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30 de abril de 2007

Zero nas bancas (Fevereiro de 2002)

[ Completando a série de matérias sobre as experiências no jornalismo musical no início desta década, abaixo você confere uma entrevista realizada com Marcelo Costa, um dos criadores da extinta revista Zero, realizada em fevereiro de 2002 ]

A revista Zero chega este mês ao mercado brasileiro se propondo a ser “diferente de tudo o que existe hoje nas bancas de jornais”, como afirmam dois de seus editores, Marcelo Costa e Alexandre Petillo.


Criada a partir do site cultural www.screamyell.com.br, de Costa e Petillo, a revista se dedicará à música e cultura pop nacional e internacional e terá distribuição mensal por todo o país.
Na entrevista abaixo Costa explica como a publicação pretende, com uma linha editorial abrangente e matérias aprofundadas, ocupar o espaço deixado pela extinta Bizz.

1- A Zero será uma especie de versão impressa do Screamyell ou serão duas publicações totalmente distintas?

Marcelo Costa - A linha de pensamento é a mesma, que é a de ser informativo sem ser óbvio, atentando sempre para a passionalidade nos textos. E, no fundo, é difícil não associar, já que eu e o Petillo estamos na ZERO, mas a personalidade do Luiz César Pimentel e do Daniel Motta acrescentaram ao projeto muito mais itens que, no fim das contas, nos faz pensar que a ZERO é o um S&Y muito melhor.

2- A julgar pela capa da edição de lançamento da revista e pelo editorial de fevereiro do Screamyell, a Zero parece ter um aspecto popular e um apelo comercial maior. Ou estou errado?

MC - Eu não diria popular, já que alguém pode confundir com esses folhetins popularescos que só falam da vida dos artistas. A Zero simplesmente é uma revista de música e cultura pop, sem amarras. Não tem nada que não possamos falar na Zero, porque não queremos diminuir o alcance da revista. Queremos, sim, é ampliar. Daí, entrevistão com Naim, que ficou sensacional segundo pessoas como André Forastieri, por exemplo. Daí, não ter rabo preso e se ater simplesmente a boas histórias.

3 - Muitas pessoas consideram o "fracasso" da Bizz como resultado de sua displicência em relação às tendências musicais de sucesso no país. Esse descaso impediria o aumento da vendagem da revista. A Zero vai buscar agregar esse mercado consumidor de tendências ou não existe a pretensão de vender 35.000 exemplares?

MC - Leo, nós queremos vender 500 mil exemplares e é sério. É claro que sabemos que isso é inviável e tal, por uma série de fatores que independe da qualidade da revista, mas queremos e precisamos vender bem. O Renato Russo dizia que montou a Legião para eles serem maiores que os Beatles. É claro que há um exagero nisso tudo, mas o que buscamos é esse nicho de 35 mil que a Bizz deixou. Mas vamos batalhar para ampliar esse público, claro, sem afetar a parte editorial.

4- A Bizz deixou essa grande lacuna no mercado brasileiro, no entanto, temos hoje a revista da MTV, vamos receber a Zero e provavelmente no segundo semestre a Rolling Stone. Não é produção demais para pouco mercado? Será que haverá uma expansão natural do mercado consumidor?

MC - E você ainda esqueceu a Frente, que deve chegar as bancas em duas semanas, e a Play que já está no segundo número. É uma questão complicada, e não sei se o mercado irá suportar tanta publicação. A Rolling Stone sai na frente, afinal, é o filé da área, mas dependerá de 1) como irá tratar o consumidor nacional 2) do tempo, já que quando chegar, as outras já devem estar bem conhecidas do público. Já a revista da MTV não existe. Aquilo é passatempo para ser lido em duas horas. Simplificação demais. Sem contar que eles ainda não encontraram o nicho de mercado. Continuam vendendo pouco e devem continuar a vender pouco, afinal, o que esperar de uma revista que tem a VJ Didi como colunista? O leitor não é burro. Já a Frente eu aposto muito. Apesar de se restringir ao mercado de bandas novas, deve ter uma vendagem pequena, mas vai fazer estardalhaço e deverá abrir muitas portas em outras mídias. Estou apostando muito nela. A Play ainda não se decidiu o que é, e é uma pena. A equipe é boa, mas a linha é avançada demais. Uma frase não sei de quem diz que idéias que estão dez anos a frente do seu tempo não são geniais e eu concordo. O que interessa é o aqui e o agora. E no aqui e no agora que a Zero vai entrar. É claro que, como um dos pais, eu acredito que de todas essas revistas acima, a Zero é a mais vendável, pela linha editorial, pela qualidade dos textos e pelos acordos que estamos fechando. Se todas essas publicações irão expandir o público, só tempo dirá. Mas há espaço para todas elas, desde que elas saibam lidar com esse público inicial, que acreditamos ser de 35 mil. Nisso, por exemplo, eu espero que a Rolling Stone terá problemas. Já as outras (Frente, Play e Zero) podem lidar muito bem com esse público.

5- A editora Lester é nova, não? De onde ela surgiu?

MC - A Editora Lester foi criada especialmente para colocar a Zero nas bancas. Uma revista não pode ir as bancas se não tiver uma editora. Para batizar resolvemos homenagear o maior jornalista de todos os tempos, Lester Bangs. É claro que, agora, já que a editora e a revista são uma realidade, temos a editora e dependendo de como for a revista nas bancas, a editora estará aberta para outros projetos.

6 - Você disse que a Zero será diferente de tudo que existe no mercado editorial. Isso inclui o mercado internacional? Pergunto isso porque vocês parecem ter uma certa simpatia em relação a publicações como a NME e o Melody Maker.

MC - Temos muita simpatia pela finada Melody Maker e por outras publicações como a Q e a Uncut. E quando eu digo que ela será diferente é pensando em nível nacional mesmo. Mas acredito que ela será única em sua proposta, essa coisa de não ter limites. Claro que vamos sofrer com isso, afinal, o universo é muito vasto, mas acredito que saberemos extrair o necessário.

7 - O que significa "não ter limites"?

MC - A liberdade de poder fazer um entrevistão com o cantor Naim, ou com o jogador Serginho Chulapa e falar de cinema, de trabalho funerário, tudo na mesma revista.

8 - Já dá para traçar o perfil do futuro leitor da Zero?

MC - É dificil, mas se nos basearmos no público que era da revista Bizz, vamos ter jovens de 12 a 40. Talvez, pela linha editorial mais abrangente, ultrapassemos essa faixa. O leitor da Zero terá de gostar de ler. Não é uma revista pra se ler em um dia.

09 - Você disse que a revista da MTV é simplificada demais e é apenas um passatempo pra ser lido em duas horas. Presumo então que vocês pretendam fazer matérias mais aprofundadas e maiores, certo? Entrevistas como a da Fernanda Young, publicada no Screamyell, terão lugar na revista?

MC - A idéia é essa. O excelente projeto gráfico desenvolvido pelo Daniel Motta buscou exatamente isso, despir a revista deixando muito espaço para texto. Acredito que alguns vão estranhar, mas é como essa entrevista com a Fernanda Young. É enorme, mas fica perceptível quando se lê que nada ali está sobrando, são todas informações necessárias. A entrevista com o Naim bateu sete páginas. A do RPM, oito. E seguirá todas nessa linha.

ilustração: dwski

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