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20 de dezembro de 2010

A MPB entre a arte e o trono do mercado

Publicado na edição de outubro da revista Cult como parte do dossiê intitulado "Os rumos da cultura no Brasil", esse artigo do Tárik de Souza faz uma análise do atual momento da música brasileira a partir de um resgate histórico dos genêros musicais brasileiros e suas respectivas relações com o mercado. É interessante perceber (indo além do que está no texto) como movimentos tidos como à margem do mercado de massa em um primeiro momento se destacaram ao longo dos tempos e acabaram sendo apropriados pelo mainstream, constituindo-se como verdadeiros marcos da música popular brasileira contemporânea (como nos casos citados do pagode de raiz e do tecnobrega).

Abaixo você lê a primeira parte do artigo, que está disponível, na íntegra, no site da Cult.

Como o Brasil é muito extenso – fragmentado por regionalismos e absurdas discrepâncias de renda, escolarização e capacidade de geração e apreensão cultural –, não há como definir um rumo linear para a música popular. De forte apelo nacional, ela não possui uma voz única. Ao mesmo tempo, os cada vez mais abrangentes meios de comunicação também não a disseminam de forma democrática, com igualdade de oportunidades para os mais diversos gêneros sonoros que povoam nosso território. Tais limitações são regidas pela engrenagem financeira imediatista do mercado. Ou seja, é fácil encontrar música populista brasileira (geralmente classificada de brega) nos horários mais nobres dos meios de comunicação de massa, muitas vezes turbinada por uma divulgação artificial, financiada (o assim chamado “jabá”). E não a resultante da que deveria ser uma demanda popular de oferta ampla. É um circuito que se autoalimenta, já que ele condiciona o ouvido da maioria da população a um único tipo de música e abordagem.

Ainda que essa música possa vestir formatos como sertanejo, pagode romântico, forró pop ou axé music, muda-se a embalagem, mas o conteúdo vem recheado dos mesmos clichês poéticos de paixão exacerbada ou revanche amorosa, enquanto as linhas melódicas reprisam sequências surradas, incapazes de tirar a audiência da zona de conforto do já conhecido. “O povo sabe o que quer / mas o povo também quer o que não sabe”, já cantava com sagacidade o compositor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, em “Rep”, faixa de seu disco O Sol de Oslo, de 1998.

Mas, dentro desse cenário viciado, há curiosas exceções, sob certos aspectos. Como o assumido “tecnobrega” paraense e suas variações, cujo lastro musical-poético não difere muito dos congêneres do mercado de massa, exceto pelo fato de ser um produto independente cedido à promoção pela divulgação pirata dos camelôs locais. Some-se a isso alta tecnologia, utilizada em iluminação, cenários, aparelhagem e efeitos sonoros. Da mesma forma, independentes (difundidos ou não por gravadoras) e virais, espalharam-se o rap, em geral de forte conteúdo contestatório, como o dos pioneiros Thaíde e DJ Hum, mais Racionais MC’s, Sabotage (que morreu assassinado), Mzuri Sana, O Rappa, Nega Gizza, Xis, MV Bill, Negra Li, e também uma perna associada ao samba, via Rappin’ Hood e Marcelo D2. E ainda o funk carioca, de alto apelo sexual, não raro pornográfico, junto aos “proibidões”, que exaltam os bandidos e a vida marginal. Inicialmente uma mera cópia dos batidões de baixo estertorado do estilo norte-americano miami bass, esse funk – dentro da espontânea antropofagia cultural brasuca – ganhou a adesão do tambor de candomblé, acelerou a batida e sofisticou-se na direção de um eletroclash nativo, com repercussões internacionais.

Após uma década de ouro – os anos 1980 –, quando implantou no país um modelo pós iê-iê-iê com tinturas punk e pop em variadas colorações (Blitz, Legião Urbana, Paralamas, Titãs, Kid Abelha, Engenheiros do Hawaii, Lobão, Lulu Santos, Marina Lima, Cazuza, Angela Ro Ro, Barão Vermelho, Ira!, RPM, Capital Inicial, Camisa de Vênus), o BRock, que conseguiu exportar até heavy metal via os mineiros do Sepultura, diminuiu sua influência e poder. Passou por uma geração que incorporou elementos étnicos como os do “mangue bit” pernambucano, viveu a imolação da rascante antidiva Cássia Eller, a meteórica passagem da híbrida banda Los Hermanos, e desaguou em tribos pop de calibres variados. Dos tristonhos de rímel do emocore aos jeans de cores ácidas do happy rock. Num nicho à parte, bandas como a cearense Cidadão Instigado (do guitarrista Fernando Catatau, o mais influente da nova fornada), Móveis Coloniais de Acaju, de Brasília, e a mato-grossense Vanguart oferecem dissonâncias ao discurso dominante no setor.

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