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11 de maio de 2015

Entrevista para a Puc Campinas sobre o mercado musical independente

O Willian Souza é um aluno do curso de jornalismo da Puc Campinas que tem muito bom gosto e é leitor do Meio Desligado, rs. Ele está produzindo uma reportagem multimídia sobre consumo de música na atualidade e pediu que eu contribuísse respondendo algumas questões, que, como de costume, publico abaixo.

  • Como você avalia o atual cenário musical independente brasileiro?
Pergunta difícil. O cenário musical independente é muito amplo, vai dos produtores de música eletrônica ao instrumental experimental. Cada gênero musical apresenta uma realidade de mercado diferente. Muita gente do funk consegue ser bem remunerada com seus trabalhos autorais e tem a música como fonte de renda primária. O mesmo não pode ser dito da cena indie, na qual a música é, na maioria dos casos, uma fonte complementar de renda. Mas, no geral, considero um mercado que estava em expansão na década passada e se estagnou, economicamente falando, recentemente. Parte disso pode ser reflexo da situação econômica do país. Houve um boom na época da Abrafin, Fora do Eixo, TramaVirtual e depois o dinheiro foi diminuindo, ficou mais difícil dos festivais alternativos captarem recursos e com isso diminuiu a circulação dos artistas.


  • Por que acredita que os artistas começaram a disponibilizar suas músicas gratuitamente pela internet?
Porque a produção é enorme e em meio a uma oferta tão grande é preciso facilitar o acesso do público ao que o artista está produzindo.


  • Sente que isso está acontecendo cada vez mais? É uma tendência?
Sim. Muita gente, como eu, praticamente nem faz mais downloads. É tudo via streaming. Isso facilita a circulação da produção mas também aumenta a volatilidade na relação com a música. O lado positivo disso é que se tem acesso a uma variedade maior de produções, mas, por outro lado, a fugacidade às vezes impede que se aprofunde na relação com uma obra. Em uma entrevista de 2013, o produtor Dr. Luke fala sobre isso, como as músicas pop atualmente praticamente não têm introdução. É preciso captar a atenção do ouvinte logo, o vocal entra rápido e logo já vem o refrão, tudo comprimido pra soar grandioso no fone de ouvido, que é o principal instrumento pra audição atualmente.


  • Acredita que é esse o caminho?
Acho que sim, ao menos para o futuro próximo. Isso não inviabiliza a venda do produto físico, ele só precisa apresentar algum diferencial que justifique a compra. A música online gratuita é a porta de entrada para o trabalho de um artista. Mas quando se diz "música online gratuita" ela pode se referir a diferentes formatos: pode ser em um serviço de streaming, um videoclipe, a trilha sonora de um game ou em um aplicativo por exemplo. Ainda tem muita coisa a se explorar.


  • Como avalia a recepção de novos artistas pelas grandes gravadoras? Isso acontece?
No que diz respeito à absorção do que está sendo produzido na cena independente, só conheço as experiências da Deck e da Slap, e acho que ambas tem feito bons trabalhos dentro de suas respectivas propostas. O disco do Cícero é um dos melhores lançamentos do ano, a Pitty está aí quase com 40 anos já e segue com uma carreira coerente. A Deck também lançou recentemente trabalhos do Wado, Matanza, Gang do Eletro… é uma gravadora pequena mas conectada com a cena. A Slap não é uma gravadora, é um selo da Som Livre, mas é um indicativo de que até uma gravadora que possui todas as facilidades que a Som Livre tem sentiu necessidade de se aproximar da chamada cena independente. Daí a presença de Dom La Nena, Silva, Mombojó e Móveis Coloniais entre os artistas contratados por eles.


  • Sobre a divulgação, o que pensa da internet para esse propósito?
É essencial. Ponto.


  • Acredita que o Brasil se difere dos outros países no que tange ao cenário musical independente?
Acho que cada país tem seus singularidades que variam de acordo com sua cultura e situação econômica. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, os mercados são bem diferentes, mais evoluídos e maiores, mas digo isso como observador e leitor, não tenho uma experiência aprofundada nesses países. Posso dizer que em Portugal, por exemplo, a situação não é tão diferente da que temos aqui. Muitos portugueses acham que vivemos uma situação melhor do que a deles, inclusive, com um apoio muito maior do governo, inclusive. E no que diz respeito ao consumo de música independente, é a mesma coisa: os países seguem para um mesmo caminho, mas cada um com suas singularidades. Passei um tempo no Japão e fiquei surpreso ao descobrir que o Spotify não funciona por lá até hoje, acredita? Os japoneses ainda compram muitos CDs e por preços altíssimos, numa média de U$ 25. A Tower Records é uma loja de discos que possui um prédio de cinco andares em Tóquio, imagine isso. Não dá pra dizer que determinada mídia morreu assim tão facilmente, esses contextos locais precisam ser levados em consideração e essa diferença que cada mercado apresenta torna tudo mais interessante (e/ou difícil, dependendo do ponto de vista).


  • O que pensa do futuro da música independente?
Penso que esse termo "música independente" é horrível, rs. Passa a impressão de algo que funcionaria de forma isolada, auto-suficiente, o que é o oposto da realidade. O que eu acho de toda essa música feita fora de grandes gravadoras é que ela é, há muito tempo, a maior parte da música feita no mundo (e provavelmente sempre tenha sido). Só que apenas nas últimas décadas esses artistas têm alcançado mais repercussão, seja localmente (principalmente) ou em escala maior.

E, pra fechar, só queria dizer que isso tudo é só a minha opinião, baseada na minha experiência como jornalista, produtor e consumidor.

29 de abril de 2015

Melhores lançamentos portugueses de 2014

Nossos parceiros do blog português BancCom fizeram uma lista com 25 álbuns e 10 EPs que se destacaram entre os lançamentos portugueses de 2014. Ótima lista pra conhecer novos artistas lusófonos.


TOP 25 LP's NACIONAIS DE 2014:
25. A Mountain & a Tree, por Imploding Stars, Cosmic Burger Records


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"A Mountain & a Tree" dos Imploding Stars é o resultado do amadurecimento do primeiro fruto colhido em 2012, o EP "Young Route". Uma epopeia sombria e sem perspetivas para o futuro do homem na terra, recheada de estrelas cintilantes e positivas a pensar no renascimento, pós-fim do mundo. E no meio deste conflito entre extremo opostos surgem riffs por vezes agressivos, por vezes apaziguadores, a melodia, a harmonia, o caos, a guerra. Augura-se para os bracarenses um amanhã mais próximo do destino da natureza do que do futuro do homem nesta terra.


Mickaël C. de Oliveira
24. Keep Razors Sharp, por Keep Razors Sharp, NOS Discos


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Os sinais de um rock psicadélico, dono e senhor do poder do oculto, sedutor, a conter-se para não efervescer rapidamente e pronto para se tornar igualmente visual já vinham de 2013 e osKeep Razors Sharp não se ficaram por intenções.
A estreia faz-se em formato longa-duração e longo alcance, numa conjugação cheia, feita de realces com o universo indie mas também da música de autor solitário e até do shoegaze. De um super-grupo arduamente entrosado sai um dos poucos super-álbuns rock do ano. Robustez de longa data, afiança-se: elasticidade superior à do puro rock n’ roll, certifica-se.


André Gomes de Abreu
23. Black Bombaim & La La Ressonance, por Black Bombaim & La La Ressonance, PAD/Lovers & Lollypops


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Barcelos, essa cidade tantas vezes referida quando se fala de música nacional, é berço das duas bandas que se juntaram para gravar o disco homónimo. Daí até à mistura entre os ritmos psicadélicos dos Black Bombaim com o post-jazz assumido pelos La La Ressonance é um instante. O conceito do disco faz-se valer pelo modo como as músicas evoluem lentamente ao invés de explodirem, assumindo-se que o próprio ouvinte consiga compreender a viagem dos próprios músicos pela sua genuína criatividade.


João Gil
22. Hexágono Amoroso, por Miguel Torga, Elements Records


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Curto e directo, “Hexágono Amoroso” é o grande estoiro, quase buraco negro, a grande história do house e do techno nacional que amanhecem em matéria de LP's de 2014. Não é demasiado centrado em si próprio, não é demasiado selectivo, não apela à dança descoordenada, não é ridículo mas é inteligentemente absurdo, às vezes vocalizado e até faz sorrir. Há, objectivamente, Manoel de Oliveira e Mário Viegas e mesmo elementos campestres que não contaminam o que é para meditar e calar como numa reprimenda austera ou numa selecta de Carl Craig e Herbert.
Todavia, como bom aluno que é, Miguel Torga deixa os EPs de lado e reinstaura na estreia em disco cada elemento, substituindo-os e reconstruindo-os se necessário, à sua medida, à medida do seu próprio ambiente. Sensacional. 


André Gomes de Abreu
21. Forgetting is a Liability, por Mr. Herbert Quain, Zigur Artists


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Com a forte sensação de que os artistas que todos estamos a ajudar a construir têm a sua noção de carreira e identidade, “Forgetting Is A Liability” não pode ser visto ao desbarato como uma prova de confiança.
A produção apuradíssima, perdida entre o uso magistral do sampling, da batida e das películas de graves, sublima cada tom físico, baladeiro, de descoberta, de esvaziamento da mente pelo entorpecer do tempo numa travessia da aridez electrónica altamente enriquecida e alimentada num passo à frente em música para pessoalizar, num perfeito contraste com o vasto legado que se pretende descobrir e alcançar, recuando ou avançando cronologicamente. 
Pensando melhor, esta é mesmo uma prova de desconfiança em relação à capacidade de Nicolas Jaar e compinchas de fazerem, regularmente, muito melhor que Mr. Herbert Quain, Manuel Bogalheiro. Faremos de conta que nos esquecemos.


André Gomes de Abreu
20. Pesar o Sol, por Capitão Fausto, Sony Music Portugal


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"Pesar o Sol" é o segundo álbum dos Capitão Fausto. A banda de Lisboa continua a cativar os seus fãs através de um rock fresco e jovem que ao mesmo tempo recebe influências de outros tempos de sonoridades progressivas. As letras são como manda a música, de referências fáceis de compreender, muitas vezes cruzadas com realidades portuguesas. Álbum de Verão? Talvez, mas também de 2014.


João Gil
19. Until The Cosmos Takes Me Back, por We All Die! What A Circus!, Ed. Autor


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"Until The Cosmos Takes Me Back" revela um post-rock demorado e paciente, à espera do momento certo para explodir. A guitarra torna-se a peça-chave e preenche todos os espaços com melodias que têm tanto de misteriosas como de melancólicas, com o bónus de faixas como "From India To Gaza" (I e II) onde influências orientais se fazem sentir. We All Die! What A Circus! é a própria ode ao universo morto que João Guimarães construiu e a prova disso está nas 13 viagens a esse cosmos tão calmo e tão inquieto ao mesmo tempo.


João Gil
18. Scattered Into Light, por Sun Glitters, Mush Records


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No Luxemburgo vive o segredo mais bem guardado do mundo luso-descendente. Victor Ferreiraaka Sun Glitters é um dos artistas mais aclamados do seu paίs, pela capacidade que tem em elevar o seu auditor para outros palcos, para outras dimensões. Mais apoiado por vozes femininas, com uma componente visual que o segue por quase todos os palcos, Victor Ferreira tem dado a volta ao Mundo e transmitido essa viagem através das suas músicas. Nas suas músicas, são-nos tanto sugeridos espaços calorosos como espaços frios e até mesmo mais sombrios. Um registo que os portugueses devem (re)descobrir!


Mickaël C. de Oliveira
17. Far Out, por Black Bombaim, Lovers & Lollypops / Cardinal Fuzz


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Duas músicas, cerca de 34 minutos, e uma viagem até às Áfricas e às Árabias. Um programa no minίmo curioso para um disco de post-rock. E se a essas lantejoulas adicionarmos outras como a presença de Rodrigo Amado e The Astroboy, fica-se ainda mais com a ideia daquilo que este disco pretende provocar no auditor, e até onde o quer levar. Longe, bem longe, lá em cima, durante os 34 minutos, e mais outros 34 para descer. 


Mickaël C. de Oliveira
16. Diffraction/Refraction, por You Can't Win, Charlie Brown, Pataca Discos


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Apesar da torrente de discos e canções ao longo do ano, nunca devemos menosprezar o poder das primeiras impressões. Foi assim que o segundo álbum dos You Can’t Win, Charlie Browneclodiu neste ano, como um objecto de novidade, reverencial e desafiador sem o chão de singles inquestionavelmente portentosos. Contudo, é pegando pelos exemplos de “Shout”, “Fall For You” e “Be My World” que continuamos a ser conquistados pelo quanto este conjunto de canções tão arquitectado é bem sucedido em emocionar e escavar tão profundamente e deixar o fogo de artifício instrumental ecoar grandioso em tom quase naïve.
A força da evolução dita que ”Chromatic” foi a exploração, “Diffraction/Refraction” é a maravilha, o imprevisível de criar beleza e vida selvagem que os faz honorários membros da família Pataca.


André Gomes de Abreu
15.Sereia Louca, por Capicua, NorteSul/Valentim de Carvalho


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Há uma senhora que se ergue entre os seus pares. Desde o homónimo disco de estreia, peça-chave do hip-hop nacional dos anos mais recentes, Capicua cresceu e conheceu mais sobre o que queria fazer dentro da comunidade do hip-hop português aprendendo com as oportunidades, criando outras. É por isso que o registo sucedâneo é só feito de singlesimediatos, odes à figura feminina, exaltações do cidadão comum que de destreza na métrica e força na lírica nada sabe, temas soberbamente compostos para todos cantarem e algumas reinterpretações que fecham, infelizmente, o espaço a outros originais.
Mas 2014 é o ano da rainha. Ou da sereia, saudavelmente louca. 


André Gomes de Abreu
14. 1975, por XINOBI, Universal Music Portugal


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Por vezes diz-se que mais vale não editar um álbum se ele não refletir a qualidade do seu autor. Há quem diga que um mau álbum poderia ganhar em qualidade se o tempo que passa não fosse intrinsecamente ligado à perda de dinheiro.
Mas há sobretudo quem tenha a coragem e a honra, ainda hoje, de esperar anos e anos antes de editar o seu primeiro longa-duração. Um retrato fidedigno, digno, polido e limado como os discos produzidos pela D.I.S.C.O Texas sabem tão bem fazer. O álbum ideal, cinematográfico, e iniciático para os fãs e os menos fãs da música eletrónica portuguesa, tanto virada para a pista atual como para a pista de há vinte ou trinta anos, tanto feita para descontrair sonhando como para dançar esquecendo.



Mickaël C. de Oliveira
13. Fornalha, por Norberto Lobo, three:four records


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Norberto Lobo continua a dar provas de ser um artista nacional de excelência. Se o ano de 2013 colocou "Mogul de Jade" nos 25 escolhidos do Bandcom, "Fornalha" confirma o estatuto de guitarrista de eleição. Este último trabalho trouxe consigo algumas sonoridades diferentes, com um maior nível de experimentalismo exótico aos ouvidos mais desabituados (caso da faixa homónima e de "Maryam"), misturadas com baladas a que o artista já nos habituou (exemplo de "Pen Ward"). Ainda melhor que escutar o disco, é poder assistir a um concerto para poder contemplar o sorriso de Norberto após cada aplauso do público. Assim dá gosto fazer e ouvir música.


João Gil
12. The White Haus Album, por White Haus, NorteSul/Valentim de Carvalho


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João Vieira continua a surpreender com o seu projeto White Haus. Depois de um EP lançado no ano passado, este ano "The White Haus Album" surge com a sua música que pode dançada, mas nunca se fica por aí: é importante compreender a componente de todas as referências pelas quais o próprio artista vai guiando o seu rumo na escolha de samples, sendo o resultado esta electrónica ambiental e descomprometida.


João Gil
11. Clarão, por PAUS, Universal Music Portugal


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A expectativa era grande depois de um primeiro longa-duração áureo. Se "Clarão" nem sempre recebeu crίticas lisonjeadoras, para mim conforta o poderio de uma das bandas mais impressionantes que Portugal viu nascer. Como tinha sido para o primeiro álbum, "Clarão" ganhará seguramente uma potência indescritível ao vivo que quase nenhuma banda portuguesa pode igualar. E lá estaremos para depois, de regresso a casa, voltar a descobrir aquilo que não tίnhamos vislumbrado neste belo clarão.


Mickaël C. de Oliveira
10. A Bunch Of Meninos, por Dead Combo, Universal Music Portugal/Rastilho Records


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Monstros da música portuguesa, da guitarra e do ambiente western também ele bastante cinematográfico, os Dead Combo convenceram mais uma vez todos os crίticos nacionais e internacionais. Mais uma vez, uma demonstração da mestria de Tó Trips e Pedro Gonçalves, os dois músicos que nasceram num paίs claramente demasiado pequeno para o seu talento.


Mickaël C. de Oliveira
09. Pelo Meu Relógio São Horas de Matar, por Mão Morta, NorteSul/Valentim de Carvalho


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São 30 anos de carreira tão à beira e quase tão à margem de Portugal, o mesmo país que se fica, em 2014, pela estupefacção estupidificante concentrada num videoclip de um cartão de visita. É verdade que os Mão Morta sempre quiseram e souberam que tinham meios de chamar a atenção de uns e despertar a paixão noutros para a realidade. 
O preceito musical continua o mesmo mas supera-se e actualiza-se de maneira tão cirúrgica e colada à pele como o conceito subjacente. Ultrapassados todos os limites do comezinho, toda a consciencialização própria é legítima deidificação.
A proibição eterna, essa, pode ser o maior crime de todos.
Todas as cartas de amor são olhos e ouvidos na primavera de destroços seguinte. 
Tic-tactic-tac


André Gomes de Abreu
08. Safari Entrepeneur, por M.A.U., Ed. Autor


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"Safari Entrepreneur" é outra das obras de arte que a música eletrónica portuguesa nos ofereceu este ano. Entre a dream/pop de uns M83 e a chillwave, entre os synths 80's e os coros dark, os M.A.U. fazem uma sίntese gloriosa e justa dos nossos tempos, um registo vincado no presente pela sua ligação com o passado e a influência que terá na próxima geração de músicos portugueses do mundo electro.


Mickaël C. de Oliveira
07. True, por The Legendary Tigerman,Metropolitana / Sony Music Portugal


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A execução de The Legendary Tiger Man tem deixado cada vez mais de ser exclusiva de Paulo Furtado sem que por isso caiba no domínio dos Wraygunn. Em “True”, a complexidade e a densidade são tentações novamente exploradas de outras formas sem descurar a crueza, a simplicidade, essa noção de “verdade” que questionamos noutras propostas do género, por excesso ou por defeito. Mas, de forma decisiva, continuam a nascer aqui belíssimas canções arrancadas da medula de um verdadeiro embaixador daquilo que não podemos perder por nada quando queremos ouvir um disco de autor que parece que pode ser sempre apenas o primeiro de uma bonita carreira. Nem tudo se ensina, e o tempo aqui gasto sabe disso.


André Gomes de Abreu
06. Quidam, por Catacombe, Raging Planet


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Passados quatro anos desde o seu último trabalho, os Catacombe regressaram com "Quidam", um álbum que não deixa fugir a veia progressiva inerente às sonoridades da própria banda, porém mais introspectivo que o anterior "Kinetic". O som, gravado num registo limpo que não deixa nenhum instrumento fugir para segundo plano, continua rico nos crescendos e variações enraizados no próprio género. Engane-se quem assuma tal como a repetição constante, pois estes rapazes de Vale de Cambra vão mostrando como é possível continuar a trazer inovação a um post-rock tão clássico.


João Gil
05. B Fachada, por B Fachada, Ed. Autor


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Este foi também o ano em que Bernardo voltou. Deixando de lado a tendência de "Fim", o cantautor voltou a trazer à ribalta as tendências eletrónicas que vinha produzindo desde "Criôlo", porém com letras substancialmente mais focadas numa crítica social ao seu próprio país. "Camuflado" é um dos exemplos mais claros, assim como "Dá Mais Música À Bófia", que parece remeter o ouvinte para a tão célebre e polémica manifestação que colocou polícias frente-a-frente com polícias. (B) Fachada parece estar, efetivamente, pronto para fixar o seu nome no panorama da música de intervenção em Portugal.


João Gil
04. How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge, por Bruno Pernadas, Pataca Discos


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"How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge" é, mais do que uma das principais revelações de 2014, a afirmação da criatividade do seu autor, Bruno Pernadas, capaz de fundir tantos estilos quantos pode: desde a pop até ao jazz, desde o afro-beat até ao lounge, é a componente electrónica que vai orquestrando esta aventura iniciada por esse grito que é "Ahhhhh". E é por isto tudo que vale a pena citar André Gomes de Abreu: "Extravagância? Exagero. Vivência? Tampouco. Nunca o encanto foi mais exigente ou ambicioso do que a perfeição que no paraíso a andar à roda de Bruno Pernadas."


João Gil
03. II, por Gala Drop, Golf Channel Recordings


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"Broda", editado em 2012, já nos tinha deixado boas impressões. Como nós, a imprensa nacional e internacional ansiava pelo regresso dos portugueses. Sobriamente intitulado "II", este registo é uma pequena amostra do leque infinito de sonoridades dos Gala Drop. Há jazzrockfunk,reggae, psicadelismo…e mais outros tantos géneros musicais que se fossem aqui todos citados não caberiam numa única página. Mas "II" é, acima de tudo, uma demonstração de que existe um selo Gala Drop, uma marca reconhecίvel entre todas, mesmo que seja o resultado de uma miscelânea de elementos provenientes dos quatro cantos do planeta, dos quatro cantos da música. 


Mickaël C. de Oliveira
02. Dois, por Batida, Soundway Records


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O segundo disco de Pedro Coquenão, “Dois”, é feito da exploração ao máximo das potencialidades do caldeirão sincopado da música africana que é redescoberta por todo o Mundo, inclusive pelos portugueses. Seria aparentemente fácil, por isso, que um novo registo fosse impulsionado por desejo de novas conquistas, mas Batida continua a ser fazer da tradição moda sem os escrúpulos do presente, numa inesgotável fonte de bleeps melódicos, beats gordos e um groove arrancado às mesmas raízes que deslumbraram todos os antepassados.


André Gomes de Abreu
01. 8, por Sensible Soccers, PAD/Groovement


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8 é daqueles álbums atmosféricos que nos transportam para horizontes sombrios e ao mesmo tempo dançáveis. Sombrios sem nunca serem angustiantes, dançantes sem nunca caίrem no estereótipo. Mas belos, como uma viagem feita de psicadelismos, exorcismos e danças entresynths e guitarras elétricas, lá em cima – mais uma vez.


Mickaël C. de Oliveira



TOP 10 EP's NACIONAIS DE 2014:

10. Boundaries, por Holy Nothing, Turbina
Embora seguindo e seguidos por alguns trabalhos dentro do género – até é Rui Maia aka Mirror People quem mexe alguns cordelinhos na produção -, dentro e fora de portas, os Holy Nothingapresentaram este ano “Boundaries”, um conjunto de 4 faixas em que ora mais exploratória e intelectualizada, ora mais impulsiva e orgânica, a vertente mais pop da electrónica é dominante mas não oscila na hora de se tornar mais incomum, mais dubstep, mais glitchy e tentar desprender-se por completo de catalogação imediata mesmo no que à restrição de influência geográfica diz respeito. Na busca pela intemporalidade, a busca pela coesão é aqui, para já, um interessante checkpoint.


André Gomes de Abreu
09. Grey Veils, por Chainless, Cohort Recordings


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Ninguém sabe ao certo quem é Chainless, criador do grandiloquente "Grey Veils". Conhecem-se algumas das suas afinidades, mas sobretudo a sua tendência em explorar um certo tipo de sonoridades. Sente-se hip-hop, sente-se um vento negro, sentem-se vozes angustiantes, sentem-se synths e batidas envolventes. Há todo um imaginário místico que se cria em nós ao ouvir este conjunto, qualquer coisa como uma oração fúnebre em pleno Lux. "Grey Veils", daqueles apelos às trevas aos quais é impossível resistir.


Mickaël C. de Oliveira
08. October Stash, por Holly, Rockit


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A multiplicidade e a constância de colaborações com protagonistas internacionais e nacionais transmite uma quantidade deslumbrante de texturas ao EP que Miguel Tomás Oliveira, o novo menino da Rockit e agora da ASTROrecords , lançou perto do Halloween. Funkelectro-pop,dubstepchillwave e R&B somam-se à necessária reinvenção prática do fato de gala e das tarefas domésticas do beat e fazem deste um dos EPs mais interessantes de 2014 à procura de um hip-hop contemporâneo e de encontrar o irmão, DJ Ride, no trono destinado aos filhos de uma cidade que está finalmente em condições de marcar 2015 e os próximos anos: Caldas da Rainha.



André Gomes de Abreu
07. Lucky Punch, por DJ Marfox, Lit City Trax


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DJ Marfox é um dos artistas portugueses mais conhecidos atualmente fora do paίs. Porém, em terras lusas, o sucesso tardou a chegar, o que conforta a opinião dos muitos que afirmam que é preciso haver um reconhecimento fora de fronteiras para alcançá-lo dentro do próprio paίs. Um dos porta-estandartes da editora Prίncipe Discos, que tem influenciado e elevado toda uma cena desconhecida das periferias de Lisboa, DJ Marfox continua a ser o patrão de uma das batidas mais violentas, enérgicas e dançáveis do paίs. "Lucky Punch" é mais um exemplo desse poder, desse leque de rίtmos entre kudurotarraxinhatechno e house cuspidos cruamente.


Mickaël C. de Oliveira
06. Theories Of Anxiety, por IVVVO, Danse Noir Records


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2014 não podia acabar sem mais um registo do produtor IVVVO. “Theories of Anxiety” é daqueles tίtulos de registo que mais tem a ver com aquilo que nos oferece. Um technocontemplativo, enevoado, negro, controlado pelo autor. Dançável nalguns momentos, paralisador noutros, Ivo Pacheco brinca com a nossa ansiedade, cujas origens parece conhecer e dominar. Uma ansiedade próxima talvez da que tem em editar EP's e álbuns de alta qualidade de uma maneira tão prolίfica. 


Mickaël C. de Oliveira
05. Outerspace, por Solar Corona, Ed. Autor


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A cosmicidade de "Outerspace" é a arma forte dos Solar Corona. A banda de Barcelos apresenta 5 temas onde a técnica e a composição se destacam num space-rock tendencialmente progressivo. Alguns momentos mais pesados dão até lugar a algo que se aproxima do post-metal, porém, sempre numa homogeneidade que caracteriza o próprio EP. 


João Gil
04. Puzzle, por W.I.N.D., Ed. Autor


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Daniel Gonçalves, ou W.I.N.D., lançou este ano o EP "Puzzle". O seu carácter instrumentalista muito voltado para o hip-hop acarreta uma lufada de ar fresco nos trabalhos apresentados em Portugal extra Monster Jinx, assumindo um papel muito importante na própria produção ao nível da Zona Centro. É então entre sete faixas que W.I.N.D. vai experimentando o seu próprio som, montando-o em peças de samples e loops onde cabem algumas ilustres referências, como é caso de um poema perdido de Rod McKuen. Aguardam-se futuros trabalhos promissores.


João Gil
03. Badlav, por JIBÓIA, Lovers & Lollypops


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Que mais há a acrescentar sobre a música hipnotizante de JIBÓIA? "Badlav" confirma aquilo que o músico melhor sabe fazer e que já tinha mostrado no ano passado - de facto, a construção deloops exóticos a remeterem para um ambiente psicadélico são a base perfeita para a voz de Ana Miró, que dá o pontapé final na viagem até ao Médio Oriente. E se no EP homónimo as faixas pareciam, a certa altura, tornar-se todas iguais, neste último trabalho Óscar Silva parece ter ultrapassado essa problemática. Será certamente um dos trunfos em que a Lovers & Lollypops poderá continuar a confiar.


João Gil
02. Odyssey Of The Mind, por Bison & Squareffekt,Generation Bass


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Melancolia e tristeza não são as palavras que nos vêm logo à cabeça quando queremos falar dekizomba e tarraxinha. Se a sensualidade entranhada nesses géneros musicais permanece, há algo de incrivelmente pujante nos temas electro de Bison & Squareffekt. A beleza da mescla das palavras melancolia, tristeza e sensualidade poderia mesmo ser a melhor definição para este EP. Ritmos minuciosos que flutuam e que confirmam o estudo que diz que a música triste, associada a um tempo lento, torna-nos felizes.


Mickaël C. de Oliveira


01. Quim, por Gonçalo, Lovers & Lollypops


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Aparte os Long Way To Alaska, com quem gravara “Life Aquatic”, mas pouco divergindo da sua sonoridade, o “Quim” de Gonçalo Alvarez foi, talvez, o primeiro lançamento de 2014 em que depositámos uma espécie de rara fé de haver salas enormes cheias de pessoas à volta de acordes tão sensíveis.
Canções felinas docemente irresistíveis com uma infância feliz em fundo, dedilhadas, acamadas e articuladas nos tempos de uma valsa campesina que em “Crianças” é, pratos limpos, comovente e que só pode dar num próximo longa-duração. 
Tal como em cima os Sensible Soccers são o mais perto de um consenso, não é de espantar que, encantados com a nossa própria imaginação da perfeição jingle-jangle ruralizada pelo básico dopost-rock de contar histórias sem ter que falar, comecemos e terminemos 2014 com estes dois lançamentos. 
Parece que ainda foi ontem que tudo (re)começou.


André Gomes de Abreu