30 de janeiro de 2012

Colaborativismo é motor da inteligência coletiva

(Artigo que publiquei na Revista Eletronika)


Com apoio de ferramentas gratuitas e uma gestão compartilhada e transparente, células culturais se alastram pelo país e fortalecem produção independente


Base da chamada web 2.0, a criação colaborativa encontrou na internet ferramentas propícias para sua expansão. Sem se deter a limitações temporais, geográficas ou de matéria-prima, o meio digital permite diferentes formas de interação e de produção intelectual de forma coletiva. Iniciativas como Wikipedia, blogs coletivos, softwares (e até mesmo hardwares) de código livre são resultados de ações executadas a partir da interação entre diversas pessoas na internet.

As possibilidades de produção de conteúdo de forma colaborativa através da internet dividem-se pelas mais diversas áreas, das pesquisas científicas ao entretenimento, porém comungam um mesmo elemento, crucial para a existência de qualquer ação colaborativa no ambiente digital: a utilização de ferramentas de produção e compartilhamento de conteúdo na web.

Essas ferramentas dividem-se em grupos de acordo com suas funções primordiais (como publicação de blogs, armazenamento de arquivos, trocas de mensagens instantâneas, transmissão de vídeos, publicação de fotos e vídeos etc), tendo em comum o fato de permitirem a interação de grupos geograficamente dispersos de forma não-linear e atemporal (uma vez que não é necessário que todos os interagentes estejam conectados simultaneamente para que a produção ocorra).


Projetos colaborativos são cada vez mais comuns nas artes e rompem com as tradicionais divisões entre autor e público. Em alguns casos, mantêm um estado constante de co-autoria como parte do processo de existência da própria obra.

Através de uma visão mais ampla do setor cultural, focada não apenas na criação artística mas em outras etapas da cadeia produtiva, a produção colaborativa na internet tem permitido maior fluxo de conhecimento e potencialização de atividades na produção cultural.

Ferramentas gratuitas e de uso cotidiano, como Google Docs, Wordpress e Youtube, transformam-se em instrumentos de construção coletiva de conhecimentos aplicados à produção cultural e integram grandes processos abertos à participação.

Diferentemente dos nichos tecnológicos das comunidades de usuários de softwares livres, a familiaridade do público com as ferramentas de acesso livre mobiliza as pessoas e fomenta a continuidade da ação cultural.

Na opinião de Décio Coutinho, diretor da AGEPEL (correspondente à Secretaria de Cultura do Estado de Goiás) e ex-coordenador nacional de cultura do Sebrae, elas são responsáveis por "facilitar e estimular a participação social, sendo potencializadoras de fruição, acesso e, por consequência, de processos de construção de inteligência coletiva".

Inteligência coletiva que, por exemplo, é a base de projetos como a Produtora Cultural Colaborativa e o Circuito Fora do Eixo. Formada em 2009, a Produtora Cultural Colaborativa mistura cultura, tecnologia e sustentabilidade em uma espécie de escola de livre troca de conhecimento envolvendo artistas, ativistas, comunicadores e demais interessados em tecnologia, arte e comunicação.


Já o Fora do Eixo talvez seja o melhor e mais consistente exemplo do uso de novas tecnologias para a produção cultural no Brasil. Constituído por mais de 80 coletivos em todo o Brasil, define-se como "uma rede colaborativa e descentralizada de trabalho, constituída por coletivos de cultura espalhados pelo Brasil, pautados nos princípios da economia solidária, do associativismo e do cooperativismo, da formação e intercâmbio entre redes sociais, da democratização quanto ao desenvolvimento, uso e compartilhamento de tecnologias livres aplicadas às expressões culturais e da sustentabilidade pautada no uso de tecnologias sociais". 

Algo que, resumidamente, pode ser descrito como um enorme grupo de pessoas trocando informações através de plataformas gratuitas na internet visando a transformação social através da cultura.

Um dos grandes diferenciais da experiência de produção do Fora do Eixo é o compartilhamento de todo o conhecimento e informações geradas durante o processo de produção (que acontece coletivamente e, majoritariamente, através da internet), permitindo que novos projetos se apropriem desses materiais em busca do desenvolvimento de ações mais elaboradas e com resultados potencializados.

Transparência nas ações e facilidade de acesso são pontos cruciais no desenvolvimento das atividades da rede, possíveis de serem realizadas nas mais distintas condições e dimensões graças à utilização de ferramentas que permitem a produção colaborativa de informações na internet de forma gratuita.

Enquanto no exterior parte das iniciativas colaborativas de produção cultural mais contundentes se basearam no esquema de finaciamento coletivo, tendo a participação externa executada na figura do investidor, experiências brasileiras como a do Fora do Eixo e da Produtora Cultural Colaborativa apostam em outros métodos. 

Como afirma Pablo Capilé, um dos gestores do Fora do Eixo, "não tem grana da iniciativa privada, não tem um mercado e o poder público não nos visualiza. A gente tem que empreender”.

O modelo de trabalho do Fora do Eixo inclui a sistematização online de todo o processo de produção de suas ações --que incluem milhares de shows anualmente, dezenas de festivais por todo o país e iniciativas de comunicação que se utilizam de diversas mídias, a maior parte através de ferramentas gratuitas e softwares livres.

O processo de planejamento é realizado coletivamente através de serviços online de bate-papo (como Gtalk, Skype e MSN, além do software livre Freenode) e posteriormente registrado em atas (publicadas via Wordpress, Blogger ou Google Docs) que podem ser acessadas por qualquer pessoa.

Até mesmo as planilhas dos projetos, com as informações financeiras de cada ação dos coletivos, são compartilhadas e disponibilizadas publicamente.

Nessa linha de atuação, o conhecimento construído de forma coletiva deve estar acessível a outras pessoas. A proposta se adequa às linhas de ação de ativistas digitais e do movimento de software livre, unindo vertentes técnicas e filosóficas a favor da produção cultural.

A partir do foco na colaboração entre indivíduos, demonstra-se o potencial de construção de conhecimento através da internet e de ferramentas gratuitas que possibilitem a interação, tornando a rede diversificada e com maiores possibilidades de construção de conhecimento de forma colaborativa, de acesso livre.

Algumas ferramentas da produção cultural 2.0
Google Apps Plataforma de aplicativos do Google, une ferramentas de trocas de mensagens como Gmail e Google Agenda e opções pensadas para viabilizar a criação colaborativa, como o Google Docs, Google Sites e Grupos do Google. Possui versão gratuita, educacional e para negócios. 
Viber Aplicativo para fazer chamadas e enviar mensagens de texto gratuitas através do celular. Não é preciso fazer login: o aplicativo usa o próprio número de telefone do usuário e identifica, a partir dos contatos salvos no telefone, as pessoas que também utilizam o Viber. É gratuito e possui versões para os sistemas operacionais Android e iOS.  
Wunderlist Para organizar e gerir tarefas a serem realizadas individual ou coletivamente, o Wunderlist é uma ótima opção. Disponivel para as plataformas iOS e Android, também poder ser instalado em desktops (Windows, Linux, Ubuntu e Mac). 
Hootsuite Ideal para a atualização de múltiplos perfis em redes sociais como Twitter, Facebook e Foursquare. Tem entre seus principais pontos positivos a possibilidade de agendar atualizações. 
Wetransfer A troca de arquivos é crucial para a criação colaborativa e existem dezenas de serviços para essa tarefa, mas provavelmente nenhum deles é tão bonito e prático quanto o Wetransfer, ideal para envio de arquivos grandes (de até 2GB) e que não precisam (ou não devem) ficar disponíveis por muito tempo - todos os arquivos são apagados dos servidores do Wetransfer duas semanas após seu envio. Não é necessário cadastro para sua utilização. 
Dropbox Ao contrário do imediatismo proposto pelo Wetransfer, o Dropbox é indicado para o compartilhamento de arquivos cujo uso será recorrente durante longos períodos. Compatível com Windows, Mac, Linux e plataformas móveis, o Dropbox salva automaticamente as alterações realizadas nos arquivos enviados às pastas do usuário, permitindo que todos que tenham acesso ao material utilizem os arquivos em suas versões mais recentes. Sua versão gratuita permite o envio de até 2GB de arquivos.

Referências na net

27 de janeiro de 2012

Esta é a parte com o texto grande para chamar a atenção de vocês e do Google (ou "cobertura do Circuito de Verão 2012")

Julgamento + Studio Bar


Este é o resumo telegráfico para pessoas preguiçosas
O evento era gratuito. Tinha duas bandas interessantes. Zimun e Julgamento. Elas abordam o hip hop de diferentes formas. Eu era convidado de uma das bandas. Fui barrado na porta. Disseram que a casa estava lotada. Só que mulheres podiam entrar. O público conversava alto. A maioria não prestava muita atenção nas bandas. Falavam muito de Big Brother e maconha. Acho picaretagem. Mas até picaretagens têm pontos positivos.

Esta é a introdução
Às vezes, alguns preconceitos são justificáveis. Eu deveria ter aprendido isso ao ler Blink e dar mais valor às minhas primeiras impressões sobre determinados assuntos. Como no caso do Circuito de Verão que acontece em Belo Horizonte desde o dia 20 de Janeiro com shows gratuitos e termina 3 de Fevereiro em uma festa de encerramento com (sic) Mart'nália e Marcelo D2. Logo que recebi o release não tive o mínimo interesse em escrever sobre o evento, principalmente devido ao conceito inexistente (ou, no mínimo, pífio), programação inconsistente e locações aleatórias. Isso, sem levar em consideração outros detalhes, como o fato do Circuito fazer parte do "Praia Skol" (praia?). Todos os pontos tendendo para a construção de uma picaretagem cultural marketeira. Mas, não querendo me deixar levar pelas primeiras impressões, resolvi conferir de perto um dos eventos que formam o tal Circuito de Verão: as apresentações das bandas Zimun e Julgamento no Studio Bar na noite desta quinta-feira, 26 de Janeiro.

Esta é a parte descritiva para contextualização
O evento era gratuito e o público deveria retirar seus ingressos antecipadamente ou enviar seu nome para a lista amiga (ou algo do tipo que permita que os promotores aumentem seus mailings para envio de spam). Os boatos eram de que os ingressos antecipados haviam se esgotado dias antes, mas como eu era um convidado do Zimun, não me preocupei. Logo na entrada, uma surpresa. Cheguei às 23:40, horário em que o Zimun começaria a tocar, segundo fui informado por um integrante da própria banda, e fui barrado na entrada. Expliquei que era um convidado da banda, mas me informaram que a casa estava cheia e que não havia como entrar por causa da lotação. Situação chata, mas compreensível. Enquanto pensava no que fazer, uma vez que o show estava começando e não poderia entrar, um grupo de meninas chegou e entrou sem problemas. Perguntei a razão disso e a resposta foi que a lotação de homens estava completa, mas mulheres entravam. Uma porra de uma micareta travestida de "balada alternativa". Era o suficiente para eu realmente nem querer mais entrar, mas acabei encontrando com um amigo do lado de fora (também barrado) e depois de cerca de 20 minutos e desencontros da produção, gatinha-porteira e dos seguranças, finalmente entramos.

Esta é a parte em que pulo alguns minutos para resumir o público
Eu adoraria ter ouvido melhor o Zimun, mas confirmando minhas suspeitas, o que menos havia no local eram pessoas interessadas em assistir ao show. Estavam ali pelo evento, para verem pessoas e serem vistos. A banda era um acessório. Ao meu redor, pouco atrás da parte central da pista, a conversa (eufemismo para o nível da gritaria) era tanta que ficava difícil prestar atenção na música. Observação: "Big Brother" e "maconha" foram as palavras-chave mais usadas pelos grupos próximos.

Esta é a parte em que começo a falar de música de verdade
Zimun é uma das bandas mais promissoras de Belo Horizonte. Representa um avanço estilístico no hip hop local a partir de seu experimentalismo sonoro e certa erudição musical. Não à toa, em diversos momentos é mais fácil rotulá-los como um grupo de jazz do que como de hip hop. E também não é à toa que ambos os gêneros dialogam de forma natural com a improvisação e experimentação (rítmica, em um, e de linguagem, no outro). Desfalcados pela ausência do MC Matéria-Prima (em viagem) e sem um DJ na formação (o que retirou boa parte dos elementos eletrônicos presentes no último show que eu havia assistido), a banda fez um show correto, mas aquém de seu pontencial. Difícil analisar em tais circunstâncias. Espero que da próxima vez possa ouví-los em um local no qual as pessoas tenham ido pela música, não pela badalação. Ainda no primeiro semestre o Zimun deve lançar um novo trabalho, desde já uma das principais apostas do Meio Desligado para a cena belo-horizontina em 2012 (outra banda local que também flerta com o jazz e o afrobeat, como o Zimun é a Iconili, que também lançará novo CD neste semestre).





Esta é a parte em que reforço minha insatisfação com o evento
Micareta de merda!

Julgamento em show no Circuito de Verão 2012
Esta é a parte em que escrevo sobre a outra banda da noite
O Julgamento é um grupo já veterano na cena alternativa de Belo Horizonte e que nos últimos anos deu um salto exponencial em sua carreira, tanto em termos artísticos como em quantidade de público. Com três MCs, dois DJs, guitarra, baixo e bateria, é uma banda cujos shows são extremamente potentes. Hip hop dinâmico, enérgico e com o peso do rock. Com o Studio Bar um pouco mais vazio do que no show anterior, a resposta do público acabou sendo muito mais forte. Afinal, os "baladeiros" chegaram cedo (às 22:30 uma grande fila estava formada do lado de fora) e, no momento do show do Julgamento (cerca de 1 da madrugada), mais pessoas interessadas na música estavam presentes. Para quem gosta da fusão de rap e rock, é uma banda segura para se conferir ao vivo.




Esta é a parte da conclusão, breve, porque o texto ficou longo demais
Ver bandas como Zimun e Julgamento (e também Lise, Transmissor, Camera e outras) em uma série de eventos como os que formam o Circuito de Verão pode ser desapontante para quem se interessa essencialmente pela música, mas representa uma ascensão de mercado para a música alternativa. A partir do momento em que bandas independentes/alternativas passam a ser usadas como isca para o consumo de jovens de classe média/alta, mais dinheiro passa a circular na cena e tende a fortalecer a cadeia produtiva. É uma ação equivocada em termos de formação de público mas que, apesar de tudo, possui alguns méritos, como contribuir para a divulgação dos artistas e das casas de show envolvidas entre públicos distintos. Mesmo assim, da próxima vez, talvez eu me deixe levar pelas minhas primeiras impressões...


Todas as fotos de minha autoria, feitas e editadas no celular. Esse tipo de trabalho está relacionado ao que faço na revrbr, minha agência de comunicação digital.

24 de janeiro de 2012

mydirtyfingers: a continuação do CSS?

"Essas são minhas cadelinhas Linda, Bonita, Rica e Fidida. Também atendem pelos nominhos Cumbica, Siririca, Narita e Fidida. Meu apego por essas cadelas é tamanho que fiz uma música para elas".

Essa é a introdução feita por Adriano Cintra, ex-baixista/produtor (e outras funções) do CSS (eterno "antigo Cansei de Ser Sexy"), para apresentar uma de suas músicas novas em seu blog (que tem o sensacional título "manda me prender"). A música, no caso, é "4Bitches, 1Bone", que chegou a ficar em quarto lugar entre as mais comentadas na internet, segundo o ranking do We Are Hunted. Synth pop grudento, com sax kitsch e letra raivosa, "4bitches, 1bone" é parte dos lançamentos recentes do novo projeto de Adriano, mydirtyfingers.



Apesar do relativo sucesso de "4bitches" na internet, é "Anestesia (ladrão de correspondência)", outra de suas músicas novas, que confirma o potencial do mydirtyfingers. Também fruto do período conturbado resultante dos conflitos entre Adriano e o CSS, a música em questão é dedicada ao empresário da banda, "aquele americano mau caráter", conforme publicado no blog de Adriano. Coincidentemente ou não, a música lembra um pouco "Rat is dead", do Donkey, segundo CD do CSS, e que teria sido feita para o Eduardo Ramos, ex-empresário da banda.

Talvez um dos principais méritos de "Anestesia" seja a capacidade de unir indie eletrônico e pop com uma boa letra em português, resultando em uma daquelas canções que dão vontade de ouvir várias e várias vezes, mesmo sem um refrão pegajoso.



Enquanto não resolve sua situação com o CSS, Adriano aproveita para investir em novos projetos. Além das músicas lançadas como mydirtyfingers, ele já anunciou parcerias com Marina Gasolina (ex-Bonde do Rolê), o australiano Nathan Hudson (em algumas sessões que contaram com a baterista Nana Rizinni) e com os antigos parceiros Carlos Dias (no Caxabaxa) e Marco Butcher, com quem tinha a sensacional banda garageira Thee Butchers' Orchestra, que, segundo Cintra, nunca acabou e apenas parou devido à distância entre os integrantes.

Para tornar a situação mais interessante, o CSS continua e se apresenta no Brasil no dia 28 de Janeiro, no M/E/C/A Festival, obviamente sem Adriano e usando as tão comentadas bases (backing tracks) produzidas pelo ex-membro da banda.

Clique abaixo para ler as letras das músicas do mydirtyfingers.

20 de janeiro de 2012

Graveola e o Lixo Polifônico, o hippie universitário, a world music cosmopolita e a não-cobertura de um show

Escolha uma vida. 
Um tipo de parceiro.
Uma profissão.
Uma cidade.
Uma casa. 
Escolha rótulos nos quais se encaixar. 
Escolha compartilhar ou reter.
Ou mantenha-se aberto às possibilidades, indefinido. Flexível no gênero, nômade física e intelectualmente. É preciso ter esse pensamento aberto, de escolhas múltiplas e instáveis, para se entender a Graveola e o Lixo Polifônico, banda que acaba de gravar, há pouco mais de 30 minutos, seu primeiro DVD ao vivo em sua cidade natal, Beverly Hills Belo Horizonte.

Banda ímpar na cidade (e provavelmente no cenário nacional), a Graveola congrega ao seu redor um forte grupo de criação e articulação artística. Como gostam de se apresentar, Graveola é também um coletivo. É o resultado da energia e de certa esperança pueril de que tudo pode ser feito de outra forma, de que existem opções e que é possível ser mais livre. Algo que, sintetizado porcamente, se assemelharia a um "hippie universitário": politicamente consciente, amante das culturas regionais e da natureza, sensível para a diversidade das manifestações artísticas e pseudo-libertário.

Imagens sobrepostas do público do show da Graveola em BH

Na música do Graveola, essse espírito se transforma em um saudosismo experimental que não tem medo ou dó de desvirtuar suas referências e influências, de resignificar e emular e, assim, criar suas obras. A música popular brasileira e o rock nacional, ambos sessentistas/setentistas, são a base, mas limites e preconceitos não são bem-vindos. O tal "caldeirão multiétnico" toma forma e constroi uma world music cosmopolita. No meio disso tudo, momentos em que se encontra um Pato Fu bucólico e orgânico, doido de ácido; hermanos bossa-novísticos apaixonados; netos dos Mutantes que trocaram os psicotrópicos e se drogam pelo excesso de informação - misturada no liquidificador.

A riqueza de timbres e de arranjos, a esperta construção de letras, as apropriações de temas alheios e a técnica dos músicos são alguns dos pontos que justificam o fato da Graveola ser uma banda literalmente adorada por um público crescente e que, hoje, praticamente lotou o Grande Teatro do Palácio das Artes (pouquíssimas poltronas vazias). Público cuja empatia aflora nas baladas; que dança e se perde nas quebras de ritmo, mas mesmo assim continua o movimento; que grita histericamente demonstrando a relação sentimental com a banda e que repete o maior clichê da geração da "felicidade de Facebook" (onde, mais do que nunca, a felicidade e a beleza despontam como definidores do capital social): subir ao palco, pular e abraçar uns aos outros - estética e aprofundamento sentimental de um comercial.

Tudo isso é parte do que deverá ser visto no DVD gravado hoje, parte do projeto da banda realizado através do programa Natura Musical - lembrando que, em 2011, a Graveola também teve seu projeto de circulação patrocinado pelo Conexão Vivo, prova de que, além do público em geral, a banda também tem despontado interesse no setor privado. Além da gravação, a noite foi momento de lançamento do vídeo da música "Farewell love song", que assim que disponibilizado no perfil da banda no Youtube será compartilhado por aqui (atualização: vídeo abaixo).




 Complementos: 


1. O mais recente CD da banda, Eu preciso de um liquidificador, estava disponível para download no Megaupload, site que foi tirado do ar em uma operação internacional supostamente em defesa dos direitos autorais. Fica a sugestão para que as bandas brasileiras deixem de usar serviços desse tipo e publiquem seus trabalhos autorais para download no Overmundo, iniciaiva sensacional focada na cultura livre e na criação colaborativa.
Felizmento, o álbum da Graveola também está no Soundcloud.



2. Juliana Perdigão e Luiz Gabriel Lopes, membros da Graveola, possuem trabalhos solo recentes. O CD de Luiz (Passando Portas) pode ser baixado no Mediafire. O de Juliana (Desconhecido) também estava disponível para download no Megaupload...

3. Em clima de reapropriações, o início do texto faz referência a abertura do filme Trainspotting (cujo meu DVD ainda está com o Reiler - me devolva!)