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26 de julho de 2010

Mais do que palavras (texto vencedor do 1° Prêmio Letras de Jornalismo Cultural e Literário)

Fiz este artigo para o 1° Prêmio Letras de Jornalismo Cultural e Literário, do qual fui um dos 5 vencedores. Apesar de gostar bastante do resultado final, tinha pouca esperança de vencer pois comecei o texto quando faltavam 4 horas para o fim das inscrições e ainda dei uma paradinha para tocar um riff de guitarra que me veio à mente enquanto digitava, fiquei receoso.

A entrevista com o Guizado foi feita durante a participação dele no festival Eletronika, em 2008, quando o conheci e tive a oportunidade de bater um breve e interessante papo com ele, sujeito boníssimo e grande artista. A fala do pessoal do Constantina foi captada enquanto comíamos algumas pizzas no Pomodori, também em BH, na ocasião em que os conheci pessoalmente, em 2007. Aproveitei que ainda não havia utilizado esse material e o inseri no artigo abaixo, que também está impresso na nova e especial edição do jornal Letras, do Café Com Letras, distribuído gratuitamente em BH. Essa edição do jornal é focada no Savassi Festival, que começa nesta semana.

Feita a introdução, segue abaixo o artigo, "Mais do que palavras".

Música política para Maradona cantar. Treinando pra ser chuva. Receita de pudim de leite condensado. As frases que você acaba de ler não são frutos de uma dislexia não tratada, mas sim títulos de músicas de artistas da efervescente cena instrumental brasileira. Apesar de uma visível disparidade, todas têm em comum o fato de serem os únicos pontos de indicação para possíveis interpretações do ouvinte.

Dentro de um ambiente tão abstrato quanto a música instrumental, são poucas as “dicas” que direcionam o ouvinte em um determinado rumo na construção de sentido. Essa é uma das principais características da música instrumental: a liberdade, tanto de quem a produz como de quem a escuta. O que dizer, então, do jazz, marcado pela improvisação e caminhos não-lineares?

São emoções, sensações, imagens mentais que se transformam em música como forma de expressão. Realmente, tem um forte caráter sinestésico”, me responde o trumpetista paulista Guilherme Mendonça, mais conhecido como Guizado, ao tentar explicar o processo de nomenclatura de suas canções (no caso, da faixa intitulada “Vermelho”). Utilizando o nome Guizado em seu projeto musical (no qual, além do trumpete, também é responsável pelas programações eletrônicas e sintetizadores), Guilherme lançou, em 2008, o álbum Punx, presença constante na lista de melhores lançamentos daquele ano mesclando eletrônica de vanguarda, jazz e rock experimental. Agora, acaba de lançar seu segundo trabalho, Calavera, liberado para download no projeto Álbum Virtual, da gravadora Trama, que remunera os artistas para que disponibilizem suas músicas gratuitamente ao público.

Em Calavera, Guizado não abriu mão das palavras e inseriu vocais em algumas canções. O diferencial é que não se tratam de letras que esclarecem, mas que criam novas possibilidades de interpretação, além de permitir que os vocais atuem como importantes instrumentos melódicos responsáveis por novas camadas na diversificada massa sonora do artista (que dessa vez inclui, além dos já citados jazz, rock e eletrônica, ritmos como afrobeat, soul e até frevo).

Tida como uma das principais expoentes do pós-rock no Brasil, a mítica e mutante banda belorizontina Constantina mantém relação semelhante a de Guizado com suas obras. “(Nosso trabalho) é apenas o ponto de partida, cada pessoa que ouve a música constrói uma história própria”, conta o guitarrista Bruno Nunes, que ao lado dos irmãos Daniel e Leonardo, fundou o Constantina em 2003 junto de outros amigos. Bruno, Daniel e o multiinstrumentista André Veloso, aliás, são os únicos membros que se mantiveram em todas as formações da banda, que já foi quarteto, quinteto, sexteto e agora é um septeto, contando, pela primeira vez, com trumpete e percussão como elementos constantes em suas obras.


Apesar de criar títulos inspirados para suas melancólicas e detalhadas canções instrumentais, como “Treinando pra ser chuva” e “Ela já atravessou todos os oceanos do mundo”, a banda às vezes opta por sequer nomear suas músicas. A pessoa que se arrisca a entrar em contato com essas obras é apresentada sem instruções ou introduções diretamente a um material altamente inspirado e que dependerá do próprio ouvinte e suas referências, gostos e, porque não, estado de espírito, para se transformar mentalmente em uma experiência única.

Da mesma forma age o multiinstrumentista paulista Maurício Takara, que responde por M. Takara em seu projeto solo e é baterista das bandas Hurtmold e São Paulo Underground, nomes cruciais da música experimental/instrumental brasileira. Assim como Takara, músicos e grupos instrumentais contemporâneos como Ruído/mm (de Curitiba/PR), Burro Morto (de João Pessoa/PB), A Banda de Joseph Tourton (de Recife/PE), Fóssil (de Fortaleza/Ceará), 4instrumental (Sabará/MG), Iconili (BH/MG) e Macaco Bong (Cuiabá/MT), atuantes na chamada “cena musical independente”, têm em comum o desejo pela experimentação, pela extrapolação de limites entre orgânico e eletrônico e pela influência jazzística que, se em alguns momentos não é manifestada sonoramente, permanece nas intricadas estruturas de composição e na liberdade de execução de suas obras.

O que tem se percebido ao longo dos últimos anos é a consolidação e ampliação de uma cena instrumental formada essencialmente por jovens músicos influenciados por diferentes estilos e que optaram por se expressar além das palavras. É interessante perceber que na década de 90 a grande maioria das bandas alternativas brasileiras compunha em inglês, consequência das bandas estrangeiras que as influenciavam, uma língua não dominada pela população brasileira. Nos anos 2000, tendo como marco histórico o lançamento do álbum O Bloco do Eu Sozinho, do Los Hermanos (um dos primeiros CDs a romper com as barreiras entre indie e mainstream no Brasil e permitir que seus autores seguissem uma carreira de sucesso, respeitada tanto pela crítica como pelo público), uma nova safra de bandas cantando em português surgiu, resultando em boas propostas como as dos pernambucanos do Mombojó, dos gaúchos da Bidê ou Balde e dos mineiros Monno e Transmissor. Em 20 anos, o inglês perdeu sua hegemonia na música independente, composições de bandas alternativas em português passaram a ganhar maior destaque e agora, pela primeira vez na história, jovens bandas instrumentais com forte ligação com o rock formam um grupo sólido, de qualidade estética e conceitual, expressando-se com todas as suas idiossincrasias e fazendo uso de uma linguagem universal: a música.


Olhos e ouvidos mais atentos já perceberam isso, não apenas no Brasil como também no exterior. A banda cuiabana Macaco Bong já se apresentou em importantes festivais no Canadá e na Espanha, ao lado de artistas renomados internacionalmente; Maurício Takara se apresentou no hypado festival norte-americano SXSW - South by Southwest; A Banda de Joseph Tourton teve uma de suas músicas utilizada em uma campanha publicitária internacional (em um momento em que todas as músicas da banda haviam sido gravadas em um quarto, com um único microfone!); selos internacionais se interessam cada vez mais por esses grupos... são vários os indícios de que este, realmente, é um momento especial para a música instrumental nacional.

O caso de Thomas Liech, do blog alemão blogpartei.de, é elucidativo. Nascido no Brasil e criado na Alemanha, toda a produção cultural brasileira com a qual Thomas tem contato, com exceção de Cidade de Deus e Cansei de Ser Sexy, é antiga. Não há presença das manifestações artísticas brasileiras contemporâneas em sua vida. Essa situação se alterou justamente através de novas bandas instrumentais brasileiras (no caso, Constantina, Guizado, Macaco Bong e Hurtmold) que ele conheceu pela internet e cuja identificação foi instantânea. São bandas de diferentes Estados brasileiros e que, sem recorrer a cacoetes regionalistas ou sequer ao idioma, tiveram o poder de fazer com que Thomas se sentisse mais próximo do Brasil do que nunca.

Para entender (parte d´) o atual momento da música independente instrumental brasileira e seus novos artistas, escute:

Mestro (2006), do Hurtmold
Artista Igual Pedreiro (2008), do Macaco Bong
Calavera (2010) e Punx (2008), de Guizado
¡Hola amigos...! (2008), do Constantina
Varadouro (2008), do Burro Morto
Praia (2008), do Ruído/mm

Foto 1: Guizado em foto de minha autoria / Foto 2: M. Takara 3 por Caroline Bittencourt

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