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26 de setembro de 2013

A cena musical de BH em 2013: Young Lights

Para começar uma série especial de entrevistas com artistas da cena musical alternativa/independente de BH, um desvio de percurso. Jairo Horsth, criador do projeto Young Lights, faz a conexão BH / Boston / Sabará e tem apenas uma música lançada no momento em que este texto é publicado. Assim como seu trabalho, muita coisa vem por aí.

Afinal, você é brasileiro ou norte-americano? Como foi parar justamente em Sabará? 
Eu nasci em BH e, lá pelos 3 anos, me mudei pra Boston, Massachusetts. Fiquei lá por um período de 17 anos. Então, pra responder sua pergunta, sou brasileiro de sangue, mas americano de coração. Meus pais voltaram pro Brasil há mais ou menos 5 anos e tiveram a oportunidade de se mudarem pra Sabará há mais ou menos 3. E isso foi na época em que eu estava voltando pro Brasil, por isso que agora eu estou aqui. 

Você já tinha projetos musicais nos EUA? Quais as maiores diferenças que sente entre a recepção das suas músicas aqui e lá? 
Eu tinha uma banda, assim como todo adolescente de 15 anos tinha, nos Estados Unidos. Eu não chamaria isso de nada muito sério; era mais pra me divertir e fazer shows. Eu acho que é meio relativo dizer a diferença entre a recepção lá e aqui, porque acho que depende um pouco do tipo de propaganda que você faz. Eu não expus de fato minhas canções nos Estados Unidos; eram mais pros meus amigos, na verdade. E aqui eu acho que comecei a usar as redes sociais com mais frequência, mais como uma forma de me envolver com as pessoas, e comecei a fazer contatos. E, quando lancei minha música aqui, tive mais exposição. A recepção que eu tive aqui foi sempre muito gentil. Acho que, na verdade, aqui as pessoas ficam muito curiosas por eu cantar em inglês como um americano, e não só como um brasileiro cantando em inglês. Acredito que chame mais atenção pro meu projeto. 



Uma série de pessoas se envolveu com o Young Lights para que o projeto se tornasse possível, certo? Quem são essas pessoas e como você chegou até elas? 
Sim, muita gente bacana e talentosa se envolveu e tenho certeza absoluta de que sem essas pessoas eu não teria conseguido terminar o que tinha começado. Primeiro, eu conheci o Pedro “Cido” Cambraia; acho que o conheci – é uma história engraçada – quando estávamos do lado de fora de uma boite e ele estava fazendo um dueto a capella com uma menina. Eu achei muito bizarro, mas bem legal. Então me aproximei e a gente começou a conversar. Ele me disse que tinha um estúdio e que me gravaria se eu quisesse. Então, ele e o resto da banda dele, Lúmen, me ajudaram muito – o Daniel Coelho me ajudou nas bateras; Pedrinho Muller, no solo de “Alaska”; Raphael Salazar, no baixo; e o Cido, na guitarra, bateria e na produção – o cara é um monstro. Eu também convidei o Vítor Brauer, um dos meus grandes amigos, da banda Lupe de Lupe, que é parte do mesmo coletivo/movimento que o Young Lights, chamado Geração Perdida. Ele tocou guitarra em uma das faixas. Também chamei o J. P. Cardoso, que é um grande amigo do Cido e sempre estava lá no estúdio, então eu joguei o baixo pra ele em uma das canções. Eu realmente agradeço demais a esses caras. 

Como foi o processo de gravação desse primeiro trabalho e quando ele será lançado? É um álbum ou um EP? 
O processo! Hahaha! Eu não quero falar nisso, porque me estressa muito só de pensar. Mas eu vou falar, sim. Levamos mais ou menos 2 anos pra terminar. Teve muitas tentativas e falhas. Eu não sinto que sou uma pessoa que fica satisfeita facilmente, então teve muita gravação, regravação e ainda assim muita coisa foi deletada. Não quero nem pensar em todas as canções, digamos, abortadas. Hahahaha. Muitas coisas aconteceram nesses dois anos e duas pelas quais sou grato são ter terminado esse EP e os relacionamentos – que se tornaram amizades – que fiz ao longo dessa jornada, apesar de todos os momentos estressantes pelos quais todos os músicos passam quando estão gravando. É engraçado como você entra no estúdio com uma ideia definida pra uma música e ela sai completamente diferente no final das contas. É meio que isso que me fez sofrer, me parecia difícil de aceitar. Mas acabamos gravando 6 faixas, que serão parte do An Early Winter EP. Ele vai ser lançado algumas semanas antes do show de lançamento, só Deus sabe quando isso vai ser, porque a gente tem tido problema em achar um lugar. Será que você pode me ajudar com isso? Hahahah. 

Qual o seu envolvimento com o movimento Geração Perdida? Qual a proposta/conceito envolvido? 
Somos parte do mesmo grupo de amigos – a banda Lupe de Lupe, a Quase Coadjuvante e muitas outras pessoas que compartilham de algumas ideias sobre a vida. É meio pessoal demais te responder qual é a nossa proposta. Acho que não é questão de proposta, é questão de mostrar o que a gente sente, de alguma forma, e o que a gente tem em comum. Somos uma geração em andamento que precisa e quer se expressar – e às vezes não sabemos como, inclusive. Mas a gente continua tentando. 

Em termos de cena, como você compara a que vivenciou nos EUA e a que percebe no Brasil, mais especificamente em BH? 
Bom, nos Estados Unidos, acho que a cena musical vai estar sempre viva – é onde as coisas começam, é onde elas acontecem. Então, todo fim de semana – todo dia, se eu quisesse – eu podia ir a um tipo diferente de show, fazer parte de cenas musicais diferenciadas, estar em contato constante com bandas que eu amava escutar e coisas do tipo. Agora, aqui, o cenário é diferente. Não sou muito familiar a ele, devido ao período de tempo que estou aqui. Mas o que vi dele é que é meio inacessível em alguns momentos. 

Antes de mudar para Sabará, qual era sua relação com a música brasileira? O que conhecia da produção independente brasileira e o que mais te chama a atenção agora? 
Eu não conhecia quase nada. Como fui criado na igreja, o único contato que tinha com música brasileira era pra “louvar a deus”. E eu não conhecia nada realmente sobre os coletivos independentes do Brasil. Agora, de perto, eu vejo que é uma coisa bonita: as pessoas estão se unindo e tentando fazer a diferença na cena musical, assim como o lindo Coletivo Fórceps – especialmente João Rafael, de Sabará, que tem me ajudado bastante a promover meu trabalho desde o início.


Seu primeiro single tem um romantismo melancólico carregado de folk e indie. É por essa linha que seguem as outras músicas do Young Lights? Aliás, qual a origem desse nome? 
É uma perspectiva legal, essa sua. As canções realmente seguem o mesmo caminho, mas cada uma é diferente de seu próprio jeito. Quanto ao nome, eu estava vendo um filme um dia e teve uma cena em que um casal de jovens chega numa festa e alguém diz “There they are, the bright young lights” ou alguma coisa do tipo. Aquilo ficou na minha cabeça. 

Como será a formação ao vivo? É mais um projeto solo seu com músicos convidados ou uma banda? 
Neste momento, são só músicos convidados, mas estou à procura de músicos devotados que queiram fazer isso comigo e estar em shows, se divertir com isso. Então, temos a mim no violão e nos vocais, o Cido e o Pedrinho nas guitarras, o Raphael no baixo, meu amigo Felipe Monteiro – da Quase Coadjuvante – na bateria, e o “Preah” – do Dibigode, cujo nome verdadeiro eu não sei de verdade, haha, no trompete e na gaita. Estou muito animado pra tocar com esses caras gente-boa. 

Para fechar, queria que indicasse vídeos, filmes, livros, locais e/ou sites que ajudem a entender um pouco mais a proposta do Young Lights. Podem ser coisas que tenham te influenciado ou que você simplesmente gosta, não necessariamente refletindo na sua produção artística. 
Determinar influência musical é bem simples, na verdade: eu amo muito os vocais angelicais do Bon Iver, os acordes cativantes de Tallest Man On Earth e, como vocês vão ver, várias influências de bandas estrangeiras muito conhecidas, como Coldplay e Radiohead, que eu amo desde criança. Acho que criei o Young Lights só pelo sentimento nostálgico da época em que eu tinha 15 anos e nenhuma preocupação com o mundo. Eu só queria beber, fazer shows com bandas boas, gente boa e só me divertir no geral. Eu realmente levo isso a sério, mas, ao mesmo tempo, eu só quero me expressar assim, por agora. No movimento Geração Perdida tem muitas coisas artísticas pelas quais eu sou inspirado e esses caras realmente me mantêm são. Nós temos bandas – como a Lupe de Lupe e a Quase Coadjuvante, que já citei, e acabaram de lançar álbuns; eu realmente os indico pra quem gosta de música verdadeira. A maioria dos meus amigos é feita de escritores, como o Bernardo Lopes, que é na verdade um dos meus melhores amigos de Sabará e que logo vai lançar o romance dele, “Trens Descarrilados”. Temos Damy, Lucas, Luiz, Negão, Paola, Pedro Ordep, Mailton, Larah, Cícero, Carol, Renan, Gustavo, Ana, Túlio, Marina, Sussu, Vini, Marcelo, Polly, Jonathan, Felipe, Vítor, que são todos talentosos em seu jeito individual. Meus amigos e a música que eles escutam, como por exemplo Kendrick Lamar, Mac Demarco, The Smiths, Beach House, A$AP Rocky, Jair Naves, Polara, são todos grandes influências na minha vida, não necessariamente na minha carreira musical.

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Outras publicações do especial sobre a cena musical de Belo Horizonte em 2013.

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