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4 de novembro de 2008

Festival All Stars

Quem acompanha o Meio Desligado com frequência sabe que tempo não é um dos critérios de noticiabilidade mais importantes por aqui. Então, quando perguntei se o Artênius poderia contar sua experiência no festival All Stars, já alguns dias após a realização do evento, sabíamos que seria mais do que uma simples resenha de um evento que havia acabado de acontecer.
O texto abaixo é um registro do momento atual da cena musical independente e demonstra a movimentação que acontece no interior de Minas Gerais, onde o Circuito Mineiro de Música Independente vem se estruturando.
Pra quem não conhece o Artênius Daniel, é preciso seguir uma razoável quantidade de links para acompanhar sua atuação: jornalista,
assessor de imprensa, guitarrista, tecladista e vocalista do Cinza, membro do OutroRock e uma das cabeças por trás do Instituto Limites. E agora, colaborador especial do Meio Desligado!



Ciente que este blogueiro bem fez em me apresentar acima, assim como introduzir assunto e motivo de mais uma saudável invasão ao Meio Desligado, perceba você que não cabe aqui, nesta primeira frase, alguma outra contextualização de qualquer tipo. Dessa forma, bora esquecer da casca e comer só o miolo. Lá vai:

Chegamos a São João Del Rei às duas horas da tarde do sábado, 18/10, felizes e confiantes de estarmos indo tocar em um bom esquema. A nossa proximidade com a música independente de São João Del Rei, assim como a de todas outras bandas, DJs, produtores e coletivos que participaram da 3ª edição do festival All Stars tinha um nome: Túlio Panzera, guitarrista, cantor e líder do Churrus, banda que faz o rock lo-fi mais finesse de Minas Gerais (quiçá de uma renca de estados juntos) e que, de quebra, está muito dedicada no fortalecimento do primeiro grande festival de música independente em uma cidade histórica do estado. O Túlio, que também está à frente da produtora local Miss Ladybug, já havia vindo a BH com o Churrus, tocar conosco n'A Obra e esse era o nosso vínculo.

Ligamos para ele ainda do ônibus, sua mãe atendeu: "Tenta o outro celular, dia de festival esse menino fica difícil", respondeu amistosa. O festival All Stars, de acordo com a divulgação, começaria às 16h na casa noturna Domo Vídeo Pub. Já eram 14h e não sabíamos nada da passagem de som. Sem poder falar com o Túlio, mandamos o táxi para o endereço do flyer: Praça dos Expedicionários, 71. A cidade é muito bonita, possui varias estações velhíssimas de trem e infelizmente, o festival não pôde ser realizado dentro de uma delas! Motivo? Chatices do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico) na cidade. Já na porta da Domo Vídeo Pub começamos a conhecer algumas das outras bandas do Rio de Janeiro e de São Paulo que, além de nós e do In Verso, de BH, formaram o line-up desta edição. Por falar no line, foi assim: Dj Lomão (SJDR), Os escalas (SJDR), Music Settlement (SP), DJ b (SJDR), In Verso (BH), DJ Gordinho (RJ), Churrus (SJDR), DJ Eduardo Ramos (SP), Cinza (BH), DJ Bruno Orsini (BH), The John Candy (RJ), DJ Rodrigo Lariú (RJ), Holger (SP). Vale lembrar que o festival foi co-produzido pelo Rodrigo Lariú, o famoso "patrão" do selo carioca Midsummer Madness e pelo Bruno Orsini, do http://www.indierock.com.br/, com apoio cultural do Eduardo Ramos, da Slag Records.

Depois de algum tempo e de uma coleçãozinha de burocracias da casa noturna que ofenderia ao senso lógico de um dragão de comodo, conseguimos chegar ao palco e passar o som. A casa é bem localizada, ao lado de um grande "shopping point" da cidade, tem um interior agradável e som regular. O espaço, que no geral levaria nota 6, ganhou um aspecto "demaisão" com o surpreendente capricho da produção. Na parede lateral logo da entrada, um grande banner preto do festival já impressionava. No palco, um telão bem sacadasso transmitia a arte gráfica do flyer e do cartaz em movimento (isso mesmo!), eram estrelinhas de néon piscando todas retrôzinhas de fora pra dentro, ou seja, styyyyle.

Fomos para o hotel, onde o recepcionista demorou vários minutos na digitação do nome da Jennifer (presenciei as seguintes tentativas: Jenfier, Jeniferi e Jeinfer) até que o sistema nos liberasse. Depois do banho e de um breve descanso, trombamos com os camaradas cariocas do The John Candy na varanda do hotel e consolamos parte da banda com a eminente configuração da tabela do Brasileirão após a última rodada. O vascaíno ainda tentava lutar na conversa me oferecendo a lembrança da goleada recente em cima do Galo. o fluminense, por sua vez, já curtia sorridente o conforto da resignação: "É assim mermo, já voltamos até da terceira divisão, vai ser moleza jogar de novo na segunda".

Music Settlement


O atraso nos fez perder dois shows da noite. O primeiro dos nativos Escalas, o segundo, infelizmente, o que eu mais queria ver: Music Settlement (SP). A banda, na verdade, o projeto, é liderado pelo nosso caro Eduardo Ramos (ex Trama, ex empresário do Cansei de Ser Sexy, atual dono Slag Records), responsável por uma pá de produções e transações artísticas no Brasil e na Europa. O som do Music Settlement está ali no eletrônico minimalista com coisinhas delicadas e visitas folk de violão e acordeon. Me lembrou, desde a primeira vez que ouvi, uma banda que eu gosto um bocado: The Album Leaf. Como perdi o show, fui direto ao Eduardo no camarim: "Velho, tava quente pra ver seu som. Me diz, você acha que parece com o Album Leaf?". Ele: "Sim parece. São até meus amigos". Eu: "Que merda!". Enfim, a raiva de ter perdido o show do Music Settlement acabou levando em consideração a sensatez de que não havia como colocá-los em um festival sem ser no começo, ou seja, eu que vacilei feio mesmo de ter chegado atrasado.

Churrus


O terceiro show foi do In Verso, banda do amigo Marcos Rosa (também Ímpar) que realmente mostrou muita competência musical. Instrumentistas afiados, timbres bem escolhidos, bons arranjos e energia no palco. Quero vê-los de novo. Estão terminando o primeiro EP. Logo após o In Verso, os donos da casa, Churrus, em uma excelente apresentação. Cantando em inglês e com influências escarradas de Guided by Voices, Dinosaur Jr, Pavement, Buffalo Tom e congêneres, o grupo tem melodias boas e refrões espertinhos. A platéia curtiu. Destaques do show do Churrus: a canção "By your side", minha favorita (por favor, escutem no Myspace), cantada pelo guitarrista Matheus, e a performance cura-ressaca do tecladista Paulinho, gente-fina até se não tivesse bebido. Na verdade é injustiça citar dois integrantes do Churrus, a banda toda é do caralho.

Cinza


Show do Cinza e tive que arrumar as coisas. Só o trampo de montar e carregar teclado, notebook, quatro guitarras, já me faz começar qualquer show totalmente suado. Se não bastasse isso, foi só na primeira música que descobri o quão desnecessária é a casa ter uma luz branca tão quente tão perto do rosto dos artistas. Enfim, tocamos 11 músicas e, entre algumas delas, falei o que eu acho do festival All Stars. Lógico que não lembro sílaba por sílaba, mas o espírito foi esse: São João Del Rei está crescendo com muito potencial para ser um novo ponto forte na rota do Circuito Mineiro da Música Independente. A cidade já abrigou o Conexão Vivo, o Grito Rock da Abrafin e agora a terceira edição do All Stars em uma produção feita com muito carinho e atenção pelos produtores. O festival conseguiu articular vários patrocinadores da cidade que apostassem na idéia da nova música, trouxe à cidade pessoas importantes como o Rodrigo Lariú e o Eduardo Ramos, prezou pelo bom atendimento e atenção aos artistas. Nesse item especifico preciso registrar que um certo Luiz da produção me deixou constrangido com o tanto que ele me tratou bem. Ele me achava no meio do público pra levar cerveja. (Cara, não é mentira. Nesse ponto o festival mandou muito bem).
O que falta para o All Stars? Bem, isso eu não falei no microfone, mas acho importante registrar aqui. Falta organizar todos os atores da música independente na cidade, fortalecer outras iniciativas, fazer intercâmbios, produzir bastante com shows locais, levando bandas de fora, descobrindo o público, etc. Por último, falta São João chegar, redonda, ao seu lugar no grande projeto do Circuito Mineiro de Música Independente, que já está começando a aquecer-se em todo o estado.

The John Candy


Após o Cinza subiu o The John Candy, do Rio de Janeiro, com um som também bem ambientado na sonoridade lado B da década de 90, que ressoa às vezes perto do Superchunk, Grandaddy ou The Amps, com uma formação de duas guitarras, baixo, bateria e violão e um bom tempo de estrada. Fizeram um show bastante agradável, com participação especial do DJ Gordinho, também guitarrista do Pelvs, em uma das últimas músicas.
Para fechar, e bem, o festival All Stars, os paulistas do Holger, a banda mais canadense do hemisfério sul. Ouvi eles no MySpace, onde a foto de divulgação é a de um simpático ursão, ou seja, eu não conhecia a cara da banda. Logo de cara me surpreendi com um grande camarada na formação, o nobre amigo Pedro, também jornalista, de São Paulo, que tromba comigo quando nós dois estamos a trabalho em alguns festivais pro aí. Então, a banda do Pedro é muito massa. Tipo um Arcade Fire brazuca, naquele esquema indie festivo, às vezes tribal, bons arranjos e vocais durante o show inteiro. Lembra muito também o Broken Social Scene, banda "bacanuda" para parafrasear o adjetivo do brother Bruno Miari.


Holger


Depois dos shows fomos para o hotel, eu e os mochileiros do coletivo Pegada, Camila, Lucas e Flávio, que deram aquela força de carregadores do Cinza por um dia. Trancados no quarto 223, ao som de piadinhas infames e uma festinha particular com os legionários alto falantes do meu notebook de 7 polegadas (!) até que deu pra se divertir com uma meia dúzia de cervejas e o Felipe Massa correndo, ao vivo, na televisão. Quando o dia estava amanhecendo, pulamos pra mega balada organizada pelo Porquinho (baixista do Valv) e pelo DJ Gordinho na varanda de cima do hotel com um Ipod e um alto falante melhorzinho. Foi ali que cinco pessoas dançaram, beberam e deram tchau para os primeiros São Joanenses que acordavam e saíam à rua naquela nublada manhã de domingo.

Dormi até as 12h e, para minha surpresa, o café da manhã do hotel ainda estava sendo servido. Foi a conta de curar a ressaca com suco de laranja e embarcar de volta para Belo Horizonte. Na estrada o sentimento de dever cumprido, não só pelo show da minha banda, mas por ajudar a fortalecer mais um ponto de força da cultura independente no estado e no país. Parabéns ao ótimo festival All Stars e a São João Del Rei, cidade dos trens e ferrovias que, em breve, será parada obrigatória de comboios muito maiores.

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