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10 de março de 2012

Entrevista sobre blogs, jornalismo cultural e o Meio Desligado

A Izabela Linke é uma estudante de jornalismo em BH e fez uma entrevista comigo no final do ano passado, parte do seu projeto de conclusão de curso. Como de costume, segue abaixo o que respondi para ela. Sempre tento publicar essas entrevistas e divulgar os trabalhos acadêmicos relacionados como tentativa de ampliar o acesso ao conhecimento produzido no meio acadêmico (que muitas vezes fica limitado ao ambiente das próprias instituições de ensino).

- Sobre o Meio Desligado:
Como você descreveria a relação atual entre jornalismo cultural e blogs?
Blogs são uma forma simples e prática de publicar conteúdo, bastante acessível. Acho que o ponto em comum com a abordagem de temas relacionados à cultura é essa facilidade. É muito mais fácil alguém se interessar em escrever sobre música, moda e generalidades de cultura pop do que tratar de outros temas mais complexos.

Onde o Meio Desligado se situa nesse contexto? O que caracteriza o blog nesse meio?
Tento experimentar no formato. Nunca trabalhei em outra mídia a não ser a internet, então não tenho os vícios dos jornalistas que construíram suas carreiras no rádio, na TV ou no impresso. Acho que isso e a consciência de que é importante usar o potencial multimídia da internet facilita explorar o potencial desse meio. Escrevo somente sobre música brasileira e cultura digital, então isso define o Meio Desligado nesse grupo. Acredito que a cultura digital seja uma das partes mais importantes da cultura contemporânea.

Como se seleciona o que é pauta para o blog e o que não é? Quais os critérios de avaliação de uma banda para ela figurar no blog?
Existe muita coisa sendo produzida e pouco tempo para acessar tudo. Meu foco é o que acho mais relevante para as pessoas conhecerem. Se há tanta coisa para fazermos, não quero perder tempo escrevendo sobre coisas que acho irrelevantes ou medianas. No início, publicava muitas críticas negativas à bandas, mas resolvi dedicar meu tempo a destacar o que acho mais interessante e que deveria ser conhecido por mais pessoas.

Para você e para o blog, o que se caracteriza como Música Independente?
No geral, música independente é toda a produção musical feita por artistas fora de grandes gravadoras, só isso. É muito abrangente, então, no Meio Desligado, além de falar somente desse tipo de artista, resolvi focar na música alternativa brasileira. Isso significa abordar artistas que experimentam sonoridades, que possuem singularidades em seus trabalhos e não possuem grande espaço na mídia.

O Meio Desligado tem impacto sobre as bandas que divulga? Quais? Tem exemplos?
O impacto mais óbvio é que as bandas se tornam mais conhecidas e isso pode resultar em mais público nos shows e mais produtos vendidos. Alguns textos podem contribuir para que consigam fechar shows e até mesmo contratos comerciais (uma banda teve uma de suas músicas em um comercial depois que escrevi sobre eles e indiquei a banda). Outras bandas passam a usar trechos do que foi escrito sobre elas no blog em seus releases.


O que é mais relevante/qual o diferencial do seu blog?
Quando vou escrever algo, penso "Já escreveram isso por aí? Se já, vou acrescentar algo?". Se a resposta for negativa, simplesmente não escrevo. Seria perda do meu tempo e do leitor. Isso é um diferencial, mas também acho que um ponto relevante é a tal da "experimentação de linguagem" que em algum texto sobre o blog eu abordo. Tipo, já rolou agenda cultural em formato de conto, cobertura de evento só com comentários publicados por leitores, curta-documental que fiz com o celular para registrar eventos... e tem também essa mistura de formatos, dos relatos pessoais misturados no meio. Acredito que isso torna o conteúdo mais vivo e o torna diferenciado. Quem frequenta o blog passa a me conhecer também. Além de se informar e descobrir coisas novas, é um interesse em saber uma opinião específica sobre temas específicos.

Como é o leitor do Meio Desligado? Caracterize-o. Qual o papel dele no blog?
É jovem, mas não adolescente, principalmente do sudeste e do nordeste. O leitor é fundamental para o blog, uma vez que sem ele não haveria motivos para publicar o conteúdo. Um blog sem leitores é o mesmo que um caderno de anotações na gaveta. Em termos funcionais, um dos papeis do leitor também é a correção do material publicado, por incrível que pareça. O público tem papel fundamental em revisar o material final. Às vezes algum link ou informação no texto está errada e logo chega alguém dando o toque para corrigir. Alguns também enviam coberturas fotográficas de eventos, acho interessante e me identifico mais com isso do que com a colaboração textual, uma vez que agora (depois de cinco anos de existência) o Meio Desligado tem uma identidade nos textos ligada ao meu tipo de escrita.

Como você acha que o blog é visto pelos leitores? E pelas bandas e artistas independentes?
Recebo poucos xingamentos e as ameaças de me baterem na rua quase pararam, então imagino que leitores e bandas estejam gostando do blog. Os acessos também têm crescido a cada mês e sempre recebo dezenas de emails e tweets de bandas apresentando seus trabalhos, é algo positivo.

- Jornalismo cultural e internet:
Como é fazer jornalismo cultural pra blog? É passível de comparação com a mídia tradicional? Existem semelhanças, distinções? Quais?
A autonomia, a praticidade e o potencial multimídia são diferenciais importantes no jornalismo cultural em blogs. Não dá para pensar somente no texto quando se trabalha na internet. Você tem que contextualizar as informações de forma que interesse ao leitor do blog, pensar nos links, pesquisar se há algo disponível para download que complemente a publicação etc. Do meu ponto de vista, ao mesmo tempo em que é mais acessível publicar na internet, criar conteúdo interessante é mais difícil do que nas "mídias tradicionais", até porque a atenção do leitor/usuário está sendo muito disputada enquanto ele lê o blog. Provavelmente está no Gtalk/Skype com alguém, uma aba aberta com o Facebook, o email em outra e o Twitter pipocando a cada instante. Se o seu conteúdo não se destacar você passa despercebido.

O jornalismo cultural tem coberto de forma satisfatória a música independente? Tem espaço? Se não, quais seriam possíveis soluções?
Melhorou demais em relação ao fim de 2006, quando o blog foi criado. Ainda tem pouca gente que saiba ao menos expressar suas ideias de forma satisfatória, mas já dá para encontrar muito mais informações sobre essa cena (não apenas no sudeste, o que é muito importante).


Para onde você acha que tem caminhado o jornalismo cultural em tempos de internet, onde todos podem ser produtores e receptores? Na sua opinião profissional, para onde deve caminhar o jornalista cultural, qual mudança deve ocorrer em seu papel e sua prática para acompanhar os novos tempos e espaços?
Não concordo com a ideia de que o jornalista cultural da atualidade deva ficar conectado o tempo todo ligado no Twitter, Facebook e acompanhando dezenas de blogs. É importante que alguns sejam assim, mas deve haver espaço para todos, para diferentes abordagens da produção cultural. Se todo jornalista cultural fosse como o Alexandre Matias no Trabalho Sujo, por exemplo, seria uma porcaria, uma grande quantidade de informação não necessariamente relevante sendo produzida. Acredito que o excesso de informação é algo que deve ser evitado.

Quadrinhos do Malvados.

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