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13 de maio de 2012

Cobertura do festival Bananada 2012

White Denim no Festival Bananada
Procurando um lugar onde pudéssemos comprar cerveja às três da madrugada no centro de Goiânia, encontramos, próximo a um puteiro no qual alguns policiais acabavam de entrar, um boteco aberto. Na porta, junto a mendigos e crackeiros, sujeitos cabeludos com camisas de bandas de heavy metal. Dentro do bar, alguma banda de hard rock tocava alto. Em Goiânia, até os bares risca-faca são rock'n'roll.

Goiânia é uma cidade cheia de hipsters e roqueiros. Ao menos essa é a impressão ao ficar três dias por lá, acompanhando parte da programação do festival Bananada. Celeiro de bandas importantes na cena de rock alternativo nacional, como MQN e Black Drawing Chalks, a cidade parece ter uma vida noturna movimentada na qual a modernidade hipster se encontra com a tradição do rock. O visual das pessoas diz muito à respeito. Basta observar o público ou mesmo membros de bandas locais com som mais "ortodoxo", como o Black Drawing Chalks: complementando o tradicional visual rocker (muitas tatuagens, camisa preta de banda, jeans rasgado), o baterista da banda usa óculos coloridos e tênis verde-fluorescente. Os tênis, aliás, são um espetáculo à parte na cidade. Em cada boate, pub ou show, pin-ups e metaleiros estão calçados com tênis coloridos que parecem parte do figurino de algum filme ou clipe oitentista.

Isso se reflete na programação do Bananada. Ele não se rende às simples tendências musicais do momento, mas abrange diversas vertentes do rock, das mais pesadas às experimentais e psicodélicas. Feito no esquema "Quanto vale o show?", no qual cada pessoa paga o valor que quiser para entrar (contato que seja com uma nota), os dois dias principais do festival ficaram lotados e com um público atento aos shows. Realizado no bonito Centro Cultural da Universidade Federal de Goiás, o Bananada é o exemplo de festival de médio porte bem feito: som excepcional, entrada com preço acessível (nesse caso, ao extremo), boas bandas na programação e sem excesso de atrações por dia.

Estive na cidade ao lado do Luciano Viana e da Carou Araújo, ambos artistas/produtores/agitadores-culturais com os quais tenho projetos em desenvolvimento. Combinamos uma cobertura coletiva do festival na qual não influenciássemos uns aos outros. Isso significou assistir a todos os shows sem comentarmos entre nós sobre nenhum aspecto musical de cada apresentação (o que se mostrou extremamente difícil, mas acabou sendo positivo para nos forçar a conversar com outras pessoas, rs).

Os dois não economizaram nas palavras, portanto, decidi abrir mão dos meus próprios comentários sobre os shows e fazer apenas esta (nem tão breve) introdução. As fotos que ilustram a publicação são do Luciano (as fotos boas e sem efeitos) e minhas (as fotos cheias de efeitos, feitas no celular).

Ok, não vou resistir e apenas listar meus cinco shows favoritos, em ordem, no Bananada 2012:
Black Drawing Chalks
White Denim
Macaco Bong
Forgotten Boys
Cambriana / Red Boots / Aeromoças e Tenistas Russas (empate técnico)

Ah, só alguns comentários (não resisti de novo):
1. Quanta mulher bonita em Goiânia!
2. Os caras do White Denim são super simpáticos e acharam o show de Goiânia o melhor que fizeram no Brasil. Eles foram alguns dos que estavam na festinha pós-festival que fizemos no nosso quarto no hotel e que também tinha membros do Macaco Bong, Aeromoças e Tenistas Russas, Talma & Gadelha, Calistoga, Forgotten Boys e o pessoal da revista Vice.



Carou Araújo

Sábado 5/5/2012 
Depois de vivenciarmos (eu e Luciano) Conexão Aeroporto às 4 da manhã; avião trash; hotel errado; cochilo de leve; ensaio de uma banda que não conhecíamos; o último dia de Movida; os shows de encerramento do evento com as bandas Gloom e Hellbenders; e uma noite de sexta-feira com muita guitarra distorcida, algumas cervejas numa das casas mais legais de Goiânia Rock City (o Diablo Pub), fomos dormir, nós, correspondentes, em nosso lindo quarto de hotel de 3 camas.

Marcelo Santiago (o dono deste blog que invadimos momentaneamente e ocupante da terceira cama) havia chegado em um vôo da madrugada e dormia profundamente na cama ao lado. Nada sabia dessas experiências malucas ou do que se passara comigo e Luciano para chegarmos até ali. Ri sozinha pensando nas peripércias do dia anterior.

Acordei os dois no limiar entre o atraso e a pontualidade. Partimos para o almoço e logo em seguida para o Centro Cultural da UFG para o primeiro dia de shows no palco principal do festival Bananada. Esperamos o início dos shows com uma certa ansiedade do que viria pela frente em dois dias com 14 bandas diferentes para assistir.

Iniciados os trabalhos - primeira cerveja, primeiro show.

16h23
Sobe a primeira banda ao palco: Coletivo Musical, uns garotinhos de vinte e poucos anos de Goiânia, bem talentosos. Letras bem feitas, apesar dos arranjos ainda necessitarem de um pouco de lapidação. Mas vale pelo risco da experimentação, meio samba, meio baião, meio rockinho, com umas programações eletrônicas. Destaque especial para a vocalista, Bruna Mendez. Consciente da voz que tem, desenvolveu formas interessantes de explorá-la. Fim do primeiro show, nos reunimos e não podíamos comentar pelo combinado de cada um escrever sua própria visão do festival, sem influências dos coleguinhas. Ok, falemos então da Carolina Dieckmann (nota do editor: delícia!).

17h22
Segunda cerveza, segunda banda.
Cambriana. Várias pessoas ao meu redor ansiosas e curiosas pelo show. Pois bem: indiezinho meloso, com aquelas influências clássicas que todo mundo vive citando - The National e companhia limitada. Show bom, muitos instrumentos, multiinstrumentistas, programações eletrônicas etc. Tudo o que a molecada anda experimentando no Brasil por esses dias, mas que já foi usados até a exaustão pelas tais  referências há alguns anos. Nada de novo, mas bem feito.

18h11
Já na terceira cerveja e alegre por finalmente assistir o show dos queridos Talma & Gadelha, de Natal (RN). No dia anterior, eu e Luciano fomos convidados a assistir um ensaio deles com a substituta da guitarrista (Cris Botarelli) que está em uma viagem pelo mundo afora. E veja bem quem seria a escolhida: Niela Moura, a presença feminina que ocupa as guitarras e voz no meio daqueles marmanjos da Gloom. Esbanjando uma simpatia que só o pessoal de Natal tem, Luiz Gadelha convidou todo mundo pra dançar e até indicou as músicas mais românticas pra garantir o clima de paquera dentre o público que se mostrava bem jovem e interessado no show.

19h08
Um churrasquinho de filé miau pra recarregar as energias e pronto, bora pro quarto show da noite: Riverbreeze, também de Goiânia. Uma banda que se parece um pouco mais com o peso tradicional das bandas da cidade, apesar de ter influências claras das bandas indie gringas que surgiram de 2000 pra frente. Animadinho. As garotas gostaram, mas também não me pareceu nada de mais.

20h10
Uma comoção coletiva se iniciou na frente do palco. Ia começar o show do Macaco Bong, o trio instrumental que faz o chão tremer por onde passa. Mas dessa vez com um diferencial, primeiro show na cidade com o novo baixista, Gabriel Murilo. O som continua visceral e pesado, as linhas de guitarra  hipnóticas levam o público ao delírio logo nos primeiros acordes. Taí um show preciso, denso, alucinante. Perdi minha quinta ficha de cerveja no meio da confusão toda, mas nem deu tempo de me chatear, já ia começar o próximo show.

21h37
O show mais esperado da noite pra mim: Diego de Moraes, goiano inquieto que deixa suas críticas poéticas por onde passa. Meio Raul Seixas, meio Arnaldo Baptista, meio Sérgio Sampaio, completamente Diego. Faz de tudo pra tentar fazer com que todos entendam o que diz e escutem o que tem a dizer, hora suave, hora aos berros, pula, cai no chão, deita e rola! Catarse!
Em seu show, fez uma participação de improviso o grande mestre Jards Macalé com a música "Soluços" (composta por Jards quando tinha 15 anos), ensaiada com a banda duas horas antes do show e executada com a emoção que só duas almas inquietas são capazes de ter. Emocionante.

22h44
Sobe ao palco com seu violão e um sorriso meio tímido, Jards Macalé. Depois das guitarras, contrabaixos, baterias e distorções das bandas anteriores, o público se aquietou em uma contemplação da beleza, delicadeza e sabedoria que só um verdadeiro mestre sabe proporcionar. Cantou grandes sucessos como "Mal secreto", "Anjo exterminado" e "Farinha do desprezo". Nos mandou para casa de almas lavadas e espírito tranqüilo.

Claro que não fomos exatamente pra casa, mas essa é outra história, pra mesas de bar.

Domingo 6/5/2012
Mais uma vez não acordamos muito cedo, mas foi tempo o suficiente pra tomar banho com calma e ir comer antes de pegar a van pra UFG. Já no restaurante, encontramos os amigos Aeromoças e Tenistas Russas junto com os Macaco Bong numa mesa de almoço que dava gosto de ver. Neste momento deu pra perceber que o dia prometia absurdos! Pois bem, comecemos.

16h33
Primeiro show do dia, ainda na água!

Sobe ao palco a banda instrumental Dom Casamata, power trio, com pouco efeito visual, porém com algumas peculiaridades sonoras interessantes. Suas músicas vão do groove mais suingado à psicodelia guitarrística marcada pelos vários pedais espaciais. Destaque para o trompetista misterioso e tatuado que fez participação na melhor música do show!

Trompetista (que também é um skatista elogiado na cidade) convidado do Dom Casamata
17h13
Hora de pegar a primeira cerveja do dia e rebater o que quer que tivesse me batendo.
Começa o show dos Red Boots, duplinha danada de Mossoró (RN) que saiu direto do projeto incubadora do DoSol (que também lançou o Talma&Gadellha ano passado) para o Bananada, com um single na mão e muita loucura na cabeça. Guitarra, guitarra e mais guitarra, e claro, MUITO drive! Pesado, sujo, barulhento. E só. Hora da segunda cerveja pra refrescar o dia quente.

18h07
Os grandes amigos e parceiros Aeromoças e Tenistas Russas começam o show, soltam o sample e…. cadê o baterista? De repente eis que surge subindo as escadinhas do palco Dudu, ainda ajeitando suas munhequeiras, o único da banda realmente tenista! Rs. Logo na segunda música, Juliano (contrabaixo) convida o público pra chegar mais perto pra dançar. Foi batata! Logo a multidão já estava completamente hipnotizada pelo som. Destaque sempre para o sax, com linhas deliciosas, e, claro, lembrando sempre de creditar os samples de Jovem Palerosi que disparados com destreza por Gustavo Hoolis dão um tom especial pra músicas. Show quente!

19h01
Começa o show do Violins, o verdadeiro indiezinho brasileiro. Show morninho, sem muita novidade. Agrada as meninas e os meninos. Há quem goste bastante, mas não faz muita coisa comigo. Porém há de se reconhecer que as letras são boas. Terceira cerveja pra preparar para o próximo show.

Forgotten Boys

20h07
Sobem ao palco os Forgotten Boys. Depois de uns três anos sem ver show da banda, com uma formação completamente diferente da que estava em minha memória, escuto embasbacada um Forgotten Boys bem mais pop, com teclados e sem ninguém dando muito pala em cima do palco por conta das drogas. Será que o rock'n'roll morreu? Piadas à parte, o show foi bem impressionante. Aliás, tirou a sensação ruim que eu tinha do último show que me lembrava da banda. Os caras estão bem fincados e cheios de vontade de tocar e realmente fazer um show de verdade. Bem quente! Não à toa, moshs e mais moshs se formaram tornando quase impossível (para quem não queria participar deles) ver o show de perto. Mas escutava-se muito bem.

Pausa para o banheiro, um engasga lobo rápido e uma cerveja porque já estavam subindo ao palco os Black Drawing Chalks (nessa hora, meus queridos, eu até esqueci que tinha que olhar no relógio). Os caras mostraram a que vieram fazendo um show matador em casa, deixando claro o orgulho de ser goiano e circular pelo Brasil carregando essa bandeira. O público foi ao delírio mais absoluto que poderia, compreensivamente. Me devolveram o rock'n'roll que eu achei que tinha perdido, com muita energia, cabelos balançando pra lá e pra cá, suor e alegria. Já anunciando o lançamento do próximo trabalho da banda, tocaram músicas novas e o público foi à loucura. Show PELANDO!

E quando eu pensava que não haveria de acontecer mais nada surpreendente naquela noite sobem ao palco os texanos do White Denim, nome nada sonoro ou atraente (ao meu ver), ao contrário do som que era arrebatador. Uma mistura dos idos 70's de Led Zeppelin, com a modernidade dos indiezinhos Arctic Monkeys. James Petralli, o vocalista e guitarrista de uma habilidade vocal única, brincando fazia o pátio da UFG tremer deixando todo mundo de queixo caído com a apresentação. O segundo guitarrista, Austin Jenkins, tocava como se não houvesse amanhã, com um sorriso gigante o tempo inteiro na cara, como se estivesse fazendo a melhor coisa do mundo - e de fato estava. O baixista de aparência hipster, Steven Terebecki, enganou todo mundo com sua carinha de menino tímido: suas linhas de baixo tinham uma presença insana naquela miscelânea maluca texana. Alucinante. No final dava pra perguntar se alguém anotou a placa do trator que atropelou todo mundo naquele pátio da Universidade Federal de Goiás.

E o resto? É história de bastidor. Acontece em Goiânia, fica em Goiânia. Rá!

Luciano Viana

Cheguei na sexta-feira na querida Goiânia para acompanhar mais uma edição do Bananada, festival comandado pela Construtora Música e Cultura. Sempre bom voltar aquela cidade, pois como disse o próprio amigo Marcelo Santiago, "Goiânia é uma cidade em que até os butecos risca-faca tocam rock", o que não deixa de ser uma verdade dessa que é realmente uma das cidades mais rock do país. E no meu primeiro dia de festival, isso já foi mostrado logo de cara, com uma apresentação incendiária do Hellbenders (GO) na UFG, local que pela primeira vez recebeu o festival. Deu pra entender porque eles já dividem pau a pau as estampas de camisas na cidade com o Black Drawing Chalks. Deu vontade de ter chegado antes e pegar a apresentação deles numa das casas de show que compunham a programação do festival pra ver esse show em um lugar mais fervido. Mas fui contemplado pela programação pós-UFG, na Diablo, uma casa de estrutura bem legal, com os shows do Dry e Overfuzz, que continuaram mantendo o decibelímetro nas alturas com muito drive. No meio desses tapas no ouvido, ainda na UFG, teve espaço pro show do Gloom (GO), que tirou um pouco dos drives dos ouvidos mas manteve o nível lá no alto. O Gloom é uma banda que vem dando passos largos rumo a sua maturidade musical, o que ficou evidente durante um show onde os ritmos e arranjos são cada vez mais plurais, mas com uma assinatura estética bem pessoal da banda. É som certeiro pra qualquer festa.

No sábado, já com a programação totalmente voltado pra UFG, o festival teve início com o Coletivo Musical (GO), que segundo pesquisa com alguns amigos locais, trata-se de uma novidade da cena. E não é rock garageiro. A vocalista Bruna comandou com bastante competência e uma bela voz um desfile de sons que passaram por samba, indie rock e pop, direcionados pelas melodias vocais de bastante bom gosto. Deu inclusive pra ver já alguns na plateia cantando algumas músicas timidamente. A pluralidade estética do festival já deu as caras logo no início.

Na sequência, os competentes e simpáticos Talma & Gadelha (RN), acompanhados pela guitarrista/vocalista Niela (Gloom), mostraram seu trabalho que vem irradiando boas repercussões Brasil afora. Música pop certeira, algumas com letras de assimilação imediata e uma boa presença de guitarras. As três primeiras músicas do show ficaram ressonando na minha cabeça por boa parte da noite. 


O público já era bom e a tarde ainda não tinha caído. O Cambriana (GO), uma das bandas que mais queria ver, sobe ao palco. Depois das boas críticas geradas pelas redes sociais sobre o álbum de estreia da banda, um disco de inspirações "deathcabianas", faltava ver uma apresentação ao vivo para meter um carimbo de "aprovado 100%". A banda já tem um público que vibra a cada introdução das músicas preferidas, e olha que tem pouco tempo que a banda despejou na internet seu álbum de estreia. 
O show foi total linkado com o que a banda apresenta em seu registro sonoro oficial, e uma versão de "All Apologies" do Nirvana, que bateu na trave. Se tivesse pouco menos drive nas guitarras, cairia melhor na identidade da banda. Carimbei então um "aprovado", porém, com um asterisco de "com ressalvas", pois acho que a banda ainda pode e deve ganhar mais desenvoltura com o palco, com o público e com o feeling de suas próprias músicas. Mas acho que é somente questão de tempo e estrada para a banda encaixar todas essas peças nos seus lugares e ganhar cada vez mais espaço. Merecidamente, pois fazem um belo trabalho.

O também de casa do Riverbreeze (GO), foi a próxima atração, e botaram pra funcionar os primeiros elementos de pegada mais rock da noite, na vibe indie-rock-Arctic-Monkeys-das-antigas, com alguns bons arranjos de guitarras. Eis aí o teaser pro que viria na sequência.

Público durante show do Macaco Bong
Macaco Bong (MT), estreando nova formação e novas músicas em Goiânia, fez a lotada UFG ir a baixo. O público em total sintonia com a banda, parecia já conhecer as novas músicas de longa data, se entregando totalmente em cada riff, cada acorde, aplaudindo entre algumas passagens espontaneamente e com olhos vidrados no palco. E essa energia parece ter sido transmitida totalmente aos 3 caras lá em cima, e o Macaco Bong fez um dos melhores shows que vi dos caras nesses últimos tempos, e olha que tenho visto muitos. O clássico "Amendoim" e o final apoteótico com a novata "Dedo de Zombie" foram momentos dignos de serem registrados. Espero que alguém o tenha feito. Acho que todo cartaz de show dos caras deveria vir agora como Macaco Bong (MT) (MG) (GO), pois Goiânia é definitivamente uma das casas da banda.

Infelizmente perdi parte do show do Diego de Moraes (GO) para poder comer algo e continuar parando em pé, mas consegui ver alguns momentos com sua tradicional presença de palco maluca, totalmente condizente com o seu trabalho, e o emocionante encontro com Jards Macalé, que teve direito a escorregão do Diego e da banda esquecendo a letra e tendo que recomeçar a música, mas que não tirou o sentimento de emoção da participação. Mas foi por pouco.

E encerrando a noite, o impagável Jards Macalé (RJ), fazendo um show de voz e violão, de clima totalmente descontraído, montando seu set list instantaneamente através de sugestões de uma plateia que mesclou gerações. E para conseguir fechar um festival numa cidade do rock como Goiânia, num formato banquinho e violão, com o público pedindo bis e interagindo total com o show, é realmente para figuras como Jards Macalé.

O último dia de festival já dá uma cara mais "Goiânia Rock City". Trabalhos iniciados pelo instrumental rock do Dom Casamata (GO), que às vezes também é funk, às vezes é blues, às vezes tem coloridos do jazz.

A primeira boa surpresa do dia veio com a dupla do Red Boots (RN), diretamente de Mossoró. Baterista e guitarrista/vocalista a serviço de stoner rock, de riffs lotados de distorção, versos em inglês embriagados de cerveja, com uma presença de palco visceral. Em algumas músicas ainda se sente falta de um preenchimento maior, o que em outras se tem de sobra, mas é uma banda que tem muito o que mostrar por aí. Identificação imediata do público goiano.

Aeromoças e Tenistas Russas
Outra banda instrumental vem na sequência (a terceira do festival), que é o Aeromoças e Tenistas Russas, que vem em uma ótima fase, e circulando com a tour do seu "Kadmirra" por boa parte do Brasil, o que claramente está os munindo com uma coesão musical das boas em cima do palco. É impressionante o quanto a banda evoluiu nesse último ano, passando de mais uma das promessas do bom momento da música instrumental brasileira, para já ser uma realidade e referência para outras que estão vindo por aí. E essa ótima fase foi recebida de braços abertos pelo público, que vibrava em algumas das notas soltadas pelo saxofone de Thiago Hard ou esboçava movimentos tímidos pré-dança em alguns grooves conduzidos na cozinha da banda.

Violins (GO) foi a próxima atração, e com o vocalista/guitarrista Beto Cupertino empunhando novamente uma Les Paul, a banda volta a ter mais peso. Abriram o show também com uma das músicas mais pesadas da banda, "Do Tempo", com boa parte do peso ganho no bom trabalho da sonorização do festival, que botou o PA com uma pressão das boas e um dos melhores sons do line desse dia. O restante do show foi conduzido basicamente no repertório do último disco "Direito de Ser Nada", com algumas pinceladas aqui e ali de outras lembranças da ampla discografia da banda, todas as fases tendo a voz de Beto acompanhada por um bom coro da plateia. Fiquei na expectativa de talvez ouvir alguma composição inédita da banda, pra ver pra qual caminho sonoro a banda está rumando atualmente, mas ficou pra próxima. Aguardemos.

Forgotten Boys (SP), que há pouco tempo atrás teria o show aberto pelo Black Drawing Chalks, teve que suar pra abrir o show dos goianos em casa e manter o bom nível roqueiro da noite, mas conseguiram manter o público pra cima, trabalhando principalmente em cima dos clichês que lhes são pertinentes. Uma banda que não tem muitos segredos, mas que faz bem o básico que se propõe.

Nada básico foi o rolo compressor do Black Drawing Chalks (GO), que veio na sequência, jogando em casa, exorcizando os demônios do público sedento pelos bons riffs sujos que a banda sabe fazer com extrema competência. Foi o segundo show que vi dos caras em Goiânia, e é massa perceber o quanto os caras vem crescendo e firmando cada vez mais o pé como uma das melhores bandas do rock do país, o que orgulha com certeza todo aquele público que acompanhou insanamente o show do começo ao fim. No meio do percurso do show, algumas músicas do novo disco que sai provavelmente no mês que vem, e mostra a banda trabalhando outros elementos em sua sonoridade, principalmente na rítmica. 


Pra fechar o Bananada 2012, os gringos do line up: White Denim (EUA). Não conhecia quase nada da banda até ver seu nome na escalação do festival e decidi não pesquisar muito e deixar para ter a surpresa na hora do show. E que surpresa. Quatro indivíduos no palco fazendo um som altamente competente, cravado, tecnicamente perfeito e com um feeling de te fazer arrepiar até o cabelo da sobrancelha. Uma mistura louca de math rock, indie, psicodélico, noise, que transitava pra mim entre referências como Faraquet, Medications e Battles. Estava acontecendo ali um dos melhores espetáculos musicais que já presenciei. Olhava ao lado e via o mesmo queixo caído entre vários presentes no público, enquanto alguns se conformavam em somente bater a cabeça e outros cutucavam o ouvido com o dedo, já que realmente o PA estava um pouco além do limite, estourando a cabeça. Já me imaginava com o ouvido zumbindo dois dias seguidos depois daquele show, mas preferi não me importar com isso no momento pra não perder nenhum detalhe do show. Um show memorável e pelo que andei colhendo de depoimentos logo após o encerramento, parece que não foi só pra mim.

O fim de festival ainda contou com as tradicionais ida no "Vai toma no Kuka" com o tradicional pastel A4 e cerveja gelada, e o quarto 30 do hotel Rio Vermelho recebendo mais cerveja, músicos amigos, músicos não-amigos e a gringaiada gente boa até o amanhecer.

Goiânia, até breve. Assim espero.

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