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20 de fevereiro de 2013

Conexão Brasil / Portugal: Manuel Fúria

Na segunda edição do projeto de intercâmbio entre Brasil e Portugal executado pelo Meio Desligado e o blog português BandCom, republico a crítica do disco do Manuel Fúria, escrita pelo Bernardo Branco Gonçalves (um dos colaboradores do blog português). Do lado de lá, eles republicaram a crítica que fiz do CD Avante, do Siba, incluído na lista dos melhores lançamentos de 2012 na escolha do Meio Desligado.

Acho interessante reparar na escrita, na diferença da linguagem utilizada por lá.

MANUEL FÚRIA - "Manuel Fúria Contempla Os Lírios do Campo" (Amor Fúria, 2013 
A segunda aventura a solo de Manuel Fúria tem feito correr muita tinta. Tendo chegado o tão esperado disco às nossas mãos, percebemos porquê. Desconcertante, inesperado, cru: sem polimentos desnecessários. Com toda a certeza não será para todos os ouvidos, mas uma coisa é certa: "nunca" se fez nada igual em Portugal. 
Depois de "Manuel Fúria e as Aventuras do Homem-Aranha", o músico concebeu um disco que é o mais coeso de todos os da sua lavra (incluindo os dois registos d’Os Golpes) e que nos traz uma nova roupagem para as suas canções: o tradicional formato que percorre toda a história doroque enrole - bateria, baixo, duas guitarras - ficou na gaveta e somaram-se violinos, oboé, bandolim, acordeão, sopros metálicos e coros estratosféricos.

Mas este disco é mais que novos arranjos para novas canções. Há neste trabalho uma inquietação que se revela transversal e, atrevemo-nos, crónica. A dicotomia cidade-campo é omnipresente, e a amargura por uma capital desfigurada evidente. Vamos ver o disco faixa a faixa, as canções e a grandiosidade do conceito assim o exigem: "um guia através dos lírios do campo". 
“Só Quero Ver Lisboa A Arder”. Manuel Fúria abre assim as festividades, corrosivo, a dar que pensar e a alimentar expectativas. Uma frase que é e será repetida até à exaustão e que exponencia o mistério que a cama harmónica que vai sendo construída desde os primeiros segundos encerra. Esperamos que o desenrolar do disco explique esta "Declaração de Intenções", um prefácio enigmático que nos aguça o apetite. 
Até que nos aparece uma canção que é um portento, um "Estandarte", lá bem alto, que nos faz antever um grande disco. São exaltados os perigos da cidade e recomenda-se cautela a uma rapariga cuja “ânsia do porvir” não a deixa ficar em casa, numa noite branca de um Inverno rigoroso (“Tem cuidado rapariga/ tem cuidado com a cidade/ porque lá há muitos males/ lá há falta de verdade”). Os coros reforçam a grandiosidade do tema. E, primeiro os sopros metálicos e os violinos, depois um sintetizador oportuno, enchem a cavalgada final de uma solenidade vaticinadora. 
"Procuro A Claridade" é a terceira canção do disco. Aqui, senhores, os violinos atacam com força, baixo e a guitarra são felizes juntos. Sugestão (que se alarga a outros momentos): ouvir bem alto para distinguir o bandolim na camada sonora, já que o efeito no contraste com a guitarra eléctrica é curioso e, ao que me faz parecer, algo quase "pioneiro". Pergunta Manuel Fúria, certeiro: “Lisboa, capital de que Império?”. 
A faixa número quatro é nada mais nada menos que a cantiga single deste "Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo". "Que Haja Festa Não Sei Onde" não será, certamente, um sucesso radiofónico como "Vá Lá Senhora", d’Os Golpes. Talvez, de resto, não fosse esse o propósito. O que é certo é que temos aqui uma canção que, estando perfeitamente integrada no conceito do disco - faz parte de um rendilhado que cosido com as mesmas linhas do princípio ao fim, se destaca das restantes pela maneira como consegue conjugar os lados festivo e melancólico da coisa.  
Ecoam promessas de festa pelas ruas de uma aldeia qualquer, fica-nos a soar nos ouvidos por dias a fio, de algum tempo para cá, o movimento sublime do oboé do Silas que empresta um novo paradigma ao som do disco e eleva a canção, num momento que será talvez o de maior perfeição na conjugação entre o som roque (da canção pope) e um instrumento avulso. Pois, precisamente, aqui não o é com toda a certeza. Uma cantiga bonita e certeira. 
"O Jogo do Sapo" (uma das participações na bateria de Hélio Morais) aparece-nos por uma guitarra acústica contemplativa e letra colorida. Surgem, do nada, facadas eléctricas que fazem antever uma explosão. Engano, que há ainda espaço para mais uma volta de toada calma com cheiro a Primavera. Ainda não chegou o Verão, portanto. Como tal, só depois virá a dita explosão. A guitarra e o bandolim aparecem querendo impor-se ao baixo, violinos, oboé, coros e um final em agonia. 
Densa e com oito minutos de inquietação, "A Tempestade" tem um início de tocar lá no coração. Apetece ouvir os vinte segundos da introdução em ostinato, com o seu baixo saltitante, o seu oboé bem desenhado, os violinos (Francisca Aires Mateus e Tomás Wallenstein, diga-se, nesta música estão no seu melhor) e a voz "surpresa das surpresas" de Madalena Sassetti. A letra, aqui, é especialmente bem conseguida e os metais a explodir abrem caminho à verdadeira tempestade que se avizinha e que os violinos anunciam. Aparecem as nuvens e, por fim, trovões de metal e chuva. E uma banda a tocar sob ela. 
"Canção para Casar Contigo" é jubilação a transbordar a um ritmo frenético, galopante. Mais uma vez, lá está a aldeia e dos seus encantos, neste caso com uma “igreja toda iluminada” e, com ela, uma noiva que faz sonhar com “uma família, um lar e as crianças a cantar”. Respiraria a canção um pouco melhor estivessem os coros um nada menos desfasados (preciosismo). Um dos momentos altos do disco; sobretudo uma canção de exultação, que grita pope e que entra pelo ouvido dentro com alegria. 
Já na recta final, aparece-nos pela frente o momento mais sublime do disco. Uma adaptação da canção d’Os Velhos "À Minha Alma". Esta canção tem tudo: é verdadeira, soa verdadeira, como um diamante escondido nos confins de um castelo que é grandioso e bonito, mas nunca tão açucarado, a ouvir tantas vezes quanto se puder. 
Chegada a última canção, a que dá parcialmente título ao disco, escutamos, atentos. Cai-nos um peso avassalador em cima, o da imensidão de um disco que não é só um disco, é uma maneira de estar nas canções. Estar nelas sendo o que se é e apregoando-se aquilo em que se acredita. Mais que a referência ao "Sermão da Montanha", há aqui tudo aquilo que este disco é. Um banho de crença, pertença e verdade plena em contradições, certo, mas verdadeira. Este disco não é só um disco. E se for só um disco, é um disco tremendamente bom. 
Que rever cantiga a cantiga não levante dúvidas quanto à coesão de um álbum que é um todo, com uma matriz bem definida e, claro, com o cunho pessoal da psique de Manuel Fúria, acentuadíssimo como se quer. As dúvidas e as contradições, os amores e os desamores achados na busca do lugar ideal. A amargura de uma capital descaracterizada e a aldeia como lugar dos bons costumes, clara e feliz, iluminada de portugalidade. E os lírios que são, afinal de contas, o que realmente importa. 
A ouvir várias vezes, com atenção.

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