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31 de março de 2012

Coletânea Cena Independente #3

Cena Independente é um projeto baseado no Music Alliance Pact. Nele blogs nacionais especializados juntam o que há de mais novo e relevante na música independente de seus estados em uma coletânea mensal, publicada sempre no último dia de cada mês. 

Nesta edição a capa ficou por minha conta. Fiz todo o trabalho no celular, tentando aprofundar no conceito de mídias digitais e mobilidade que abordo cada vez mais no Meio Desligado.

O download da coletânea com todas as músicas pode ser feito no Mediafire.


MINAS GERAIS: Meio Desligado
Psilosamples – Olho de Cabra
eletrônica experimental/IDM
Por vezes soando como uma "IDM tropical", as músicas do Psilosamples utilizam samples, timbres vintage e ritmos quebrados de forma lo-fi e experimental. Oriundo do interior de MG, o Psilosamples tem crescido no circuito eletrônico alternativo, como sua presença no importante festival Sonar (em suas edições brasileira e espanhola) prova.
Para quem gosta de: Daedelus, Girl Talk, Squarepusher


RIO DE JANEIRO: RockinPress
Mahmundi – Desaguar 
chillwave/indie 
Mahmundi é o projeto onde Marcela Vale se descreve em cores variadas, deixando aflorar seus sentimentos e de forma bonita, quase juvenil. Ouvir letras tão afogadas no amor e ao mesmo tempo destoadas por um instrumental dançante, com um timbre próprio e envolvente, fazem a música de Mahmundi ser ainda mais plural, mais contagiante. É fácil se encontrar dentro das canções do seu primeiro EP, Efeito das Cores – seja dentro de uma pista de dança ou feliz ao encontrar um amor. Afinal, a música nasceu para demonstrar sentimentos e com essa magia, Marcela sabe se expor.
Para quem gosta de: Toro Y Moi, El Guincho, Tulipa Ruiz 

PARANÁ: Defenestrando
Naked Girls and Aeroplanes – K.A.C.C. (Rough Love)
folk/fofura
Formado por Rodrigo Lemos (d’A Banda Mais Bonita da Cidade e Lemoskine), Artur Roman e Wonder Bettin (ambos do Sabonetes), o Naked Girls and Aeroplanes é um desses grupos que combinam fofura e acordes que soem da melhor forma possível para chegar em algum ponto profundo e sentimental. Na música “K.A.C.C. (Rough Love)”, o trio parece misturar inocência e sensualidade a partir de arranjos vocais cuidadosamente planejados. A faixa está no EP de estreia da banda, lançado em fevereiro deste ano.
Para quem gosta de: Florence + The Machine, Cícero, Rosie and Me 

SÃO PAULO: Move That Jukebox
Some Community – Head and Tail
indie/dream/pop
A bateria quase marcial marca os primeiros segundos do novo single dos paulistanos do Some Community. O baixo e o backing vocal do ex-Volantes Bernard Simon também são destaques nessa nova fase da banda - que volta em 2012 com EP novinho e shows recentes no Sxsw no currículo. “Head and Tail”, que já ganhou até um belíssimo vídeo, é cheia de climas etéreos, guitarras agudas e oníricas e teclados vibrantes com melodias singelas. A doce voz de Juliana Vacaro é a cereja do bolo. E em 5 minutos, o Some Community mostra que muita coisa mudou – pra melhor – desde RinoRino, EP debut da banda, de 2010.
Para quem gosta de: Warpaint, Cambriana, Local Natives

PERNAMBUCO: AltNewspapper
Daniel Araújo – Estero Bla
ambient/experimental/instrumental/lo-fi
Daniel Araújo, artista responsável pela “cara” da Cena Independente #2, retorna nesta edição agradando desta vez aos ouvidos. Neste mês o músico lançou seu primeiro registro solo, todo feito em casa e seguindo a verve instrumental característica dele em suas bandas. O álbum se chama “De Dentro do Ser” e a faixa escolhida é a bela “Estero Bla”, uma sobreposição de camadas dançantes bem agradáveis. O jogo de letras que dá nome a música deixa claro a principal influência da mesma, decifre o mistério ouvindo...
Para quem gosta de: Hurtmold, Tortoise, Monodecks

BAHIA: El Cabong
Opanijé – Se Diz 
rap/hip hop
O rap baiano poucas vezes ultrapassou as fronteiras do estado. Quem promete mudar isso é o Opanijé, grupo formado em 2005 e com o primeiro disco prestes a ser lançado. Dois MCs e um DJ unindo elementos clássicos do rap - samples bem sacados, batidas e crítica social - com ritmos afro-baianos, cânticos do candomblé, percussão e uma criatividade que às vezes entorta o ideal rapper. 
Para quem gosta de: Racionais MC's, Beastie Boys, Tincoãs

MATO GROSSO: Factóide
Macaco Bong – Japabugre
rock instrumental
O EP Verdão e Verdinho possui uma grande simbologia, já que foi o primeiro material gravado depois que o Macaco Bong se mudou de Cuiabá, mas tem a influência forte da viola pantaneira. Eles não sabiam, mas também foi o último registro de estúdio com Ney Hugo, da formação clássica do Macaco, que deixou a banda recentemente para dar lugar ao mineiro Gabriel Murilo.
Para quem gosta de: Mogwai e Slint

ESPÍRITO SANTO: Ignes Elevanium
Manfredines – Silêncio
rock
Manfredines é uma das mais interessantes bandas capixabas que fazem parte desse novo rock nacional, liderado por bandas como Los Hermanos e Móveis Coloniais de Acaju. Porém, a banda não toma suas influencias diretamente desses nomes, e sim de nomes dos anos 80 como Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso. Conclusão: temos uma sonoridade nova e moderna, mas com a mesma qualidade e profundidade das bandas do passado. Eu diria que influencias inclusive da música internacional como Radiohead figuram evidentes na sonoridade da banda, especialmente no single "Silêncio", lançado em 2011, que é um excelente exemplo do som dos caras. A banda está pra lançar novo material em 2012, e como são uma banda totalmente independente, não tem muitas datas fixas, mas acredito eu que podemos aguardar um novo trabalho para este ano. Excelente banda mesmo, recomendadíssima!
Para quem gosta de: Radiohead, Los Hermanos, Titãs

RIO GRANDE DO NORTE: FUGA Underground
The Red Boots – Suicide
rock alternativo/thrash metal/desert rock
Os Red Boots lançaram seu álbum de estreia, “Aracnophilia”, no final de fevereiro pelo Projeto Incubadora do DoSol Netlabel. Com uma sonoridade densa que contrasta com a formação simples de um duo de guitarra e bateria, e usando de forma inteligente referências das mais diversas dentro do rock e do metal, a banda mossoroense criou um disco cheio de personalidade. Ecos de Metallica, Sonic Youth e Motörhead podem ser sentidos em “Suicide”, uma das faixas que dão a tônica do álbum.
Para quem gosta de: Metallica, Sonic Youth, Motörhead

PARAÍBA: Atividade FM
Johnny – BLEFE
indie rock/garage rock
JOHNNY é uma banda estreante no rock paraibano que começou a ganhar certa fama divulgando alguns singles avulsamente com qualidade. A banda é formada apenas por Gabriel Romio e Leon Guimarães que gravam as músicas sozinhas num estúdio, mas, que nas suas apresentações contam com músicos de apoio. É perceptível uma grande influências de bandas britânicas de indie rock, como aquele Arctic Monkeys no início, principalmente nas letras que falam sobre relacionamentos e suas guitarras rápidas e dançantes.
Para quem gosta de: Vivendo do Ócio e Selvagens à Procura da Lei

Godzilla – Insolação
punk
A banda Godzilla vem do Estado do Amapá - especificamente do município de Santana. Suas conexões psíquicas suprem essa distância com uma leitura atualíssima, sexy, desolada, sagaz e urgente do rock e das relações humanas, como se vivessem em uma Megalópole destruída pelo monstro japonês que lhes empresta o nome.
Para quem gosta de: Ramones, Misfits, Sex Pistols

ALAGOAS: Sirva-se
Interrompidos - Igual à Minha Vida
rock/MPB/blues
Após uma série de mudanças, a Interrompidos se fortalece entre as bandas alternativas de Alagoas. Com o lançamento recente do EP “Interrompidos” e do clipe “Igual a minha vida” a banda que mistura Rock and Roll, Blues e MPB, vai se inserindo em um novo cenário onde já conseguiu o seu destaque. Com nove faixas, o EP simboliza bem a transformação e evolução musical do quarteto. Letras mais introspectivas e reflexivas junto a um instrumental equilibrado são o ponto alto da banda. O destaque da vez vai pra música que dá nome ao primeiro clipe da banda.Para quem gosta de: Made In Brazil / Secos e Molhados / Mutantes

ADVERTÊNCIA: Este material não deve ser comercializado. Ele foi produzido com fins estritamente promocionais.

27 de março de 2012

Só mais um show do Black Drawing Chalks (ou não)

Andar de cima
Ele tem entre 30 e 35 anos. Cabelo bem cortado, calça jeans, camiseta preta básica. Ela aparenta ter alguns poucos anos a mais, mas repete o figurino. Depois que se casaram a vida noturna mudou. Nada de saídas durante a semana, no máximo uma breve cerveja com os amigos nos mesmos bares ou idas a restaurantes (em datas especiais, que fique claro). Os shows e os porres diminuíram. Há o trabalho no dia seguinte, a casa para arrumar, as contas a pagar. Ainda tentam aproveitar enquanto o primeiro filho não vem.

Pista
Ele completou 18 anos no segundo semestre de 2011. Boné de marca de skate, camiseta preta de banda, calça jeans. Não passou no vestibular. Os pais lhe deram mais um ano para estudar e tentar novamente, antes de ter que trabalhar. Acordou ao meio-dia, cansado e com leve ressaca da noite anterior. Se recuperou. Começou a beber às nove da noite.

Andar de cima
Estão sentados ao redor da mesa rústica, tomando suas cervejas. Alguns minutos atrás, ele conversava com empolgação com o baixista da banda de rock. Comprou duas camisetas (uma para ele, outra para ela) e os dois CDs da banda (o outro estava esgotado), enquanto era observado por ela que, tímida, se apoiou na parede ao lado e assim permaneceu durante toda a conversa. O DJ toca Metallica, Hellacopters, Ramones. Eles vão se empolgando, os pés marcando o ritmo com mais força.

Pista
"Me dá mais uma cerveja!". "Caralho, quanta mulher gostosa!". "Esse som é fóda!". Aos gritos, a conversa flui. O DJ toca Metallica, Hellacopters, Ramones. Ele já tomou algumas cervejas e ainda não foi ao banheiro.  Está difícil se movimentar pelo espaço, muitas pessoas ao redor. A banda está no palco e pode começar a qualquer momento. Não pode sair dali, não naquele momento.

Andar de cima
Ele bate cabeça e balança o corpo. Sempre ao lado dela. Ela faz os mesmos movimentos de forma mais sensual, usa mais os quadris, o cabelo. Sempre ao lado dele. O som é pesado, sujo e rápido. "Achei cinquenta centavos no chão, tomem pra vocês. A nossa banda dá dinheiro, viram?". A cada piada do vocalista eles se entreolham e sorriem com cumplicidade. E voltam a bater cabeça.

Pista
A camisa está grudada ao corpo, o suor faz o chão escorregar. Teve que tirar o boné ou o perderia. Pulou duas vezes do palco, levou uma joelhada, três pisadas no pé direito, uma pisada no pé esquerdo, duas cotoveladas, trinta e dois empurrões e a garota que pulou do palco acaba de lhe dar uma bundada na cabeça. Este é o melhor momento de sua semana.

Andar de cima
Eles continuam dançando sem sair do lugar, lado a lado. O andar de cima também está mais cheio agora. Ela continua balançando a cabeça de um lado para o outro enquanto dá alguns passos para trás, para uma área mais alta e com mais espaço. E dança. Ele a observa do mesmo lugar de antes, sem piscar. Vai até ela. E dança. E a cada fim de música, se abraçam e se beijam. Eventualmente, um dos dois vai buscar mais cerveja.

Pista
Ele foi ao banheiro. Mijou no pé esquerdo sem querer. No caminho, encontrou com membros de bandas e de coletivos que conhece pela internet. Trocou a camisa suada pela camiseta da banda que toca agora. Baixou o CD há meses, comprou a camiseta uma hora antes, com o baixista da banda de rock. Volta para o meio da pista, onde leva mais pisadas, empurrões, joelhadas e cotoveladas, mas nada de bundas batendo em sua cabeça desta vez. Infelizmente.

Andar de cima
"Essa é a última música. Quem quiser ir embora depois pode ir, a gente vai ficar e festar". Estão abraçados. Ela, na frente, de costas para ele. Olham para o palco, para as pessoas na pista. Ela se vira e se beijam. "Estamos festando". E sorriem.

Pista
"Velho, putaquipariu, esse show foi do caralho". "O que a gente vai fazer amanhã?".

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Estive em 11 show do Black Drawing Chalks pelo país, a maioria deles em Belo Horizonte. Três vezes na Obra, duas no Studio Bar, uma no Cento e Quatro, uma no Music Hall. Acompanhar a trajetória da banda na cidade é perceber sua ascensão e o funcionamento do processo de formação de público na cena independente. 

Em 2008, quando a banda se apresentou pela primeira vez em BH, em uma quinta-feira na Obra, talvez estivessem presentes 50 pessoas. No ano seguinte, em festa do Meio Desligado, lotou a mesma casa (dois dias depois, fariam um show histórico para o público da cidade de Sabará, em frente a uma igreja inacabada). De lá para cá, o Black Drawing tocou em alguns dos principais festivais do país, circulou pelo Brasil e fez shows no exterior. O que surpreendeu no show que fizeram em BH no último sábado, 24 de Março, não foi o fato do Studio Bar estar lotado para vê-los, mas sim o perfil de parte do público. Muitos e muitos jovens ávidos por ver a banda ao vivo pela primeira vez, e trintões e quarentões que, por diferentes motivos, também faziam sua estreia em um show do Black Drawing Chalks.

Quando coletivos de produção cultural, artistas e jornalistas falam sobre divulgação da música independente, desenvolvimento da cena e formação de público, estão falando disso. E parte do resultado é ter 2 mil pessoas num show de rap (Criolo e Julgamento, no dia anterior); uma banda goiana tocar por quatro anos seguidos em uma cidade à mais de 900km de distância de sua cidade natal e ter público que se renova e se amplia; ter opções para o público e para os artistas se apresentarem; tornar tudo isso sustentável. E, com isso, criar momentos incríveis pro casal que começa a repetir os clichês da vida conjunta, pro moleque que vive os últimos momentos da adolescência, pro sujeito que simplesmente gosta de distorção, praquele quem quer viver de fazer e tocar música, pra mim, pra você e até pra quem faz "puff" e pensa que este trecho final parece auto-ajuda.

Ah, só para constar: dos 11 shows que vi do Black Drawing Chalks, o do último sábado foi, sem dúvida, um dos melhores.




Foto: Tássio Lopes

26 de março de 2012

Evidente: música independente no Canal Brasil

Estreia no dia 5 de Abril o Evidente, novo programa do Canal Brasil dedicado à música independente produzida no país. Cada edição terá 30 minutos de duração, com exibições às quintas às 21:00 e reprises nos domingos, às 11:30. Entre os artistas já divulgados na programação estão nomes já conhecidos como A Banda Mais Bonita da Cidade, Emicida, Fino Coletivo, Criolo, Gaby Amarantos e Mombojó e outros ainda restritos ao circuito alternativo, como Lê Almeida, Cícero, Bárbara Eugênia e Los Porongas.



As exibições na TV serão complementadas pelo blog do programa, publicado dentro do site do Canal Brasil. Para difundir ainda mais a nova música brasileira os responsáveis pelo programa poderiam publicar também no blog todos os vídeos que forem exibidos na TV, possibilitando que mesmo quem não tenha acesso ao Canal Brasil conheça o trabalho dos artistas selecionados. Independente de como for, já vale pela intenção.

Interessou pelo tema? Confira também a TV.meiodesligado.com

24 de março de 2012

Jair Naves - Araguari

Como eu me defendo desse sentimento de inadequação 
Que me destrói por dentro, pro qual eu não vejo explicação?

Algumas obras demandam tempo para serem exploradas e absorvidas. Araguari, estreia solo de Jair Naves, tem apenas quatro músicas, 20 minutos, mas se enquadra nessa categoria. Com o passar do tempo, é como se as canções de Jair criassem raízes que crescem e se tornam visíveis em um processo de beleza e dor. Diferentemente da época de seu lançamento, quando o fantasma do Ludovic tornava turva a visão do trabalho solo de Jair, o tempo contribuiu para diminuir imagens pré-concebidas e saudosistas.

Bandeira a meio mastro, um afago áspero, a voz do cantor
Eu criei um certo faro para esse tipo de enganador

Nos primeiros instantes de "Araguari I (meus amores inconfessos" a lógica do EP é exposta: o dedilhado na guitarra é uma breve e suave introdução imersiva, na sequência tomada pelo baixo vívido e a batida do bumbo como um soco. Cada trecho calmo, cada belo acorde, são carregados de uma fragilidade exposta com vigor em uma mistura de sofrimento e libertação.

Ladeira abaixo, assim foi dito
uma obra-prima de eufemismo
para as dores da inaptidão,
para o sufocante calor da afobação



Não importa o quão autobiográficas ou não são as letras, Jair cria/conta histórias/estórias sobre arrependimentos, descobertas, busca pelo autoconhecimento, amor... temas presentes em momentos de tristeza e felicidade reforçados em períodos específicos da vida, como a adolescência e o início da vida adulta. Não por acaso, as duas partes de "Araguari" ("meus amores inconfessos" e "meus dias de vândalo"), que abrem e fecham o EP, abordam tal momento.

Ninguém imagina o que eu enfrentei
o quanto doeu, o quanto eu rezei
minha reza de ateu
num desespero que eu nunca me atrevo a demonstrar

O amor é tema da melancólica e lamentosa "Silenciosa" e da (mais animada do EP) "De branquidão hospitalar". A dualidade do sentimento é expressa nas letras e nas músicas: a primeira, minimalista e devagar, é uma crônica do amor acabado, da falta de esperança; a segunda, pós-punk enérgico sobre um amor difícil de se explicar e a expectativa criada pela paixão.

Agora, convenhamos: eu nunca me expus tanto, você nem pra impedir
Com todo esse alvoroço, eu só engoli meu almoço, não senti gosto algum
A torneira que eu esqueci aberta não tardou a inundar todo o prédio
mas eu sobrevivi, eu sobrevivi

Em "Araguari II (meus dias de vândalo)", última faixa, a carga emocional aflora carregada pelas (muitas) nuances da música. É o tipo de letra que emocionaria por si só, mas que, musicada, penetra na alma. Sua tensão é instável e a única certeza é a de que algo muito profundo a acompanha, uma confissão de uma tragédia íntima sobre a qual se tem noção, mas não o controle. Como a vida.

Nem queira saber o que eu ambiciono,
o que me mantém vivo, porque eu não cedo ao sono
Eu te aconselho: nem queira saber

Assim que os meus dias de vândalo terminarem,
eu sei que me levarão pro céu
E farão com que eu narre os meus escândalos
sem que eu me gabe,
com o constrangimento abatido de um réu
Talvez fosse preferível
que eu nunca tivesse saído
de onde eu nasci,
de Araguari




* Os trechos em itálico são da letra de "Araguari II (meus dias de vândalo)". A foto é de autoria de Patrícia Caggegi. O download do EP pode ser feito no site do Jair Naves.

20 de março de 2012

Leonardo Marques e a esquina indie do clube

Não estávamos preparados. De repente, sem aviso, Leonardo Marques fez sua estreia solo com um dos melhores lançamentos de 2012 até o momento. Dia e noite no mesmo céu tem pouco menos de 30 minutos, mas o suficiente para viciar e emocionar intensamente. Leo cita uma nostalgia melódica que perpassa o álbum. Suas canções remetem a cenários bucólicos, românticos e solitários. Não por acaso, trilhas sonoras são algumas das inspirações. Mas, neste caso, cabe ao ouvinte uma investida solitária pelos caminhos indicados por Leo.

Dia e noite no mesmo céu é o encontro de uma Minas Gerais de tempos passados e Los Angeles. Lô Borges e Elliott Smith tocando juntos no quarto, afastados do mundo, descarregando emoções. Uma surpresa para quem conheceu Leo como guitarrista da Diesel, uma das melhores bandas de rock que já existiram em Belo Horizonte e que teve relativa projeção no Brasil no início dos anos 2000 e no exterior, quando trocou de nome para Udora, e também para quem o conhece como membro do combo criativo Transmissor, que em 2011 lançou o 2º CD da carreira, Nacional.

Isolamento e introspecção estão presentes não apenas nas letras, mas também no processo de criação do álbum. Leo gravou todos os instrumentos, exceto bateria e sopros (este, em apenas uma música). Das nove faixas, duas são em inglês e uma instrumental, reflexos de suas influências e trajetória.

No ano de comemoração de 40 anos do clássico Clube da Esquina, é sintomático que uma nova leva de artistas se destaque com trabalhos que não se limitam em homenagens ou fiquem perdidos em elucubrações. No caso de Leonardo Marques, o trabalho vai além, acentuado pela sua sensibilidade e apuro estético. Nunca o termo "pop barroco" fez tanto sentido pra mim.



Entrevista com Leonardo Marques

O Transmissor parece ser uma banda na qual os integrantes têm bastante liberdade criativa (o que se reforça com a alternância de vocalistas). Por que fazer um álbum solo? Desde quando trabalha nesse CD e quanto tempo durou o processo de gravação?
O Transmissor foi criado por essa necessidade criativa de cada um se expressar, temos liberdade total pra fazer o que quiser na banda. Começei a fazer um disco solo porque queria fechar um ciclo de canções que ainda não tinha gravado e dessa forma começar outro ciclo nos próximos discos do Transmissor. Venho trabalhando nesse disco ao poucos nos últimos 2 anos.


As músicas me passam uma sensação de isolamento, criam imagens que remetem ao interior (minha visão pessoal). O título do CD, as referências a elementos domésticos em algumas faixas, o fato de você tocar quase todos os instrumentos na gravação e colocar Casa Branca como sua cidade no Facebook sugerem uma espécie de afastamento. De que forma essa aparente introspecção apresenta suas intenções com esse CD?
Começei a fazer o disco ainda no meu apartamento em BH, e terminei ele depois que me mudei pra Casa Branca. Talvez mesmo antes de estar mais afastado da cidade já projetava essa ideia de isolamento na minha cabeça e isso pode ter ido parar nas composições.
Foi um processo muito prazeroso gravar o disco, descobrir as possibilidades sonoras que queria, gravar quase tudo sozinho, tinha momentos que me era como estar lendo um bom livro onde você não vê o tempo passar.
Na gravação de bateria, o Transmissor inteiro foi pra Casa Branca e passamos um fim de semana inteiro gravando.

Clube da Esquina, Elliott Smith e Jon Brion são algumas das referências possíveis ao se ouvir "Dia e noite no mesmo céu". Até que ponto isso reflete suas reais influências?
Acho que vc acertou na mosca. 
O último bairro que morei em Los Angeles antes de voltar pro Brasil era Echo Park, o mesmo que o Elliott Smith morava, passava na porta do Solutions Speakers todos os dias, lugar onde ele fez a famosa capa de um de seus discos, o Figure 8. Nessa época fiquei muito encantado com sua música e desde então me identifico muito e com seu jeito de cantar, compor, gravar e se expressar. O Jon Brion tive o privilégio de conhecer e trocar muita ideia, ele era cliente cativo da loja de instrumentos musicais vintage que trabalhei em Hollywood por vários anos. Estive várias vezes em seu lendário show semanal no Largo em L.A onde ele toca todos instrumentos, atende a pedidos, cria versões e bebe Guiness e café a exaustão até criar uma alucinação musical maravilhosa e realmente inspiradora, saía dos shows completamente obstinado a escrever canções, gravar sons e texturas diferentes. A trilha sonora do Eternal Sunshine of a Spotless Mind talvez seja uma das grandes influências estéticas do meu disco, além de ter escutado muito essa trilha sonora, uso muitos elementos parecidos como o Mellotron, optigan, piano de armário, glokenspiel. 
Acho que em momentos alguma coisa no disco remete a nostalgia melódica do Clube da Esquina, gosto muito das canções do Lô Borges, acho ele um modelo de artista pra mim, ele está na ativa até hoje fazendo exatamente o que ele quer musicalmente sem comprometer sua visão artística com nenhum outro aspecto que não seu anceio de compor e gravar suas músicas da sua maneira.

Quando e como o álbum estará disponível para download? Haverá uma versão em CD ou outro formato?
Semana que vem estará disponível pra download no meu site www.leonardomarques.com e os CDs estarão à venda provavelmente na semana seguinte. Quero fazer o vinil também, mas ainda não tenho data definida.

Haverão shows desse trabalho? Qual a formação ao vivo?
Penso em fazer um lançamento em breve. O Pedro Handam e o Henrique Matheus do Transmissor estarão nessa formação, mas o resto do pessoal ainda não está definido.

Esse trabalho também é a estreia do selo La Femme Qui Roule, certo? Quem está envolvido e qual a proposta desse novo selo?
O selo é uma ideia minha e do Yannick Falisse, um artista gráfico e músico belga radicado em BH. A proposta é juntar pessoas com propostas musicas e estéticas interessantes e trabalhar desde a gravação até a elaboração da capa e trabalho gráfico do artista, criar uma identidade forte para o selo.

16 de março de 2012

Marcia Castro lança novo CD. Ouça com exclusividade sua versão de Otto

Este é o release que escrevi para a cantora Marcia Castro, que lança hoje, através do Natura Musical e da Deck Disc, seu segundo CD, De Pés no Chão. Abaixo, você escuta com exclusividade a música "História de fogo", composta por Otto e Alessandra Negrini.


Quatro anos após sua estreia em CD, a cantora baiana Marcia Castro lança o segundo álbum de sua carreira marcada por importantes realizações em um curto espaço de tempo. Desde que lançou o CD Pecadinho, em 2007, uma série de acontecimentos tem repercutido o nome da artista e ampliado a expectativa em torno do novo trabalho: foi indicada ao Prêmio TIM/2008 como “Melhor cantora de pop-rock” (ao lado de Fernanda Takai e Vanessa da Mata); se apresentou no importante Montreux Jazz Festival, na Suíça; acompanhou a argentina Mercedes Sosa em sua última turnê, com shows no Brasil, Alemanha, Itália e Israel; teve a música “Queda” incluída na trilha da novela Ciranda de Pedra, da Rede Globo; e fez gravações e participações em projetos junto a ícones da música brasileira como Tom Zé, Moraes Moreira, Luiz Melodia e Jards Macalé. Tudo isso, para ficar em poucos exemplos. 

Marcia é inquieta e sua movimentação se reflete na quantidade e diversidade de parcerias que realiza, assim como na desenvoltura que apresenta ao trabalhar diferentes gêneros musicais, sempre imprimindo sua identidade de um modo que surpreende crítica e público. 

Graduada na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, iniciou-se na música aos 16 anos. Em São Paulo, para onde se mudou em 2008, parece ter assimilado com maior intensidade o caráter cosmopolita da cidade. Desde então, fez residência artística no Timor Leste, uma turnê na Turquia e criou o projeto “Pipoca Moderna”, no qual promove um intercâmbio artístico com cantoras de diferentes Estados brasileiros (Maryana Aydar e Ana Cañas/SP, Rita Ribeiro/MA, Cláudia Cunha/PA e as conterrâneas Mariella Santiago, Marcela Bellas e Manuela Rodrigues) e até mesmo do exterior (caso da cabo-verdiana Mayra Andrade). 

Em seu novo CD, De pés no chão, ela mistura um repertório ousado e inusitado que vai do clássico “Preta pretinha”, dos Novos Baianos, a raridades garimpadas em suas pesquisas sonoras, como “Catedral do inferno”, de Cartola e Hermínio Bello de Carvalho, antes registrada somente pela cantora Marlene. O CD, produzido em conjunto por Guilherme Kastrup, Rovilson Pascoal e a própria Marcia, ainda apresenta composições de Tom Zé, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Rita Lee e dos contemporâneos Otto e Luciano Salvador Bahia, entre outros. 

O maestro baiano Letieres Leite, responsável pela elogiada Orkestra Rumpilezz, assina os arranjos de sopros em quatro faixas e Luiz Brasil compôs os arranjos de cordas em duas faixas. Entre as participações especiais encontram-se nomes de destaque na nova música brasileira, como Hélio Flanders (da banda cuiabana Vanguart), o violonista paulista Kiko Dinucci, a baiana Marcela Bellas e a carioca Thalma de Freitas, um time de respeito que faz parte da jovem e promissora cena musical da qual Marcia Castro faz parte.

Mistureba: Campanhas no Facebook, Siba, Kassin, The Salad Maker, Lucas Santtana, Tono e Madrid

Novos vídeos

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Tono


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The Salad Maker



Mini-documentário sobre Siba


Campanhas no Facebook: escolha a sua





Madrid, novo projeto de Adriano Cintra (ex-CSS) e Marina Vello (ex-Bonde do Rolê)

15 de março de 2012

Tecnobrega vs Weezer na Music Alliance Pact deste mês

DJ Cremoso é uma figura enigmática (não se sabe sua real identidade) que há algum tempo aproxima o tecnobrega do rock e do pop mundial. Em tempos de restrições na internet e proibições relacionadas a compartilhamento de arquivos, sua conta no Soundcloud já não apresenta mais nenhuma de suas músicas, agora reunidas (não se sabe até quando), em um perfil no 4shared. Lá, Rage Against the Machine, Joy Division, Franz Ferdinand, Ke$ha e muitos outros são incrementados com a "maionese do brega", escolha deste mês para representar o Brasil no Music Alliance Pact, projeto global que envolve cerca de 40 blogs especializados em música, de diferentes países, que mensalmente realiza uma coletânea com bandas independentes/alternativas desses países. Todo dia 15 é publicada a coletânea com uma música escolhida pelo representante de seu respectivo país de origem.

O download da coletânea completa deste mês pode ser feito no Mediafire. Neste mês, uma novidade é o vídeo feito entre os participantes mexicanos e colombianos da MAP, que explica um pouco o projeto (e tem a brasileira Bixiga 70 como parte da trilha sonora!).


 BRASILMeio Desligado 
DJ Cremoso - Say It Ain't So 
No filme "Rebobine, Por Favor" (Be Kind, Rewind), Jack Black e Mos Def produzem versões de baixa fidelidade de filmes, no que eles chamam de "sweded versions" ou "versões suecadas". O que o DJ Cremoso faz musicalmente é similar a isso: ele "bregaliza" hits pop/indie/rock, transformando-os em tecnobrega, sempre com as mesmas batidas, as intervenções de locução e os timbres de teclado típicos do gênero, como pode ser ouvido nessa versão de um dos maiores hits do Weezer nos anos 90, "Say It Ain't So".
 

ARGENTINA: Zonaindie
Yataians is a Buenos Aires-based band with a rocksteady sound heavily influenced by Jamaican artists from the 60s and 70s, such as The Ethiopians, The Gaylads, The Heptones and The Paragons. It's also a product of global age, with members from France, Colombia, New Caledonia and, of course, Argentina. This song is from their first album, Ô Tulop, which came out a couple of months ago, courtesy of the independent label Estamos Felices.

Dumb Hope is the gorgeous lead single of Shady Lane's forthcoming album, Built Guilt. Once the solo guise under which Sydneysider Jordy Lane put out a diverse range of odds and ends, Shady Lane has grown into a four-piece (officially?) with more hooks, vocals and a nostalgic pop sensibility not unlike fellow New South Welshmen Belles Will Ring.

AUSTRIA: Walzerkönig
With past major label experience, the founding members of what is now Giantree found a new home on an indie label, but without denying that what they are doing is pop in capital letters. Their debut album We All Yell comes with synthesizers and catchy hooks. Communicate, a song about fragile beginnings, was a radio hit in Austria.

Bronx Cheerleader have been a regional treasure in and around their hometown of St. Catharines, Ontario, for years now but their new album, Real Punks Don't Sing About Girls, deserves to be heard by a wider audience. Camelot is a deliciously dirty lo-fi anthem-in-waiting, and one of the stand-out moments on this record, of which there are many.

CHILE: Super 45
Matías Cena used to be a solo artist from the folk scene in Santiago, and he made himself relatively known via an acoustic guitar and MySpace. Gradually, Ryan Adams and Conor Oberst's influence diverted him to the ensemble format, which has developed into this six-piece that shines in a land not used to country-like rock. Raíz is a taster of Matías Cena & Los Fictions' second album Arauco Cajún.

CHINA: Wooozy
Modern Children is a six-piece band based in Hong Kong that formed in 2006. "Colorful" is the best word to describe them. They play music in different styles, from indie-pop to post-rock. Their songs are filled with all kinds of sounds by using a wide range of instruments, from guitars and bass to rainbow bells and erhu. The band released their self-titled debut album in January.

1280 Almas is the biggest cult band from Bogotá. More than 18 years of history, six albums and a life of independence on the underground make them local legends. Now, they present a new song called Antipatriota ("Unpatriotic"), a declaration of national nonconformity.

14 de março de 2012

Cambriana, a revelação do indie rock goiano

No início de 2011, durante uma conversa com o Fabrício Nobre em uma pousada no interior de Minas, ele falava sobre como a geração dele (músicos, produtores e público) havia ralado (e continua) para construir um cenário diferente, mais receptivo, profissional e produtivo para a música independente. Mesmo longe do ideal, o mercado evoluiu e mais oportunidades surgiram em diferentes pontos da cadeia produtiva musical. Ele dizia (e concordo) que, agora, cabe à nova geração fazer uso dessa estrutura, abrir mais portas, continuar a evolução.

Ao conversar com o Luis Calil, da banda Cambriana e conterrâneo de Fabrício, é como se as palavras de Nobre se materializassem. A Cambriana é uma banda jovem que possui as principais características da produção independente moderna: produzem suas músicas em suas próprias casas, são auto-gestores e têm consciência da importância da divulgação digital, o que se reflete tanto nos contatos com blogs e perfis no Twitter relevantes para seu público-alvo como no fato de licenciarem suas músicas em Creative Commons.



A banda tem quatro shows no currículo, milhares de downloads de seu álbum de estreia (lançado há dois meses) e dezenas de referências na internet - e isso tudo soa muito natural. Mérito de Luís (criador da banda e autor de todas as músicas, algumas delas em parceria com Wanderson Meireles) e seus companheiros de banda, cuja faixa-etária vai de 20 a 27 anos.

House of Tolerance, o CD de estreia, é carregado de uma sensibilidade rara na cena de Goiânia. Indie rock singelo que trabalha bem texturas e climas depressivos e remete a grupos internacionais  contemporâneos como The National e Destroyer, emulando eventualmente o rock pop de bandas como U2 e The Killers em versão anestesiada. Além do álbum, acabam de lançar o single "Slow Moves" e possuem o EP Afraid of Blood, todos acessíveis no perfil da banda no Bandcamp e liberados para download em Creative Commons (o que significa que a livre distribuição das músicas está liberada, contanto que para fins não-comerciais). Abaixo você conhece um pouco mais sobre a Cambriana, sua história e planos para o futuro recente.


Por que "Cambriana"?
O motivo principal foi porque a palavra em si soa bonita, independente do significado. E ela parece bonita quando escrita em algum lugar. Mas o significado é interessante também: o período Cambriana foi quando a vida "explodiu" e se diversificou na Terra. Essa ideia de diversificação sem querer querendo se encaixou com a estética do álbum, que tem uma variação bizarra de estilos.

As letras da banda abordam aspectos da vida que são passíveis de identificação por grande parte do público, mas o fato de serem em inglês pode acabar deixando-as em segundo plano. Qual o motivo de escolherem o idioma? 
Foi basicamente costume. Eu sempre ouvi músicas internacionais mais do que nacionais e essas músicas internacionais costumavam ser em inglês. Quando tento cantar em português, não soa natural, eu me sinto meio idiota. E sobre as letras: me importo com elas, mas acho que o principal são as melodias, ritmos e texturas. Dá pra aproveitar o disco sem saber exatamente o que eu tô dizendo.

O CD de estreia da banda foi gravado em estúdios caseiros, certo? De onde vem o conhecimento para fazer as gravações? Rola de mandar uma foto de onde gravaram?
Nós gravamos vocais e instrumentos acústicos em estúdio, todo o resto foi feito em casa. O Israel, guitarrista da banda, já tinha experiência com estúdio e gravação, então ele orientou a banda em certos pontos. Mas boa parte do produto final foi alcançado na base de "errar e tentar de novo" até achar a solução, o que é relativamente tranquilo se você não está se preocupando com o relógio do estúdio.

Alguns dos membros já haviam tocado juntos anteriormente, não é? Quando e em qual banda isso aconteceu e por que ela terminou?
Eu, Israel e o Rafael já tocamos juntos fazendo covers de bandas que nós gostamos - acabou porque percebemos que ficar tocando só covers não tem a menor graça. O Israel já teve outras bandas, como a Fibra, de Brasília. O nosso tecladista, Wassily, também toca com o Diego de Moraes. Pedro, o baixista, e Heloísa, nossa atual baterista, têm um projeto juntos, o Fantoches Anônimos, que já tem uma certa história.

Goiânia é uma cidade que na cena alternativa está fortemente ligada ao rock'n'roll mais tradicional e pesado, grande parte devido ao trabalho da Monstro Discos. Como é a receptividade do público e mídia local para sons mais indie e introspectivos?
A recepção tem sido muito boa, justamente porque Goiânia não é tão forte nesse tipo de som. Eu acho que o público daqui valoriza variedade e novidade, não procuram só o estilo prevalecente na região. Tá todo mundo apoiando bastante o nosso projeto, inclusive essas bandas mais pesadas.

A Cambriana me parece uma banda própria do momento em que vivemos, esse esquema do it yourself digital viabilizado pelo avanço tecnológico e que se espalha rapidamente através das redes. Como (ao menos alguns de vocês) já tiveram bandas antes, como vocês comparam o atual momento da música independente brasileira com o que presenciavam antes? 
Ninguém sente nostalgia pela época de juntar dinheiro pra gravar uma demo mal feita (ou vender o carro pra gravar algo pra valer), enviar material pra selos e gravadoras e revistas, implorar pra tocar em algum fundo de quintal, e ficar sentado esperando algo acontecer. Tudo melhorou. Ninguém ganha mais cheques astronômicos de gravadoras, mas até isso é positivo, porque não se entra mais no ramo esperando ficar milionário. Vira algo mais honesto.


Atualmente grande parte das bandas independentes coloca suas músicas gratuitamente na internet, mas poucas são adeptas do Creative Commons. Por que utilizaram esse tipo de licença? 
Já que o disco seria distribuído de graça, fez sentido usar uma licença que libera a distribuição das músicas, mas que também cria algumas restrições. Ela garante que as músicas não vão ser usadas para fins comerciais, por exemplo. 

Até o momento os lançamentos de vocês são exclusivamente digitais? Pretendem lançar algo no formato físico? 
Pretendemos lançar o CD do House of Tolerance em breve e vender por um preço camarada pra quem gosta de ter o álbum fisicamente. Olhamos também a possibilidade de fazer vinis, mas não sei se será economicamente viável.



Vocês conseguiram um volume relevante de downloads e uma exposição significativa em blogs e sites rapidamente. Como funciona o esquema de divulgação da banda? 
Abrir contas no Twitter, Facebook, YouTube etc, e colocar o trabalho nelas. Foi basicamente isso. A única "estratégia" que usamos foi lançar alguns singles no mês de Janeiro, antes do lançamento do disco. Nós também entramos em contato com alguns blogs e quem gostou apoiou bastante a gente, tipo o @indiedadepre e o Move That Jukebox. Eu acho que se o trabalho é legal, não tem muito mais o que fazer (além de um clipe, que nós estamos providenciando).

O primeiro show de vocês aconteceu em Fevereiro deste ano? Como foi? Quais os planos para o restante de 2012 e qual a formação ao vivo?  
O primeiro show foi numa casa daqui de Goiânia chamada Metrópolis, abrindo pra banda The Neves, de Brasília. Nós ainda estávamos nervosos e pouco confiantes, mas foi uma estreia divertida e satisfatória, não teve nenhum erro catastrófico. Os planos agora são tocar onde nos convidarem pra tocar. Já nos apresentamos em algumas cidades dessa região e estamos planejando shows em Brasília, SP, Rio etc. Também queremos lançar mais coisas daqui a alguns meses.
 A nossa formação ao vivo é eu (Luis Calil) no vocal, Israel Santiago e Rafael Morihisa nas guitarras, Wassily Brasil no teclado, Pedro Falcão no baixo e Heloísa Helena batendo nos tambores. Esperamos em breve começar a tocar em palcos que caibam todo mundo.

Para quem tem interesse em conhecer mais sobre a cena alternativa de Goiânia, quais bandas indicam e quais os melhores lugares para tocar na cidade?
Não posso recomendar as coisas mais pesadas porque eu realmente não tenho experiência nesse ramo, mas eu curto a galera mais "indie", tipo Riverbreeze, Gloom, Ultravespa etc. E sobre os melhores lugares pra tocar, os membros mais experientes da banda dizem que o som no Martim Cererê e no Bolshoi Pub são muito bons. Vou confiar na opinião deles.

13 de março de 2012

Jennifer Lo-Fi - Noia


Enigmático. Intrincado. Acaba rápido, mas ressoa na mente. No corpo.

Psicodelia contemporânea que troca o bucolismo pela urbanidade. Sentimentos que mudam tanto quanto melodias e ritmos. Rock. Progressivo. Art. Rock. Ovos. Bacon. Noia. Um prato cheio.

Uma voz que exprime angústia e sensualidade. Não sei quem você é mas quero te conhecer. Identifico-me com o que fala, mas é triste demais. Grite mais. Bata. Soltar um pouco dessa energia é positivo. À distância, sentimos. Não vemos o tempo passar.

São energias distintas formando expressões singulares. Machuca. Traz lembranças. Dançamos em chamas. Esperanças? Ardemos. Esquecemos. De sofrer.

Seu jeito instável me atrai.

Programação do Abril Pro Rock 2012 (em vídeos)

20 anos de Abril Pro Rock, talvez o mais importante festival musical contemporâneo do país. Uma noite indie, uma dedicada ao metal e suas vertentes, outra noite, digamos, com a legítima world music. Do exterior, Antibalas (EUA), Buraka Som Sistema (Portugal / Angola), Nada Surf (EUA), Cripple Bastards (ITA), Brujeria (MEX) e Exodus (EUA). Nacionais, destaque para o show de retorno do Los Hermanos, Ratos de Porão começando turnê em comemoração aos 30 anos da banda, os pesados Test, Hellbenders e Lepstopirose, os novatos Strobo (PA) e Leo Cavalcanti (SP) e os locais Otto e Mundo Livre S/A que, veja só, agora "abre" o show de seu antigo percussionista (Otto foi membro da banda, com a qual gravou os CDs Samba Esquema Noise e Guentando a Ôia).



20 de Abril, sexta-feira
Los Hermanos (RJ)
A Banda Mais Bonita da Cidade (PR)
Tibério Azul (PE)
Banda Bis Pro Rock

21 de Abril, sábado
Exodus (EUA)
Brujeria (MEX)
Cripple Bastards (ITA)
Ratos de Porão (SP)
Hellbenders (GO)
Firetomb (PE)
Pandemmy (PE)
Leptospirose (SP)
Test (SP)

22 de Abril, domingo
Antibalas (EUA)
Buraka Som Sistema (Portugal / Angola)
Nada Surf (EUA)
Otto (PE)
Mundo Livre SA (PE)
Leo Cavalcanti (SP)
Ska Maria Pastora (PE)
Bande Dessineé (PE)
Strobo (PA)

Os shows acontecem no Chevrolet Hall, na divisa entre Recife e Olinda.

12 de março de 2012

Novos vídeoclipes: Marcia Castro, Mombojó e Pequena Morte

Após a exibição de lançamento em evento realizado na última sexta-feira no Espaço 104, em BH, a Pequena Morte lançou hoje na internet o vídeo para a música "Bom!". Além do clima festivo, uma das coisas legais em relação ao clipe é que ele inicia uma "trilogia vídeoclípitica" envolvendo outras duas bandas locais, cujos vídeos terão histórias interligadas. O próximo vídeo da série é o da música "Combat Samba", do Fusile, cuja introdução acontece ao fim do vídeo de "Bom!". O encerramento ficará por conta do ________________________________ (não sei se já pode contar o nome da banda) e reforça o caráter de coletividade e colaboração da atual cena de rock independente de Belo Horizonte.

Pequena Morte - "Bom!"

Prestes a lançar seu segundo CD, De pés no chão, a baiana Marcia Castro lançou o vídeo para a faixa-título do álbum. Trata-se de uma regravação da Rita Lee, uma das importantes artistas revisitadas por Marcia no álbum, que inclui composições de Otto, Tom Zé, Novos Baianos, Cartola e Gonzaguinha, entre outros. O clipe é exclusivo para web e faz parte das produções audiovisuais do Natura Musical (outra boa produção do projeto é o vídeo de "Minha tribo é o mundo", do Flávio Renegado). No dia 16 de Março, sexta-feira, Marcia faz o show de lançamento do novo CD no Teatro Castro Alves, em Salvador.

Marcia Castro - "De pés no chão""

Dois anos após o lançamento de seu último CD, Amigo do Tempo, os pernambucanos do Mombojó lançaram o clipe de "Casa caiada" (a primeira música do álbum a ser divulgada em 2010). Extraído de um show da banda, o vídeo fica aquém das últimas produções em vídeo da banda, inspiradas na cultura pop japonesa.

Mombojó - "Casa caiada"

11 de março de 2012

Oi Futuro divulga lista de patrocínios culturais para 2012

O Instituto Oi Futuro divulgou recentemente a lista com os projetos culturais que serão patrocinados pela empresa de telefonia Oi durante este ano. Ao todo são 92 projetos nos Estados do Rio de Janeiro (maioria), Minas Gerais, São Paulo, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Paraná, Roraima, Piauí, Acre e Goiás. A área audiovisual é a mais beneficiada no edital, que, apesar de conter projetos interessantes, repete muitas iniciativas já patrocinadas anteriormente.


Vídeo sobre o lançamento do edital, no ano passado

Entre os projetos musicais de destaque estão a 2ª edição do Festival Novas Frequências (RJ), JAM no MAM (BA), Verão Arte Contemporânea (MG) e INDIE 2012 - Mostra de Cinema Mundial (MG, que, apesar de ser um festival de cinema, tem uma categoria especial para exibição de documentários musicais), todos já patrocinados pela Oi anteriormente. Entre os novatos, a Revista Select tem um dos projetos aprovados que merece atenção, assim como o do site Nego Dito em homenagem a Itamar Assumpção.

1. 100 anos luz / Música/ RJ
2. 10º Festival Internacional de Cinema Infantil /Cinema / RJ 
3. 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes / Cinema / MG
4. 20º Festival Internacional de Cinema de Animação do Brasil - ANIMA MUNDI 2012 / Artes Visuais / RJ
5. 40º Festival de Cinema de Gramado / Cinema / RS 
6. A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento / Teatro / RJ
7. A história do Cinema Mudo / Cinema / MG 
8. A Mulher Sem Pecado / Teatro / MG 
9. Anima Mundi 2012 - Itinerante BH / Cinema/ MG 
10. ARTRIO Feira Internacional de Arte Contemporânea do Rio de Janeiro / Artes Visuais / RJ
11. ArtWare - I Salão Internacional de Screensaver e Wallpapper / Tecnologia e Novas Mídias / RJ
12. Atos de Fala / Artes Visuais / RJ
13. Bourbon Street Fest 2012/ Música / SP 
14. CEL.U.CINE /Tecnologia e Novas Mídias / RJ
15. Cineclube Educação / Cinema / RJ
16. Cinema no Rio - 8 ª Edição / Cinema / MG 
17. Cofo Brincante / Dança / MA
18. Desenlance: Teresa Serrano e Miguel Angel Rojas / Artes Visuais / RJ
19. É Tudo Verdade - 17º Festival Internacional de Documentários - Itinerância BH / Cinema / MG 
20. Edukators / Teatro / RJ 
21. Embarcações Maranhenses: "Navegar é preciso..."/ Patrimônio Cultural / MA
22. Encontro de Cinema Negro Brasil África e Caribe / Cinema / RJ
23. Era uma vez: Grimm / Teatro / RJ
24. Fest Bossa & Jazz / Música /RN 
25. Festival de Jazz de Ouro Preto - Tudo é Jazz / Música/ MG 
26. Festival de Teatro de Curitiba / Teatro / PR
27. Festival do Rio 2012 / Cinema / RJ 
28. Festival Ibero-Americano de Cinema - 22º Cine Ceara/Cinema / CE
29. Festival Internacional de Jazz - I Love Jazz (4ª edição) / Música / MG 
30. Festival Latino Americano de Cinema e Vídeo Ambiental Festcineamazonia - Itinerância / Cinema / RO
31. Festival Novas Frequências (2º edição) / Música / RJ
32. Festival SACI - sociabilização, arte e cultura na infância / Teatro / MG 
33. FETO - Festival Estudantil de Teatro / Teatro / MG 
34. File Games Rio 2012/ Tecnologia e Novas Mídias / RJ
35. FilmAmbiente - 2o Festival Internacional do Audiovisual Ambiental / Cinema / RJ 
36. FLUXUS 2012 - Festival Internacional de Cinema na Internet - Exposição / Cinema / MG
37. Foto em Pauta 2012 / Artes Visuais / MG
38. Grey Gardens - o musical / Teatro/ RJ 
39. Grupo Espanca e as artes no centro de BH /Teatro / MG
40. Guarnecer das Artes / Dança / MA
41. II Festival Nacional de Sanfona de São Raimundo Nonato / Música / PI 
42. Imbarabô Lemojubá / Patrimônio Cultural / MA
43. INDIE 2012 - Mostra de Cinema Mundial / Cinema / MG
44. INTER-AGIR / Teatro / RJ
45. Ipanema Sonora / Música / RJ
46. IV Cantar Boi de Cajari / Música / MA
47. JAM no MAM 2012 / Música/ BA 
48. Jean-Luc Godard / Artes Visuais / RJ
49. Live Cinema / Cinema / RJ
50. Machinarium /Artes Visuais / RJ 
51. Me ama Bahia / Música / BA 
52. Minorias Linguisticas do Acre/Publicação e Documentação / AC
53. Momo e o Senhor do Tempo / Teatro / RJ 
54. Multiplicidade / Tecnologia e Novas Mídias / RJ 
55. Museu de Artes e Ofícios – Ação Cultural 2012 / Patrimônio Cultural / MG
56. Museu do Oratório – Manutenção e Extensão Cultural 2012 / Patrimônio Cultural / MG
57. Música no Parque 2012 /Música / BA
58. Nego Dito – Uma Homenagem a Itamar Assumpção / Música / RJ
59. O Grivo - Instalações Sonoras e Concertos / Música / MG
60. Oi Futuro Cabeça / Tecnologia e Novas Mídias / RJ
61. OiR / Artes Visuais / RJ
62. Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba / Cinema / PR 
63. Orquestra de Câmara João Capa Bode / MÚSICA / MA
64. Orquestrando a Lapa - 2° Encontro de Orquestras Populares da Fundição Progresso / Música/ RJ
65. Palavras Cruzadas / Música / RJ
66. Palco e Plateia II /Cinema/ RJ
67. Paparutas / Teatro / RJ
68. Paulo Climachauska / Artes Visuais / RJ 
69. Poesia Visual II /Artes Visuais / RJ
70. PRÁXIS no Ponto / Teatro / MA
71. Predicament – Situações Difíceis / Artes Visuais / RJ
72. Profanações / Teatro / RJ
73. Pulso Iraniano - itinerância Belo Horizonte / Artes Visuais / MG
74. Quase Nada / Teatro /MG
75. Receita de Curitibana / Teatro / PR
76. Revista Select / Publicação e Documentação / SP
77. Sempre um Papo / Espaços Culturais / MG
78. Solaris Orquestra Eletrônica / Música / PR 
79. Som do Vinil / Música / RJ 
80. Som na Concha / Música / BA 
81. Sonoridades III / Música / RJ 
82. Tadeu Jungle / Artes Visuais / RJ 
83. Tempo e Espaço de Criação Compartilhada: Tecendo encontros / Dança/ MG
84. Tenda da Cultura / Espaços Culturais / AC
85. Texturas e Fibras / Patrimônio Cultural / MA
86. Tocando com Arte / Música / GO 
87. Transperformance II / Artes Visuais / RJ
88. Uma peça como eu gosto /Teatro / RJ
89. Verão Arte Contemporânea 2013 / Teatro / MG
90. VIII Festival Internacional de Trovadores e Repentistas / Música/ CE
91. World Press Photo 2012 / Artes Visuais / RJ
92. XII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros / Cultura popular / GO

10 de março de 2012

Entrevista sobre blogs, jornalismo cultural e o Meio Desligado

A Izabela Linke é uma estudante de jornalismo em BH e fez uma entrevista comigo no final do ano passado, parte do seu projeto de conclusão de curso. Como de costume, segue abaixo o que respondi para ela. Sempre tento publicar essas entrevistas e divulgar os trabalhos acadêmicos relacionados como tentativa de ampliar o acesso ao conhecimento produzido no meio acadêmico (que muitas vezes fica limitado ao ambiente das próprias instituições de ensino).

- Sobre o Meio Desligado:
Como você descreveria a relação atual entre jornalismo cultural e blogs?
Blogs são uma forma simples e prática de publicar conteúdo, bastante acessível. Acho que o ponto em comum com a abordagem de temas relacionados à cultura é essa facilidade. É muito mais fácil alguém se interessar em escrever sobre música, moda e generalidades de cultura pop do que tratar de outros temas mais complexos.

Onde o Meio Desligado se situa nesse contexto? O que caracteriza o blog nesse meio?
Tento experimentar no formato. Nunca trabalhei em outra mídia a não ser a internet, então não tenho os vícios dos jornalistas que construíram suas carreiras no rádio, na TV ou no impresso. Acho que isso e a consciência de que é importante usar o potencial multimídia da internet facilita explorar o potencial desse meio. Escrevo somente sobre música brasileira e cultura digital, então isso define o Meio Desligado nesse grupo. Acredito que a cultura digital seja uma das partes mais importantes da cultura contemporânea.

Como se seleciona o que é pauta para o blog e o que não é? Quais os critérios de avaliação de uma banda para ela figurar no blog?
Existe muita coisa sendo produzida e pouco tempo para acessar tudo. Meu foco é o que acho mais relevante para as pessoas conhecerem. Se há tanta coisa para fazermos, não quero perder tempo escrevendo sobre coisas que acho irrelevantes ou medianas. No início, publicava muitas críticas negativas à bandas, mas resolvi dedicar meu tempo a destacar o que acho mais interessante e que deveria ser conhecido por mais pessoas.

Para você e para o blog, o que se caracteriza como Música Independente?
No geral, música independente é toda a produção musical feita por artistas fora de grandes gravadoras, só isso. É muito abrangente, então, no Meio Desligado, além de falar somente desse tipo de artista, resolvi focar na música alternativa brasileira. Isso significa abordar artistas que experimentam sonoridades, que possuem singularidades em seus trabalhos e não possuem grande espaço na mídia.

O Meio Desligado tem impacto sobre as bandas que divulga? Quais? Tem exemplos?
O impacto mais óbvio é que as bandas se tornam mais conhecidas e isso pode resultar em mais público nos shows e mais produtos vendidos. Alguns textos podem contribuir para que consigam fechar shows e até mesmo contratos comerciais (uma banda teve uma de suas músicas em um comercial depois que escrevi sobre eles e indiquei a banda). Outras bandas passam a usar trechos do que foi escrito sobre elas no blog em seus releases.


O que é mais relevante/qual o diferencial do seu blog?
Quando vou escrever algo, penso "Já escreveram isso por aí? Se já, vou acrescentar algo?". Se a resposta for negativa, simplesmente não escrevo. Seria perda do meu tempo e do leitor. Isso é um diferencial, mas também acho que um ponto relevante é a tal da "experimentação de linguagem" que em algum texto sobre o blog eu abordo. Tipo, já rolou agenda cultural em formato de conto, cobertura de evento só com comentários publicados por leitores, curta-documental que fiz com o celular para registrar eventos... e tem também essa mistura de formatos, dos relatos pessoais misturados no meio. Acredito que isso torna o conteúdo mais vivo e o torna diferenciado. Quem frequenta o blog passa a me conhecer também. Além de se informar e descobrir coisas novas, é um interesse em saber uma opinião específica sobre temas específicos.

Como é o leitor do Meio Desligado? Caracterize-o. Qual o papel dele no blog?
É jovem, mas não adolescente, principalmente do sudeste e do nordeste. O leitor é fundamental para o blog, uma vez que sem ele não haveria motivos para publicar o conteúdo. Um blog sem leitores é o mesmo que um caderno de anotações na gaveta. Em termos funcionais, um dos papeis do leitor também é a correção do material publicado, por incrível que pareça. O público tem papel fundamental em revisar o material final. Às vezes algum link ou informação no texto está errada e logo chega alguém dando o toque para corrigir. Alguns também enviam coberturas fotográficas de eventos, acho interessante e me identifico mais com isso do que com a colaboração textual, uma vez que agora (depois de cinco anos de existência) o Meio Desligado tem uma identidade nos textos ligada ao meu tipo de escrita.

Como você acha que o blog é visto pelos leitores? E pelas bandas e artistas independentes?
Recebo poucos xingamentos e as ameaças de me baterem na rua quase pararam, então imagino que leitores e bandas estejam gostando do blog. Os acessos também têm crescido a cada mês e sempre recebo dezenas de emails e tweets de bandas apresentando seus trabalhos, é algo positivo.

- Jornalismo cultural e internet:
Como é fazer jornalismo cultural pra blog? É passível de comparação com a mídia tradicional? Existem semelhanças, distinções? Quais?
A autonomia, a praticidade e o potencial multimídia são diferenciais importantes no jornalismo cultural em blogs. Não dá para pensar somente no texto quando se trabalha na internet. Você tem que contextualizar as informações de forma que interesse ao leitor do blog, pensar nos links, pesquisar se há algo disponível para download que complemente a publicação etc. Do meu ponto de vista, ao mesmo tempo em que é mais acessível publicar na internet, criar conteúdo interessante é mais difícil do que nas "mídias tradicionais", até porque a atenção do leitor/usuário está sendo muito disputada enquanto ele lê o blog. Provavelmente está no Gtalk/Skype com alguém, uma aba aberta com o Facebook, o email em outra e o Twitter pipocando a cada instante. Se o seu conteúdo não se destacar você passa despercebido.

O jornalismo cultural tem coberto de forma satisfatória a música independente? Tem espaço? Se não, quais seriam possíveis soluções?
Melhorou demais em relação ao fim de 2006, quando o blog foi criado. Ainda tem pouca gente que saiba ao menos expressar suas ideias de forma satisfatória, mas já dá para encontrar muito mais informações sobre essa cena (não apenas no sudeste, o que é muito importante).


Para onde você acha que tem caminhado o jornalismo cultural em tempos de internet, onde todos podem ser produtores e receptores? Na sua opinião profissional, para onde deve caminhar o jornalista cultural, qual mudança deve ocorrer em seu papel e sua prática para acompanhar os novos tempos e espaços?
Não concordo com a ideia de que o jornalista cultural da atualidade deva ficar conectado o tempo todo ligado no Twitter, Facebook e acompanhando dezenas de blogs. É importante que alguns sejam assim, mas deve haver espaço para todos, para diferentes abordagens da produção cultural. Se todo jornalista cultural fosse como o Alexandre Matias no Trabalho Sujo, por exemplo, seria uma porcaria, uma grande quantidade de informação não necessariamente relevante sendo produzida. Acredito que o excesso de informação é algo que deve ser evitado.

Quadrinhos do Malvados.