15 de abril de 2008

Abril Pro Rock 2008: debates

Assim que cheguei a Recife teve início a 16ª edição do Abril Pro Rock. Não que minha presença fosse ansiosamente aguardada pelos produtores, mas porque, na tarde daquela quinta-feira, 10 de abril, simultaneamente ao meu desembarque tinham início as primeiras atividades do Abril Pro Rock 2008.

Público no auditório da Livraria CulturaCiclo de Debates

As atividades em questão faziam parte do primeiro ciclo de palestras realizado pelo festival na luxuosa Livraria Cultura. Desenvolvido em parceria com a Abrafin e as Faculdades Integradas Barros Melo, as palestras reuniram alguns dos principais nomes envolvidos com a música independente brasileira, abordando desde aspectos relativos à produção musical à realização de festivais e turnês com baixos orçamentos. Apesar de ser um excelente momento para se conhecer melhor os bastidores do efervescente cenário musical independente, o mais interessante era que ali estavam reunidos os produtores de alguns dos principais festivais brasileiros, jornalistas, músicos e aspirantes às três categorias anteriores (ha!). Bastava virar para o lado e conversar com a pessoa ao lado para fazer contatos importantíssimos, conhecer boas histórias ou se informar diretamente na fonte sobre o que está surgindo no underground tupiniquim.

Perdi as palestras de Fabrício Nobre (Monstro Discos, Abrafin) e Iuri Freiberger (produtor musical), que juntos falariam de produção executiva e musical, mas ambos eram figurinhas carimbadas por todas as outras atividades do APR (desde a reunião da Abrafin aos shows).

Primeiro dia de palestrasA logística de realização de uma turnê pelo nordeste foi abordada por Anderson Foca (Centro Cultural DoSol Rockbar e The Sinks) e Rafael Bandeira (HeyHo Rockbar), que utilizaram suas experiências pessoais como (bons) exemplos do assunto. Tema semelhante foi objeto da palestra de Gustavo Sá (Porão do Rock) e dos produtores do Demo Sul, que comentaram as trajetórias dos festivais que realizam, as dificuldades, etc.

Na sexta-feira os debates começaram pelo tema "Mídia Independente", tendo como convidados Paulo Terron (que edita o blog With Lasers, trabalha para a revista Rolling Stone e e escreveu para a Capricho, Bizz e IG) e Bruno Maia (que edita o blog Sobremúsica, tem um programa na Multishow FM e é executivo da gravadora EMI).... Será apenas uma impressão minha, talvez culpa de minha tenra idade, mas o termo "independente" não costumava significar algo como NÃO estar vinculado a grandes corporações"? Tsc tsc.
Tanto Terron como Maia possuem bons blogs, principalmente Maia, mas foi o tipo de debate que pouco teve a acrescentar e ficou perdido na mesmice cliché de dizer "você pode ter um blog! você pode ter poder! o mundo vai te ouvir! blá blá blá". Talvez, para o público leigo, seja proveitoso. Porém, para aqueles que têm um mínimo conhecimento de internet, blogs e ferramentas 2.0, foi muito pouco proveitoso (ou, como disse, a famosa hora de conversar com as pessoas na platéia ou do lado de fora do auditório e conhecer gente nova e interessante).

Espaço ao lado do auditório, onde aconteceram as melhores conversasUm dos temas mais interessantes de todo o ciclo de palestras, "Divulgação de bandas na internet", também poderia ter sido melhor explorado. O problema, em grande parte, se deu pela total falta de jeito do mediador Guilherme Moura em exercer sua função e às perguntas óbvias e egocêntricas do público (o conhecido "eu tenho uma banda que..."). Em meio a este cenário, Luiz César Pimentel (gerente de conteúdo do MySpace Brasil e um dos criadores da antiga revista Zero) e Fernanda Cardoso (Trama Virtual) puderam apenas apresentar um pouco das empresas em que trabalham, comentar casos de sucesso e esclarecer parte do funcionamento dos dois serviços que representam, principais ferramentas de divulgação da música independente / alternativa brasileira.

A bem-sucedida experiência do Espaço Cubo, de Cuiabá, com seu sistema de crédito alternativo (Cubo Card) e as associações de produtores independentes foram tema das palestras de Pablo Capilé (Espaço Cubo, Circuito Fora do Eixo) e Claudão Pilha (Casas Associadas, A Obra). Minha abstinência de internet bateu e corri para uma lan house, não por falta de interesse no assunto, mas por já conhecê-lo o suficiente, principalmente por causa de minha atuação com o Fórceps (e a crise abstinência de internet, claro).

11 participações:

Bruno disse...

As palestras - isso tava no material de divulgação que você recebeu - eram mesmo voltadas para o público mais leigo. Recebemos uma enchurrada de emails de pessoas querendo saber, por exemplo, como montar um blog como o Meio Desligado. Eles tavam lá para aproximar esse público de uma realidade que é mais natural para nós.

O restante tinha o mesmo perfil. Fizemos uma pesquisa que mostrou que a maioria das bandas não sabem que existe um sistema de download remunerado na trama virtual. E queriamos explicar para eles como isso funciona, etc.

É importante não sermos tão auto-referentes nessas horas :) Nem todo mundo sabe do que a gente sabe ;)

Bruno disse...

Ah, o complemento mais importante: Bruno e Paulo consquistaram esse espaço em empresas como EMI e revistas como Rolling Stone e Capricho justamente como reflexo do trabalho deles na Internet :)

Essa era a cereja no bolo da presença deles e não, por exemplo, de um Alexandre Matias. Que fez história antes de ter um blog.

marcelo santiago disse...

Do release: "o evento procura explicar para os iniciantes o processo de produção, tanto artístico quanto executivo, de um grupo independente".

Sim, você está certo. Mas não deixo de comentar que faltam atividades mais profundas sobre o assunto. Se continuarmos assim, haverá um nivelamento por baixo, apenas com informações superficiais.

marcelo santiago disse...

Em relação ao Terron, o blog dele foi montado apenas no ano passado. Ele já escrevia na Bizz. E no IG. E em outros locais.

Não conheço a trajetória do Bruno e sei que o blog foi crucial para que ele fosse contratado pela EMI.

Não questiono a escolha dos dois. O que incomoda é a falsa imagem transmitida de que tudo que eles conseguiram foi através dos blogs, sendo que isso é mentira. Ambos são profissionais que já estavam envolvidos com grandes veículos e é óbvio que isso "colaborou" para o crescimento de suas carreiras. Isso não os torna menores ou piores, mas pode acabar vendendo a idéia de que é tudo fruto dos blogs.

Bruno disse...

Não e mentira, Marcelo. Conheço ambos de antes da carreira atual deles. E foi justamente por isso que os convidei. Tantos os dois, assim como eu mesmo, conseguiram estar onde estão hoje graças a Internet.

Tem que lembrar que isso é um debate de uma hora. Não tem como aprofundar nenhum assunto do mundo nesse tempo. Sempre vira sexo dos anjos antes da metade. O papel é justamente de dar o ponta pé para os insteressados buscarem respostas, cada um a sua maneira.

Bruno disse...

Lembrei de uma pergunta que fizeram no debate do MySpace sobre como mandar as músicas para o site. Ainda tem muita coisa pra se resolver e resposta a se dar antes de aumentar o nível.

Mais uma vez, a hora agora é justamente de dar os ponta-pés. Ainda mais num evento como o Abril, onde as palestras são algo mais secundário. Em outros como o Porto Musical e o Chappa o nível cresce naturalmente.

marcelo santiago disse...

Sim, sim. São formatos distintos e que determinam os resultados. Só precisamos de outras opções também.

Mas creio que o que estou propondo/pensando seria algo mais próximo do Itaú Cultural, por exemplo. Outra proposta.

Paulo Terron disse...

Oi, gente!

Acho o debate sempre válido. Mas acho que algumas coisas deveriam ficar claras: não é porque eu já trabalhei para a editora Abril que eu sou "vinculado a grandes corporações". É muito inocente achar isso. Não sou ex-mulher dessas empresas, não recebo pensão mensal delas! hahahahahaha (aliás, eu gostaria muito de receber!). Acho que a idéia da palestra era mostrar a era de mudanças em que vivemos - os grandes meios não são mais tão importantes como eram antes. E eu não entendo esse lance de "para quem já tem conhecimento". Ué, o mais legal da internet não é a democracia? Eu não quero ficar em um pedestal do tipo "eu sou de tal revista!". Na internet, sou só mais um. Acho que o teor era esse.

makely disse...

Eu acho curiosa essa idéia de "explicar o processo para iniciantes". Acho mais produtivo o cara procurar um curso no Senac, no SEBRAE. Nesses debates quem participa quer trocar experiência, estabelecer contatos, não receber receita de bolo. Também discordo que o Porto Musical ou outros eventos com esse mesmo formato aprofundem alguma coisa. A estrutura de seminários é acadêmica, unidirecional, em geral cada um fala de sua carreira vencedora, apontando pro umbigo. Se estamos vivendo uma revolução nas formas de ouvir, distribuir e divulgar música, porque insistir num formato que remete ao século dezenove? Precisamos de mais interação, mais compromisso, mais imersão efetiva. Quanto à velha discussão independente/major, há algum tempo que abandonei o termo para definir o tipo de autoprodução realizada pela maioria dos músicos atualemnte. Prefiro chamar isso de contra-indústria.

Bruno Maia disse...

Ixi.. perdi o bonde dessa conversa que só vi agora. Concordo com o Terron, debate é sempre válido. Eu curti o papo lá no Recife e tinha ficado com uma sensação de que a galera tinha curtido mais do que essas linhas do Marcelo me fizeram crer... mas realmente qdo vc ta falando, fica um pouco dificil avaliar. O que nos propuseram foi exatamente conversar sobre como dá pra usar um blog para fazer um jornalismo respeitado, conquistar espaços, etc. O meu único vínculo com 'grandes corporações' antes de ter um blog foi ter estagiado na Rede Globo. Assim que me formei, saí de lá e comecei minha carreira, de fato, por um blog. Nunca fui empregado efetivo em nenhuma grande corporação e não vejo porque dizer que tinhamos tal vinculos - ainda que, se tivessemos, isso não traz em si nenhum demérito. Ou traz? Se a gente andar por esse tipo de "reducionismo", a discussão se esvazia. Vira aquele papo de um se defender porque o outro tá acusando e ai cai na discussao que a Folha levantou: fazer festival independente com a grana da Petrobras é deixar de ser independente?!?! Eu acredito num mercado de trabalho honesto e com trocas entre agentes grandes e pequenos. Esse tipo de argumentação é boba e foi essa separação infantil entre "independentes e comprometidos" que fez o mercado da música virar isso aí que virou. O Chappa, por exemplo, é uma iniciativa totalmente independente que sempre se pautou por combater essa visão rasa.

Mas tb acho que nao foi só isso que o Marcelo falou no texto dele. Talvez uma participaçao mais efetiva da platéia tivesse feito ser melhor, mas foi isso neh... Numa próxima a gente melhora :P

Aliás, Marcelo, não sabia que vc tava lá... nem te vi. se tivesse sabido, a gente podia ter trocado mais idéia. Curto o Meio Desligado, acho um dos blogs mais interessantes que ha por ai (e ja disse isso uma vez), apesar de achar a separação independente-assinado um lance meio maniqueísta.

abcao!
BM

marcelo santiago disse...

Concordo que fica algo maniqueísta mesmo e isso me incomoda.

A partir da debate surgido nesses comentários, ampliei minha visão sobre o tema e, apesar de manter o que escrevi no texto, hoje em dia colocaria meus argumentos de outra forma.

É por essas e outras que deve haver a discussão em torno desses temas ao invés de ficarmos todos apenas elogiando tudo o que acontece e deixando as coisas como estão.

E o bom é que todos as participações acima, apesar de discordantes na maioria dos casos, mantiveram um nível e foram bem articuladas.