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10 de julho de 2008

Engrenagens da noite

Para que uma nova cena de DJs aflore, é crucial que os personagens que movimentam as festas encontrem espaços onde possam mostrar seus trabalhos. Em Belo Horizonte, a maioria dos clubes noturnos tem se mostrado receptiva aos DJs iniciantes, dando espaço para suas apresentações e até mesmo criando festas específicas para eles.

A situação é semelhante tanto nos clubes de música eletrônica como nos de rock, apesar de ambos possuírem suas singularidades. A Obra, casa noturna belo-horizontina com mais de 10 anos de existência, por exemplo, possui cerca de 20 DJs fixos, mas mesmo assim sempre dá espaço para novatos. Como nenhuma das festas promovidas na Obra se repete em um mesmo mês e em cada edição se apresentam cerca de três DJs, é freqüente a presença de novos nomes. Segundo Claudão Pilha, proprietário do local, esta é uma forma de variar a programação, atrair um novo público e fomentar a cena.

Já na Mary in Hell, boate focada em diferentes estilos de música eletrônica e no rock, os DJs fixos são apenas três e dar espaço para os iniciantes é visto como uma maneira de descobrir novos talentos. “A vantagem de um DJ fixo é que ele sabe do que o público gosta, o que funciona e o que não funciona. Uma possível desvantagem é que ele pode acabar se acomodando e não variando muito o set, algo que não acontece com quem está começando”, afirma Túlio Borges, um dos proprietários da casa.

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A escolha dos DJs é baseada em critérios que se repetem em todas as boates: a pessoa tem que conhecer o público da casa, saber que tipo de música se adequa ao local e à determinada festa, ter interesse em pesquisar e escutar sempre muita música. “No caso de novos DJs, é sempre bom ser alguém que vá levar um bocado de amigos para a festa”, brinca Túlio, sem esconder a realidade. Como a maioria dos iniciantes recebe seu cachê de acordo com o valor arrecadado na bilheteria, esta é mais uma forma de estimular a divulgação das festas e atrair mais público. “É uma maneira de tanto a casa quanto o DJ trabalharem ativamente na divulgação da festa, quanto mais pessoas comparecem, mais o DJ ganha”, comenta Claudão.

O feeling e a técnica

Uma discussão recorrente quando se trata de DJs envolve a técnica no momento de mixar e alterar as músicas e o preparo para sentir o movimento da pista e tocar a música mais adequada. Nas boates de música eletrônica é um pouco mais comum o apuro pela técnica, mas tanto proprietários como freqüentadores sentem uma queda na preocupação do público. “Existe um pequeno público mais especializado que presta atenção nas mixagens, conhece os bons DJs e tem suas preferências, mas são pouquíssimas pessoas”, diz Túlio, da Mary in Hell. “A grande maioria quer mesmo é dançar e cantar as músicas que conhece, independente de quem estiver tocando”, completa. Reiler Canesso, freqüentador assíduo da boate Deputamadre, no bairro Floresta, concorda: “O que importa é se divertir na pista. Só reparo no DJ se a música estiver ruim”.

E é justamente em termos de resposta do público que reside o maior perigo entre os DJs que estão começando. Segundo o experiente Robinho, que discoteca há quase 20 anos, muitas vezes um DJ novato acaba escolhendo músicas que agradam ao seu gosto pessoal, mas que não funcionam na pista. Para ele, a pessoa que “aperta play” e deixa a música rolar não pode ser considerada DJ. A opinião de Claudão Pilha é divergente. “Acho que o bom DJ (ou mesmo o bom trocador de música, ou seja, o cara que não mixa nem cria, mas coloca uma música na seqüência da outra) depende do feeling, de sentir a resposta da pista e direcionar seu som de acordo com essa resposta”.


Trechos das entrevistas realizadas e que acabaram não entrando no texto final:

Eu: Na comunidade da própria Mary In Hell no Orkut houve, recentemente, uma discussão interessante sobre os DJs que estão tocando atualmente no clube e alguém apontou que, com a popularização da função de DJ e os avanços tecnológicos, a qualidade cai e agora ocorre uma estabilização de nível por baixo. Você concorda com isso?
Túlio Borges: De certa forma, sim, é um pouco difícil de negar. Com a popularização da função hoje qualquer um é "DJ" e isso acabou provocando uma queda nos cachês de DJs profissionais, já que se pode conseguir um DJ mais barato em qualquer esquina. O problema é que com DJs amadores podemos cair no problema explicado acima e a economia pode acabar se voltando contra o próprio contratante. Eu acho que a solução deve vir das próprias casas, selecionando melhor as pessoas que tocam em suas festas. Mas isso depende muito do tipo de clube, do que se pretende com a festa e do público que se pretende atingir.

Eu: Porque as principais noites da Obra, sexta e sábado, são dedicadas a DJs e não às bandas? O público é mais receptivo aos DJs?
Claudão Pilha: Não, porque o custo da Obra é extremamente alto, e a combinação de grana com as bandas é totalmente diferente, daí precisamos fazer festas na sexta e sábado pra nossa receita ser suficiente pra bancar os custos de abertura com dias de banda. Ou seja, na real a sexta e o sábado pagam a quarta e a quinta da Obra.

Trecho de matéria que publiquei no jornal Estado de Minas.

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