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11 de maio de 2009

Sons do meio do Brasil

Por Augusto Pereira *

Eu achava que nenhum estado do Brasil era menos falado na mídia do que Sergipe. Eu, recifense desde que nasci, morava perto da terra natal de Maguila e Lacertæ e pouco ouvia falar de Sergipe. Mas eu tava enganado. Desde que vim morar na Amazônia de Mato Grosso, vi que Milton Nascimento tava mais do que certo em afirmar que as cidades estão de frente para o mar e de costas pro Brasil. Não quero fazer levantamento histórico da ocupação litorânea, mas os leitores molotovianos pouco sabem que o estado de Mato Grosso que existe agora é uma invenção recente, de trinta anos.

Pera, vou parar essas considerações amplas e conjecturais pra falar de música e cultura pop em Mato Grosso. Se bem que o povo brasileiro precisa voltar pra sala de aula de Geografia pra aprender que Campo Grande é capital de Mato Grosso do Sul. Tem um trolho de motivos pra falar de Cuiabá, Sinop, Barra do garças... cidades com música e público pronto pra sair de casa. Cuiabá vive um momento muito bom de produção e difusão musical.

SIRIRI E CURURU
Pra pernambucanos, isso parece comida, mas são os nomes de uma dança e um ritmo da Baixada Cuiabana. A cultura dessa região é diferente de todo o estado. É o que se pode chamar de cultura matogrossense propriamente dita. Durante duzentos anos, a ocupação do estado se limitava à Baixada. Nos anos militares é que o progresso mandou invadir a Amazônia e o cerrado pra criar boi e plantar soja. Com o progresso das monoculturas, o estilo de vida da Baixada foi desvalorizado e as expressões culturais também. Em outras partes, no Planalto Central, a Folia de Reis e o Boi do Cerrado também andam penando. Mas um movimento de cururueiros tem feito a cuiabania se orgulhar da tradição. Um festival de dois dias de apresentação à beira do rio Cuiabá tem lotado as arquibancadas de aplauso. Como recifense que sou, senti muita falta de eventos de rua em Cuiabá. Claro que é preciso ação da prefeitura pra isso acontecer (até demorou), mas, depois que o povo toma conta, fica difícil tirar.

CIRANDA CUIABANA
Outro espaço interessante é o Projeto Ciranda, que ensina música pra crianças e jovens de Cuiabá. A orquestra de sopro do Ciranda é rica em naipes e percussão. A direção musical do espaço é do maestro da Orquestra de Câmara de Mato Grosso, Leandro Carvalho. O barato do Ciranda é que l á também é um Ponto de Cultura, com seu estúdio montado, pronto pra gravar, disponível pra quem quiser chegar lá com sua música.

CÚBICOS
A esperteza de Pablo Capilé e seus parceiros do Espaço Cubo, em Cuiabá, tem feito diferença não só na produção do grande festival que é o Calango e nas noites da Casa fora do Eixo, mas também na articulação dos Festivais Fora do Eixo. O Calango agora é quase um dragão de Komodo, tem dois palcos, nenhum inter valo, infra montada só pro evento, bandas de todas as regiões do país, debates... um evento pra atrair quem quer conhecer o novo.

Durante o Calango o som comia solto e a Casa Brasil estava lá com um telecentro e várias pessoas usando os computadores com softwares livres instalados. Eduardo Ferreira, do Kashmir (banda performática, rock, erótica, cínica e com muito bom humor), hoje coordena a Casa Brasil de Cuiabá, que atua com políticas públicas e culturais e não parece querer sair do meio tão cedo.

SOFTWARE, AGRICULTURA, MÚSICA E VÍDEOS LIVRES
Falando em software livre, não posso deixar de falar do Ponto de Cultura Norte de Mato Grosso (PC Nortão). A maior parte dos Pontos de Cultura está em áreas urbanas, periféricas, com culturas urbanas. A entidade proponente do PC Nortão é o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lucas do Rio Verde, que tem como associados gente acampada, assentada e trabalhadores rurais assalariados. Esse público é predominantemente de migrantes do Sul do Brasil; aqui ou ali, gente de São Paulo, Maranhão, Minas Gerais e até alguns mato-grossenses. Como é que vamos falar da cultura dessa região, se a maioria das pessoas é de outras regiões? Falando de todas.

Essas diferenças fazem esse Ponto de Cultura ser muito especial, além disso, entramos de cabeça no software livre. Software livre, reforma agrária, vídeo popular, rádio comunitária e agroecologia: uma mistura de idéias e conceitos que tem dado certo. Podemos dizer que deu certo principalmente pelo resultado da Oficina de Áudio, finalizada dia 20 de outubro. Vários artistas populares vieram ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais gravar suas próprias composições.

Agricultoras e agricultores assentados, estudantes e moradores de Lucas do Rio Verde aprenderam sobre elementos da linguagem musical, aspectos físicos do som e técnicas de gravação em estúdio. Durante quatro dias, a sala do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais foi transformada em estúdio de gravação. Sob a orientação de Renato Cortez, músico e produtor musical que veio de São Paulo para dar a oficina. Os artistas se revezaram à frente do equipamento. Dez faixas foram gravadas em quatro dias, mais duas j á produzidas no PC Nortão
foram adicionadas às novas. O trabalho foi registrado no disco Sons do Brasil Central. As faixas foram liberadas para cópia e distribuição.

CULTURA DIGITAL
Nessa disseminação de cultura por vias zero-e-um, o Cultura Digital entra como um programa governamental ao mesmo tempo que não é governo. Cultura Digital são entidades parceiras, Gesac, Casas Brasil e entidades que nem recebem recurso do MinC como o Espaço Cubo ou o Poraquê, em Santarém. Também há indivíduos não-governamentais colaboradores.

Um dos conceitos do Cultura Digital é a generosidade intelectual. Complicado pra quem anda preocupado com a pirataria, mas é o seguinte: se você registra sua criação em copyright, todos os direitos da obra são seus e quem pegar é ladrão. Se você cria um registro que diz que os outros podem copiar sua obra, desde que não lucrem com isso, você vai divulgar sua criação. Ninguém vai ter medo de baixar da internet. O Radiohead criou um disco que você pode baixar inteiro do site oficial da banda, por exemplo.

É baseada na generosidade intelectual que são desenvolvidos os softwares livres. Por isso aposto na cultura digital como elemento transformador das “cenas musicais” (não usei aspas até agora, mas essa expressão merece) longe das capitais litorâneas. Comecei falando de Bituca e volto a ele: aqui vive um povo que é mar e que é rio e seu destino é um dia se juntar.

* Augusto Pereira é coordenador do Ponto de Cultura Norte de Mato Grosso e coordenador de comunicação do projeto de fortalecimento da participação social no Plano BR 163. Texto publicado na revista Coquetel Molotov n°4. Ilustração de DW Ribatski.

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