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13 de janeiro de 2011

Sons modernos e posturas antigas (ou Hermano Vianna, eu, você e os novos hábitos de consumo no mercado musical)

O Hermano Vianna viveu, sentiu e expressou textualmente sua experiência com a música, mais especificamente, com o consumo da mesma (catalisado pelo fim da loja Modern Sound, até então uma das mais famosas lojas de CDs do Rio de Janeiro). Ele publicou em sua coluna no jornal O Globo. O Alê Youssef leu, gostou, republicou o texto em seu blog e o divulgou no Twitter. Eu, enquanto ouvia músicas direto no FireFox usando o plugin Fire.fm (que utiliza dados do Last.fm para gerar uma "estação de rádio" no seu navegador), atualizava uma planilha no Google Docs e carregava um vídeo no Vimeo, vi através do Twhirl (serviço que utilizo para acessar o Twitter) que o Alê divulgou em seu perfil no Twitter o texto republicado em seu blog.

Esse é o caminho que me levou ao texto que apresento abaixo a vocês. O processo de encontro ao conteúdo criado pelo Hermano foi publicado para ressaltar como nossos hábitos se transformam e, atualmente, estão cada vez mais relacionados ao conteúdo digital e às famosas "nuvens".

 
Engraçado e lamentável, simultaneamente, é o comunicado de encerramento da Modern Sound. Digo lamentável não porque eu chore pelo fim da loja. O que é triste no comunicado é a constatação de como grande parte da indústria permanece lamentando o fim dos velhos tempos de menos conteúdo disponível e mais lucros para empresas como a loja carioca. "Apesar de todo nosso esforço, infelizmente não foi possível reverter a perda causada pela evolução tecnológica, em que toda a cadeia de negócios ligada a questão do direito autoral foi ferida de morte".

Uma opinião sincera? Se vocês realmente pensam assim, já deveriam ter fechado as portas há mais tempo. E novamente, com a mesma sinceridade: não farão falta alguma. Eu e outros bilhões de pessoas preferimos, sem dúvida alguma, toda a "perda causada pela evolução tecnológica" do que 20 Modern Sound.

A impressão que tenho é que apesar de trabalharem no mercado musical muitas pessoas, como quem assina o comunicado da Modern Sound,  não VIVE o mercado musical atual. Mantêm uma mentalidade extremamente retrógrada, tendem a culpar a tecnologia em vez de utilizá-la para adaptar seus negócios, explorar nichos diferentes, novos modelos de negócios, etc.

A única grande perda provocada pela evolução tecnológica no setor musical refere-se à manutenção de monopólios que exploram (ou exploravam) a escassez de conteúdo musical em seus suportes físicos (como CDs, DVDs e vinis). E essa "perda", que dá espaço para a circulação de uma maior diversidade de artistas em todo o mundo, ampliando o mercado, não reduzindo, é muito bem-vinda. Velhos (hábitos, negócios, modelos,  pessoas) quando se ferem, têm maior probabilidade de morte. Que venham os novos (formatos, modelos, ideias, pessoas).


Clique abaixo para ler na íntegra a coluna do Hermano Vianna.
Uma nova era

Último dia de 2010. A Modern Sound, loja de discos de Copacabana, encerra suas atividades. A Blockbuster americana entrou com pedido de falência este ano. Fim de uma época. Lembro das minhas viagens de adolescente, do Rio de volta para Brasília, com LPs importados carregados cuidadosamente na sacola da Modern Sound — medo de o vinil empenar e assim perder a grana de muitas mesadas. Estranho, agora me dou conta: nunca mais tinha comprado nada ali. E nas minhas mais recentes viagens internacionais trouxe pouquíssimos CDs.

Meu som está quebrado, não tem peça para reposição, e fico com preguiça de tentar resolver o problema. Não baixo música, escuto quase tudo o que me interessa via YouTube, ou sites de streaming. Nem penso em arrumar mais espaço em prateleiras (na verdade no chão da minha casa, onde pilhas de CDs e LPs atravancam todos os caminhos) ou nos discos rígidos para armazenar pesados arquivos sonoros.

Tudo está na “nuvem”, abençoada nuvem, facilmente navegável com a ajuda do Google.

Esses meus novos hábitos não são minoritários. O fechamento da Modern Sound é mais uma prova de que todo mundo passou a consumir música online.
Ou não. A internet não é a única culpada. O buraco do modelo de negócios fonográfico é bem mais embaixo, ou acima e por todos os lados. E também não é só questão de economia. Vivemos uma  grande transformação cultural no modo como nos relacionamos com a música. Mais precisamente: voltamos ao padrão básico de consumo musical da humanidade, aquele que prevaleceu na maior parte das culturas e mesmo na história da chamada civilização ocidental até pelo menos o início do século XX. Música quase sempre foi um bem efêmero, sem registros físicos (mesmo partituras são invenções recentes). Só com a chegada dos toca-discos e depois dos gravadores é que isso mudou e as pessoas aprenderam a comprar discos e fitas para escutar em casa na hora que sentissem necessidade.

Mesmo durante o tempo de império do fonograma, as comunidades que ainda produziam “folclore” tinham uma outra relação com a arte sonora, nunca tratada exatamente como arte. Não havia divisão clara entre quem tocava e quem escutava, tudo era feito na hora, mais ou menos improvisadamente, com autoria coletiva. A ideia de se registrar aquilo para escutar depois, fora da festa, não fazia sentido. Para escutar novamente aquela música, ou para fazer de novo aquela música, a gente precisava esperar por novas festas.

Quando passeio pelo YouTube, não posso deixar de pensar: eis o novo folclore. Como diz o Kraftwerk: “Music, non-stop.” Festa, non-stop, tanto em termos geográficos como temporais. Todo mundo fazendo música, todo mundo fazendo clipes para as músicas dos outros, todos os quartos do mundo unidos por webcams numa produção musical/dançante/festiva constante e avassaladora. Ninguém se contenta apenas em ouvir a música: é preciso expor para o mundo sua própria interpretação sonora/visual/ coreográfica daquele hit do momento, numa conversa musical sem fim. Hit: não émais questão de discos vendidos, mas sim de views, audições, número de clipes feitos por fãs, o que pode gerar dinheiro com shows, pois os shows são materializações — também efêmeras, mesmo quando registradas por milhões de celulares — da festa que acontece na rede.

O hit do momento, a música que vai sacudir o Brasil neste verão é “Minha mulher não deixa não”. Fico na dúvida até se é música, e aqui não vai nenhum juízo de qualidade artística. Acho que é mais um mote, um tema para improviso e diversão das massas. Procure pelo título no YouTube. Você vai encontrar milhares de vídeos. Há a música tocada em todos os ritmos imagináveis, com muitas letras diferentes. Há tecnobrega, forró, samba, funk, sertanejo.

Há respostas para a letra “original” (mas nesse caso ninguém sabe qual a verdadeira origem), inclusive dizendo o oposto: “Minha mulher não manda em mim”. Isso sem contar com os vídeos que apenas criam novas imagens para uma das versões da música, geralmente com gente se esbaldando de dançar, em seus quartos, quintais e ruas de todo o país. É uma grande brincadeira coletiva, uma explosão de criatividade jocosa, uma gargalhada eletrônica juntando incontáveis risadinhas (e, claro, para a atual Lei do Direito Autoral, toda essa brincadeira está fora da lei). Na vitrola, e mesmo na TV, perde grande parte da sua melhor graça.

Vendas em canto nenhum. Diante dessa saudável bagunça toda, e do fechamento da Modern Sound, resta a pergunta: o disco acabou? Claro que não! Sei lá como vai funcionar o negócio, mas nunca escutei tanto discobom recém-“lançado” para Como o maravilhoso “Mafaro”, de André Abujamra, um dos meus preferidos de 2010. Diz a letra da faixa “Daunloudaram”:
“Ei tudo bom/ Quem sabe algum dia alguém/ escute o seu som/ Ei num esquenta, esquece/ Já baixaram seu CD inteiro na/ internet.” Tomara que baixem mesmo, e comprem e façam vídeos incríveis para cada música (tomara que apareça um jeito de o artista ganhar dinheiro com isso). Motivos para a festa não faltam no disco. Festa de muitas fantasias étnicas: do afro-beat à farra árabe ou cigana, tudo linkado pela luz da cauda da flecha de Oxossi ou pela proteção de Logun-Éde. André se explica: “‘Mafaro’ quer dizer ‘Alegria’ na língua do Zimbábue. Este CD é para aceitar a alegria.” Tudo muda o tempo todo. Que todo mundo,  incluindo meu querido Pedrinho da Modern Sound, fique protegido da tristeza e encontre motivos para alegria nova em 2011. E depois.

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