A revista Zero chega este mês ao mercado brasileiro se propondo a ser “diferente de tudo o que existe hoje nas bancas de jornais”, como afirmam dois de seus editores, Marcelo Costa e Alexandre Petillo.
Criada a partir do site cultural www.screamyell.com.br, de Costa e Petillo, a revista se dedicará à música e cultura pop nacional e internacional e terá distribuição mensal por todo o país.
Na entrevista abaixo Costa explica como a publicação pretende, com uma linha editorial abrangente e matérias aprofundadas, ocupar o espaço deixado pela extinta Bizz.
1- A Zero será uma especie de versão impressa do Screamyell ou serão duas publicações totalmente distintas?
Marcelo Costa - A linha de pensamento é a mesma, que é a de ser informativo sem ser óbvio, atentando sempre para a passionalidade nos textos. E, no fundo, é difícil não associar, já que eu e o Petillo estamos na ZERO, mas a personalidade do Luiz César Pimentel e do Daniel Motta acrescentaram ao projeto muito mais itens que, no fim das contas, nos faz pensar que a ZERO é o um S&Y muito melhor.
2- A julgar pela capa da edição de lançamento da revista e pelo editorial de fevereiro do Screamyell, a Zero parece ter um aspecto popular e um apelo comercial maior. Ou estou errado?
MC - Eu não diria popular, já que alguém pode confundir com esses folhetins popularescos que só falam da vida dos artistas. A Zero simplesmente é uma revista de música e cultura pop, sem amarras. Não tem nada que não possamos falar na Zero, porque não queremos diminuir o alcance da revista. Queremos, sim, é ampliar. Daí, entrevistão com Naim, que ficou sensacional segundo pessoas como André Forastieri, por exemplo. Daí, não ter rabo preso e se ater simplesmente a boas histórias.
3 - Muitas pessoas consideram o "fracasso" da Bizz como resultado de sua displicência em relação às tendências musicais de sucesso no país. Esse descaso impediria o aumento da vendagem da revista. A Zero vai buscar agregar esse mercado consumidor de tendências ou não existe a pretensão de vender 35.000 exemplares?
MC - Leo, nós queremos vender 500 mil exemplares e é sério. É claro que sabemos que isso é inviável e tal, por uma série de fatores que independe da qualidade da revista, mas queremos e precisamos vender bem. O Renato Russo dizia que montou a Legião para eles serem maiores que os Beatles. É claro que há um exagero nisso tudo, mas o que buscamos é esse nicho de 35 mil que a Bizz deixou. Mas vamos batalhar para ampliar esse público, claro, sem afetar a parte editorial.
4- A Bizz deixou essa grande lacuna no mercado brasileiro, no entanto, temos hoje a revista da MTV, vamos receber a Zero e provavelmente no segundo semestre a Rolling Stone. Não é produção demais para pouco mercado? Será que haverá uma expansão natural do mercado consumidor?
MC - E você ainda esqueceu a Frente, que deve chegar as bancas em duas semanas, e a Play que já está no segundo número. É uma questão complicada, e não sei se o mercado irá suportar tanta publicação. A Rolling Stone sai na frente, afinal, é o filé da área, mas dependerá de 1) como irá tratar o consumidor nacional 2) do tempo, já que quando chegar, as outras já devem estar bem conhecidas do público. Já a revista da MTV não existe. Aquilo é passatempo para ser lido em duas horas. Simplificação demais. Sem contar que eles ainda não encontraram o nicho de mercado. Continuam vendendo pouco e devem continuar a vender pouco, afinal, o que esperar de uma revista que tem a VJ Didi como colunista? O leitor não é burro. Já a Frente eu aposto muito. Apesar de se restringir ao mercado de bandas novas, deve ter uma vendagem pequena, mas vai fazer estardalhaço e deverá abrir muitas portas em outras mídias. Estou apostando muito nela. A Play ainda não se decidiu o que é, e é uma pena. A equipe é boa, mas a linha é avançada demais. Uma frase não sei de quem diz que idéias que estão dez anos a frente do seu tempo não são geniais e eu concordo. O que interessa é o aqui e o agora. E no aqui e no agora que a Zero vai entrar. É claro que, como um dos pais, eu acredito que de todas essas revistas acima, a Zero é a mais vendável, pela linha editorial, pela qualidade dos textos e pelos acordos que estamos fechando. Se todas essas publicações irão expandir o público, só tempo dirá. Mas há espaço para todas elas, desde que elas saibam lidar com esse público inicial, que acreditamos ser de 35 mil. Nisso, por exemplo, eu espero que a Rolling Stone terá problemas. Já as outras (Frente, Play e Zero) podem lidar muito bem com esse público.5- A editora Lester é nova, não? De onde ela surgiu?
MC - A Editora Lester foi criada especialmente para colocar a Zero nas bancas. Uma revista não pode ir as bancas se não tiver uma editora. Para batizar resolvemos homenagear o maior jornalista de todos os tempos, Lester Bangs. É claro que, agora, já que a editora e a revista são uma realidade, temos a editora e dependendo de como for a revista nas bancas, a editora estará aberta para outros projetos.
6 - Você disse que a Zero será diferente de tudo que existe no mercado editorial. Isso inclui o mercado internacional? Pergunto isso porque vocês parecem ter uma certa simpatia em relação a publicações como a NME e o Melody Maker.
MC - Temos muita simpatia pela finada Melody Maker e por outras publicações como a Q e a Uncut. E quando eu digo que ela será diferente é pensando em nível nacional mesmo. Mas acredito que ela será única em sua proposta, essa coisa de não ter limites. Claro que vamos sofrer com isso, afinal, o universo é muito vasto, mas acredito que saberemos extrair o necessário.
7 - O que significa "não ter limites"?
MC - A liberdade de poder fazer um entrevistão com o cantor Naim, ou com o jogador Serginho Chulapa e falar de cinema, de trabalho funerário, tudo na mesma revista.
8 - Já dá para traçar o perfil do futuro leitor da Zero?
MC - É dificil, mas se nos basearmos no público que era da revista Bizz, vamos ter jovens de 12 a 40. Talvez, pela linha editorial mais abrangente, ultrapassemos essa faixa. O leitor da Zero terá de gostar de ler. Não é uma revista pra se ler em um dia.
09 - Você disse que a revista da MTV é simplificada demais e é apenas um passatempo pra ser lido em duas horas. Presumo então que vocês pretendam fazer matérias mais aprofundadas e maiores, certo? Entrevistas como a da Fernanda Young, publicada no Screamyell, terão lugar na revista?
MC - A idéia é essa. O excelente projeto gráfico desenvolvido pelo Daniel Motta buscou exatamente isso, despir a revista deixando muito espaço para texto. Acredito que alguns vão estranhar, mas é como essa entrevista com a Fernanda Young. É enorme, mas fica perceptível quando se lê que nada ali está sobrando, são todas informações necessárias. A entrevista com o Naim bateu sete páginas. A do RPM, oito. E seguirá todas nessa linha.








