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20 de março de 2012

Leonardo Marques e a esquina indie do clube

Não estávamos preparados. De repente, sem aviso, Leonardo Marques fez sua estreia solo com um dos melhores lançamentos de 2012 até o momento. Dia e noite no mesmo céu tem pouco menos de 30 minutos, mas o suficiente para viciar e emocionar intensamente. Leo cita uma nostalgia melódica que perpassa o álbum. Suas canções remetem a cenários bucólicos, românticos e solitários. Não por acaso, trilhas sonoras são algumas das inspirações. Mas, neste caso, cabe ao ouvinte uma investida solitária pelos caminhos indicados por Leo.

Dia e noite no mesmo céu é o encontro de uma Minas Gerais de tempos passados e Los Angeles. Lô Borges e Elliott Smith tocando juntos no quarto, afastados do mundo, descarregando emoções. Uma surpresa para quem conheceu Leo como guitarrista da Diesel, uma das melhores bandas de rock que já existiram em Belo Horizonte e que teve relativa projeção no Brasil no início dos anos 2000 e no exterior, quando trocou de nome para Udora, e também para quem o conhece como membro do combo criativo Transmissor, que em 2011 lançou o 2º CD da carreira, Nacional.

Isolamento e introspecção estão presentes não apenas nas letras, mas também no processo de criação do álbum. Leo gravou todos os instrumentos, exceto bateria e sopros (este, em apenas uma música). Das nove faixas, duas são em inglês e uma instrumental, reflexos de suas influências e trajetória.

No ano de comemoração de 40 anos do clássico Clube da Esquina, é sintomático que uma nova leva de artistas se destaque com trabalhos que não se limitam em homenagens ou fiquem perdidos em elucubrações. No caso de Leonardo Marques, o trabalho vai além, acentuado pela sua sensibilidade e apuro estético. Nunca o termo "pop barroco" fez tanto sentido pra mim.



Entrevista com Leonardo Marques

O Transmissor parece ser uma banda na qual os integrantes têm bastante liberdade criativa (o que se reforça com a alternância de vocalistas). Por que fazer um álbum solo? Desde quando trabalha nesse CD e quanto tempo durou o processo de gravação?
O Transmissor foi criado por essa necessidade criativa de cada um se expressar, temos liberdade total pra fazer o que quiser na banda. Começei a fazer um disco solo porque queria fechar um ciclo de canções que ainda não tinha gravado e dessa forma começar outro ciclo nos próximos discos do Transmissor. Venho trabalhando nesse disco ao poucos nos últimos 2 anos.


As músicas me passam uma sensação de isolamento, criam imagens que remetem ao interior (minha visão pessoal). O título do CD, as referências a elementos domésticos em algumas faixas, o fato de você tocar quase todos os instrumentos na gravação e colocar Casa Branca como sua cidade no Facebook sugerem uma espécie de afastamento. De que forma essa aparente introspecção apresenta suas intenções com esse CD?
Começei a fazer o disco ainda no meu apartamento em BH, e terminei ele depois que me mudei pra Casa Branca. Talvez mesmo antes de estar mais afastado da cidade já projetava essa ideia de isolamento na minha cabeça e isso pode ter ido parar nas composições.
Foi um processo muito prazeroso gravar o disco, descobrir as possibilidades sonoras que queria, gravar quase tudo sozinho, tinha momentos que me era como estar lendo um bom livro onde você não vê o tempo passar.
Na gravação de bateria, o Transmissor inteiro foi pra Casa Branca e passamos um fim de semana inteiro gravando.

Clube da Esquina, Elliott Smith e Jon Brion são algumas das referências possíveis ao se ouvir "Dia e noite no mesmo céu". Até que ponto isso reflete suas reais influências?
Acho que vc acertou na mosca. 
O último bairro que morei em Los Angeles antes de voltar pro Brasil era Echo Park, o mesmo que o Elliott Smith morava, passava na porta do Solutions Speakers todos os dias, lugar onde ele fez a famosa capa de um de seus discos, o Figure 8. Nessa época fiquei muito encantado com sua música e desde então me identifico muito e com seu jeito de cantar, compor, gravar e se expressar. O Jon Brion tive o privilégio de conhecer e trocar muita ideia, ele era cliente cativo da loja de instrumentos musicais vintage que trabalhei em Hollywood por vários anos. Estive várias vezes em seu lendário show semanal no Largo em L.A onde ele toca todos instrumentos, atende a pedidos, cria versões e bebe Guiness e café a exaustão até criar uma alucinação musical maravilhosa e realmente inspiradora, saía dos shows completamente obstinado a escrever canções, gravar sons e texturas diferentes. A trilha sonora do Eternal Sunshine of a Spotless Mind talvez seja uma das grandes influências estéticas do meu disco, além de ter escutado muito essa trilha sonora, uso muitos elementos parecidos como o Mellotron, optigan, piano de armário, glokenspiel. 
Acho que em momentos alguma coisa no disco remete a nostalgia melódica do Clube da Esquina, gosto muito das canções do Lô Borges, acho ele um modelo de artista pra mim, ele está na ativa até hoje fazendo exatamente o que ele quer musicalmente sem comprometer sua visão artística com nenhum outro aspecto que não seu anceio de compor e gravar suas músicas da sua maneira.

Quando e como o álbum estará disponível para download? Haverá uma versão em CD ou outro formato?
Semana que vem estará disponível pra download no meu site www.leonardomarques.com e os CDs estarão à venda provavelmente na semana seguinte. Quero fazer o vinil também, mas ainda não tenho data definida.

Haverão shows desse trabalho? Qual a formação ao vivo?
Penso em fazer um lançamento em breve. O Pedro Handam e o Henrique Matheus do Transmissor estarão nessa formação, mas o resto do pessoal ainda não está definido.

Esse trabalho também é a estreia do selo La Femme Qui Roule, certo? Quem está envolvido e qual a proposta desse novo selo?
O selo é uma ideia minha e do Yannick Falisse, um artista gráfico e músico belga radicado em BH. A proposta é juntar pessoas com propostas musicas e estéticas interessantes e trabalhar desde a gravação até a elaboração da capa e trabalho gráfico do artista, criar uma identidade forte para o selo.

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