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16 de julho de 2011

Crowdfunding e a agência da multidão


Por Michel Nicolau

Crowdfunding é um conceito novo para uma velha prática: reunir pessoas em torno de uma idéia para viabilizá-la economicamente. Bastante presente no exterior, em especial nos Estados Unidos, mais de uma dezena de plataformas que operam com esta ferramenta já surge no Brasil, sendo exemplos CatarseQueremosBenfeitoriaMobsocial eEmbolacha. E alguns sucessos já foram alcançados. Através da plataforma Queremos, seis shows internacionais já ocorreram no Rio de Janeiro, arrecadando R$400 mil; outros três shows, dois em São Paulo e um no Rio de Janeiro, foram viabilizados pela plataforma Mobsocial, que levantou R$70 mil para tanto; a Casa Fora do Eixo em São Paulo, ao arrecadar R$8.375,00 na plataforma Catarse, pôde promover melhorias em suas estruturas; a banda Móveis Coloniais de Acaju levantou R$30.007,65 na plataforma Embolacha para realizar a 12a Edição do Festival Móveis Convida; entre outros exemplos.

Embora este fenômeno apenas se inicie no Brasil, ele já gera uma lista de discussão na internetreportagens televisas, extensas matérias na mídia impressa e ótimos estudos de casos, como a matéria que Rafael Queres fez para o projeto Open Business II. Enfim, muito além do que de fato já representa em termos de realização de projetos no Brasil, o crowdfunding entrou na pauta. 




Mas justamente por ser uma ferramenta que serve para projetos bastante diversos e que se realiza em plataformas que adotam modos de operação distintos, e não exatamente um modo de negócio em si, o crowdfunding é de difícil apreensão além da narrativa de casos específicos. Mas haveria afinal elementos unificadores do crowdfunding, além da evasiva idéia de financiamento colaborativo, que permitiria desenvolver uma narrativa sistêmica sobre ele? Quero propor que sim, e são dois os elementos. Em primeiro lugar, seu espaço de operação. Muito embora os projetos propostos nestas plataformas possam não ter qualquer relação com a internet, as plataformas operam apenas online, o que significa que as propostas de projetos são acessíveis na rede, assim como os aportes financeiros de um apoiador são também neste meio. Mas não é só isso: também o modo de mobilização para os financiamentos são preferencialmente – o que é dizer, não exclusivamente – online, em torno das redes sociais, utilizadas para mobilizar pessoas desconhecidas no universo offline, mas, muitas vezes, para agregar a um propósito pessoas que já fazem parte de um universo de relações fora da rede.


Outro elemento que se pode identificar como unificador das plataformas de crowdfunding, ao menos no Brasil, é um discurso moral e político que se sobrepõe a um discurso meramente econômico. O crowdfunding, assim proposto pelos operadores das plataformas e muitos dos seus usuários, representaria um bem (valor moral) e um processo de realização de democracia e liberdade (valores políticos). A base deste discurso está justamente no ator central da plataforma que está identificado em seu próprio nome: a multidão. Ao colocar a multidão na vanguarda do processo de proposição de projetos e de decisão sobre seu financiamento, o crowdfunding teria aquilo que proponho como um ethos revolucionário, embasado nos valores citados. Mas haveria, de fato, um ethos revolucionário? E mais, estaria realmente a multidão na vanguarda do processo? Por fim, a que se refere, realmente, a multidão do crowdfunding?


É possível investigar estas questões a partir de uma perspectiva sociológica. Para tanto, é necessário que se reconheça, em primeiro lugar, a característica do espaço de operação do crowdfunding (a internet) e, em seguida, os agentes que de fato estão nele envolvidos, identificando suas influências nos diversos processos decisórios (de definição do funcionamento das plataformas, de projetos propostos e mesmo de financiamento). O resultado desta análise nos permitirá concluir a real situação da multidão como agente – condição necessária para a realização dos valores moral e políticos propostos – em relação a uma estrutura definida pelo espaço de operação e aos outros agentes envolvidos no crowdfunding. Ainda, será possível pensar na semântica da multidão que, neste espaço virtual, é necessariamente ressignificada e, ironicamente, relacionada à idéia de comunidade (virtual ou não). 


A análise que proponho, infelizmente, não cabe no espaço deste post. Mas ela está aqui no Banco de Cultura para quem se interessa pelo assunto. Espero que minha contribuição gere ao menos o desejo em outros pesquisadores a levar a questão do crowdfunding a novas investigações.

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