3 de junho de 2018

Empreendedorismo para subversivos, a estreia literária do Facundo Guerra



O título é ruim (fato comentado pelo próprio autor), mas isso não impede que
Empreendedorismo para subversivos - um guia para abrir seu negócio no pós-capitalismo
seja leitura indicada para quem pretende abrir seu próprio negócio e, principalmente, para quem trabalha com entretenimento. Chamado inúmeras vezes de "rei da noite de São Paulo", Facundo Guerra, autor do livro, é figura onipresente quando se trata da vida noturna paulistana. Foi um dos criadores do clube Vegas, essencial para atrair um público mais amplo para o chamado "Baixo Augusta" e transformar a região a partir de uma maior oferta cultural na primeira década dos anos 2000. Hoje, Vegas é também o nome do grupo que Facundo integra e que é dono do Cine Joia, PanAm Club, Mirante 9 de Julho e Z Carniceria, entre outros empreendimentos, como o bar Arcos, no subsolo do Theatro Municipal de São Paulo, que será inaugurado este ano.

A trajetória de Facundo é interessante: nasceu na Argentina, estudou engenharia de alimentos, fez especialização em jornalismo internacional, mestrado e doutorado em Ciência Política. Trabalhou na Tetra Pak, American Express, Aol (em plena bolha da internet) e foi sócio de grife. É justamente enquanto reflete sobre sua trajetória e os aprendizados desses percursos que se encontram os melhores pontos do livro. Quando foge se distancia da auto-ajuda empresarial e se aproxima da filosofia ganha relevância, em trechos como "uma grande parte da criatividade artística, compromisso político e fervor religioso dos humanos é alimentada pelo medo da finitude, da morte; e empreender pode ser uma plataforma para em algum nível se escapar também da morte. Criar sua marca no mundo, deixar um legado".

Facundo critica o mercado e a sociedade da qual faz parte (e tem noção de que alimenta a ambos). É engraçado ele parafrasear o trecho do "choose life" de Trainspotting na contracapa do livro, uma vez que a figura estereotipada do "jovem empreendedor millenial" se encaixa exatamente no alvo da crítica do texto original. Talvez a maior parte de seus leitores não capte a ironia em questão.

Muito além de um guia propriamente dito, é um livro sobre interações, análises de contexto, comunicação e propósitos. Sobre como raiva e decepção podem nos guiar e como armadilhas do mundo dos negócios podem desestimular a criação e a inovação. Pode não mudar a sua vida, mas com certeza pode ajudar a bater menos cabeça na hora de desenvolver algum novo projeto. Não custa nada aprender com quem já errou (e também acertou muito).

Abaixo, alguns trechos selecionados. E não se desestimule se te lembrar do estilo da literatura de auto-ajuda empresarial, no contexto original essa sensação é menor. 😊

Por que as marcas têm tanto poder e influência sobre nós nos dias de hoje? Para que servem, afinal? Marcas são entidades intersubjetivas que existem em um plano no qual compactuamos que um determinado produto tem determinadas características. Diferentemente da objetividade e da subjetividade, a intersubjetividade parte de um pacto, de uma negociação entre muitos, e os departamentos de marketing constroem os atributos das suas marcas usando as ferramentas de comunicação que estão ao alcance de seus bilhões. Com isso, constroem características artificiais para suas marcas que nós, consumidores, queremos usar para complementar nossa identidade ou a maneira como queremos ser percebidos pelos nossos pares. Quanto mais medrosos, inseguros, quanto menor nossa autoestima, tanto mais compraremos, para que possamos completar nosso "eu" frágil através de marcas que atribuirão valores artificiais ao nosso ser. Marcas são apps existenciais, algo que usamos para tapar as lacunas de nosso sistema operacional cheio de buracos.
....... 
Investigue profundamente se a pergunta que você colocou a si mesmo já tem resposta ou alguém trabalhando nela. Se esse for o caso, em em grande parte das vezes é, conecte-se a esse algo existente e contribua para torná-lo melhor. Será mais impactante do que simplesmente fazer algo ligeiramente diferente e dividir forças. Entre os empreendedores, idealmente, não deveria existir a ideia de concorrência. Crie parcerias, relações, cruze símbolos e territórios, trace complementaridades: empreendedores deveriam ser aliados na criação de um mundo novo. 

Ok, esse finzinho foi bem brega.  ¯\_(ツ)_/¯

14 de maio de 2018

Clic / Circuito de Literatura e Cafés

No fim de abril, a Quente produziu uma série de debates sobre literatura em cafeterias de Belo Horizonte. Foi a primeira edição do Clic - Circuito de Literatura e Cafés, projeto que criei no início deste ano e que pretendo realizar mais vezes. A segunda edição será em agosto, também em BH, e você pode se informar acompanhando as publicações da Quente no Instagram ou no Facebook. Filmamos todos os debates e eles estão na íntegra no Youtube. Rolaram os lançamentos dos livros O que é empoderamento?, da Joice Berth, e Novo poder - democracia e tecnologia, do Alê Youssef, além de um debate sobre editoras e publicações independentes. Quem quiser receber novidades direto no email pode se cadastrar na newsletter da Quente também.

19 de março de 2018

Política na música e rock contra o racismo

Música e política possuem longa história juntas. Limitando-se ao século 20, se destacam o folk politizado gravado a partir dos anos 30, o rock dos anos 60 e 70, no contexto da contracultura, a cena punk dos anos 70/80 e, posteriormente, o rap. Em 1976, após Eric Clapton fazer declarações racistas durante um show e em meio ao crescimento de grupos de supremacia branca na Inglaterra, mais um marco histórico aconteceu na interseção entre música e política. Ativistas se mobilizaram para criar o Rock Against Racism, um movimento que utilizava a música como instrumento de conscientização sobre questões raciais no Reino Unido.

Tendo em vista que os discursos de ódio tem se proliferado mundialmente e a atual situação político-social do Brasil, achei relevante traduzir os quadrinhos que a ilustradora norte-americana Bianca Xunise fez para o site The Nib. Intitulado "Keep Politics in Music! - How the UK’s Rock Against Racism showed us how it was done", ele contextualiza de forma resumida o surgimento do Rock Against Racism e mostra algumas semelhanças com o momento atual. Apesar da ingenuidade do texto em alguns momentos, iniciativas como essa são importantes para aproximar a política do debate cotidiano e atingir diferentes parcelas do público, principalmente os jovens.

Vale lembrar que a fala original de Clapton foi muito mais pesada do que a versão apresentada nos quadrinhos (veja a transcrição nessa matéria do The Quietus).


14 de março de 2018

Sofrência indie, o novo pop rock e o aniversário da Autêntica

Quinta-feira, 8 de março de 2018
Sobram poucos lugares vazios no Teatro Bradesco, o que indica que quase 600 pessoas estão ali para assistir ao lançamento do primeiro disco solo de Tim Bernardes, vocalista e guitarrista d'O Terno, em BH. Diferentemente do que eu esperava, o público não é completamente formado por adolescentes. No chutômetro, diria que ao menos 1/3 dos presentes estaria entre os 25 e os 34 anos (pra usar um recorte etário também usado pelo Instagram). Músicos, arquitetos, designers, jornalistas... basicamente uma aglomeração de ex-estudantes de Humanas (não que isso seja ruim, que fique claro).
Recomeçar, o disco de Tim Bernardes, foi uma unanimidade em 2017 entre a crítica. Nesses casos, geralmente me abstenho de ouvir os discos mais comentados no auge do hype e deixo para ouvi-los quando der vontade (e não pelo impulso da novidade). Aqueles que se sustentam com o passar do tempo se mostram mais interessantes de se dedicar atenção. Assim, fui ao show conhecendo poucas músicas, mas ciente de sua estética crua e intimista.
Sentado, disposto entre um piano e duas guitarras, poucas luzes ao redor, Tim disse tentar reproduzir seu quarto, ambiente onde surgiram aquelas composições. Amigos (músicos e jornalistas) me disseram que sentiram falta dos arranjos do disco, que alguns trejeitos vocais e na guitarra limitaram o show ao ter exclusivamente Tim no palco. Eu, talvez por não ter ouvido o disco e não ter nenhum vínculo emocional já construído, nenhuma memória daquelas composições, considerei o minimalismo um grande acerto, um ponto essencial para a imersão. Como se a imagem aparentemente frágil daquele grandalhão magro, um Napoleon Dynamite hipster-tilelê, sozinho no palco espaçoso e de luzes fracas, fosse o elemento chave que nos dissesse que "sim, estamos invadindo seu espaço e entendemos sua timidez, estamos juntos".
Solo, Tim demonstra a mesma perspicácia das letras d'O Terno, permitindo-se mais emotivo e menos irônico. "Sofrência indie", brinca. O pouco uso de efeitos na guitarra e as canções ao piano as limitam ao essencial e o reverb na voz e guitarra reforçam a solidão, como se estivesse sozinho ouvindo a si mesmo por um tempo estendido. Do Terno, tocou "Melhor do que parece", "Volta" e "Minas Gerais", todas do disco mais recente da banda, sendo que a última foi originalmente composta pro seu disco solo. Ainda teve tempo para um medley de "Changes", balada do Black Sabbath, com Belchior, e uma versão de arrepiar de "Soluços", do Jards Macalé. "Acho que vou chorar", disse mais de uma vez a garota sentada atrás de mim. Entendo.


Sexta-feira, 9 de março de 2018
No fim dos anos 90 e início dos 2000, tudo classificado como pop rock chegava até mim como algo deplorável. Provavelmente, com razão. O símbolo disso, em BH, era o festival de mesmo nome realizado em estádios da capital. Basicamente um festival onde todos os anos tocavam Charlie Brown Jr, O Rappa, Tianastácia, Biquini Cavadão, Capital Inicial e Jota Quest. Creio que isso seja suficiente para sentir o drama. (Nota para não ser ingrato: em 2006 o New Order tocou no festival, apesar de a mesma edição também ter tido CPM 22, Nando Reis, Reação em Cadeia e, adivinhem só, Tianastácia e O Rappa).
O estigma do pop rock como gênero asséptico e limitado (tanto musicalmente como nas letras) fez com que nos últimos anos as próprias bandas tentassem se distanciar da classificação. Trabalhei por um tempo em um grande portal de música onde os artistas podiam criar seus perfis e ninguém se autoclassificava como pop rock. Por mais que fosse exatamente a sonoridade que criassem, se autodenominavam como bandas de rock alternativo ou até mesmo experimental, como se isso representasse um posicionamento estético de maior aceitação, de melhor reputação.
Isso tudo porque me peguei pensando sobre o estilo (pop rock) durante os shows da mineira Devise e dos baianos da Vivendo do Ócio na sexta, dia 9, para quase 300 pessoas na Autêntica, também em BH (no dia seguinte ambas as bandas se apresentariam em São João del-Rei, interior de Minas, em um pub lotado). Diferentes no resultado final, as duas têm uma pegada pop na essência. Enquanto o Devise vem do britpop, com muita (muita mesmo) influência de Oasis e em alguns momentos também lembra Teenage Fanclub e Snow Patrol, o Vivendo do Ócio tem muito do rock do início dos anos 2000, do Arctic Monkeys do início, The Bravery, Strokes e afins. Shows enérgicos e musicalmente no meio termo entre o pop radiofônico e o rock de suas principais influências. O resultado são boas bandas de entrada ao universo desse tipo de rock produzido entre os anos 90 e o início dos anos 2000 e, não por acaso, seus públicos são majoritariamente jovens. Rock jovem, de melodias cativantes e que rende hits latentes como "Prisioneiro do futuro" e "Qualquer hora".

Sábado, 10 de março de 2018
Depois de Thiago Pethit e O Terno (com participação da Tulipa Ruiz), que tocaram em 2016 e 2017, a atração da festa de aniversário da Autêntica em 2018 foi Ava Rocha com abertura do mineiro Lucas Avelar. Primeira vez que a vi fora de um festival. Performance mais contida, talvez pelo palco menor do que nas outras ocasiões em que a vi (no Coquetel Molotov em Recife, na edição mineira e no Popload Festival). Além dos três anos da Autêntica, a data também marcou o mesmo tempo desde o lançamento do disco Ava Patrya Yndia Yracema, segundo e mais recente álbum de Ava. Dele, vieram logo no início do show dois dos "hits" de Ava: "Você não vai passar" e "Transeunte coração".
Difícil escrever sobre um show realizado no aniversário da Autêntica porque, se você trabalha com música em BH e está ali, invariavelmente aquele é um espaço por onde passou algumas (provavelmente muitas) vezes e que nesse dia encontra muitos conhecidos. Um espaço convidativo não somente para o público local mas também para os músicos, como provam os convidados do show da Ava: não somente a já anunciada Juliana Perdigão participou como também Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz e Lucas Santtana, que estavam em BH por causa de shows em outros espaços e terminaram a noite no palco da Autêntica.
Celebrar os três anos da Autêntica é parte do reconhecimento do trabalho dos sócios e de sua equipe, que luta diariamente para manter uma casa de shows autorais com capacidade para 400 pessoas em uma cidade onde a música cover predomina e se paga R$ 30 para ouvir playlists do Spotify em boates mas é difícil cobrar R$ 20 por shows alternativos. Da minha parte, posso dizer que comemorei tanto que mal me lembro do que aconteceu para poder terminar este texto.


A foto do público no dia dos shows do Devise e Vivendo do Ócio é do Luciano Viana. A foto do encontro entre Ava Rocha, Juliana Perdigão, Tulipa Ruiz e Lucas Santtana é do Flávio Charchar.