmente narradas as aventuras de um explorador inglês. Por entre sufrágios, estórias e histórias este disco constitui uma lufada de ar fresco, um banho de éter para o panorama musical português.
João Ribeiro

16. Sinhajara, por Lululemon, Optimus Discos



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Se o trio do Vale da Cambra editar todos os anos um LP do valor de "Flying Fortress" e de "Sinharaja", vamos muito rapidamente ter de reconsiderar melhor esta banda e dar-lhe o lugar que ela merece nos tops nacionais, muito mais acima. Se admito não ter muito sentido a tropicalidade neste disco - se pusermos os nomes dos temas de lado -, o que é certo é que osLululemon têm a sua originalidade, o seu nicho, harmonioso e aconchegador. Um disco para as noites de amor, ou de melancolia.
Mickaël C. de Oliveira

15. Dreams About Dying in California, por Elektra Zagreb, Ed. Autor



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Encabeçado agora por Luís Vieira, o grupo Elektra Zagreb segue as linhas do pop-rock e do surf-rock com resquícios da dream-pop. O seu último trabalho possui uma harmonização de elementos bastante coesa: denota-se um amadurecimento na concepção deste disco em que durante a sua audição há claramente uma aproximação entre o público e alma da música pela constante presença física dos instrumentos e das vocais. Neste trabalho há momentos Nympho Boyz de tranquilidade inspirada pela lo-fi dos pioneiros do género, Pavement. Mas também há espaço para temas mais mexidos com ruídos distorcidos provocados por guitarras angulares a invocar a noise-pop em "Bloody Hands".
João Ribeiro

14. Casulo, por Márcia, Valentim de Carvalho



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Casulo, o segundo disco da carreira de Márcia Santos, demonstra facilmente que um bom disco faz-se sempre de boas canções. Estamos a falar de um registo heurético e inventivo com pouco mais opções do que harmonias cristalinas pop/folk tecidas por palavras calculadas e sentidas. Sobretudo para os mais cépticos com a recordação de "Cabra Cega" e/ou de "A Pele Que Há Em Mim", estão aqui vários temas que colocam no seu devido lugar os pormenores que agigantam qualquer canção. Surpreendente, é essa a palavra-chave.
André Gomes de Abreu

13. Taxi Ballad, por Dear Telephone, PAD



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De volta desde 2011, Dear Telephone deu uma clara continuidade a "Birth of a Robot" com este "Taxi Ballad". Com um estilo muito próprio e consistente. Consistência é a palavra. A fazer lembrar dEUS de quando em quando, com uma nudez musical aliada à precisão e determinação nas músicas e me faz sempre pensar algo como: “eles sabem exactamente o que estão a fazer, só tenho que me encostar e ouvir, quer goste quer não goste”.
Assim continue, e que não demorem mais dois anos.
Hugo H.

12. peixe:avião, por peixe:avião, PAD



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Os peixe:avião trouxeram inovação sem medo. O álbum homónimo demonstrou que o risco de tomar caminhos que nem sempre agradam a todos os ouvidos vale a pena. Afinal, existem mais pessoas que querem descobrir o som do que aquilo que se pensa, e este coletivo de Braga é uma presença obrigatória na ementa. A base sonora com que compuseram "Madrugada" (2010) está presente, desta vez com uma maior carga de ruído e distorção saudável. Este disco é também um dos motivos pela qual a PAD pode fechar o ano com balanço positivo.
João Gil

11. Oito, por Octa Push, Senseless Records



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"Oito" é talvez o disco eletrónico português mais abrangente do ano. Afro-beat, claras influências londrinas, temas acessíveis e dançantes, e pérolas de sincretismos como no tema onde aparece Braima Galissá. Uma das forças de "Oito" reside justamente na escolha acertada dos colaboradores: Alex Klimovitsky, que como eles também passou pela Enchufada, Catarina Moreno, estrela luso-descendente em ascensão pelo UK, entre outros. Com este disco, os Octa Push finalmente conseguiram convencer toda a gente e prometem pintar com a sua originalidade a música portuguesa por muitos anos.
Mickaël C. de Oliveira

10. Leeches, por The Glockenwise, Lovers & Lollypops



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O garage-rock em Portugal está de boa saúde e recomenda-se. The Glockenwise é mais uma banda talentosa vinda das terras férteis do norte do país, que em 2013 realiza um óptimo álbum sucessor de "Building Waves" onde a intensa e pujante sonoridade jovem é uma constante como o estilo de São Francisco o exige.
João Ribeiro

9. O Grande Medo do Pequeno Mundo, por Samuel Úria, Flor Caveira



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2013 ficou marcado, naturalmente, pela prolongada sabática de um ano de Bernardo Fachada e quem tomou o seu habitué trono de rei da cantiga nacional foi, inevitavelmente, Samuel Úriacom "O Grande Medo do Pequeno Mundo": música de esqueleto pop, enraizada na americana e na própria canção nacional, o segundo disco de estúdio do cantautor lisboeta com inúmeras colaborações, desde Manel Cruz, líder dos extintos Ornatos Violeta, até a António Zambujo e promete-nos que mais que um cantor do e para o presente, Samuel pertencerá, certamente, ao nosso futuro.
Emanuel Graça

8. Roma, por JP Simões, Cultura FNAC



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À medida que a carreira a solo do ex-Belle Chase Hotel cresce, os elogios que se lhe podem tecer parecem cada vez causar menos impacto e mais respeito. Não que o caminho seguido seja substancialmente diferente, mas o desafio é resistir a tanto charme lírico e mundial. É a capitalizar de forma irrepreensível o que fica por dizer por vezes com tão poucas perspectivas sobre os mesmos temas que Roma assenta bem a todo o tipo de ressaca de um bom português, ou simplesmente de um bon vivant.
André Gomes de Abreu

7. Mynah, por JUBA, Pontiaq



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Uma das surpresas deste ano com um "Mynah" cheio de ambiências e referências shoegaze edream-pop que nos levam a trilhos desbravados (nem por isso sem qualidade), mas também com passagens muito originais e pouco vistas e uma composição e inserção de componentes refrescantes para o ouvido. Deixam muito a desejar, no bom sentido, claro.
Hugo H.

6. Odyssea, por indignu, Honeysound



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Os indignu marcaram 2013 com um dos trabalhos mais ambiciosos ao nível do post-rocknacional. Mais que a viagem conceptual onde cada melodia ocupa um patamar necessário e nada pode ficar de fora, Odyssea permite-nos ser essa própria aventura. A simbiose artista-ouvinte é o sentido de toda a música e os indignu conseguiram tirar proveito disso e torná-lo ainda mais evidente. Destaque não só para todo o ambiente criado, mas também para o modo como o violino é introduzido ao longo das várias faixas, permitindo criar um trilho sonoro que nos guia ao longo de toda uma história.
João Gil

5. Cabeça, por Filho da Mãe, Lovers & Lollypops



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Todos sabemos, ou devíamos saber, que Portugal é uma província propensa a ter mestres na arte de tocar guitarra; essa ideia ganha força quando pensamos em nomes como Carlos Paredes ou até mesmo Zeca Afonso. Hoje em dia, é quase irreversível não nos vir à memória os nomes de Filho da Mãe, nome artístico de Rui Carvalho, e Norberto Lobo. "Cabeça", o mais recente trabalho de estúdio de Filho da Mãe, cuja edição foi carimbada pela barcelense Lovers & Lollypops, só veio confirmar de um modo mais sólido aquilo que em 2011 "Palácio" prometera: Filho da Mãe é mesmo um guitarrista estrondoso que se serve das suas almas (a sua e a da guitarra) para chegar à nossa. A destreza no seu dedilhar clama por respeito e admiração, a agilidade de que se serve faz-nos crer é desumano, mas a verdade é que músicas desprovidas de qualquer sílaba raramente nos conseguem dizer tantas coisas ao mesmo tempo. Palavras para quê?
Emanuel Graça

4. Vem Por Aqui, por Ermo, Optimus Discos



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A dupla bracarense terá sido uma das maiores revelações em 2013 após lançar o seu primeiro trabalho como longa-duração. "Vem Por Aqui" prima sobretudo pelo seu elevado teor de originalidade estética que, apesar de não encaixar nos cânones, acabou por lhe valer a entrada para muitos dos tops de 2013. Os intervenientes, António Costa e Bernardo Barbosa, demonstraram uma elevada sapiência no que diz respeito à composição musical e às virtudes humanas fazendo deste disco um documento histórico intemporal que conjuga de uma forma quase profética a poesia arquetípica munida de uma composição lírica exímia com electrónicas abstractas minimalistas.
João Ribeiro

3. Homem Elefante, por Riding Pânico, Raging Planet



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O regresso dos Riding Pânico em 2013 mostra uma face mais disruptiva da banda mesmo que esta se tenha mantido na salubridade instrumental. Mais melodiosos mas também mais caóticos, em "Homem Elefante" reflectem duas faces difíceis de conjugar: uma forte coesão lado a lado com uma acutilância que satisfaz num certo tipo de rótulo post-rock em que ainda se possam encaixar. Claramente um dos registos do ano sob qualquer perspectiva.
André Gomes Abreu

2. A.V.O., por Noiserv, Ed. Autor



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É já uma marca da música portuguesa, com o seu estilo muito próprio, e as suas melodias etéreas e progressivas. Se lhe faltava qualquer coisa, era definitivamente este "Almost Visible Orchestra". Veio calar os cépticos (como eu, confesso), e mostrou que vale mais do que loopsbem construídos e uma voz ambiente harmonizante. Mostrou uma variedade na composição melódica que dá uma força maior ao seu trabalho que se continuar, com certeza abrangerá um público ainda maior nos tempos vindouros.
Hugo H.

1. Turbo Lento, por Linda Martini, Universal Music



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Será este o disco que vai definitivamente abrir aos Linda Martini as portas da internacionalização? Acreditamos que sim. Quando muitos criticavam "Turbo Lento" antes de ele estar nos escaparates, o grupo demonstrou mais uma vez que é uma das melhores bandas que o nosso país viu nascer. Lá fora, infelizmente, poucos serão aqueles que o consideram assim.
Sun Glitters disse-me há algumas semanas que não entendia porque é que os Linda Martini não se exportavam. Disse-lhe que, quando não se canta fado, a língua portuguesa acaba por ser um sério entrave. E ele respondeu-me acertadamente: no caso deles, a língua portuguesa não incomoda, muito pelo contrário. O que confirmei depois de ter pensado mais tempo sobre o assunto. E também participa na seriedade que se desprende do disco, na raiva interventiva que contamina qualquer um, pouco importa a nacionalidade. Porque para os Linda Martini, o mais importante talvez seja que o público sinta neles a força da sinceridade, com ou sem letras, com ou sem língua portuguesa.
Mickaël C. de Oliveira


TOP 10 EPs PORTUGUESES DE 2013

10. Life Aquatic, por Long Way To Alaska, PAD



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Haverá sempre quem diga que os Long Way To Alaska não inventaram nada. Os mesmos que talvez os glorificavam se tivessem sido estrangeiros. A verdade é que os bracarenses continuam a sarapintar o panorama da música nacional com os seus apelos à proteção da natureza, à comunhão com ela. E desta comunhão podia muito bem nascer uma participação numa banda sonora de um filme cheio de verdura com selo Sundance Festival. E aí sim, os LWTA iam convencer os mais reticentes.
Mickaël C. de Oliveira

9. Este Inverno, por Main Dish, Ed. Autor



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"Este Inverno" é o mais recente EP de Luís Miguel Vieira que a partir da sua hábil guitarra e de uma panóplia de samples que dão forma ao instrumental constrói um inverno que nasce na montanha e vem desembuchar-se na cidade. Neste seu mais recente trabalho esquecemos a componente lo-fi que invadia as suas sonoridades. Há indubitavelmente um novo registo, uma evolução que torna as suas canções mais acessíveis às massas. No entanto, não esquece a sua essência, o pós-roque, mantendo-se fiel à sua identidade apesar da transformação.
João Ribeiro

8. (II), por Capitão Capitão, Azáfama



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Deram-nos "II" sob a forma de I EP. “Queremos um disco!” digo eu.
Tanta qualidade em "II" deixou-me inquieto e soube-me a pouco.
Foi um EP que não soou a antecipação de disco: soou a algo experimental. Merecem uma vénia por tamanho risco.
Agora, se algo experimental soa assim, como será um disco pensado do início ao fim, e trabalhado com outra minúcia? Com a sensibilidade e unicidade demonstradas neste último EP? Genuinamente ansioso.
Hugo H.

7. Salvation, por PURPLE, Wedidit Collective



Adoptado pelo Wedidit Collective de Shlohmo, o agora radicado em Londres PURPLE já nos tinha dado em "Violence", disco do ano passado, perspectivas muito interessantes sobre o que experimentar com hip-hop e R&B na aproximação à witch-electronica perfeita Terrain Ahead-like.
No EP "Salvation", toda esta neblina "dronítica" adensa-se, compacta-se, consome-se num punhado de canções absolutamente incríveis e egoisticamente aconchegantes, recheadas de pequenas frases mais ou menos distorcidas ou trinadas. E não se esqueçam dos videoclipsfantásticos. Adeus Tricky, adeus The Weekend, adeus Burial.
André Gomes de Abreu

6. dreamweapon, por dreamweapon, Ed. Autor




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Os Dreamweapon são, possivelmente, a banda mais inesperada que Portugal podia ver nascer numa altura destas: são herdeiros da herança britânica do pré e do pós nascimento do shoegaze, são filhos bastardos (no sentido positivo, claro) dos The Jesus and Mary Chain e amantes da nova colheita psicadélica que por aí anda. "dreamweapon", registo de estreia, traz-nos a melhor das promessas: estes senhores já são gigantes, mas quando editarem o seu primeiro LP duvido que não sejam ainda maiores.
Emanuel Graça

5. Future, por IVVVO, Public Information



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Porquê fazer electrónica e não congelar os dedos? É uma questão a que "Future" responde como poucos (embora assinaláveis em Portugal) exemplos poderíamos dar. Quantidade e qualidade não parecem estar assim tão distantes se falamos do trabalho incansável de Ivo Pacheco com uma label, a Terrain Ahead, que está a dar passos de preparação para o seu grande salto.
Em "Future", o que interessa é que ainda exista um pedaço de existência por nós que se deixe afectar pelo techno e rave enviesados. Não é UUUU, mas sim "woo woo woo". Adaptemo-nos aIVVVO, porra.
André Gomes de Abreu

4. TORTO, por TORTO, Lovers & Lollypops



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"TORTO" foi mais uma surpresa, não por ser algo novo, mas pela maturidade e consistência do primeiro trabalho e porque não caiu na tentação de ser lo-fi. É um torto muito hi-fi, com um EP na linha da Lovers & Lollypops, mas, arrisco, uns pontos acima da média. É provocador, muito provocador, não deixa ninguém indiferente, e tem qualidade, tanto sonora como de execução.
Hugo H.

3. JIBÓIA, por JIBÓIA, Lovers & Lollypops



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Óscar Silva dá-se, no mundo da música, pelo nome de JIBÓIA. Porquê? Porque, muito basicamente, nos mete a “jiboiar” com a sua mesa electrónica. Editado pela Lovers & Lollypops, o seu primeiro registo de estúdio é também ele uma promessa, contudo uma promessa peculiar: não se trata de um disco que nos assegura de um valor para o futuro, trata-se de um disco que nos assegura um valor em palco. E quando assim acontece para quê estar com meios rodeios?
Emanuel Graça

2. Memoirs Of A Secret Empire, por Memoirs Of A Secret Empire, Ed. Autor



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Os Memoirs Of A Secret Empire demonstraram com este EP que tudo era possível: vir da Vouzela e chegar até ao brilhante Black Sheep Studio, criar músicas de 10 minutos que captam o ouvinte do primeiro ao último segundo e, sobretudo, emocioná-lo, paulatinamente, degrau após degrau. São também a demonstração de que Portugal tem nas suas mãos bandas de post-rockcomo se calhar nunca teve. Resta agora reconhecer-lhes o devido valor, antes que seja tarde demais...
Mickaël C. de Oliveira

1. Quelle Dead Gazelle, por Quelle Dead Gazelle, Ed. Autor



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Se só o título da primeira faixa do EP homónimo coloca as expectativas altas, tudo fica a valer ainda mais a pena quando entregamos a audição e atenção aos Quelle Dead Gazelle. Sem medo de arriscar em sonoridades que, próximas do math-rock, são aliadas a um ambiente psicadélico envolto em toda a atmosfera que daí advém, destaca-se sempre a aliança que a bateria tem com a guitarra eléctrica, em ritmos capazes de vingar tanto em disco como ao vivo.
João Gi