12 de junho de 2017

Kiko Dinucci lança primeiro disco solo em BH

Conhecido por integrar o Metá Metá e o Passo Torto, Kiko Dinucci lança seu primeiro trabalho solo, Cortes curtos, nesta quarta em Belo Horizonte. O disco promove o encontro do samba paulista com o pós-punk da década de 80. A noite também marca os 6 meses de existência do site O Beltrano e uma nova fase do Meio Desligado (sabe-se lá o que vem por aí).

Kiko faz parte da nova cena musical de São Paulo, no mesmo núcleo de artistas como Juçara Marçal, Thiago França, Romulo Froes, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral e Sérgio Machado. Ele também esteve envolvido nas composições e arranjos do disco "A Mulher do Fim do Mundo", de Elza Soares, e "Encarnado", de Juçara Marçal, além de colaborar em discos do Criolo, Tom Zé, Tulipa Ruiz, Rodrigo Campos e Siba.
As canções de “Cortes curtos” são curtas e diretas, pequenas crônicas urbanas do cotidiano caótico de São Paulo. O nome foi inspirado no filme “Short cuts”, de Robert Altman, e as 15 músicas do disco foram montadas como se fossem cenas. Durante os 39 minutos do disco ouvimos as faixas se mesclarem como planos-sequência de um filme.

"Cortes Curtos” contou com Marcelo Cabral (Criolo, Metá Metá, Passo Torto) no baixo e sintetizadores e Sérgio Machado (Criolo, Metá Metá) na bateria. O álbum tamém traz participações de Juçara Marçal, Tulipa Ruiz, Ná Ozzetti, Suzana Salles, Guilherme Held, Thiago França, Rodrigo Campos, Guilherme Valério e Rafa Barreto.


Kiko Dinucci em BH
14 de junho, quarta
A partir das 22h
A Autêntica - Rua Alagoas nº 1172, Savassi, BH
Ingressos: R$ 30 (antecipado) e R$ 40 (portaria)
Venda antecipada na portaria da Autêntica ou no sympla.com.br/quente
Informações no facebook.com/quentequente

8 de junho de 2017

Sobre ser dono de uma casa de shows autorais


Leo Moraes é arquiteto e músico, vocalista e guitarrista da Valsa Binária, criador do estúdio Pato Multimídia (onde alugamos o primeiro escritório da Quente, vale dizer) e um dos três sócios da A Autêntica, principal palco de médio porte para shows autorais em BH desde 2015.

Notório contador de causos e cronista, Leo expandiu esse talento ao Facebook e algumas de suas publicações mais populares são destinadas a desmistificar o cotidiano da manutenção de uma casa de show. Pedi sua autorização pra publicar aqui esses relatos, que reuni abaixo. São depoimentos diretos nos quais ele abre os custos da casa, divide dúvidas dos sócios, propões alternativas e se mostra aberto ao diálogo (qualidade que se estende aos demais sócios casa).


[permita o intervalo pra um breve jabá: nos próximos dias a Quente faz quatro eventos na Autêntica: Jaloo e Disputa Nervosa no dia 9 de junho; Kiko Dinucci lança o ótimo Cortes Curtos no dia 14, véspera de feriado; Gui Hargreaves (prestes a lançar disco) e o baiano Giovani Cidreira (lançamento de seu primeiro disco em BH) no dia 16 de junho; e dia 14 de julho faremos o lançamento do Boca, novo álbum do Curumin]



CUSTOS FIXOS
(29 de março de 2017)

Bom pessoal, vamos lá mais uma vez. A Autêntica tem um custo mensal fixo de aproximadamente 42 mil. Nesse valor estão incluídos aluguel, água, luz, telefone, internet, e folha salarial. Isso significa que abertos ou fechados, com ou sem evento, aconteça o que acontecer, a gente paga 1400 Reais por dia(42 mil dividido por 30 dias). Vamos chamar esse valor de F.

Além de F, temos um outro custo que pagamos pelo fato de fazermos eventos. Inclui aluguel de som, cachê de técnico, segurança, frilas, e ecad. Esse valor por evento (chamemos de E) é de aproximadamente 1500 Reais.

Então, somando F + E chegamos ao valor de 2900 Reais. É isso que custa um dia da Autêntica.

Quando a gente negocia um evento, a gente considera apenas o custo E, pois entendemos que o F tem que ser pago pela venda de bar. Então, na nossa visão, E tem que ser pago pela bilheteria, pois são custos que nós não teríamos se abríssemos só como bar, percebem?

Mas tem um agravante: Quando fazemos eventos com shows, o consumo do bar cai a menos da metade. Então a gente dobra nosso custo (de 1400 pra 2900) e reduz pela metade a nossa venda. Sério, qualquer consultor de negócios ia dizer pra gente parar com esse troço de show.

Agora, imaginem um evento com menos de 100 pessoas. A gente perde duas vezes, em E e em F. É melhor nem abrir.

O que eu gostaria que as pessoas entendessem, é que o escalonamento de bilheteria não é pra gente encher o rabo de dinheiro, nem pra explorar músico, mas pra gente minimizar um pouco o prejú em caso de fracasso do evento. Lembrem-se que a gente basicamente tem 8 dias no mês (as sextas e sábados) pra pagarmos essa conta. Um dia que não vira é um desastre, o buraco demora a ser coberto.

E aqui não estão gastos com produtos, impostos, etc. Não é mole não gente, um pouquinho de compreensão cai bem.


PAGAMENTO DOS ARTISTAS
(21 de novembro de 2016)

Pessoal, mais uma vez venho dividir com vocês umas angústias d' A Autêntica, sempre no esquema papo reto, sem vaselina, como a gente costuma fazer. Quem sabe alguém nos dá uma luz? O desafio agora é conseguir remunerar melhor as bandas quando o evento não vira. Eu já falei disso em posts anteriores, mas vou explicar de novo pra vocês entenderem o problema.

A gente vem trabalhando com um esquema de escalonamento de bilheteria, em que a porcentagem da casa vai diminuindo a medida que o público pagante aumenta. Chegamos nessa forma de trabalhar depois de quebrar muito a cabeça, sempre no intuito de pagar o máximo possível à banda, sem ficar no prejuízo em caso de fracasso do evento. Vou explicar com números.

Cada noite custa pra gente aproximadamente 2.500 Reais. Desse valor, 1.200 são custos diretamente ligados ao show (aluguel de som, técnico, ecad, etc). Ou seja, se a gente quiser abrir sem música, botecão mesmo, o custo cai pra 1.300. Então, pra gente, uma noite começa a ficar boa financeiramente quando a porcentagem da casa na bilheteria chega nesse número mágico de 1.200 Reais.

Então vamos lá, tendo em mente que a capacidade da casa é de 400 pagantes, considerando nossa entrada padrão de 20 Reais, imaginemos os seguintes cenários:

Com 300 pagantes, 6 mil de renda bruta, a casa fica com 40%, ou 2.400 Reais, e a(s) banda(s) levam 60%, ou 4.600 Reais. Gente, vamos combinar que está lindo pra todo mundo, né?

Já num evento com 200 pagantes, que segundo nosso escalonamento está na faixa do 50-50, o total da bilheteria é 4 mil Reais, dos quais 2 mil ficam com a gente. Isso significa meia lotação, e já fica legal pra ambas as partes. A gente paga nosso custo de 1.200, e ainda sobra um lucrinho, e certamente o bar vai vender o suficiente pra cobrir os custos e também dar um lucrinho. Se for uma banda só, leva 2 mil no bolso, ou mil cada uma se forem duas. Não é nada mal, na atual conjuntura.

O problema é quando fica muito abaixo disso. Vamos pegar o exemplo de um evento com 70 pagantes, ou 1.400 Reais de bilheteria bruta. A casa fica com 70%, ou 980 Reais, e a banda leva 420 Reais. 210 cada, se forem duas. A gente tem um prejuzinho, e a banda leva muito pouco. E dá um aperto no coração quando vamos fazer o acerto com uma banda que fez um show maravilhoso e depositamos 210 Reais. O que dá dó nesse cenário, é que um evento com 70 pagantes na Autêntica é lindo! A pista fica bacana, não é noite caída não! Mas não se paga como deveria.

A constatação que a gente chegou é que pra ser bom pra todo mundo tem que ter pelo menos 150 pagantes na casa. Estamos buscando formas de poder aumentar a porcentagem destinada às bandas em noites desse tipo, pra ver se a gente consegue fazer esse tipo de evento continuar sendo viável. Alguns dos melhores shows que vimos na casa tiveram menos que 100 pagantes.

Uma idéia é fazer os shows mais cedo um pouco, e transformar a casa numa balada depois de 00:30. Com DJ's legais, e tal. Pegar um público que não está interessado no show, que chegaria depois. Aí a banda teria uma porcentagem bem maior dos ingressos vendidos até meia-noite, e a partir desse horário a bilheteria seria toda da casa. Tipo dividindo a noite em duas mesmo. Lembro que o Claudao Pilha já fez algo parecido n'a A Obra Bar Dançante, como funcionou isso, Claudão? E Anderson Foca, Letícia Rezende, Ricardo Rodrigues, Mancha, Andre Araujo, como vocês lidam com isso? Olha eu aqui, pedindo ajuda aos universitários. kkkkkk

E um comentário no mesmo post:
A gente vem experimentando com esse formato da banda garantir um mínimo pra casa, e não o contrário. Tipo, os primeiros 1200,00 serem para a casa, e a partir daí a banda ficaria com 80% da bilheteria, por exemplo. A galera que confia mais no próprio taco gosta, pois eles têm a possibilidade de ganhar mais, pois sabem que o evento vai virar. Mas tem gente que fica ofendida com esse tipo de proposta. Pra você ter uma idéia, tem gente que questiona por que que abaixo de 40 pagantes a bilheteria fica toda pra casa. Tipo, se você está com medo de não ter 40 pessoas no evento, talvez esse evento não tenha que ser em uma casa pra 400 pessoas. Sério, não dar nem 10% da lotação é duro. E a gente vê que muita banda tem aquela percepção de achar que tem que ser contratada pra tocar, e não encarar aquilo como um empreendimento em parceria com a casa, saca?


MODELOS DE FUNCIONAMENTO
(18 de agosto de 2016)

No embalo do post anterior, e motivado pela provocação do amigo Thales, vou expôr mais um pouquinho do que a gente vem percebendo nessa aventura louca que é A Autêntica. Nesse ramo de casas shows, existem dois modelos básicos de negócios.

1-A balada;
2-O espaço de eventos;

As fontes de arrecadação são diferentes entre os dois modelos, mas principalmente a relação entre o estabelecimento e o artista é muito diferente.

Na "balada" as fontes de arrecadação são a bilheteria e o consumo. O objetivo aqui ter um grande número de pessoas que paguem pra entrar, e que consumam no bar. A casa é a produtora, e o músico é visto como um prestador de serviços, que vai contribuir para atrair essas pessoas ao estabelecimento. O sonho é que a casa conquiste um público que não dependa do artista, que frequente a casa independente da atração musical. Se eu sou o dono, e sei que todo sábado eu terei 400 pessoas pagando 30 reais, não importa quem esteja no palco, eu posso estabelecer um cachê fixo de, digamos 3000 reais, que ainda sobram 9000 reais de bilheteria limpos. E se as pessoas não estão indo pela atração musical, estão indo por outro motivo, que costuma ser paquerar, dançar, beber, comer, etc. Dificilmente o público vai ter a atenção desejada por artistas autorais, uma vez que a música ali é entretenimento puro. Mas o risco é inteiro da casa, caso o público não apareça. O Circuito do Rock opera nesse modelo.

No caso do "espaço de eventos", a fonte de arrecadação é o aluguel do espaço. O cara tem um imóvel, que pode ou não contar com estrutura de luz, som, bar, etc, e ele aluga o espaço para produtores que querem trazer artistas, artistas que querem lançar discos, etc. O artista é o contratante, e não o prestador de serviços. Uma vez alugada, o risco da casa é zero. Se lotar, ou se não for ninguém, não faz a menor diferença. É o do produtor/artista que está na reta, cabe a ele promover e divulgar o evento. Em caso de sucesso, a bilheteria é toda dele; em caso de fracasso, o preju também. Teatros costumam funcionar assim, bem como casas como o Music Hall e Chevrolet Hall.

A grande dificuldade de locais como A Autêntica, o Matriz, como era o saudoso Lapa Multshow, é que esses operam em uma área cinza, que é um híbrido entre esses dois modelos. E pra complicar, como sempre tentamos ser o mais flexíveis o possível nas negociações, essa relação entre a casa e o produtor/artista varia de evento pra evento. A maneira como nós enxergamos a maioria dos casos, é uma relação de sociedade entre a casa e o artista. Ambos os lados assumem os riscos e as responsabilidades pelo sucesso do evento.

Esquematizando:
Na balada, o artista tem público e cachê garantidos e risco zero, mas como não é ele quem traz o público, não pode exigir bilheteria.

No espaço de eventos, o artista paga o aluguel da estrutura e assume o risco total, mas se der certo leva a bolada toda.

No modelo híbrido, a casa entra com a estrutura, como se estivesse pagando o aluguel, e o artista com o show. O risco é dividido. Portanto é justo que o lucro seja dividido também. A bilheteria progressiva é uma boa forma de fazer essa divisão. Como o risco direto em dinheiro é maior por parte da casa(*), é natural que em caso de prejuízo uma parte maior da bilheteria vá pra amortizar isso; no caso de lucro, como a venda do bar não é dividida com o artista, é justo que uma porcentagem maior vá para ele. Basicamente, quando dá certo é bom pra todo mundo, o difícil é dividir o prejú.

Só esse mês tivemos a felicidade de fazer repasses de bilheteria superiores a 5 mil reais pra duas bandas locais que fizeram eventos aqui. Se somar nossa porcentagem da bilheteria com o lucro do bar, é mais ou menos o mesmo valor que entrou pra gente nos eventos. Justo. Todo mundo ficou feliz. O chato do discurso de "a bilheteria tem que ser toda do artista" é que na prática isso significa que, se der ruim a casa assume o rombo sozinha e, se der lucro o artista ganha tudo. É querer o bônus dos dois modelos, sem o ônus de nenhum.

Já tiveram vezes que a gente alugou a casa, o evento virou bonito, e ficamos pensando "nó, se tivéssemos feito porcentagem de bilheteria teríamos ganhado muito mais". Mas entendemos que é o preço de abrir mão do risco. O fixo do aluguel nos deu tranquilidade pra planejar o pagamento de compromissos. E o produtor que assumiu o risco alugando a casa se deu bem, merecidamente. Se tivesse dado errado estaríamos tranquilos e o abacaxi estaria com ele.

Aí, Thales, mais uma vez a perspectiva do empresário :-D. Mas repare que não estou culpando o artista por nada, apenas explicando o porquê da porcentagem de bilheteria.
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(*) Uma vez eu falei isso pra um produtor, e ele argumentou que a banda tinha investido muito dinheiro na gravação do disco, e que tinha custos com ensaios, manutenção de instrumentos, etc. Pessoalmente acho que isso não deve entrar na conta de um único evento. Seria o mesmo se falássemos do quanto investimos na obra, fazendo a reforma, comprando equipamentos, dando manutenção nos banheiros, etc.


PREÇO DA CERVEJA
(17 de agosto de 2016)

"Leo, a cerveja n' A Autêntica está muito cara."

Não, não está. Vamos lá, desenhando. A long neck lá está custando 8 Reais, mas se você comprar o combo de 5 por 35, cada uma sai a 7 Reais.

Lembram do meu outro post, em que eu explico a história do ticket médio? Recordando, o ticket médio é o quanto o bar vendeu, dividido pelo público presente. O nosso gira em torno de R$15,00. Então, a lógica é a seguinte, imagine a pessoa que chega lá com a intenção de beber múltiplos de 5 cervejas. Ela está disposta a gastar mais do dobro do nosso ticket médio, então podemos reduzir nossa margem. Dá pra ganhar na quantidade. Agora, se você é nosso cliente médio, e vai lá mais pra curtir o show, ficar umas quatro horas na casa, e tomar duas cervejas, a sua conta vai ser de 16 Reais. Você vai pagar 1 Real "a mais" em cada uma das suas duas cervas. Vamos combinar que 2 Reais a mais ou a menos numa noitada é quase nada, né? Mas pra gente é muito. Numa noite com 100 pessoas tomando duas cervejas, esse Realzinho a mais significa 200 Reais a mais no nosso caixa, o que paga a diária de dois frilas. Vocês não fazem idéia da diferença que isso faz.

"Mas o ambulante que fica lá na porta vende o latão por 6 Reais, véi."

A gente compra a long neck por 3,69 cada. Vendendo a 7,50 (média) temos um "lucro" de 3,81. O cara compra o latão por 3,19. Vendendo por 6 ele tem um lucro de 2,81. A diferença é que o dele é lucro, o nosso é "lucro", entre aspas. Ele pega esses 2,81, enfia no bolso e é isso. No máaaximo ele compra um saco de gelo, põe 20 conto de gasolina, e esse é o custo operacional dele. Dos nossos 3,81 a gente tem que pagar aluguel, salários, água, luz, impostos, taxas, encargos, etc. A gente basicamente abre a casa devendo 2 mil reais todo dia. Faz a conta aí pra ver quantas cervejas temos que vender pra chegar no zero a zero. Esse real que você "economiza" comprando do ambulante, e não da casa que está te proporcionando o show que você está assistindo, faz muita falta pra gente.

"É, mas eu sei que nos destilados e na comida a margem de lucro é muito mais alta."

Verdade. A gente até tentou estimular a venda desses produtos criando um cardápio incrível de drinks. É legal, mas sabe o que descobrimos? Nosso público é cervejeiro. Nós somos cervejeiros. Cerveja representa 70% das nossas vendas. O segundo lugar é água (!!!) com quase 15%. Então, mesmo a margem sendo boa, a quantidade de vendas não é suficiente pra que isso tenha um impacto significativo na receita.

Então é isso, galera. Comprar cerveja de ambulante na porta de show independente é paia demais, e 8 Reais numa long neck, se você vai tomar só uma ou duas, é honestão.


MERCADO MUSICAL
(19 de maio de 2016)

Textão chatão sobre mercado musical. Mas pra quem é da área vale a pena :-)

Outro dia eu fiz um post dizendo que o "você vai divulgar seu trabalho" está para o músico assim como o "você vai ganhar no bar" está pra casa de shows. Várias pessoas vieram conversar comigo me questionando sobre isso, e percebi que de fato existe uma visão equivocada sobre a realidade financeira do nosso negócio. Então resolvi escrever um relato mais detalhado sobre alguns pontos.

Existe uma percepção generalizada na classe musical de que o artista é sempre o elo mais fraco da cadeia, e que todo mundo ganha em cima do seu trabalho, explorando sua vontade de produzir. É uma frustração compreensível com o atual estado do cenário musical, decorrente da desvalorização do produto musical, que se seguiu à revolução digital. Napster, fim das gravadoras, blá blá blá. Aquele assunto que todo mundo já cansou de discutir. Sou artista, também estou desse lado, sei muito bem como é.

Hoje, com mais de um ano de experiência de Autêntica, eu posso dizer que tenho uma visão bem mais ampla do que significa investir e trabalhar com música, não apenas com a visão do artista. E com a autoridade dos médicos das piadas afirmo: "Tenho boas e más notícias."

Primeiro as más. Ninguém está te explorando e ganhando dinheiro em cima do seu talento e trabalho por um simples motivo: ninguém está ganhando dinheiro com música! Uma coisa que ouvimos com frequência é que a bilheteria tem que ser toda do artista, já que a casa vai ganhar no bar. Vou compartilhar com vocês alguns dados que detectamos aqui na Autêntica em 2015.

Tem um conceito usado na administração de bares e restaurantes que é o "ticket médio". O ticket médio de um evento nada mais é do que o total arrecadado pelo bar dividido pelo número de pessoas presentes. Ou seja, quanto cada pessoa gastou, em média, na noite. Não inclui a bilheteria.

Pra vocês terem uma idéia, o ticket médio da Autêntica em noites de shows foi de quase R$15,00. Isso é ridiculamente baixo. Quando foi a última vez que você sentou numa mesa de boteco e a conta veio menos de quinze reais? Agora outro dado interessante. Em noites de festas, sem show, com DJ's, o ticket médio foi de R$48,00. (!!!)

Existem alguns fatores que explicam essa diferença tão grande, mas acredito que o principal seja o fato de que a pessoa que vai a uma festa, vai com a intenção de curtir a balada, beber, paquerar, dançar, etc, enquanto a pessoa que vai a um show vai para assistir a um espetáculo. Não é incomum termos um número grande de cartelas em branco em noites de show. Gente que veio e não comprou nem uma coca-cola. Por um lado, isso demonstra um interesse do público desses eventos no que realmente importa, que é o show, mas para a casa o resultado de vendas do bar é desastroso. Mas uma coisa é certa:

O bar vende MUITO mais quando não tem música ao vivo.

Sem contar que para o show nós temos que pagar aluguel de som, de backline, e cachê do técnico de som, custos que não temos quando é festa. E na festa o ingresso é mais caro, ninguém pede meia, e quase não tem cortesias. Basicamente a opção por trabalhar com cultura faz com que a gente se ferre por todos os lados.

É por isso que precisamos do dinheiro da bilheteria. E a idéia da divisão progressiva (quanto maior o público, maior a porcentagem que vai para o artista) foi a forma mais justa que encontramos pra fazer a divisão. Nossos custos são muito altos, e a margem é tão apertada que basta um fim de semana fraco para jogar nosso mês no vermelho. Então, quando fizer um show e receber 30% da bilheteria, não pense "estou sendo explorado, a casa vai ficar com 70%". Pense "puxa, a noite foi meio fraca, consegui salvar uma graninha pra ajudar nos custos, e a casa minimizou o prejuízo e vai poder continuar existindo. E na próxima, quem sabe, a casa enche e eu é que ganho 70%."

A boa notícia é que a gente já vem observando uma sensível melhora, as noites fracas estão cada vez mais raras, e já estamos entendendo bem melhor a dinâmica do negócio. E vamos continuar firmes na proposta da música contemporânea, pois é pra isso que abrimos, é o que amamos, e é o que sabemos fazer. Só que às vezes dá uma certa aflição com a falta de empatia por parte de alguns, que parecem nos ver como "a indústria", como se estivéssemos rachando de ganhar de dinheiro e amarrando migalhas para os artistas. Mas acho que é falta de entendimento mesmo, ninguém é obrigado a conhecer os números de uma casa noturna, é normal tirar conclusões sem ter uma compreensão de todos os fatores. Acredito que com transparência e boa vontade a gente consegue ir aparando essas arestas.

Por favor entendam que não é mimimi, é uma tentativa de abrir um pouco pra vocês a nossa realidade, pra que fique claro que não existe lado de cá e lado de lá, é tudo um lado só. O que a gente quer é ampliar o público interessado em música nova, proporcionar experiências legais para os músicos, e contribuir para o fortalecimento desse mercado. Ou seja: tamo juntos!

1 de maio de 2017

Residência Imersão Latina

Projeto legal (e raro), a Residência Imersão Latina está recebendo inscrições de artistas latino-americanos interessados em passar um período de três semanas de criação artística colaborativa em Belo Horizonte. Serão selecionados quatro artistas da área musical, nascidos ou residentes na Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, México, Panamá, Paraguai, Peru ou Uruguai. Ao longo do processo serão realizadas apresentações em BH e ao final será lançado um disco e um documentário de registro do processo de trabalho coletivo.

Esta é a segunda edição do projeto e as inscrições vão até o dia 14 de maio, online. Os selecionados terão as passagens de avião para BH pagas, hospedagem e alimentação durante o período de realização da residência artística (9 a 29 de julho de 2017).

Fui convidado a criar a identidade visual do projeto este ano e a peça abaixo é a principal de divulgação dessa fase de inscrições.


24 de abril de 2017

Não é que as pessoas não entendem sua música. Talvez elas simplesmente não gostem dela (e isso é ok)

Conversando com um jovem produtor um tempo atrás ele me perguntou o que eu achava de determinado artista. Eu disse que tinha sido um dos piores shows que vi nos últimos anos, um som tão medíocre que tinha seu valor justamente por ser tão ruim - afinal, ao menos provocou alguma reação, considerando que uma das piores respostas à arte pode ser a apatia em relação a ela. "Pois é, não consigo ouvir muito. Acho que não entendi ainda. Mas é legal", ele disse, um pouco envergonhado. Achei a fala estranha na época mas não dei muita importância. No entanto, nos últimos meses tenho reparado o argumento do "você não entendeu" como constante resposta a críticas, principalmente entre o público mais jovem. Isso leva a algo maior.

Apesar de ser reproduzido principalmente pelos millennials, é algo que não se restringe unicamente aos jovens. As redes sociais têm fortalecido as manifestações narcisistas e egocêntricas e as bolhas cognitivas: as pessoas falam sobre si mesmas e para seus semelhantes, discordâncias e diferenças são exceções. Nesse contexto, opiniões dissonantes são alvo de um verdadeiro bullying digital. Ou linchamento virtual, pra ser mais assertivo. E não só referente a questões políticas e sociais, mas também na música.

O que percebo é uma estratégia (talvez até inconsciente, às vezes) por parte de artistas e fãs de calar qualquer opinião divergente através da opressão, da desqualificação do argumento crítico. "Você não entendeu" é a manifestação mais comum e intelectualmente carente. Reflexo de uma geração que não aceita críticas e as leva para o lado pessoal (mais um sinal narcisista).

Nossos gostos são subjetivos e resultado de nossas experiências pessoais. Cada detalhe de nossas vidas influencia nisso: onde nascemos e crescemos, classe econômica, esfera social, aparência, o que lemos, ouvimos e assistimos, o que nossos amigos fazem, o clima na cidade... enfim, a lista é infinita. É reconfortante encontrar pessoas que compartilhem os mesmos interesses e gostos, a mesma (ou semelhante) visão de mundo que temos. Mas é importante ir além e ultrapassar esses limites não só para buscar novos e diferentes conteúdos mas também pra entender melhor o outro. Aquele que é diferente de você.

Nossas experiências também são fundamentais na forma como interpretamos a música (e o mundo em geral) porque a arte é essencialmente incompleta até que alguém a interprete, já dizia Walter Benjamin uns 50 anos atrás. É a partir do que somos/estamos que interpretamos a música, que a sentimos. Por exemplo: é normal que uma pessoa muito jovem goste de artistas limitados musical e conceitualmente, com letras sobre conflitos existenciais da adolescência, por se identificar naquele contexto. Assim como é natural que pessoas com mais referências e experiências sintam-se imersas no loop cultural infinito e possam responder aos mesmos artistas com repulsa. Não há certo ou errado a não ser na abordagem maniqueísta (essa sim, um erro).

São várias as metáforas possíveis e uma delas (apesar de ruim, confesso) é a de que a música gravada seria como uma estrada cujas características são bem definidas e definitivas (afinal estamos falando de algo gravado) mas que se reconstrói em diferentes lugares de acordo com quem a escuta. O caminho é definido, está ali registrado, mas cabe a cada pessoa escolher pra onde olhar ao longo do percurso e aonde chegará depende de ambos, artista e ouvinte. Não é que as pessoas não entendam esse processo. Pode ser que hoje elas simplesmente não se sintam tocadas por determinada obra, aquilo não provoque o sentimento almejado pel@ artista. E, novamente, não há problema nisso. Dá pra dizer, por outro lado, que haveria uma relação com o famoso isentão. Na música, ele não afirma que não gosta. Apenas "não entendeu" ainda. Seria um resultado do patrulhamento da opinião online, 1984 nos blogs de música, olhem que merda. Talvez o único erro (questionável) em questão seja esconder-se atrás do argumento de "não entender" determinado som, de não manifestar uma opinião própria sem medo de ir contra o consenso do seu círculo relacional ou das mídias que te influenciam em busca de identificação social com seus pares em vez de expressar essa maravilha singular que todos temos que é o cu gosto pessoal.


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Pessoas com transtorno de personalidade narcisista são descritas no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders como aquelas que têm grande necessidade de admiração, senso inflado em relação a própria importância e que escolhem as amizades de acordo com seu prestígio e status. Dá pra montar um festival (ruim) só com pessoas com essa descrição, uh?

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Do texto na Carta Capital ("A bolha do Facebook e a astúcia do capitalismo") que linkei anteriormente: "Com os algoritmos, descobrimos que a mercadoria somos nós, nossos pares de olhos (a mais-valia da sociedade da hipervisibilidade), nossos desejos. Os desdobramentos disso já se fazem sentir: homogeneização das identidades, padronização de gostos (com a Netflix nos indicando filmes porque nosso amigo assistiu), empobrecimento da curiosidade cultural..."

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Uma matéria interessante do The Guardian sobre o narcisismo da juventude atual tem relação com o que aponto aqui. Nessa faixa etária (a matéria cita entre 17 e 21 anos) as pessoas seriam mais influenciadas pelas opiniões de seus pares pra criar uma impressão positiva e assim fazerem partes de grupos sociais que substituam a vida com os pais. Daí a ausência de opinião própria em troca de um consenso (no caso, sobre gostos musicais).

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Foda ter que explicar isso, mas deu pra sacar que o "maravilha singular" na última frase era uma piada, né?

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Pra encerrar: as pessoas estão realmente mais egocêntricas e narcisistas (minha opinião) ou temos essa impressão porque mais pessoas publicam conteúdo online agora? A quem interessar, mais uma matéria sobre o tema.