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4 de setembro de 2011

Eu estava lá



Uma garota com um vestido preto, justo e curto calçando uma sandália de salto agulha altíssimo e suas amigas; um senhor para além dos seus sessenta anos com um chapéu panamá bastante distinto na cabeça; o usual grupo de jornalistas, designers, arquitetos e estudantes à procura de algo novo, sem saber exatamente o que, mas que fosse diferente; um rapaz que logo antes, num debate, dividiu sua angústia: há dez anos em BH e poucas vezes teve acesso ao que está fora do mainstream; artistas; produtores culturais; os que passaram por lá e resolveram entrar; e eu, um projeto de acadêmica tentando produzir algum tipo de sentido para o que vi. Não consegui, mas arrisco um palpite. O que tínhamos em comum? Nada além de estarmos todos ontem, no 104, sentindo o show do Constantina e de seu convidado paulista, o Labirinto.


Disse sentindo por um único motivo: a música do Constantina ainda não foi coreografada. Não conseguimos curti-la do mesmo jeito. Deixe-me explicar melhor: já notaram que os estilos de música aos quais estamos acostumados, provocam movimentos corporais bastante semelhantes nos indivíduos que dividem o gosto por eles? Todos sabem como saltitam os que curtem o reggae, os headbangers também se mexem de forma parecida, os punks quando mosham, os que gostam de samba quando dançam, os micareteiros, as expressões no rosto de quem ouve um jazz bem tocado, enfim, pense num estilo e você imediatamente imagina os movimentos do corpo. O engraçado de ontem, é que isso não aconteceu. Enquanto o Constantina tocava, não havia coreografia! A garota do vestido preto, o senhor, os estudantes, os jornalistas, os que estavam lá por acaso, todos se mexiam, rosto e corpo, de forma evidentemente pessoal, primária, própria e visceral. Não tinha padrão.


Os teóricos que pensam sobre ela – de Platão até Benjamin, passando por Baudelaire – parecem concordar que a arte, aquela mais original, aquela que experimentamos como se estivéssemos vendo, ouvindo, sentindo pela primeira vez, está no campo do afeto, do sentimento primeiro e cada um a experimenta de um jeito singular. Parece-me que presenciei isso ontem. Observando a reação daqueles corpos sentindo a música descoordenadamente... Não sei não, mas arrisco dizer que ouvimos arte, ou melhor, sentimos arte. O Marcelo – o cara que faz esse blog – me disse que não só aqui no Brasil, mas que em outros lugares do mundo, algumas bandas fazem um som numa linha parecida. Se de fato isso se confirma, talvez estejamos presenciando o nascer de um novo estilo musical. Como disse, é só um palpite, mas se for verdade, eu, todas aquelas pessoas e qualquer um que esteve num show recente do Constantina, é testemunha disso. Bacana, né?

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