1 de maio de 2017

Residência Imersão Latina

Projeto legal (e raro), a Residência Imersão Latina está recebendo inscrições de artistas latino-americanos interessados em passar um período de três semanas de criação artística colaborativa em Belo Horizonte. Serão selecionados quatro artistas da área musical, nascidos ou residentes na Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, México, Panamá, Paraguai, Peru ou Uruguai. Ao longo do processo serão realizadas apresentações em BH e ao final será lançado um disco e um documentário de registro do processo de trabalho coletivo.

Esta é a segunda edição do projeto e as inscrições vão até o dia 14 de maio, online. Os selecionados terão as passagens de avião para BH pagas, hospedagem e alimentação durante o período de realização da residência artística (9 a 29 de julho de 2017).

Fui convidado a criar a identidade visual do projeto este ano e a peça abaixo é a principal de divulgação dessa fase de inscrições.


24 de abril de 2017

Não é que as pessoas não entendem sua música. Talvez elas simplesmente não gostem dela (e isso é ok)

Conversando com um jovem produtor um tempo atrás ele me perguntou o que eu achava de determinado artista. Eu disse que tinha sido um dos piores shows que vi nos últimos anos, um som tão medíocre que tinha seu valor justamente por ser tão ruim - afinal, ao menos provocou alguma reação, considerando que uma das piores respostas à arte pode ser a apatia em relação a ela. "Pois é, não consigo ouvir muito. Acho que não entendi ainda. Mas é legal", ele disse, um pouco envergonhado. Achei a fala estranha na época mas não dei muita importância. No entanto, nos últimos meses tenho reparado o argumento do "você não entendeu" como constante resposta a críticas, principalmente entre o público mais jovem. Isso leva a algo maior.

Apesar de ser reproduzido principalmente pelos millennials, é algo que não se restringe unicamente aos jovens. As redes sociais têm fortalecido as manifestações narcisistas e egocêntricas e as bolhas cognitivas: as pessoas falam sobre si mesmas e para seus semelhantes, discordâncias e diferenças são exceções. Nesse contexto, opiniões dissonantes são alvo de um verdadeiro bullying digital. Ou linchamento virtual, pra ser mais assertivo. E não só referente a questões políticas e sociais, mas também na música.

O que percebo é uma estratégia (talvez até inconsciente, às vezes) por parte de artistas e fãs de calar qualquer opinião divergente através da opressão, da desqualificação do argumento crítico. "Você não entendeu" é a manifestação mais comum e intelectualmente carente. Reflexo de uma geração que não aceita críticas e as leva para o lado pessoal (mais um sinal narcisista).

Nossos gostos são subjetivos e resultado de nossas experiências pessoais. Cada detalhe de nossas vidas influencia nisso: onde nascemos e crescemos, classe econômica, esfera social, aparência, o que lemos, ouvimos e assistimos, o que nossos amigos fazem, o clima na cidade... enfim, a lista é infinita. É reconfortante encontrar pessoas que compartilhem os mesmos interesses e gostos, a mesma (ou semelhante) visão de mundo que temos. Mas é importante ir além e ultrapassar esses limites não só para buscar novos e diferentes conteúdos mas também pra entender melhor o outro. Aquele que é diferente de você.

Nossas experiências também são fundamentais na forma como interpretamos a música (e o mundo em geral) porque a arte é essencialmente incompleta até que alguém a interprete, já dizia Walter Benjamin uns 50 anos atrás. É a partir do que somos/estamos que interpretamos a música, que a sentimos. Por exemplo: é normal que uma pessoa muito jovem goste de artistas limitados musical e conceitualmente, com letras sobre conflitos existenciais da adolescência, por se identificar naquele contexto. Assim como é natural que pessoas com mais referências e experiências sintam-se imersas no loop cultural infinito e possam responder aos mesmos artistas com repulsa. Não há certo ou errado a não ser na abordagem maniqueísta (essa sim, um erro).

São várias as metáforas possíveis e uma delas (apesar de ruim, confesso) é a de que a música gravada seria como uma estrada cujas características são bem definidas e definitivas (afinal estamos falando de algo gravado) mas que se reconstrói em diferentes lugares de acordo com quem a escuta. O caminho é definido, está ali registrado, mas cabe a cada pessoa escolher pra onde olhar ao longo do percurso e aonde chegará depende de ambos, artista e ouvinte. Não é que as pessoas não entendam esse processo. Pode ser que hoje elas simplesmente não se sintam tocadas por determinada obra, aquilo não provoque o sentimento almejado pel@ artista. E, novamente, não há problema nisso. Dá pra dizer, por outro lado, que haveria uma relação com o famoso isentão. Na música, ele não afirma que não gosta. Apenas "não entendeu" ainda. Seria um resultado do patrulhamento da opinião online, 1984 nos blogs de música, olhem que merda. Talvez o único erro (questionável) em questão seja esconder-se atrás do argumento de "não entender" determinado som, de não manifestar uma opinião própria sem medo de ir contra o consenso do seu círculo relacional ou das mídias que te influenciam em busca de identificação social com seus pares em vez de expressar essa maravilha singular que todos temos que é o cu gosto pessoal.


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Pessoas com transtorno de personalidade narcisista são descritas no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders como aquelas que têm grande necessidade de admiração, senso inflado em relação a própria importância e que escolhem as amizades de acordo com seu prestígio e status. Dá pra montar um festival (ruim) só com pessoas com essa descrição, uh?

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Do texto na Carta Capital ("A bolha do Facebook e a astúcia do capitalismo") que linkei anteriormente: "Com os algoritmos, descobrimos que a mercadoria somos nós, nossos pares de olhos (a mais-valia da sociedade da hipervisibilidade), nossos desejos. Os desdobramentos disso já se fazem sentir: homogeneização das identidades, padronização de gostos (com a Netflix nos indicando filmes porque nosso amigo assistiu), empobrecimento da curiosidade cultural..."

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Uma matéria interessante do The Guardian sobre o narcisismo da juventude atual tem relação com o que aponto aqui. Nessa faixa etária (a matéria cita entre 17 e 21 anos) as pessoas seriam mais influenciadas pelas opiniões de seus pares pra criar uma impressão positiva e assim fazerem partes de grupos sociais que substituam a vida com os pais. Daí a ausência de opinião própria em troca de um consenso (no caso, sobre gostos musicais).

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Foda ter que explicar isso, mas deu pra sacar que o "maravilha singular" na última frase era uma piada, né?

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Pra encerrar: as pessoas estão realmente mais egocêntricas e narcisistas (minha opinião) ou temos essa impressão porque mais pessoas publicam conteúdo online agora? A quem interessar, mais uma matéria sobre o tema.

17 de março de 2017

Uma trilha pra viajar


Aproveitando que agora rola de usar o Spotify dentro do Waze (e vice-versa), uma playlist especial pra ≈viajar≈ ouvindo (ou ouvir ≈viajando≈). São 101 músicas, quase 10 horas de psicodelícia (tentando fugir de obviedades). Gringos e brasileiros misturados, daquele jeito.

11 de fevereiro de 2017

Pin Ups de volta e com show em BH


A paulistana Pin Ups foi criada em 1988 e se tornou um dos principais nomes do underground nacional nos anos 90. Elogiada por gente como Dave Grohl e Kurt Cobain, a banda tocou com ícones indie como Pixies e Superchunk. Após anos parada, a banda se reuniu para uma apresentação lotada no Sesc Pompeia no fim de 2015 e agora retoma as atividades na Obra, em BH, dando sequência aos shows que fizeram no festival Bananada e na Virada Cultural de São Paulo em 2016. A formação atual da banda é Alê Briganti (voz e baixo), Zé Antônio Algodoal (guitarra), Adriano Cintra (guitarra / ex-Cansei de Ser Sexy, Thee Butchers Orchestra, Madrid) e Flávio Cavichioli (bateria / Forgotten Boys, Corazones Muertos). O show de BH acontece dentro da programação do Tremor, festival criado para marcar os 20 anos da Obra, famoso inferninho da capital mineira. O projeto já recebeu bandas como Autoramas, Ludovic, Pequena Morte e Vivendo do Ócio e segue até junho, quando a Obra comemora seu aniversário.

 A abertura do Pin Ups será feita pela Miêta, banda indie que apesar do pouco tempo de formação (foi criada em 2015 a partir de um post no Facebook) já realizou algumas turnês pelo país. Representante do rock feminino de BH, a banda mistura dream pop, shoegaze e indie e prepara seu primeiro disco.