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16 de setembro de 2010

Quem tem grana para ver tantos shows?

Um texto publicado pelo André Barcinski essa semana em seu blog na Folha de S. Paulo causou certa polêmica ao criticar o grande número de shows internacionais que acontecerá no próximo mês em São Paulo. Barcinski escreve: 
"Foi dada a largada. De agora até o fim de novembro, teremos uma overdose de shows internacionais por aqui. 
Desconfio que você já deve ter analisado com calma a lista das atrações e pensado em como gastar seu suado dinheirinho. Porque uma coisa é certa: ninguém tem grana para ver tudo. 
Uma rápida passada de olhos no calendário mostra que, num intervalo de 45 dias, entre a segunda semana de outubro e a última de novembro, o Brasil receberá pelo menos 50 bandas estrangeiras.  Atenção: estou falando de bandas internacionais. Não estão contabilizados grupos brasileiros, DJs, e shows menores em clubes. São pelo menos 50 grupos gringos tocando em grandes palcos."
Muita gente reclamou, mas acho que ficou bem claro, lendo o texto por completo, que o que o Barcinski critica é a concentração de grandes eventos em um curto período do ano e não o excesso de shows por si só. Como ele mesmo comenta, há uma enorme discrepância nas divisões de datas dos festivais e grandes shows internacionais, o que acarreta no acúmulo de eventos no segundo semestre. Esse acumúlo é ruim tanto para o público como para produtores e patrocinadores, já que são poucas as pessoas cujo poder aquisitivo permite comprar ingressos por mais de R$ 100 várias vezes em um mesmo mês. E quando você pensa que muitas pessoas que frequentam os grandes festivais em São Paulo ou os shows internacionais na verdade moram em outras cidades (e em outros Estados, em vários casos) a situação piora mais ainda, já que além dos caros ingressos há todo o custo de deslocamento.

E por que a situação não muda? Dois pontos são cruciais para a resposta, um referente ao mercado brasileiro, outro ao mercado internacional:
- No mercado internacional: no meio do ano, durante o verão no hemisfério norte, acontece a maioria dos grandes festivais por lá e é a principal época das bandas circularem por lá, aproveitando as férias e o clima.
- No Brasil: entre o fim e o início de cada ano as empresas estão focadas em ações relacionadas ao Natal, reveillon e carnaval. Pra piorar, boa parte das empresas só fecha seus balanços anuais em março, o que significa que só poderão definir seus patrocínios para o novo ano a partir de março/abril.

Como o dinheiro fica acumulado para ser gasto no segundo semestre, os grandes produtores acabam pagando cachês mais altos que o normal para ter de qualquer forma as grandes atrações que querem para seus eventos, o que acaba por inflacionar o mercado e piorar ainda mais a negociação para shows de artistas internacionais em outras épocas do ano.

Imagino que para mudar esse cenário seja necessário, principalmente, o interesse de produtores e patrocinadores em ocupar o calendário de forma mais heterogênea, o que possivelmente permitirá maior presença do público nos eventos. Uma maior proximidade entre produtores sulamericanos também poderia contribuir para a viabilidade das turnês internacionais pelo continente (algo que já vem acontecendo, mas que ainda tem um grande potencial a ser explorado, principalmente no que diz respeito a artistas de pequeno e médio porte).

Enfim, trata-se de um esforço coletivo necessário para mudar o mercado e que inclui também o público, que precisa se posicionar e apresentar seu desconforto aos produtores, patrocinadores e artistas. A internet também serve para isso.

Foto: Rein Nomm

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